Explique a Clijsters
- Ela já foi número 1 do mundo e venceu dois Grand Slams. Leia-se: um currículo respeitável.
- Ela é campeã do último Grand Slam, no qual passou por Serena e Venus Williams. Há duas semanas, ela conquistou o título do WTA de Brisbane, ao derrotar Justine Henin na decisão. Leia-se: histórico recente de resultados relevantes.
- Ela é bem casada, tem uma filha e muito dinheiro. Leia-se: bem resolvida, sem problemas extraquadra, e joga tênis porque gosta.
Como explicar então o que aconteceu com Kim Clijsters nesta sexta-feira, na derrota por 6/0 e 6/1 diante de Nadia Petrova? A belga cometeu 26 erros não forçados – o que, em 13 games, é muita coisa -, quatro duplas faltas e apenas cinco winners. Clijsters estava perdida em quadra, errando bolas fáceis e sem encontrar uma solução para seu drama.
Alguém pode argumentar que Petrova jogou muito bem, o que tem sua dose de verdade, mas está longe de explicar o que aconteceu em quadra. A maioria dos winners da russa (foram 15 em 13 games, um número discreto) veio depois da primeira metade do primeiro set, quando já estava claro que Clijsters não estava em um dia normal. E quando o adversário vive um momento desses, o tenista pode jogar mais solto e arriscar mais.
Eu nem vou tentar começar a explicar o que, para mim, é inexplicável. No entanto, se alguém (que tenha visto o jogo, por favor) tiver um motivo plausível, pode colocar na caixinha. Se for convincente, eu prometo que encaminho para a belga.
Deixo abaixo trechos da coletiva de Clijsters, que mostram o quão perdida e abalada estava a belga depois do jogo.
“Acho que nao mudei nada em toda minha preparação antes de cada partida. Tudo foi igual, a mesma rotina, e algo assim acontece. É provavelmente a coisa mais frustrante de todas, não saber. É esporte. Pode acontecer”.
“É algo que você sabe, como atleta, que pode acontecer de vez em quando. Como eu disse, de vez em quando, uma vez por ano, espero que não mais do que isso. Mas a questão é, é claro, ‘por quê?’. Meu técnico e meu preparador físico estão assim, ‘como isso pode acontecer?’ “.
“No aquecimento, eu estava me sentindo ok. Foi estranho. Eu não sei. Era como meus braços, e eu — como eu disse, eu não estava batendo na bola. Como, sim, tudo estava muito macio. Não tenho mais nada (a dar como explicação). Não sei o que mais pode ser”.
“Sou muito supersticiosa com minhas rotinas e tudo, então mantenho isso todo dia. Por isso estou um pouco confusa sobre o porquê de algo assim acontecer. Eu comi o mesmo, dormi o mesmo, tudo. É por isso que é ainda mais confuso”.
“Eu estava me questionando muito na quadra, tentando dar a volta por cima, mas ao mesmo tempo, você não sabe, ‘por que isto está acontecendo de repente?’ “.
rss do blog
Uma semana atrás, quando foi divulgada a chave de Brisbane, todos imaginavam se Justine Henin, após m ano e meio de afastamento, seria capaz de ir longe no torneio e fazer uma final dos sonhos com Clijsters, a nova/velha queridinha da WTA.
O fim do segundo set e o começo do terceiro foram breves momentos em que o nível do jogo caiu – muito, até, pelos erros de Clijsters. Rapidamente, Henin abriu 3/1 na última parcial e, quando tudo parecia indicar uma vitória sua, foi a vez dela de começar a errar.
É até curioso, mas não fiquei espantado com a vitória de Justine Henin sobre Nadia Petrova. Com certeza, o resultado do jogo desta segunda-feira me impressionou muito menos do que a vitória de Kim Clijsters sobre Marion Bartoli. Não sei se é justo comparar os dois retornos, e a intenção aqui nem é essa. Entretanto, a volta de Clijsters é a referência mais próxima, então vou usá-la para tentar explicar nas linhas abaixo o porquê de não estar surpreso hoje.
Em três torneios, vitórias sobre cinco top 10, um lugar entre as 20 primeiras do mundo e um título de Grand Slam. Não há como não argumentar que Kim Clijsters merece o “título” de Retorno do Ano. Mais de dois anos depois de se aposentar para casar, ter uma (linda) filha e curtir a vida em família, a belga voltou ao circuito, e voltou com tudo.
Pesavam contra Kim a falta de ritmo de jogo e o pouco conhecimento (em quadra) sobre as atuais rivais. É bem verdade que as irmãs Williams, sua principais rivais na chave em Flushing Meadows, eram velhas conhecidas. Isso, porém, não queria dizer que a belga estaria pronta para entrar em quadra e jogar de igual para igual os pontos grandes.

