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Quadrilha

sex, 25/04/08
por Rafael Lopes |

Renault e seus penduricalhos
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.

João foi para o Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Este poema do mestre Carlos Drummond de Andrade foi escrito em 1954. Nesta época, a jovem Fórmula 1 vivia seus anos dourados, com corajosos e talentosos ‘condutores’ do naipe de Alberto Ascari e Juan Manuel Fangio disputando títulos e vitórias em frágeis baratinhas de pneus finos, que não apresentavam segurança alguma, embora chegassem a velocidades assustadoras.

E já nesta primeira década de existência, a categoria apresentava uma de suas principais características históricas: a adoção das idéias alheias entre os construtores dos carros de corrida. Uma prática que começou timidamente e foi evoluindo ao longo dos anos. Desta forma, os concorrentes – antes de se verem completamente passados para trás – iam copiando descaradamente aquilo que os colegas garagistas desenvolviam.

Assim foi com o motor traseiro, os aerofólios, o monocoque, o efeito-solo, os motores turbo, o câmbio semi-automático, a suspensão ativa e por aí vai. Uma situação irreversível e com o efeito de uma bola de neve, que hoje em dia é voltada, principalmente, para a carga aerodinâmica dos modelos.

Mas o que, ora bolas, Quadrilha tem a ver com a F-1? É que a Fórmula 1 atual lembra demais a obra do poeta. É como se olhássemos para o grid dizendo: a Renault copiava a quilha da RBR, que copiava a asa ponte da McLaren, que copiava as calotas da Ferrari, que copiava as laterais da Honda, que copiava o bico chifrudo da BMW…

Pobre, apenas, da Super Aguri. Desamparada pela Honda e desesperada pela falta de investimentos, a equipe nem sonha em desenvolver o carro. Ela, que já não copiava ninguém, corre o risco de desaparecer de vez, depois de ficar esperando em vão pelo investimento prometido por um grupo estrangeiro. Que acabou, no fim das contas, nem entrando na história.

O jornalista Alexander Grünwald é produtor do programa Grid Motor, do SPORTV, e dono do Grün Blog. Ele escreve neste espaço todas as sextas-feiras.Crédito da foto: EFE

Um Comentário para “Quadrilha”

  1. 1
    Fernando:

    Ótimo texto. Gostei do modo que você abriu o post, lembrando Drumont e fazendo analogia às cópias descaradas que as equipes fazem, provando que na natureza nada se cria, tudo se dá um “Ctrl+C, Ctrl+V”. Está de parabéns!

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