Capítulo 08: A banda tocou e o Palestra ganhou

J.V.Ferraz
No capítulo anterior, Genaro havia fugido do castigo imposto por sua mamma para presenciar a vitória do Palestra na Seletiva para o Campeonato Mineiro de 1921.
Ufa! Naquele dia fui dormir feliz. Mesmo escondido e disfarçado com o uniforme da escola de meu irmão consegui ver a vitória do Palestra. A mamma ficou ressabiada comigo principalmente por causa do uniforme. Ela nunca deixava de lavá-lo.
No outro dia desci cedo para tomar o café. Na cozinha a mamma pensava alto:
- Porca miséria! Io lavei questa camisa! Isso é coisa do Genaro!
- Bom dia mamma!
- Caiu da cama Genaro?
- Não mamma! Apenas vou mais cedo para a escola.
- Você? Cedo para a escola? Tá com febre? Deixa eu ver
- Não mamma! É que a professora vai entregar a prova de matemática.
- É melhor trazer uma boa nota para casa. Estou muito desconfiada que você saiu do castigo sem a minha ordem.
- Mas eu não fiz nada, mamma!
- Ah Genaro, se eu descobrir que foi ao jogo ontem, o senhor nunca mais verá uma partida de futebol e ainda vai ficar ajoelhado no milho.
- Ih Mamma! Ciao! Você viu que dormi cedo ontem.
Tratei de pegar meus livros e sair rápido para a escola. Se eu ficasse mais cinco minutos ali, a mamma descobriria a minha arte. O jeito era receber uma boa nota na prova. Quem sabe assim eu sairia do castigo? Tudo por causa do maledetto do Manoel. Aliás, ele sumiu. Por onde andaria? E as minhas bolinhas de gude? Bom, isso vou resolver depois. Eu queria mesmo era arrumar um jeito de assistir a classificação do Palestra para disputar o Campeonato da Cidade. Ô castigo que não termina! Porca miséria!
Cheguei na escola e o tempo custou a passar. A aula de matemática era apenas no terceiro horário e até lá tinha que encarar uma de geografia e outra de educação religiosa. De quebra, o recreio. Ai ai…
Finalmente chegou o intervalo. Ao sair da sala encontrei com o Augusto, outro amigo palestrino, que foi logo puxando conversa:
- Genaro! A professora de matemática disse que a sua sala teve as piores notas nas provas.
- No credo! Tomara que eu tenha tirado pelo menos a média. A mamma não abre mão do castigo de jeito nenhum.
- Tomara que você consiga. Quem sabe ela deixa você ir ao jogo? Você sabe quem será o adversário do Palestra na decisão?
- Não. E você?
- Eu sei!
- Quem é caspita? Fala logo!
- Meu pai esteve com o Seu Aurélio ontem à noite e ele disse que será o Palmeiras.
- Puxa! Será que o time deles é forte?
- Pior que não sei.
- Não posso perder essa partita por nada!
- Então trate de tirar uma boa nota na prova de matemática. Boa sorte.
Na volta para a sala, eu suava frio. As mãos estavam geladas e eu só pensava na nota da prova. Mas antes ouviria um grande sermão da Dona Úrsula, a professora de matemática. Ela xingava demais quando as notas eram ruins.
Dito e feito! A professora falou quase meia hora e, a cada nota baixa que ela entregava, era mais um sermão. O tempo foi passando e nada da minha prova. Até que a voz daquela senhora soou como um estrondo:
- Genaro! Venha cá buscar a sua prova!
Já convencido de que a nota não seria das melhores e esperando pelo pior, caminhei de cabeça baixa rumo a mesa da professora. De repente ela começou:
- Parabéns menino! Finalmente alguém tirou uma nota boa!
- Quem? Eu? No credo!
- Sim, você. Sua nota é 8,5.
- Prego!
Comemorei a nota como se fosse um golaço do Palestra e, com a prova em mãos, senti um alívio e fiquei mais forte para “negociar” o fim do castigo com a Dona Lina. Voltei correndo para a casa para contar a grande conquista para a mamma. Entrei, bati o portão, e fui direto para a cozinha.
- Mamma! Mamma!
- Para de correr menino!
- Mamma! Fui bem na prova! Tirei 8,5!
- Parabeni! Mas não fez mais do que obrigação!
- Puxa vida mamma! Pensei que você ficaria mais feliz.
- Fiquei. Ainda mais com uma nota dessas em matemática.
- Então, posso ir no jogo do Palestra?
- Ô bambino atrevido! Uma boa nota não significa o fim do castigo. Impossibile!
- Mas mamma!
- Nem mais nem menos. Domani (amanhã) faremos um belo passeio, mas não vamos ao futebol. Nem mais um pio Genaro!
