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Capítulo 08: A banda tocou e o Palestra ganhou

sex, 05/03/10
por pcalmeida |

J.V.Ferraz

J.V.Ferraz

No capítulo anterior, Genaro havia fugido do castigo imposto por sua mamma para presenciar a vitória do Palestra na Seletiva para o Campeonato Mineiro de 1921.

Ufa! Naquele dia fui dormir feliz. Mesmo escondido e disfarçado com o uniforme da escola de meu irmão consegui ver a vitória do Palestra. A mamma ficou ressabiada comigo principalmente por causa do uniforme. Ela nunca deixava de lavá-lo.

No outro dia desci cedo para tomar o café. Na cozinha a mamma pensava alto:

- Porca miséria! Io lavei questa camisa! Isso é coisa do Genaro!

- Bom dia mamma!

- Caiu da cama Genaro?

- Não mamma! Apenas vou mais cedo para a escola.

- Você? Cedo para a escola? Tá com febre? Deixa eu ver

- Não mamma! É que a professora vai entregar a prova de matemática.

- É melhor trazer uma boa nota para casa. Estou muito desconfiada que você saiu do castigo sem a minha ordem.

- Mas eu não fiz nada, mamma!

- Ah Genaro, se eu descobrir que foi ao jogo ontem, o senhor nunca mais verá uma partida de futebol e ainda vai ficar ajoelhado no milho.

- Ih Mamma! Ciao! Você viu que dormi cedo ontem.

Tratei de pegar meus livros e sair rápido para a escola. Se eu ficasse mais cinco minutos ali, a mamma descobriria a minha arte. O jeito era receber uma boa nota na prova. Quem sabe assim eu sairia do castigo? Tudo por causa do maledetto do Manoel. Aliás, ele sumiu. Por onde andaria? E as minhas bolinhas de gude? Bom, isso vou resolver depois. Eu queria mesmo era arrumar um jeito de assistir a classificação do Palestra para disputar o Campeonato da Cidade. Ô castigo que não termina! Porca miséria!

Cheguei na escola e o tempo custou a passar. A aula de matemática era apenas no terceiro horário e até lá tinha que encarar uma de geografia e outra de educação religiosa. De quebra, o recreio. Ai ai…

Finalmente chegou o intervalo. Ao sair da sala encontrei com o Augusto, outro amigo palestrino, que foi logo puxando conversa:

- Genaro! A professora de matemática disse que a sua sala teve as piores notas nas provas.

- No credo! Tomara que eu tenha tirado pelo menos a média. A mamma não abre mão do castigo de jeito nenhum.

- Tomara que você consiga. Quem sabe ela deixa você ir ao jogo? Você sabe quem será o adversário do Palestra na decisão?

- Não. E você?

- Eu sei!

- Quem é caspita? Fala logo!

- Meu pai esteve com o Seu Aurélio ontem à noite e ele disse que será o Palmeiras.

- Puxa! Será que o time deles é forte?

- Pior que não sei.

- Não posso perder essa partita por nada!

- Então trate de tirar uma boa nota na prova de matemática. Boa sorte.

Na volta para a sala, eu suava frio. As mãos estavam geladas e eu só pensava na nota da prova. Mas antes ouviria um grande sermão da Dona Úrsula, a professora de matemática. Ela xingava demais quando as notas eram ruins.

Dito e feito! A professora falou quase meia hora e, a cada nota baixa que ela entregava, era mais um sermão. O tempo foi passando e nada da minha prova. Até que a voz daquela senhora soou como um estrondo:

- Genaro! Venha cá buscar a sua prova!

Já convencido de que a nota não seria das melhores e esperando pelo pior, caminhei de cabeça baixa rumo a mesa da professora. De repente ela começou:

- Parabéns menino! Finalmente alguém tirou uma nota boa!

- Quem? Eu? No credo!

- Sim, você. Sua nota é 8,5.

- Prego!

Comemorei a nota como se fosse um golaço do Palestra e, com a prova em mãos, senti um alívio e fiquei mais forte para “negociar” o fim do castigo com a Dona Lina. Voltei correndo para a casa para contar a grande conquista para a mamma. Entrei, bati o portão, e fui direto para a cozinha.

- Mamma!  Mamma!

- Para de correr menino!

- Mamma! Fui bem na prova! Tirei 8,5!

- Parabeni! Mas não fez mais do que obrigação!

- Puxa vida mamma! Pensei que você ficaria mais feliz.

- Fiquei. Ainda mais com uma nota dessas em matemática.

