Aventuras em quatro rodas

Crédito das fotos: Bruno Terena e Rafael Gagliano
Dizem que todo jornalista de automobilismo é uma espécie de piloto frustrado. Esta afirmação está certa apenas em parte. Afinal, alguns deles (como eu) gostam de bater sua “peladinha” no fim de semana. Só que, em vez de pegar uma bola e entrar no campo de futebol society, nos aventuramos nas pistas de kart indoor do Rio, de São Paulo, de todo o Brasil. A brincadeira se tornou tão séria que já existe a FIAk em São Paulo. FIAk? É, Federação Internacional dos Andadores de kart, presidida pelo meu amigo Rodrigo França.
No domingo passado, o Kartódromo Granja Viana, administrado por Felipe Giaffone, abriu uma oportunidade para os “aventureiros”. Organizou as 500 Milhas de kart amador, evento que dava vaga para uma das equipes na famosa e já tradicional 500 Milhas da Granja Viana, que será realizada no primeiro fim de semana de dezembro. E o meu amigo Alexander Grünwald, que trabalha no canal SporTV e dono da coluna Sexta Marcha aqui no Voando Baixo (que volta na semana que vem – promessa dele!), participou da brincadeira, junto com um time de jornalistas. Confira abaixo o relato dele:

Escrevo exausto. Exausto, não. Acabado, quebrado, com dores por todas as partes do corpo. No entanto, muito feliz pelo que vivi e realizei no último domingo. Uma experiência que não vou esquecer tão cedo, por diversos motivos, e que certamente valeu para outras que ainda virão.
Eu ia dizer que competir na primeira edição das 500 Milhas de Kart Amador da Granja Viana foi muito legal. Mas ‘competir’ não é o verbo mais adequado. O evento reuniu tantos profissionais e semi-profissionais do esporte que, de certa forma, esta situação nos fez encarar a prova, antes mesmo da largada, como um dia de diversão e aprendizado. Minha equipe era formada por profissionais de imprensa que cobrem automobilismo. Todos, sem exceção, pilotos amadores. Gente que baseia sua experiência em teco-tecos de indoor uma vez por mês, e não em karts de competição com chassis e motores preparados que disputam campeonatos regionais ou nacionais a cada fim de semana.
Como não havia chance alguma de vencermos os times que contavam com pilotos experientes, corremos sem grandes pretensões em termos de resultado. Ao longo das 12h de prova, a ideia era respeitar o limite de cada um de nós, dividindo os turnos com certo critério para que chegássemos inteiros (ou quase) à bandeirada. Uma opção saudável para um domingo de sol e céu azul, que mais tarde se converteu numa bela noite de lua cheia.
Num grid de 43 karts – exatamente aqueles que você pode alugar para se divertir com os amigos a qualquer hora – largamos no 36º lugar. Um verdadeiro milagre alcançado pelo fotógrafo Bruno Terena durante a volta de classificação, diante do equipamento ruim que ele tinha em mãos. Depois de largar e fazer o primeiro turno, Terena passou o bastão para o jornalista Rodrigo França, na nossa primeira troca de kart/piloto do dia. Uma operação simples, mas que, diante da pressão, precisava ser feita com atenção.
A coisa funcionava assim: quem chegava ao box parava o kart numa área determinada pela direção de prova. Imediatamente a equipe arrancava a placa de identificação e a tornozeleira que prendia o sensor à perna do piloto, para apresentar aos comissários, posicionados alguns metros adiante. Só então era sorteado um número de um a dez, correspondente à vaga onde estava estacionado o kart que o próximo piloto deveria guiar. Aí era colocar a placa neste kart e prender a tornozeleira, enquanto o piloto se encaixava no banco. Dali em diante, fé em Deus e pé na tábua.
Fui o terceiro a ir para a pista, às duas e quinze da tarde do horário de verão. Nem preciso dizer o quanto estava calor, mas isso acabou se transformando num detalhe assim que deixei a área de box. De cara, percebi que quando você é jogado aos leões com outros 42 caras adrenados e guiando feito selvagens, é preciso encontrar bem depressa aquele meio termo para andar: nem tão devagar a ponto de ser atropelado pelos demais, e nem tão rápido a ponto de pagar o alto preço dos pneus frios. Eles realmente não perdoam abusos de quem quer frear tarde ou contornar uma curva de pé embaixo. Por outro lado, são previsíveis: quando esquentam, te dão liberdade para avançar gradualmente. Simples assim.
Só que, sem ritmo de corrida, eu demorei a entender esta equação. Para completar, descobri que o kart não tinha freios logo na primeira vez que precisei deles. Dei uma estampada nos pneus e, a partir daí, guiei fazendo forçosas adaptações na pilotagem, volta após volta. O que, admito, me tirou muito do prazer de pilotar. E que não impediu que eu errasse em trechos bobos do traçado, devido ao problema mecânico. Aquelas 40 voltas foram muito, mas muito cansativas. Depois de quase 45 minutos na pista, saí do kart esgotado. Eu estava programado para fazer logo o turno seguinte ao do piloto que me substituíra, pois precisava ir embora mais cedo. Porém, avisei à equipe que não havia condição alguma de manter o combinado. Assim que foi preparado outro piloto para a próxima troca, simplesmente sentei no chão do nosso box, ainda zonzo, esperando passar aquele misto de cansaço e frustração.
