Há mais ou menos dois anos e meio, bati um papo interessante com um jornalista que havia acompanhado de perto a Copa Petrobras no fim de 2005 (só digo o nome se ele aparecer por aqui e autorizar, mas já adianto que é uma das opiniões tenísticas que mais respeito).
Ele me falava de um argentino, então com 17 anos, que lhe lembrava Gustavo Kuerten. Altão, bem magro, meio desengonçado e com um saque muito bom. O cabelo, grande e despenteado, também não ficava muito longe do visual do catarinense. “Guardadas as devidas proporções, mas é um cara para prestar atenção”, esse jornalista dizia.
Então número 198 do mundo, Juan Martín Del Potro conquistou o Challenger de Montevidéu, no Uruguai, em outubro de 2005. Na estréia, derrubou logo Flávio Saretta, ex-top 50. Levou um pneu no primeiro set, mas venceu os sets seguintes por 7/5 e 6/4. No caminho, ainda bateu Fabio Fognini, Santiago Ventura, Máximo González e o chato Boris Pashanski. Chave fraca? Nem tanto para um torneio Challenger. E lembremos que estamos falando de um garoto de 17 anos que enfrentou o experiente Saretta e o catimbeiro Pashanski.
A ascensão de Del Potro não foi tão rápida quando o jornalista (e eu) acreditava (ávamos), mas aos poucos os pontinhos vão se ligando e o argentino vai se transformando em uma ameaça real aos líderes do ranking. Semana passada, ele conquistou o ATP de Stuttgart. Não vale comparar a chave com a de Montevidéu, mas vejamos quem ele derrotou no torneio alemão: Evgeny Korolev (84º do mundo na semana passada), Simone Bolelli (47), Philipp Kohlschreiber (35), Eduardo Schwank (62) e Richard Gasquet (15). Rivais de respeito.
Esta semana veio a dobradinha, no ATP de Kitzbuhel. Josselin Ouanna, Sergio Roitman, Nicolas Devilder, Victor Hanescu e Jurgen Melzer foram as vítimas do torneio. Não estava tão forte quanto Stuttgart, mas Del Potro teve de lidar com o cansaço e a adaptação das quadras. Méritos para o argentino, que deve entrar para o top 30.
Voltando à comparação com Guga, vale uma explicação. Sempre que vemos um tenista jovem pela primeira vez, é comum analisá-lo baseado em certos parâmetros. “O movimento do saque parece o de João”, “a direita é chapada como a do Zé”, etc. Portanto, comparar com Gustavo Kuerten (ou quem quer que seja) é apenas uma maneira de descrever um tenista para uma pessoa que nunca o viu. Afinal, Guga é referência.
Hoje, com alguns jogos dele na TV, é possível ver certas semelhanças com o estilo de jogo de Guga. Ao mesmo tempo, são óbvias as diferenças. A esquerda de Guga andava muito mais. O forehand de Del Potro, por sua vez, é um canhão. Eu poderia citar várias. Por enquanto, dou os parabéns ao tal jornalista, que “descobriu” o argentino antes de todo mundo. E fiquemos todos de olho em Del Potro.
Coisas que eu acho que acho
Para mim, a melhor fonte de informação sobre o tênis argentino é o blog Fue Buena. Além de Del Potro, o autor, Jorge Viale, ainda analisa Coria e Gaudio. Tudo na página principal do blog.
Também é interessante a cobertura do argentino “Olé” sobre a vitória de Del Potro. Só faço ressalvas ao trocadilho do título, que o jornal insiste em repetir: “Un pura sangre.