Tinha uma época que era assim: o Brasil, soberano e recheado de craques, ia enfrentar o Uruguai e tremia. Inexplicavelmente, tremia. Foi assim na Copa de 50, aqui em pleno Maracanã. Dependíamos apenas de um empate para levantar a Copa do Mundo pela primeira vez. E ainda saímos ganhando o jogo. Todos sabem como terminou a história: com a virada e o bicampeonato mundial dos uruguaios.
O tempo foi passando e essa mística parecia apenas crescer e assolar o Brasil. Foram 30 ou 40 anos sem ganhar no principal estádio dos nossos vizinhos sulistas, o Centenário. Nem Pelé, Garrincha, Gerson, Rivelino, Sócrates, Falcão, Bebeto, Romário e toda a sorte de craques que vestiram a amarelinha de lá para cá não foram suficientes para fazerem o Brasil vencer o Uruguai.
Teve até uma Copa América disputada lá no Uruguai mesmo e que teve como final Brasil versus o time da casa. Acho que em 95, se não estou enganado. O Brasilzão campeão do mundo na época chegou com panca de que levaria o torneio regional também. Taffarel deve lembrar até hoje do golaço de falta que levou de Francescoli, atacantezaço uruguaio que jogava no River Plate. Deu o que deu: Uruguai campeão.
Foi agora, só no ano passado, acho, que o Brasil ganhou uma vezinha só do Uruguai lá em Montevidéu. E mesmo assim, depois de 30 ou 40 anos, sei lá.
Para que fiz toda essa introdução? Você já vai entender. Vou mandar um papo bem real aqui. Quem não gostar, azar.
Assim como o Brasil tremia e ainda treme quando vê o Uruguai pela frente, a turminha lá do Alto do Nada também treme quando vê o Paraná pela frente. É… É isso mesmo.
Se continentalmente fala-se na “mística da Celeste”, aqui existe a “mística da bicolor azul e vermelha”.
Não sei se é pelos longos períodos da década de 90 em que o time do Socorro Perpétuo foi sodomizado pelo Paraná incontáveis vezes, com direito a 4 a 0 no estádio que foi demolido por eles mesmos em dezembro, e um 6 a 2 nos nossos domínios.
Pode ser também pelo “bi-vice-campeonato” em 95 e 96. Ou pelo 6 a 1 com o time reseva que aplicamos no Xoxa de Joel Santana, véri gúdi!
Fato é que os coxinhas tremem quando veem o pavilhão Tricolor pela frente. Foi assim até mesmo no ano passado, quando, caindo pelas tabelas, com um time-piada, comandado pelo desconhecido Velloso, metemos bucha no time dos vândalos. Foi ou não foi? Sem nhenhenhém.
Ontem, mais uma vez, os cagalhões se borraram inteiros só de ver a peita Tricolor na frente, mano.
Maluco, arrisco a dizer pra você que vi lágrimas nos olhos de Rafinha no fim do jogo, arrependido de ter trocado o Tricolor da Vila pelo time sem hino. Ele que, aliás, mal pegou na bola no jogo de ontem. Como Marcos Aurélio. Ah, e alguém aí pode me dizer se o tal Ariel-jogador-de-rugby entrou em campo?
Foi uma vitória honesta, suada e conquistada com a humildade que sempre caracterizou o Paraná. Foi uma vitória de quem entrou determinado em vencer a impáfia dos líderes do campeonato-da-roça-asfaltada.
Foi uma vitória de uma defesa sólida, que não pecou e anulou os principais jogadores do adversário. Foi uma vitória de um inspirado Márcio Diogo, que fez uma partida impecável e que coroou sua apresentação deixando o defensor verdinho deitado no chão antes de meter a redonda no barbante, sem chororô, minha nega.
Veja bem, José: até o fim de 2010, temos mais um encontro com os batateiros pelo Paranaense e mais dois pela Série B. E olha… Já consigo vê-los tremendo tal e qual varas-verdes*, se me perdoam o duplo trocadilho.
Comemore, Tricolor. Mas nem tanto. Afinal, é só mais uma vitória na história dos PARAtibas. E você, verdinho, pode continuar tremendo cada vez que vir o Manto Sagrado Tricolor pela frente.
E o que mais? Nada.
* Vara s.f. (…) Vara de porcos, manada de gado suíno; coletivo de porcos.