O coração da Dona Lina era duro e não amoleceu com a minha boa nota. Agora tinha essa história de passeio e justamente no dia do jogo do Palestra contra o Palmeiras. Aposto que iríamos na casa da Tia Rosa ou em alguma praça da cidade ou até mesmo no Parque Municipal. E agora? O que fazer? Preciso pensar rápido. O jogo é amanhã e eu não posso perder. Muito menos passear na cidade enquanto o Palestra joga a classificação no Prado.
No outro dia, antes das sete da manhã, meu pai bateu na porta do quarto dando a ordem:
- Genaro! Levanta! Anda Logo! Capisce? Porca miséria! Oggi, feriado, dia de jogo do Palestra e sua mãe querendo passear. Ela tá loca! Resmungou Enrico.
- É pappa, o senhor pelo menos vai ao jogo. E io?
- Ainda de castigo?
- Sim pappa.
- Vista a sua roupa e vamos sair. Quem sabe a gente consegue convencer a velha turrona?
- O senhor me ajuda pappa?
- Claro! Tudo pelo Palestra, lembra? Arrume logo! Sua mãe está quase tendo um ataque.
Quando apareci na sala encontrei a mamma com cara de poucos amigos e com uma cesta de comida nas mãos.
- Finalmente Genaro! Quanta demora! Até seus irmãos estão lá fora.
- Não vou! Não quero ir! Vou ficar!
- Ah vai! Impossibile! Anda logo! Não vou deixar você aqui em casa sozinho.
- Onde vamos?
- Primeiro na Igreja e depois na Praça da Liberdade.
- Ah não, Mamma!
- Anda logo menino! Caspita!
Na porta de casa encontrei meus pais e meus irmãos, todos emburrados. Já a minha mamma esbanjava alegria.
- Ah! Finalmente um passeio em família!
- Mas tinha que ser justamente no dia do jogo do Palestra, Lina! Reclamou meu pai.
- Não discuta comigo Enrico, capisce?
Depois disso o silêncio imperou entre os membros da família. Como programado fomos a Igreja e depois tomamos o caminho da Praça da Liberdade. Quando nos aproximamos da praça escutei uma música.
- Pappa! Está ouvindo?
- Sim Genaro! É uma banda de música! Devem estar tocando lá no coreto.
- Pappa! Descobri o jeito de ir ao jogo hoje! Mamma! Mamma!
- O que foi Genaro?
- Vamos ver a banda tocar? Venha comigo!
- Mas filho? E a cesta?
- Deixe com o papai, ele arruma o lanche.
Eu e a mamma fomos até o coreto onde uma banda com dez músicos tocava diversas músicas sob o comando de um maestro frenético. Ele não parava nenhum minuto de reger e brincar com as pessoas. Empolgado, dancei e brinquei com a mamma. O sorriso no rosto dela valia qualquer coisa.
No momento em que o maestro anunciou o intervalo, foi a deixa para colocar o meu plano em prática.
- Vamos lá mamma! Vamos cumprimentar o maestro. Gostei muito da empolgação dele!
- Que isso menino! Ficou doido? O homem está trabalhando!
- Não mamma! Agora ele está no intervalo. Ei senhor!?
- O que foi bambino? Respondeu o maestro
- Gostei da sua banda! Parabéns pela música!
-Grazie! Qual o seu nome?
- O senhor é italiano? Pra falar assim só sendo italiano. E o meu nome é Genaro. Essa aqui é a minha mamma, a Dona Lina.
O maestro deu uma grande gargalhada e respondeu.
- Io sou de Bari e meu nome é Domênico. Acabei de chegar em Belo Horizonte.
- Nossa! Eu e minha família também somos do sul da Itália.
Enquanto conversávamos meu pai se aproximou tentando entender a minha euforia ao lado do maestro.
- Pappa! Esse é o Domênico, o maestro da banda. Ele é de Bari.
- Amigo! Seja bem vindo a cidade. Vocês gostarão muito daqui! Afirmou meu pai ao novo amigo.
- O senhor gosta de futebol? Perguntei.
- Calccio?
- Sim! Calccio!
- Eu amo Calccio!
- Puxa! Hoje tem jogo do Palestra Itália! Bem que o senhore poderia nos acompanhar ao estádio! Quem sabe levaria a banda para tocar lá? O que você acha mamma!?
- Esse é o time da colônia igual o de São Paulo? Perguntou o maestro Domênico.
- É sim!
-Mamma mia! Eu e a banda vamos. Quero fazer muito barulho! Vivia La Squadra!! Mas como faço para chegar ao estádio.
- Eu posso te levar até o Prado. Respondi mais do que de pressa.
- Mas Genaro! Você está de castigo esqueceu? Lembrou a mamma.
- Não, Mamma! Não esqueci. Mas alguém precisa levar o seu Domenico até o estádio.
- Eu vou com eles! Gritou Enrico.
- Vocês dois me pagam! Genaro, o castigo não acabou, afirmou a Dona Lina contrariada.
