O velho e o novo


Visitar um templo da velocidade é um privilégio que deve ser saboreado segundo a segundo entre aqueles quem amam o esporte a motor. Vivemos a era dos autódromos moderníssimos do Sr. Tilke, cheios de curvas programadas por computador, áreas de escape nababescas, com instalações de primeira. Pistas que, na maior parte das vezes, resultam em provas monótonas ou artificiais. Deve-se dizer, é verdade, que os referidos templos também são palco de algumas corridas chatinhas, ocasionalmente. Mas com uma diferença: nestes casos, a alma do lugar transparece a todo instante, como se aquele ponto do planeta tivesse vida própria.
Mas o incrível é que eles têm, mesmo. Caminhar sobre o cimento do antigo oval de Monza, por exemplo, é mais que viajar no tempo. É sentir a atmosfera do lugar, regida pelo vento que se esquiva naquelas árvores quase centenárias. É imaginar aqueles carros de motor dianteiro rasgando o sossego do bosque que atualmente recebe gente de todo tipo, entre as folhas que caem graciosamente neste começo de outono europeu. Gente que relaxa andando de bicicleta, fazendo cooper, ou passeando de mãos dadas com uma pessoa querida. Isso tudo perto, muito perto de onde os carros de hoje em dia passam a mais de 300 por hora.

Num primeiro momento, a sinergia entre os dois mundos chega a ser inacreditável. O berro vibrante de cada motor, por incrível que pareça, combina perfeitamente com aquela tranqüilidade toda do traçado antigo, que foi usado em alguns Grandes Prêmios da Itália, ainda nos anos cinqüenta. É como se aquele espaço que descansa serenamente, rodeado de vegetação, se permitisse uma deliciosa soneca. Simplesmente porque continua consciente de que faz parte de um grande organismo, pulsando repleto de eletricidade e magia.
A inclinação da curva, com seus absurdos 45 graus, não permite que o visitante chegue ao topo sem um esforço enorme - o que, ainda assim, não é garantia de que vá conseguir manter-se por lá sem escorregar feito um carrinho de rolimã que desce uma ladeira. Porém, naqueles poucos instantes de triunfo sobre a lei da gravidade, o incauto amante da velocidade poderá espiar o asfalto, as zebras, guard-rails e afins, todos impecáveis, do circuito usado pela F-1 ano após ano. Um lugar sempre renovado e modernizado, mas que se sabe sagrado, e por isso preserva com devoção e respeito o oceano de história que deu origem àquilo tudo.

Bom seria se os dirigentes e governantes brasileiros seguissem este exemplo, antes de mutilar o antigo Interlagos e o eterno Jacarepaguá, duas pistas que contam – ou contaram – grande parte da história do nosso automobilismo. Mas que, infelizmente, não resistiram a fatores como especulação imobiliária, pressão política, entre outros. Pensando bem, pedir que gente deste naipe alcance a sensibilidade que nos faz ouvir música onde a maioria só escuta barulho, já é querer demais.
Em tempo: Monza recebe, neste domingo, mais uma rodada dupla do Mundial de Turismo. Assim como todos os outros, as feras do WTCC também não correm na pista oval. Mas, de qualquer forma, isso não tira o brilho do espetáculo. Fique ligado na tela do SporTV e boas corridas!
O jornalista Alexander Grünwald é produtor do programa Grid Motor, do SPORTV, e dono do Grün Blog. Ele escreve neste espaço todas as sextas-feiras. Por problemas técnicos, a coluna ficou fora do ar no sábado e no domingo. Pedimos desculpas aos leitores.
Crédito das fotos: Alexander Grünwald
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