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Haja coração

seg, 20/10/08
por pedro lazera |
categoria Sem Categoria


Numa televisão de 10 polegadas. Num boteco abarrotado de alvirrubros. Na TV Pernambuco, que na época, não tinha nem replay. Do lado de fora do bar, pra não pagar couvert artístico para o gordinho tocando Jorge Vercilo. Na casa do ex-sogro tricolor. No segundo degrau da Geral, atrás do gol, e atrás de um balão gigante da Nova Schin, que me impediu de ver o gol de Hamilton de pênalti, na final contra o (pasmem) Santa Cruz. Na arquibancada, ao lado de uma árvore enorme povoada por um enxame de abelhas psicóticas. Não tenha dúvida. Eu devo ser o cara que mais já viu jogo do Sport em lugares trash. Mas dessa vez foi pior. Bem pior.

 

Ontem, lá estava eu deitado numa poltrona reclinável e bem acolchodada. Com travesseiro Contour Pillow e tudo. Dezenove graus celsius de temperatura. Um friozinho bem agradável. Muito diferente do frio congelante na minha barriga. Isso porque logo ao lado estava meu pai. Não no seu estado mais comum, inventando neologismos espricofrínicos (taí uma peróla) para todo infeliz que errasse um passe de dois metros. E sim, deitado numa cama de hospital, enrolado num pijama. Bem parecido com aqueles que sua mãe obrigava você a usar antes de dormir.

Querem derrubar meu velho. Pelo menos foi isso que pensei depois da notícia de que iam realizar uma grande obra, bem no coração dele. Cinco pontes. Não bastava ser rubro-negro e pernambucano com todo orgulho. Tinha que ter um verdadeiro Recife no peito. Um sentimento de tristeza que deu uma trégua quando o juiz apitou o começo do jogo.

 

O radinho já estava no ouvido. Porque a TV se preocupava em ganhar audiência mostrando a música preferida da menina sequestrada por um maluco. A voz do locutor já criava lances impressionantes no meio-de-campo. Sandro Goiano assobiava, cantava, chupava cana e trucidava adversários ao mesmo tempo. Andrade afundava o time. E a Barbie fazia o gol. Puta merda. A Barbie fazia o gol? Escutar o jogo no rádio é assim mesmo. Você nunca tem a exata noção de quando as coisas vão dar errado.

 

Da mesma maneira, o jogo passou, o Sport empatou, virou e cedeu o empate, tão rápido quanto Elifoot na velocidade máxima. O mundo girando e minha cabeça oca pensando em várias coisas ao mesmo tempo. Quando será que Roger vai deixar de ser expulso? Será que vão operar meu pai direitinho? Por que a gente tá facilitando o jogo pra Barbie? Sandro Goiano é mesmo o Pantro? Será que o meu velho tá confiante na cirurgia? E se o médico, que é rubro-negro, tiver um problema do coração depois desse empate? Por que eu penso em tanta merda?

 

Só sei que no final das contas, a gente só levou um pontinho. Diferente do peito do velho, que deve levar uns trezentos mil pra fechar a cicatriz da cirurgia. O clássico termina. A Barbie não ganha da gente há um ano. Placar: 2 x 2. Fim de jogo. Graças a deus, não para o meu pai.

 

Te amo, velho. Próximo jogo vamo dar uma lapada nesses espricofrínicos malagorônicos.

Pasárgada

sex, 03/10/08
por pedro lazera |
categoria Sem Categoria

“Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei”. Queria eu, seu Manuel Bandeira. Queria eu. Acontece que o dólar subiu. E o preço da passagem pra Grécia deve estar mais surreal do que essa cidade que o senhor inventou. Aí o jeito é seguir pra um lugar mais pertinho, sem tantas regalias. Como bom torcedor do Sport, já estou planejando uma viagem pela América Latina.

Vou-me embora para o México. Terra do ligeirinho. Do Jorge Campos. Dos mariachis. Dos nachos e quesadillas. Do Zorro. Não aquele pirulito de caramelo. O outro mesmo, de bigodinho canalha e florete. Ora, mas que ótima idéia. Vou deixar o bigode crescer. Virar Don Piedro Quixote. Lutar contra moinhos disfarçados de dragões. Aí vai vir alguém e dizer que Dom Quixote é uma história que se passa na Espanha. E então eu vou justificar que o México também é a terra da tequila. Hic!

Pensando bem, nada de ser paga-pau de americano. Vou-me embora é pra Bolívia, ficar mais perto de Deus. Quem sabe com aquela altitude toda ele não me escuta lá nas nuvens. Vou pedir aquele título da Libertadores. Aquela sequência de números premiados da Mega Sena. Ou quem sabe, só um atacante que preste. Vou escalar a montanha do Illimani. Deixar a barba crescer e virar eremita. Isso até algum alpinista pé-no-saco e fã dos Los Hermanos me encontrar e achar que sou o Marcelo Camelo.

Melhor não brincar com a sorte. Eu vou-me embora é pra Argentina. Gritar pentacampeão. Ir para o show do Julio Iglesias e gritar “toca Raul”. Beber vinho barato, sem ser Carreteiro. Comer uma boa picanha. Disseminar el cazá-cazá. Visitar La Bombonilla original. Ver o Sport ganhar do Boca na final da Libertas. Aproveito e deixo crescer os mullets.

Mas isso é só ano que vem. Porque por enquanto, o lugar mais longe que a gente vai chegar é no meio da tabela. Na latitude zero do campeonato brasileiro. Na linha do equador futebolísitica. Exatamente. Bem-vindos de volta à Macapá, galera. Eu mesmo já arrumei um lugar pra tirar um cochilo.

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Eu acredito no que não pode ser (por Yuri Ribeiro)

qui, 02/10/08
por pedro lazera |
categoria Sem Categoria

Uma pessoa que pesa 200kg começa um regime (numa segunda-feira, é claro), e pra aproveitar o embalo, começa a fazer uns abdominais pra reforçar a sua dieta. Depois de uma semana essa pessoa vai se olhar no espelho e, mesmo se vendo do mesmo jeito, vai achar que está mais magra. Mas no fundo, bem no fundo mesmo, ela sabe que está a mesma coisa.

Uma garota muito feia resolve se produzir toda para uma festa. Coloca sua melhor roupa, capricha na maquiagem e usa seu melhor perfume. Vai pra frente do espelho e começa a ensaiar olhares sedutores. Ela acha que naquela noite pega até o Brad Pitt, mas no fundo, bem no fundo mesmo, sabe que não pega nem o Zé Ninguém.

Um time que está na 11ª colocação de um campeonato viaja para pegar o 3º colocado, que está brigando pelo título. A diferença parece ser grande, mas não é. Então o 11º resolve caprichar no visual: coloca um atacante na lateral, mesmo tendo o dono da posição à sua disposição. Que tal um volante mais jovem do que um experiente? É uma opção pra conquistar o adversário. Custa nada tentar.

Do lado de lá a mocinha bonita não acredita na nova arrumação do adversário. Deve achar que é como o regime do gordo ou a maquiagem da feiosa. E como já foi citado acima, ninguém acredita muito que essas coisas vão dar certo. Porém é bom acreditar que o Leão, mesmo com a juba penteada, pode oferecer muito perigo.

Vamos torcer pra que, ao contrário dos frustrados citados no início, o Sport possa surpreender o Cruzeiro como surpreendemos a mocinha bonitinha chamada Palmeiras.



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