Haja coração
Numa televisão de 10 polegadas. Num boteco abarrotado de alvirrubros. Na TV Pernambuco, que na época, não tinha nem replay. Do lado de fora do bar, pra não pagar couvert artístico para o gordinho tocando Jorge Vercilo. Na casa do ex-sogro tricolor. No segundo degrau da Geral, atrás do gol, e atrás de um balão gigante da Nova Schin, que me impediu de ver o gol de Hamilton de pênalti, na final contra o (pasmem) Santa Cruz. Na arquibancada, ao lado de uma árvore enorme povoada por um enxame de abelhas psicóticas. Não tenha dúvida. Eu devo ser o cara que mais já viu jogo do Sport em lugares trash. Mas dessa vez foi pior. Bem pior.
Ontem, lá estava eu deitado numa poltrona reclinável e bem acolchodada. Com travesseiro Contour Pillow e tudo. Dezenove graus celsius de temperatura. Um friozinho bem agradável. Muito diferente do frio congelante na minha barriga. Isso porque logo ao lado estava meu pai. Não no seu estado mais comum, inventando neologismos espricofrínicos (taí uma peróla) para todo infeliz que errasse um passe de dois metros. E sim, deitado numa cama de hospital, enrolado num pijama. Bem parecido com aqueles que sua mãe obrigava você a usar antes de dormir.
Querem derrubar meu velho. Pelo menos foi isso que pensei depois da notícia de que iam realizar uma grande obra, bem no coração dele. Cinco pontes. Não bastava ser rubro-negro e pernambucano com todo orgulho. Tinha que ter um verdadeiro Recife no peito. Um sentimento de tristeza que deu uma trégua quando o juiz apitou o começo do jogo.
O radinho já estava no ouvido. Porque a TV se preocupava em ganhar audiência mostrando a música preferida da menina sequestrada por um maluco. A voz do locutor já criava lances impressionantes no meio-de-campo. Sandro Goiano assobiava, cantava, chupava cana e trucidava adversários ao mesmo tempo. Andrade afundava o time. E a Barbie fazia o gol. Puta merda. A Barbie fazia o gol? Escutar o jogo no rádio é assim mesmo. Você nunca tem a exata noção de quando as coisas vão dar errado.
Da mesma maneira, o jogo passou, o Sport empatou, virou e cedeu o empate, tão rápido quanto Elifoot na velocidade máxima. O mundo girando e minha cabeça oca pensando em várias coisas ao mesmo tempo. Quando será que Roger vai deixar de ser expulso? Será que vão operar meu pai direitinho? Por que a gente tá facilitando o jogo pra Barbie? Sandro Goiano é mesmo o Pantro? Será que o meu velho tá confiante na cirurgia? E se o médico, que é rubro-negro, tiver um problema do coração depois desse empate? Por que eu penso em tanta merda?
Só sei que no final das contas, a gente só levou um pontinho. Diferente do peito do velho, que deve levar uns trezentos mil pra fechar a cicatriz da cirurgia. O clássico termina. A Barbie não ganha da gente há um ano. Placar: 2 x 2. Fim de jogo. Graças a deus, não para o meu pai.
Te amo, velho. Próximo jogo vamo dar uma lapada nesses espricofrínicos malagorônicos.
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