- Então, posso ir no jogo do Palestra?

- Ô bambino atrevido! Uma boa nota não significa o fim do castigo. Impossibile!

- Mas mamma!

- Nem mais nem menos. Domani (amanhã) faremos um belo passeio, mas não vamos ao futebol. Nem mais um pio Genaro!

O coração da Dona Lina era duro e não amoleceu com a minha boa nota. Agora tinha essa história de passeio e justamente no dia do jogo do Palestra contra o Palmeiras. Aposto que iríamos na casa da Tia Rosa ou em alguma praça da cidade ou até mesmo no Parque Municipal.  E agora? O que fazer? Preciso pensar rápido. O jogo é amanhã e eu não posso perder. Muito menos passear na cidade enquanto o Palestra joga a classificação no Prado.

No outro dia, antes das sete da manhã, meu pai bateu na porta do quarto dando a ordem:

- Genaro! Levanta! Anda Logo! Capisce? Porca miséria! Oggi, feriado, dia de jogo do Palestra e sua mãe querendo passear. Ela tá loca! Resmungou Enrico.

- É pappa, o senhor pelo menos vai ao jogo. E io?

- Ainda de castigo?

- Sim pappa.

- Vista a sua roupa e vamos sair. Quem sabe a gente consegue convencer a velha turrona?

- O senhor me ajuda pappa?

- Claro! Tudo pelo Palestra, lembra? Arrume logo! Sua mãe está quase tendo um ataque.

Quando apareci na sala encontrei a mamma com cara de poucos amigos e com uma cesta de comida nas mãos.

­- Finalmente Genaro! Quanta demora! Até seus irmãos estão lá fora.

- Não vou! Não quero ir! Vou ficar!

- Ah vai! Impossibile! Anda logo! Não vou deixar você aqui em casa sozinho.

- Onde vamos?

- Primeiro na Igreja e depois na Praça da Liberdade.

- Ah não, Mamma!

- Anda logo menino! Caspita!

Na porta de casa encontrei meus pais e meus irmãos, todos emburrados. Já a minha mamma esbanjava alegria.

- Ah! Finalmente um passeio em família!

- Mas tinha que ser justamente no dia do jogo do Palestra, Lina! Reclamou meu pai.

- Não discuta comigo Enrico, capisce?

CoretoDepois disso o silêncio imperou entre os membros da família. Como programado fomos a Igreja e depois tomamos o caminho da Praça da Liberdade. Quando nos aproximamos da praça escutei uma música.

- Pappa! Está ouvindo?

- Sim Genaro! É uma banda de música! Devem estar tocando lá no coreto.

- Pappa! Descobri o jeito de ir ao jogo hoje! Mamma! Mamma!

- O que foi Genaro?

- Vamos ver a banda tocar? Venha comigo!

- Mas filho? E a cesta?

- Deixe com o papai, ele arruma o lanche.

Eu e a mamma fomos até o coreto onde uma banda com dez músicos tocava diversas músicas sob o comando de um maestro frenético. Ele não parava nenhum minuto de reger e brincar com as pessoas. Empolgado, dancei e brinquei com a mamma. O sorriso no rosto dela valia qualquer coisa.

No momento em que o maestro anunciou o intervalo, foi a deixa para colocar o meu plano em prática.

- Vamos lá mamma! Vamos cumprimentar o maestro. Gostei muito da empolgação dele!

- Que isso menino! Ficou doido? O homem está trabalhando!

- Não mamma! Agora ele está no intervalo. Ei senhor!?

- O que foi bambino? Respondeu o maestro

- Gostei da sua banda! Parabéns pela música!

-Grazie! Qual o seu nome?

- O senhor é italiano? Pra falar assim só sendo italiano. E o meu nome é Genaro. Essa aqui é a minha mamma, a Dona Lina.

O maestro deu uma grande gargalhada e respondeu.

- Io sou de Bari e meu nome é Domênico. Acabei de chegar em Belo Horizonte.

- Nossa!  Eu e minha família também somos do sul da Itália.

Enquanto conversávamos meu pai se aproximou tentando entender a minha euforia ao lado do maestro.

- Pappa! Esse é o Domênico, o maestro da banda. Ele é de Bari.

- Amigo! Seja bem vindo a cidade. Vocês gostarão muito daqui! Afirmou meu pai ao novo amigo.

- O senhor gosta de futebol? Perguntei.

- Calccio?

- Sim! Calccio!

- Eu amo Calccio!

