Hoje vou falar de um grande amigo e, na minha opinião, um dos maiores nomes do surfe brasileiro, o Picuruta Salazar. Voltando no tempo… Eu conheci o Picuruta e seu irmão Almir nos anos 70, em Cabo-Frio. Eu tive o prazer de vê-lo surfar, e ali, percebi que ele seria um dos grandes nomes do nosso surfe. Ele veio de uma família bastante humilde e eu sempre valorizei esse lado dele.
O Picuruta começou a brilhar no início dos anos 70, já fazendo um surfe radical, com manobras muito fortes e modernas. A radicalidade sempre foi a marca de seu surfe. Eu me lembro de um evento em Saquarema, acho que era o Ala Moana, e o mar estava espetacular. Na época, eu estava narrando para a TV Manchete. A final desse evento foi com o Daniel Friedmann e o Picuruta, entre outros, que não me lembro no momento. Na disputa pintou uma esquerda espetacular e o Picuruta pegou a onda, mas o Daniel passou por trás dele e entrou na onda como se a prioridade fosse dele todos acharam que a onda era do Daniel, que também é muito meu amigo, e deram interferência para o Picuruta.

Foi um lance muito rápido e pouca gente viu. Quando saiu o resultado, o Daniel foi apontado como o grande campeão, mas eu tinha visto todo o lance e tive que argumentar, disse que o Picuruta havia sido campeão. Falando hoje em dia, parece simples, mas nessa época havia uma grande rivalidade entre o Rio e São Paulo, e essa foi uma situação realmente muito difícil. Depois disso, eu passei a patrociná-lo e nossa amizade foi se fortalecendo. Quando ele vinha ao Rio ficava na minha casa e até hoje a minha amizade com a família Salazar é muito forte.

Outro episódio legal de citar foi quando o Picuruta venceu um campeonato no Sul do país e ganhou uma passagem para o Havaí. E eu fui o ”maluco” a ser responsável por ele e pelo Almir na Embaixada Americana! Eles não tinham como comprovar renda e eu entrei na embaixada e fiz essa loucura (rs). No primeiro dia que o “gato” , seu apelido, foi competir no Pro Trials, um dos mais importante eventos do surfe mundial, e simplesmente quebrou em Sunset, que estava grande e espetacular - 10, 12 pé de oeste. O detalhe era que aquela foi a primeira vez que nosso campeão estava caindo no Havaí, além de ter sido a primeira vez que surfou com uma gun ( prancha para ondas grandes). Picuruta pegou altas ondas mesmo!!! inclusive vencendo o campeão norte-americano da época. 
Eu fui seu “caddie” e fiquei no canal dando algumas instruções para ele, que vinha com tudo em cada onda surfada. Ele ganhou a bateria, e na sua última onda, pegou uma bomba lá no out side de Sunset, veio conectando, passou entubando no inside, passou pela parte mais flat e cheia e conectou até a beira - quem conhece Sunset sabe que tem que ter muito conhecimento e talento para percorrer a onda toda desse jeito. Ous seja, ele arrebentou sem nunca ter caído no pico.
Nessa época no Havaí quem eram os reis dos tubos era o Michael Ho, Hans Hedmann, Buzy Kerbox, e o Picuruta pegou tubos tão profundos quanto eles, em ondas como Pipeline, Backdoor, Rock Point. O Picuruta não teve a oportunidade de correr todo o circuito mundial. Se nessa época ele tivesse um patrocínio que realmente investisse nele, eu tenho certeza que seria um dos grandes destaques do circuito.
Sem sombra de dúvida o gato seria um dos nossos top brasileiros como o Fabinho, o Teco e o Mineirinho. Falando em longboard só pra começar a falar, ele tem nada menos que 150 títulos! Já foi quatro vezes vice-campeão mundial, nove vezes campeão brasileiro e um dos campeonatos que ele mais surfou foi o Oxbow Soul and Style, em Puerto Escondido, no México no qual selecionaram 16 dos melhores longboarders do mundo. Eles tinham que surfar de pranchinha e de pranchão e mostrar todo seu talento em ondas tubulares. E nessa ocasião eu participei da comissão julgadora, que tinha critérios diferentes dos adotados nos campeonatos de surfe convencionais. Nós apontávamos o vencedor, sem notas. Eram quatro juízes: eu, Nat Young, Gary Linden e um campeão havaiano. Nessa ocasião, não houve nenhum resultado contestado e o Phil Rajzman inclusive venceu o evento.
A bateria mais casca-grossa do evento foi entre o Picuruta e o Joel Tudor, outro grande surfista. Eles fizeram um duelo de tubos espetaculares, com ondas de 8 a 10 pés, extremamente pesado, com poucas ondas abrindo. O Picuruta pegou uma onda praticamente fechada, passou toda a primeira sessão, depois passou outra e outra, três sessões entubando. Se tivesse dar nota seria um 10! E o Joel tinha, digamos, um 9,5 e outro 9,0, se fosse em notas. Se só uma onda valesse, o Picuruta venceria. Mas acabamos dando a vitória para o Joel.
Eu tenho um carinho especial pelo Picuruta e pela sua trajetória. Aos 48 anos ele continua patrocinado e top surfer, vence nomes como Roger Barros ( campeão brasileiro), com menos de 30 anos que ele e isso não é para qualquer um.
Já viajei com ele para vários lugares e ele demonstra que é um amigo do peito e não tem duas caras, se ele for seu amigo vai ser até debaixo da água e é por isso que eu realmente o admiro. É um cara digno, correto, amigo e muito carismático também. Fica aqui meu Aloha e meu abraço em toda a família Salazar.
Fotos em ordem: Eu e Picuruta em Santos, Eu e Daniel Friedman com a maior prancha do mundom Eu, Picuruta ( de pé) e amigos. Havaí anos 70m, Picuruta num cut-back, Comemorando mais um título em Santos, Eu e Picuruta observando o Horácio laminando - Havaí anos 70.