- Imagina só, Lina! A ideia do Genaro é ótima. Levar uma banda para o estádio vai aumentar ainda mais o barulho que a nossa torcida faz! Imagina a cabeça dos adversários.
- Tá certo. Dessa vez é tudo pelo Palestra! Até passar por cima do castigo.
- Viva a mamma! Gritei.
- Vivaaaaa! Todos responderam.
- Ô Enrico, que horas começará a giornata sportiva? Perguntou Domênico.
- As três da tarde! Me adiantei.
- Dio mio! Tenho que tocar até as 14h30? Dá tempo?
- Dá sim! A gente chega um pouco atrasado.
- Bom, já que todos vão ao jogo, vou pra lá mais cedo. O passeio foi por água abaixo e o negócio é vender os meus quitutes. O movimento vai ser bom.
- Addio, mamma! Grazie! Vou com eles e nos encontraremos lá.
- Cuidado em Genaro!
Na hora marcada Seu Domenico encerrou a apresentação e saímos em disparada em para o Prado.
- Corre, gente! Gritava meu pai.
Chegamos quase no meio do primeiro tempo e as notícias não eram boas. Encontramos minha mãe na barraca e logo ela deu o resultado:
- Xi gente! Hoje tá dificil. O Palestra perde por um a zero e o time deles joga melhor até agora. A boa notícia é que o campo está lotado e a banda só poderá ficar atrás do gol. O que acham?
- Mamma! A senhora é demais! Deu uma grande ideia!
- Pappa, Seu Domenico! Vamos ficar atrás do gol do Palmeiras? Quando o Palestra estiver no ataque o seu Domenico coloca a banda pra tocar a todo o vapor! O que acham?
- Ótimo! Vamos até lá! Só que ali a visão não é muito boa. Afirmou meu pai.
- Pappa vamos para lá! O Palestra está perdendo. Precisamos fazer barulho. Tudo pelo Palestra esqueceu?
- Não bambino! Não esqueci. Vamos para lá.
Ninguém entendeu quando os músicos montaram os instrumentos e se colocaram atrás do gol. Até o goleiro do Palmeiras olhou sem conseguir decifrar o que se passava atrás da sua meta.
Quando a banda ficou apostos, o Palestra conseguiu um escanteio pelo lado direito. O jogador ajeitou a bola e bateu para a área. Assim que a bola começou a subir em direção a área, o maestro Domenico deu o comando e a banda tocou o mais forte que podia. Resultado: o goleiro se assustou e soltou a bola nos pés do atacante palestrino que tocou para o fundo das redes.
Gol do Palestra! Era o empate. O gol incendiou as arquibancadas e contagiou a banda que passou a tocar ainda mais forte as músicas alegres e festivas, todas italianas. Do outro lado, o Palmeiras ficou perdido em campo. O goleiro dava rebotes em todas as bolas. Aí ficou fácil para os palestrinos que fizeram o segundo, o terceiro e fecharam o placar com mais um gol. Final: 4 a 1 para o Palestra e a vaga garantida para o Campeonato da Cidade.
A banda tocou durante toda a noite para a alegria de toda a colônia que se reuniu nas ruas do Barro Preto. O maestro Domenico, emocionado, não parava de chorar.
- Bambino! Esse foi o dia mais feliz da minha vida. Reuni minhas duas paixões: a banda e o futebol. Grazie! Grazie! Nunca mais sairei de Belo Horizonte. O Palestra agora é minha casa! Viva o Paleeeeeeeeeeeeeeeeeeestra! Gritou o Maestro.
Ao nosso lado apareceu meu pai e o Senhor Aurélio.
- Bambino! Grazie! Você levou a banda para trás do gol e conseguimos a vitória. Seu pai me contou tudo. Afirmou o presidente.
- Agora é disputar o Campeonato! Força PALEEEEEESTRA! Gritou o maestro Domenico.
- Paleeeeeeeestra
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Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais.
Escrita por Cláudio Guimarães, jornalista e cruzeirense apaxionado.
Idealizada por Cláudio Guimarães e P.C.Almeida.
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Subtópico: Amistoso confirmado.
O Gerente de futebol, Eduardo Maluf, confirmou ontem que será dia 17 de março o amistoso entre Cruzeiro e África do Sul. Horário e esquema de ingressos ainda serão definidos.
Para mais informações, siga-me no Twitter: http://twitter.com/PCAlmeida
Saudações Celestes!!!

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Placar elástico: 3 a 1 e a festa garantida. Esqueci o amigo da onça lá de baixo e passei a reger a galera. Primeiro foi Olllêeeeeeeeeeeeeeeee Marqueeeeeeees! Depois gritamos o nome do Obina e, em um final apoteótico, Ah! É Luxemburgoooooo! Eu e a torcida conseguimos mexer com o brio do consagrado. Enquanto eu comemorava, meu neto gritava:
















