Ficou a inveja…
Nada como um bom bife de chorizo (mais um, no meu caso) e uma taça de vinho em Puerto Madero para estimular este último texto sobre a Davis (alguns leitores podem questionar a relação entre a carne argentina e minha produção intelectual, mas só vão entender, de fato, quando me convidarem para um churrasco).
Na última noite em Buenos Aires, fiquei pensando no privilégio que foi fazer a cobertura do duelo entre Argentina e Espanha, um confronto que significou muito para muitos fãs, mudou a carreira de alguns tenistas e fechou com chave de ouro a temporada do tênis masculino.
Passei a maior parte do tempo pensando em um sentimento freqüentemente mal compreendido: a inveja. Afinal de contas, tenho inveja do tênis espanhol, assim como do argentino, há algum tempo, e presenciar um evento deste tipo só veio a aflorá-la.
Quando será que o tênis brasileiro viverá algo parecido? Ou melhor, será que um dia viveremos algo parecido?
Não me levem a mal. Falo da inveja no bom sentido. Aquela que nos dá vontade de ter o que os outros têm. Sem torcer pelo insucesso destes. É o sentimento de admiração não só por um trabalho feito com competência, mas, principalmente, pelos resultados obtidos. Falo, obviamente, tanto da Espanha quanto da Argentina.
Ver um tênis brasileiro forte, versátil, de volta ao Grupo Mundial, deve ser sonho de todos por aqui. Temo, porém, que nosso país não tenha tenistas para brigar por um título da Davis pelos próximos 20 anos, não tenha um capitão como Emilio Sánchez Vicario, nem tenha estrutura para organizar um evento deste porte com a competência que os argentinos tiveram.
Houve falhas em Mar del Plata? Sim. Poucos ingressos foram colocados à venda, havia cambistas, a torcida se exaltou. Em uma final de Davis, é até compreensível. Nossas Davis recentes (confrontos bem menos relevantes) tiveram problemas muito mais graves, como uma quadra sem lona em Belo Horizonte e ingressos caríssimos em Sorocaba. Nosso único ATP também entra na conta, já que foi palco de uma vergonhosa demonstração de fanatismo do público em 2004 (último ano que Guga teve chances reais no torneio). O que aconteceu ali foi muito pior que as ofensas argentinas em Mar del Plata.
Também fiquei com um pingo de inveja dos meus colegas do “Olé”. Lá na Argentina, tênis figura na capa do principal diário esportivo. Por aqui, acho que só o tricampeonato de Guga em Roland Garros teve essa honra. Este ano, a despedida do catarinense, no mesmo Grand Slam francês, foi destaque até na frança, mas a edição carioca do “Lance!”, por exemplo, tinha uma foto enorme de Thiago Neves na capa. Guga foi só uma chamadinha.
E sabem o que mais admirei? Um fato que passou batido por muita gente. Os principais tenistas espanhóis andam brigados com o presidente de sua federação, e nem por isso deixaram de defender as cores do país. E ninguém viu o cartola espanhol querendo aparecer no meio da comemoração de seus atletas.
Por essas e outras, sigo aqui no Rio, cheio de inveja…
Como é o último post sobre a Davis, cabe aqui um agradecimento a todos que elogiaram a cobertura. A idéia, de fato, era mostrar o que não se vê pela TV. Considerando que cheguei a Mardel na noite de quinta, acho que correu tudo direito.
Obrigado aos que visitaram o blog, participaram do palpitão e deixaram seus comentários. Deixo um agradecimento especial ao Horace, primeiro a escrever após a vitória de Nalbandian. Só posso imaginar o tamanho de sua frustração. Sinto por você. De verdade.
Os próximos posts trarão retrospectivas sobre o melhor (e pior!) da temporada 2008. Quem se destacou mais, quem decepcionou, os jogos mais interessantes, etc. Também haverá muitas fotos (como a prometida imagem de Dementieva) e, como não poderia faltar, uma análise de quem se vestiu bem e mal (esse post trará uma novidade bem bacana, mas ainda é surpresa!).
Como vocês podem imaginar, não tive tempo de olhar os palpitões da Davis, mas me parece que o título é do Daszma. Ele entrará no Hall da Fama, um dos posts de retrospectiva, em que serão citados todos os campeões de 2008. O texto terá um link permanente no menu da direita.
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