Mentalidade preocupante

Sei que torcedor é passional. Mas algumas reações do público em Interlagos me deixaram preocupado. Não, não estou falando de supostos casos de racismo contra Lewis Hamilton, porque não aconteceram. As vaias eram normais porque o inglês disputava o título mundial contra um brasileiro. O que realmente me deixou com um pé atrás foi ver faixas com as inscrições “Bate nele, Rubinho” espalhadas por Interlagos. Ainda mais quando são fruto de uma pseudo-campanha lançada na internet por algum desocupado.
Rubens Barrichello é o recordista de GPs na Fórmula 1 e tem dois vice-campeonatos mundiais no currículo. Agora, eu pergunto: para que ele iria se prestar a um papel ridículo desses? E, pior, ele teve de responder a inúmeras perguntas sobre o assunto, feitas por jornalistas, durante todo o fim de semana. Eu, Rafael Lopes, tenho a consciência limpa. Sequer abordei o assunto nas minhas conversas com ele. Lamentável foi ter de explicar a membros da imprensa internacional o que significavam aquelas faixas. O pior é que os ingleses não entenderam (ou não quiseram) a brincadeira e levaram a piada a sério. Esta campanha ridícula é algo que o torcedor brasileiro tem de se envergonhar.

E não foi só isso. Timo Glock teve a chance de complicar a vida de Lewis Hamilton. Logo o alemão, que, de forma desleal, foi jogado para fora da pista pelo inglês no GP da Itália, em Monza. Com os pneus para seco muito desgastados, o piloto da Toyota poderia fazer o mesmo com o rival da McLaren na última curva da corrida em Interlagos, em manobra que teria conseqüências infinitamente piores. Mas ele preferiu ser grande e não se vingou. Ponto para ele, que teve de se explicar muito após a corrida, como se tivesse feito algo errado. Glock foi acusado até de ter recebido dinheiro da McLaren pelos torcedores brasileiros, que tentavam achar culpados pela “derrota” em casa. Chega de teorias da conspiração: Felipe Massa perdeu matematicamente o Mundial, mas terminou o ano muito mais valorizado do que começou. E é isso que a imprensa e a torcida deveriam enxergar. Só isso.
Nós sempre criticamos os finais de campeonato decididos por acidentes. Os mais recentes foram em 1989 e 1990 (Senna x Prost); 1994 e 1997 (Schumacher x Hill e Villeneuve, respectivamente). Se qualquer piloto tivesse jogado o carro contra Lewis Hamilton, estariamos lembrando de mais um ano manchado na Fórmula 1, em vez do êxtase do melhor fim de temporada da história do automobilismo. Ainda bem que ninguém tentou fazer manobras ilícitas no fim do GP do Brasil, seja contra o inglês ou contra Felipe Massa. Esta é mais uma página genial para colocar no livro dos 59 anos da categoria.
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