Adiar o segundo turno me fez perder uma carona e, com ela, a garantia de que conseguiria ir embora a tempo de cumprir meu plantão na TV. Mas esta foi, sem dúvida, a decisão mais acertada do dia. Quatro trocas depois, mais ou menos refeito fisicamente, lá estava eu de volta à pista no fim da tarde. Teoricamente para defender nossa equipe. Na prática, para mais 40 voltas de aprendizado e autoconhecimento. E não foi brincadeira o quanto eu aprendi nesta segunda janela. Pude sentir, enfim, que cada um tem seu jeito, sua zona de conforto. Conselhos ajudam, dicas de traçado idem, mas o que vale mesmo é o teu limite, a tua tocada, o jeito que te cai melhor para contornar uma curva, para encontrar o tempo e o local de uma frenagem. Se conhecer é fundamental para entender o equipamento que você tem em mãos e fazer o melhor uso possível dele.
No entanto, antes de alcançar este grau de autoconhecimento, recebi um totó, saí da pista e bati forte numa barreira de pneus, ainda na segunda volta. Felizmente, nada grave. Logo na sequência, voltei a acelerar para conseguir, pouco a pouco, superar meus medos, minhas dificuldades, meu nervosismo e até minhas dores; para ganhar um pouco mais de confiança e me entender de vez com o kart que tentava domar.
É evidente que terminei este segundo turno cansado, também. Ainda mais porque o joelho da perna que acelera foi afetado diretamente na batida. Acreditem: estava mais desconfortável guiar em linha reta, por causa do movimento de aceleração, do que em curvas fechadas. Porém, quando recebi a sinalização de que faltavam cinco voltas para eu entrar no box, sorri. Naquela altura, eu mal havia notado o tempo passar. Já tinha encontrado um bom ritmo, estava andando forte e errando menos, embora aquela maldita curva da batida ainda fosse um caso mal resolvido a cada nova volta. Apesar dos pesares, curti o momento e percebi claramente o quanto estava guiando feliz.
Quando passei o kart para o colega de profissão e companheiro de equipe Luiz Alberto Pandini – que também escreveu um texto sobre a nossa corrida – abri a viseira e respirei fundo. Ali, agradeci a Deus por ter me dado a oportunidade de errar, de acertar e, principalmente, de superar o maior adversário que encontrei naquela pista: eu mesmo. Ainda bem que não fui embora mais cedo, caso contrário não teria feito este segundo turno e sairia de lá carregando a frustração que me acompanhou ao longo daquelas voltas iniciais.
Como se fosse combinado, ainda fui presenteado com outra carona assim que o sol se pôs, chegando pontualmente à emissora para cumprir minha escala de plantão. Enquanto trabalhava, fiquei trocando mensagens de texto e telefonemas com quem estava lá na pista, procurando informações sobre o andamento da corrida e o desempenho da nossa equipe. Até que, pouco depois da uma da manhã, soube que recebemos a bandeirada na 38ª posição. Nada mal para um time com oito pilotos (que gastava mais tempo com trocas, portanto), todos com as limitações técnicas naturais de quem pratica a atividade apenas como hobby.
Assim, aproveito para saudar publicamente os amigos e companheiros de equipe Bruno Terena, Leandro Castaño, Luiz Alberto Pandini, Luiz Vicente Miranda Apa, Rodrigo França, Tiago Mendonça e Wagner França, pelo apoio incondicional em todos os momentos. Com o mesmo entusiasmo que me davam força quando eu errava grotescamente, reconheciam quando eu conseguia andar no ritmo de caras mais fortes. Não tenho do que me queixar, apenas agradecer a oportunidade de estar junto de vocês neste dia. E não posso deixar de mencionar o amigo Cássio Cortes, que teve que viajar na última hora e abriu a vaga que me deu a chance de participar desta prova. Torço para que o destino permita que estejamos juntos novamente em 2010, mantendo o espírito de diversão e amizade que nos acompanhou neste fim de semana. Se possível, com um resultado ainda melhor.

Esporte a motor não é uma paixão para ser curtida nas arquibancadas dos autódromos ou em frente à televisão. Com o crescimento do número das pistas de kart indoor em todo o país, é uma paixão para ser praticada. Reúna seus amigos e também se aventure no kart. É um esporte sensacional e você ficará apaixonado após a primeira volta, garanto. E até as dores nas costelas, no dia seguinte, serão um incentivo para voltar às pistas. Falo isso por experiência própria. Então, às pistas!
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