- Puxa! Hoje tem jogo do Palestra Itália! Bem que o senhore poderia nos acompanhar ao estádio! Quem sabe levaria a banda para tocar lá? O que você acha mamma!?

- Esse é o time da colônia igual o de São Paulo? Perguntou o maestro Domênico.

- É sim!

-Mamma mia! Eu e a banda vamos. Quero fazer muito barulho! Vivia La Squadra!! Mas como faço para chegar ao estádio.

- Eu posso te levar até o Prado. Respondi mais do que de pressa.

- Mas Genaro! Você está de castigo esqueceu? Lembrou a mamma.

- Não, Mamma! Não esqueci. Mas alguém precisa levar o seu Domenico até o estádio.

- Eu vou com eles! Gritou Enrico.

- Vocês dois me pagam! Genaro, o castigo não acabou, afirmou a Dona Lina contrariada.

- Imagina só, Lina! A ideia do Genaro é ótima. Levar uma banda para o estádio vai aumentar ainda mais o barulho que a nossa torcida faz! Imagina a cabeça dos adversários.

- Tá certo. Dessa vez é tudo pelo Palestra! Até passar por cima do castigo.

- Viva a mamma! Gritei.

- Vivaaaaa! Todos responderam.

- Ô Enrico, que horas começará a giornata sportiva? Perguntou Domênico.

- As três da tarde! Me adiantei.

- Dio mio! Tenho que tocar até as 14h30? Dá tempo?

- Dá sim! A gente chega um pouco atrasado.

- Bom, já que todos vão ao jogo, vou pra lá mais cedo. O passeio foi por água abaixo e o negócio é vender os meus quitutes. O movimento vai ser bom.

- Addio, mamma! Grazie! Vou com eles e nos encontraremos lá.

- Cuidado em Genaro!

Na hora marcada Seu Domenico encerrou a apresentação e saímos em disparada em para o Prado.

- Corre, gente! Gritava meu pai.

Chegamos quase no meio do primeiro tempo e as notícias não eram boas. Encontramos minha mãe na barraca e logo ela deu o resultado:

- Xi gente! Hoje tá dificil. O Palestra perde por um a zero e o time deles joga melhor até agora. A boa notícia é que o campo está lotado e a banda só poderá ficar atrás do gol. O que acham?

- Mamma! A senhora é demais! Deu uma grande ideia!

- Pappa, Seu Domenico! Vamos ficar atrás do gol do Palmeiras? Quando o Palestra estiver no ataque o seu Domenico coloca a banda pra tocar a todo o vapor! O que acham?

- Ótimo! Vamos até lá! Só que ali a visão não é muito boa. Afirmou meu pai.

- Pappa vamos para lá! O Palestra está perdendo. Precisamos fazer barulho. Tudo pelo Palestra esqueceu?

- Não bambino! Não esqueci. Vamos para lá.

Ninguém entendeu quando os músicos montaram os instrumentos e se colocaram atrás do gol. Até o goleiro do Palmeiras olhou sem conseguir decifrar o que se passava atrás da sua meta.

Quando a banda ficou apostos, o Palestra conseguiu um escanteio pelo lado direito. O jogador ajeitou a bola e bateu para a área. Assim que a bola começou a subir em direção a área, o maestro Domenico deu o comando e a banda tocou o mais forte que podia. Resultado: o goleiro se assustou e soltou a bola nos pés do atacante palestrino que tocou para o fundo das redes.

Gol do Palestra! Era o empate. O gol incendiou as arquibancadas e contagiou a banda que passou a tocar ainda mais forte as músicas alegres e festivas, todas italianas.  Do outro lado, o Palmeiras ficou perdido em campo. O goleiro dava rebotes em todas as bolas. Aí ficou fácil para os palestrinos que fizeram o segundo, o terceiro e fecharam o placar com mais um gol. Final: 4 a 1 para o Palestra e a vaga garantida para o Campeonato da Cidade.

A banda tocou durante toda a noite para a alegria de toda a colônia que se reuniu nas ruas do Barro Preto. O maestro Domenico, emocionado, não parava de chorar.

- Bambino! Esse foi o dia mais feliz da minha vida. Reuni minhas duas paixões: a banda e o futebol. Grazie! Grazie! Nunca mais sairei de Belo Horizonte. O Palestra agora é minha casa! Viva o Paleeeeeeeeeeeeeeeeeeestra! Gritou o Maestro.

Ao nosso lado apareceu meu pai e o Senhor Aurélio.

- Bambino! Grazie! Você levou a banda para trás do gol e conseguimos a vitória. Seu pai me contou tudo. Afirmou o presidente.

