

Quando o vírus da velocidade atinge um menino ou menina, a vida muda de uma hora para outra. As brincadeiras passam a envolver carrinhos, corridas, batidas e comemorações. Qualquer poltrona vira um cockpit imaginário, e uma sala de estar com mesinha de centro pode se tornar, da mesma forma, um circuito de sonho, com curvas desafiadoras e retas nas quais um motor pode gritar bem alto – em muitos casos, gritar literalmente.
No fundo, tudo o que uma criança dessas quer é ser como os ídolos que aparecem na televisão, guiando pelos autódromos do mundo. Um sonho maior, que geralmente esbarra em alguns empecilhos. O primeiro deles é a indisposição de pais e mães em ver um filho arriscando o pescoço em alta velocidade. O segundo reside nos altos custos do esporte, cujos valores só aumentam, ano após ano.
Como pilotar um carro de competição só é permitido depois dos 16 ou 18 anos (dependendo da legislação do país), vencer os obstáculos acima significa encontrar aquele que, via de regra, é o começo de tudo: o kart. Um veículo de dimensões reduzidas, que faz um leigo pensar que se trata não de um esporte, de uma competição, mas sim de uma brincadeira. Mas, quase sempre, não é.
Há, claro, os que acabam envolvidos no kartismo por imposição dos pais. Mas seja qual for o perfil do competidor mirim, aquele que quer ser um piloto profissional sabe que passará boa parte da infância e da adolescência convivendo com elementos como pressão, busca por resultados, alto desgaste físico e outras coisas que geralmente são exclusividade da vida adulta.
A vida passa, eles crescem, e alguns conseguem realizar o sonho de competir internacionalmente em alto nível. Outros se fixam no automobilismo nacional, também em grandes categorias. Tudo muito sério, muito profissional. E o kart, quem diria, vira uma diversão, uma brincadeira de criança. É com este espírito livre, leve e solto que diversas figuras renomadas disputam, todo fim de ano, duas competições festivas no Brasil: as 500 Milhas da Granja Viana e o Desafio Internacional das Estrelas.
Só que, infelizmente, o “alicerce” do esporte a motor é praticamente desconhecido do grande público no Brasil. As corridas cheias de estrelas são legais, dão audiência, mas seus formatos não representam a modalidade em sua essência. Um bom exemplo, por outro lado, é a Seletiva de Kart Petrobras, que todo ano reúne doze feras para disputar um prêmio de cem mil reais. Há dez anos, esta iniciativa tem ajudado jovens pilotos a ingressar no automobilismo com o dinheiro dado ao vencedor.
Mas não é só isso. Se o kart é peça fundamental entre os que fazem carreira ao volante de um carro de corrida, imagine entre os que levam informação aos fãs do automobilismo. Para muitos deles, é a chance mais próxima (e, às vezes, a única) de vivenciar aquilo que os entrevistados, fotografados e assessorados por eles fazem pelas pistas. Uma chance que a Seletiva proporcionou nesta semana a vinte felizardos, incluindo este colunista. Um grid com nível técnico sofrível, mas que provou que o kart pode ser, sim, uma grande brincadeira. Depende de que lado você está.
O jornalista Alexander Grünwald é produtor do programa Grid Motor, do SPORTV, e dono do Grün Blog. Ele escreve neste espaço todas as sextas-feiras.
Crédito da foto: Fábio Oliveira