Das coisas inexoráveis da vida
Quando seu time, e supondo que você tenha bom gosto, nosso time, não tá ganhando, você sofre até ele fazer o gol. Quando ele está ganhando, você torce para o jogo acabar logo. Quando está empate, dependendo da situação, você torce para o relógio parar ou andar mais rápido. A verdade é que Nick Hornby estava certo, quando escreveu seu livro “Febre de Bola”. Gostar de futebol é viver sempre num estado de constante agonia.
E quem acha que essa agonia acaba ali no estádio, logo que o juiz apita, está enganado. Ou então não deve gostar muito de futebol. Porque essa peste dura muito mais que noventa minutos. Ela está com você todas as horas, todos os dias. Nos noticiários, nas manchetes dos jornais, no globoesporte.com, nas ruas, praças e avenidas. No bom dia entristecido do Seu Anésio no elevador. No cafezinho frio que a mulher da copa esqueceu de esquentar porque o miserável do Weldon não acertou o pé. No zero enorme na prova de Estudos Sociais do garotinho que nem sabe que o mundo é mundo ainda, mas já sabe o que é sofrer por futebol.
Ah, o futebol. Só ele e o amor, que pra muita gente, são uma coisa só, afetam outras coisas que são imutáveis na vida.
Uma delas é o tempo. Basta seu time levar um gol impedido aos 48 do segundo tempo para o Doutor Emmet Brown levantar vôo com seu Delorian e bagunçar todas as horas, minutos e segundos do universo. Aí a segunda-feira chega logo no domingo, antes mesmo do Zeca Carmago e da Patrícia Poeta. E dura exatamente sete dias. Cada um deles com 48 horas de duração. 48 longas horas. O equivalente a dois dias inteiros, duas manhãs, tardes e noites, ou simplesmente, uma hora de “A Fazenda”.
E como se não bastasse bagunçar o tempo, o futebol esculhamba com sua cabeça. Se não existisse futebol, as pessoas bateriam menos o carro, menos mães seriam chamadas de piiiii e os alvi-rubros, que não seriam alvi-rubros, poderiam dormir tranquilos sem ouvirem uma buzina de cazá-cazá sequer. Mas pelo menos existe um lado bom do futebol existir. Se Sandro Goiano não se distraísse com o futebol, ele já teria causado o Armageddon, só por tédio mesmo.
Não há como fugir do futebol. Você pode estar num ótimo momento na vida. Pode ter chegado ao topo. Mas se seu time, infelizmente, o nosso time, estiver na lanterna do campeonato, você (e eu) também vai estar com um pezinho no fundo do poço. É um paradoxo. Uma contradição. Uma baita tosqueira. O futebol é inexorável. E eu não sei direito o que essa palavra significa, mas quando o arquiteto da Matrix falou, o mundo estava se acabando.
Isso é loucura. É como se o futebol estivesse sempre com você. Como se você tomasse café todos os dias com o Emerson Leão. E ele está sempre de mau-humor, cobrando mais esforço da sua parte para pegar a margarina do outro lado da mesa. É como se Durval estivesse do lado daqueles souvenirs de tartaruga que balançam a cabeça. É como se o Hamilton lhe desse uma voadora na caixa dos peitos toda vez que você acorda depois de uma derrota.
Deve ter algum jeito de se livrar do futebol. Tem que ter. Não dá para levar uma vida saudável desse jeito. Não dá para continuar vivendo nessa agonia toda. Deve ter um jeito. Mas depois eu me preocupo com isso. Porque agora eu vou ver os três gols de ontem e logo depois, sacanear um amigo alvi-rubro.
É, amigo. Sei bem como é isso.
rss do blog