Aloha amigos,
desta vez eu quero comentar um pouco sobre a minha história no surf. Eu fui criado no Leblon e sempre gostei de pegar jacaré, fazer pesca submarina e surfar de planonda (prancha de isopor) quando era garoto, antes de ter minha prancha. A primeira vez que eu vi uma foto na revista “Seleção”, de um havaiano pegando onda, eu me apaixonei e falei para o meu pai “Olha, meu esporte é esse! Vou ser um surfista”.

Rico em sua oficina no Recreio dos Bandeirantes em 1976 - Foto: Ricosurf.com
Minha família, naquela época, não queria que eu pegasse onda. O esporte não tinha uma imagem legal, então eu tive que correr atrás para comprar a minha primeira madeirite. Foi vendendo chumbo descartado pelas construtoras das obras de Ipanema e Copacabana, garrafa, jornal e as tampas de garrafas de leite, que antigamente eram de alumínio, que eu consegui comprar a minha primeira madeirite, na Rua Francisco Otaviano, no Arpoador.
Eu comecei a consertar prancha em 1964 para sobreviver. Em 1966 foi a vez de shapear. Eu descascava as pranchas antigas - não tinha poliuretano no Brasil -, lixava as bordas e usava os poliuretanos marrons para fazer pranchas. Pouco depois, passei a comprar blocos do Coronel Parreiras, com quem trabalhei. Ele foi um grande mestre da construção e industrialização das pranchas. Ele foi o primeiro cara a fazer pranchas em escala industrial.

Outros três caras foram muito importantes nessa fase inicial da arte de shapear. Penho foi o primeiro a fabricar as minimodels. Ele foi o primeiro brasileiro a ir para o Hawaii (1969) e trouxe alguns modelos que não conhecíamos. Acompanhei de perto todas essas idéias que o Penho trouxe.
O Ciro Beltrão também produzia muitas pranchas. Outra grande personalidade do shaper é o Mudinho, que foi meu grande parceiro. Começamos a fabricar juntos e, na época, como não tinha material, eu tinha um amigo, Jim Harms, que o pai dele trabalhava para as Forças Armadas Americanas e, por intermédio dele, conseguíamos os materiais.

Rico de Souza e as madeirites - Foto: Ricosurf.com
A primeira prancha que eu fiz foi no Leblon. Na época nem eram pranchas Rico. Eu usava Yokahama, um nome havaiano que eu curtia muito.
O surf cresceu muito nos anos 70, na época do Píer de Ipanema, e a fabricação de pranchas seguiu no mesmo ritmo. Para mim, essa época foi maravilhosa. Fui campeão brasileiro em 69 / 72 / 73 e tive grande destaque na mídia. Com isso surgiram oportunidades de conhecer vários lugares do mundo, onde fiz muitas amizades, adquiri muito conhecimento e trouxe novas tecnologias.
Trabalhei na Califórnia aprendendo a shapear e, no Hawaii, fiz pranchas para grandes nomes do surf como o Jeff Hackman, os irmãos Michael e Derek Ho, Buzzy Kerbox, Hans Hedemann e para alguns havaianos.
O que eu acho fundamental é que, com a ida ao Hawaii em 72, eu aprendi muito sobre essa área de fabricação de pranchas. O fato de estar no Hawaii e ter contato com os principais shapers da época, me ajudou muito.

Rico em sua sala de shaper no Recreio dos Bandeirantes (1976) - Foto: Ricosurf.com
Trabalhei com grandes shapers do mundo como Barry Kanaipuni, Dennis Pang, Rory Russel, Owl Chapman, Peter Daniel, Dick Bruwer, Mark Jacola, Marck Larmont, Randy Rarick e Tom Parrish. Randy organizou junto com Fred Hemmings, o surf profissional ao redor do mundo e também foi ele o criador da Tríplice Coroa Havaiana. A herança que tenho de trabalhar em eventos, amar fabricar pranchas e colecionar objetos antigos (Museu do Surf Rico), eu ganhei de Randy.
Mas o meu maior guru das plainas foi Tom Parrish. Eu o conheci em 1976, quando ele veio ao Brasil e acabou morando comigo durante três meses. Nos anos 80, uma média de 90% das competições no Hawaii eram vencidas por atletas que usavam as pranchas de Tom. Ele shapeava para Shaun Thomson, Mark Richards, Ian Cairns, Bronze Aussies e de outros principais nomes do esporte na época. Tom desenhou minha sala de shape e fabricamos umas 80 pranchas juntos.

Rico em Sunset - Foto: Ricosurf.com
Toda essa experiência eu trouxe para o Brasil e comigo vieram os wings, as canaletas, as estingers e várias outras ideias. Ter trabalhado com grandes nomes e passado por todas as etapas da história das pranchas desde a época da madeirite, passando pelo pranchão, Golden Time, monoquilhas, biquilhas, triquilhas, quadriquilhas, windsurf e, agora na minha mais nova paixão, o Stand Up, me ajudou a ter meu próprio estilo nas plainas.
A forte equipe que montei - Cauli Rodrigues, Fred D’Orey, Roberto Valério, Valdir Vargas, Picuruta Salazar, Eduardo Bagé, Phil Rajzman entre outros excelentes atletas - também foi muito importante para eu testar e aprimorar meus modelos, aumentando a cada dia a minha enorme paixão pelo surf, seja dentro ou fora d’água.
Aloha e boas ondas,
Rico de Souza
Ricosurf.com