
Dois anos após o bicampeonato de Emerson Fittipaldi, sou surpreendido com o seu “rebaixamento” à Copersucar. Vamos entender que eu tinha nove anos e que não entendia o porquê de Emerson pilotar um carro tão lento. Não era capaz de entender sua nobre luta em transformar um monoposto brasileiro numa equipe capaz eternizar o nome Fittipaldi na categoria mais importante do automobilismo. Muitos pilotos haviam conseguido este feito, como os Brabham, de Jack, e os McLaren, de Bruce. Outros grandes nomes, porém, não perduraram como equipe. Surtees e Hill, ambas fundadas por campeões da década de 60, foram exemplos.
O que escrevo hoje é um desagravo a esta família que fincou uma bandeira quadriculada no terreno da Fórmula 1, serviu de inspiração para muitos pilotos brasileiros que tentaram seu caminho por lá, inclusive abrindo portas a eles na própria equipe. Chico Serra e Ingo Hoffman que o digam. “Fitibalde”, como eu erroneamente os chamava, me fez amar autoramas – brinquedos caros que meus pais não tinham como me dar. Além disso, diziam: “Qual a graça de ver este carrinho dando voltas no mesmo lugar? Você vai se enjoar disso logo!”. Estavam tão redondamente enganados quanto o circuito de Indianápolis. Sempre que transmitiam as corridas, lá estava eu de olho na televisão. Aliás, se não fosse por Fittipaldi, não teríamos uma cobertura televisiva na década de 70!
Emerson, um dos melhores pilotos do mundo, poderia ter facilmente chegado a um tri, tetracampeonato. Largou tudo isso para desenvolver o Copersucar – curiosamente chamávamos a equipe pelo nome do patrocinador. Para que esta equipe pudesse ser vencedora, investiram em tecnologia, apostaram alto. Mas os resultados não viriam tão facilmente. Tudo era novidade e um excelente piloto era fundamental, mas não o suficiente. Era preciso ter paciência.
No entanto, para mim, tudo aquilo foi um balde d’água fria. Como qualquer criança, queria ver títulos, não torcer por sextos lugares e comemorar um ponto como se fosse uma vitória. Afoito, fiz coro com todo mundo. Ri de piadinhas de todo tipo. Emerson, antes um nome associado às vitórias, agora era um sinônimo de lentidão. Qualquer carro lento, velho, se arrastando pela estrada, ganhava o apelido de Copersucar. Foram dois anos assistindo corridas de olho nos últimos lugares. Só via o carrinho prateado quando os líderes o alcançavam para ultrapassá-lo.
E eis que veio aquele grande prêmio Brasil de 1978, o primeiro no Rio.
Fui convidado por um amigo para acompanhar a prova das arquibancadas, e o carro de Emerson, o agora amarelinho F5A, deu um show. Tinha onze anos e me contagiei pelo ruído ensurdecedor dos carros no final do retão. Não era capaz de entender direito o que estava acontecendo, pois estava acostumado a ver pela TV. Um moço, de ouvido no radinho, tentava ouvir a corrida em meio ao barulho e ia nos contando. Emerson em quarto! Terceiro! Caramba, um pódio! Emerson em segundo!!! Minha torcida passou toda para uma quebra de Carlos Reutemann, que liderava, mas isto não aconteceu. Ainda assim, nem em sonhos imaginei um dia como aquele. Bem na minha frente, Emerson cruzava em segundo lugar, prometendo um campeonato maravilhoso.
Ainda não sabíamos que a Lotus com o seu carro-asa e efeito solo monopolizaria aquele ano. Emerson pontuou mais algumas vezes, terminando o campeonato na melhor colocação do carro brasileiro. Que, depois disso, teve anos bons e ruins. Os irmãos amargaram em 1979 com o F6. Compraram a Wolf Racing, com todo o pacote técnico, e o F7 os levou ao pódio junto com Piquet em 1980. Até que, em 1982, o sonho de uma equipe brasileira na Fórmula 1 acabou. Mas não acabaram os sonhos de Emmo. Foi para a Indy, ganhou corridas, um campeonato e, por duas vezes, as 500 Milhas de Indianápolis. Ele sempre foi rápido. Entrou pro raríssimo hall de pilotos completos. Não foi por menos que gelei ao encontrá-lo em uma festa da MTV. Só consegui apertar sua mão e dizer: “sou seu fã”.

Neste ano de 2009, completamos trinta e cinco anos do bicampeonato, além de vinte do título na Indy e da primeira vitória nas 500 milhas de Indianápolis. Somente o tempo pode nos fazer perceber os sonhos desta família. Hoje, sinto orgulho quando vejo fotos dos carrinhos prateados ou amarelos desta equipe.
Aliás, diga-se de passagem, foi uma foto do Wilsinho, aqui mesmo no blog, que me fez escrever tudo isso. A fórmula 1 é a categoria máxima do automobilismo. Às vezes nos esquecemos disso, de que quem está naquele grid, mesmo quando larga na última fila, faz parte de um seleto grupo de vencedores, se não de corridas e campeonatos, por que não dizer, da vida! Pensemos sempre nisso.
Obrigado, Fittipaldis!