Tem gente que faz reza braba. Compra incenso. Mata até boi. Mas para a felicidade de toda a nação rubro-negra e de toda a nação bovina, o Sport resolveu espantar o fantasma do rebaixamento jogando bola. Talvez não por coincidência, um dos maiores responsáveis pela subida de produção no último jogo tem a maior cara de pai-de-santo. Baba Chola que se cuide. Carlitos Bala, ou melhor: Chico César de Ogum vem aí e o bicho vai pegar. Se bem que esse tal de bicho não pega é nada comparado ao que está pegando o Magrão.
O entrosamento do time tem méritos nessa reação. Se cada jogador já sabe onde está o companheiro dentro do campo, fora dele também. Por exemplo: domingo, Durval já sabia onde Everton estava. Assistindo uma coletânea de episódios do Padre Quevedo, claro. Assim como o resto do time. Só desse jeito pra terem aprendido a espantar o fantasma da segundona tão bem. Aliás, o Fantástico parece ser o programa preferido do Sport. Os Caçadores de Mito ensinaram, a gente aprendeu. Olha só quanto mito a gente desbancou:
Futebol é uma caixinha de surpresas.
Tá, e o monte de gente segurando aquelas plaquinhas de Eu já sabia no fim do jogo?
Quem não faz leva.
Inter 0 x 0 Sport. Preciso dizer mais alguma coisa?
Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
O cara que inventou essa frase não conhecia Magrão. Senão, teria dito Água mole em pedra dura, tanto bate até que desiste e se conforma em empatar dentro de casa.
Não sei se é por causa do Halloween se aproximando, mas a última semana foi repleta de mal-assombros. Primeiro foi essa história de fantasma do rebaixamento. Depois, decidiram desenterrar um assunto que já morreu faz tempo. Mais precisamente, há vinte anos, em 1987. Um tempo em que havia favorecimento aos times do eixo Rio-São Paulo. Um tempo em que a cartolagem rolava solta, beneficiando interesses escusos. Um tempo em que criaram um campeonato cheio de arbitrariedades, excluindo até o Vice-campeão do ano anterior. Um tempo que, pelo visto, não mudou muito. Na verdade, a única coisa que eles querem, de fato, mudar, é em benefício da covardia.
Futebol é decidido dentro do campo.. Taí um mito que nem o Padre Quevedo, nem os Caçadores de Mito conseguem acabar. O Flamengo fez jus ao seu maior símbolo da época, o Galinho de Quintino, e se comportou como uma galinha assustada. E covardia não vale prêmio em canto nenhum do mundo, quanto mais um título brasileiro. O time deles era melhor? E daí? O Brasil já perdeu dos Estados Unidos. Queria ver o Framengo ganhar da gente aqui dentro, com 50.000 vozes empurrando. Aliás, muita gente queria ver. O grito de torcida eu vim aqui só pra te ver foi calado, amordaçado pela insegurança e pela pequenez, ironicamente, do time de maior torcida do Brasil.
As regras do campeonato eram malucas? E daí? O Vasco podia muito bem ter se negado a jogar contra o São Caetano, em 2000. Que nada. Encabeçado (e que cabeça) por Juninho Pernambucano, foi lá e venceu com honras. Já vi o Sport vencer os três turnos do campeonato e ainda ser obrigado a jogar a final. Nem por isso, deixou de jogar. Então por que raios o Flamengo se achou no direito de burlar as regras? É aceitável sonegar imposto mesmo que a gente não saiba pra onde vai o dinheiro? É permitido estacionar em fila dupla mesmo que não tenha estacionamento? É correto fazer justiça com as próprias mãos? No meio de tantas dúvidas, só uma coisa é certa: O Sport Club do Recife é o Campeão Brasileiro de 1987.