- Agora é disputar o Campeonato! Força PALEEEEEESTRA! Gritou o maestro Domenico.

- Paleeeeeeeestra

-***-

Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais.

Escrita por Cláudio Guimarães, jornalista e cruzeirense apaxionado.

Idealizada por Cláudio Guimarães e P.C.Almeida.

Siga o colunista no Twitter: http://twitter.com/ClaudioErnani

-***-

Subtópico: Amistoso confirmado.

O Gerente de futebol, Eduardo Maluf, confirmou ontem que será dia 17 de março o amistoso entre Cruzeiro e África do Sul. Horário e esquema de ingressos ainda serão definidos.

Para mais informações, siga-me no Twitter: http://twitter.com/PCAlmeida

Saudações Celestes!!!

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Capítulo especial: Genaro no clássico: Show do Roger e do coroinha

seg, 22/02/10
por pcalmeida |

J.V.Ferraz

J.V.Ferraz

Como bom italiano, teimoso e cabeça dura, do alto dos meus 100 anos,  resolvi fazer uma estripulia daquelas neste sábado. Ao lado do meu neto Eduardo saí dizendo que faria um breve passeio pela Praça da Liberdade e tomei o rumo do Mineirão. Que ninguém nos ouça, mas era dia de Cruzeiro e Atlético. Vi o primeiro lá pelos idos de 1921 e por que não presenciar a última edição?

Ainda mais que vi nessa tal de internet, ô negocinho que ainda não consigo entender direito,  que era para levar uma flanelinha para o jogo. Não poderia perder essa oportunidade. Custei para encontrar a minha. Deu um trabalhão entrar no quartinho de limpeza de casa sem chamar a atenção da empregada centralizadora que toma conta de tudo, até dos meus remédios, parece uma ditadora, aquela megera.

No Mineirão, vi que o negócio chamado de “flanelation” era sério. Tinha os paninhos laranja por todos os lados. Desde a Avenida Catalão até no estacionamento todo mundo tinha uma na mão.

Meu neto deixou o carro próximo ao portão 6 do estádio. Graças a Deus tive a oportunidade de passar pela torcida estrelada e ver o quanto o nosso torcedor ama, incondicionalmente, esse time.

Não é necessário colocar o ingresso a preço de banana para que a torcida lote a sua parte do estádio.  Mesmo sabendo que quarta-feira o jogo é contra o Colo Colo, pela Libertadores, e vale muito mais do que um mero joguinho pelo Campeonato Mineiro, o cruzeirense  lotou o Mineirão. Mais uma vez,  para desespero de quem precisa pagar R$ 2,oo para fazer barulho.

Ingresso na mão, chegou a hora de reencontrar com o meu lugar predileto nesta cidade: o Mineirão. Mamma Mia! Como estar aqui é especial para mim! Eu que vi o bambino Tostão, o mestre Evaldo, o Nelinho, Ronaldinho, Douglas, Alex e muitos outros, agora era hora de ver o time do xerife Adilson.

Entrei pelo portão 02, aquele das cadeiras inferiores. Não é o melhor lugar do estádio, mas por superstição, é o local onde deveria ficar, especificamente logo nas primeiras cadeiras bem perto da geral. Gostava dali pela proximidade do túnel e por ter a sensação de o treinador escutar as minhas cornetadas.

Pouco antes do jogo começar, vi o tal de Luxa subir o túnel que era tradicionalmente ocupado pelo  Cruzeiro. Chamei o meu neto que estava conversando com uma turma e perguntei:

- O Eduardo! O que esse caspita está fazendo aqui?

- Xi vovô agora é assim. Eles querem porque querem esse túnel.

Porca miséria! Quer dizer então que o Adilson ficará lá do outro lado?

- Sim!

-Isso não vai ficar assim! Tenho 100 anos, mas hoje vou pensar que tenho 11. Coitado desse maledeto.

- Lá vem o senhor, o que vai aprontar dessa vez?

- Espere e verá.

O jogo começou e o Cruzeiro tomou conta das ações desde o início. O engraçado é que, antigamente, o rival não esperava que o Cruzeiro atacasse para depois partir no contra-ataque. Vi muitos clássicos que o duelo era de igual para igual. Nenhum dos dois times ficava entocaiado em seu campo esperando o adversário.

Pois nesta partita foi assim. O Cruzeiro jogando em busca do gol e o adversário se defendendo com duas linhas de quatro.  Se não me falha a memória. Esse é um esquema que o Cruzeiro tem um pouco de dificuldades para vencer.

Mas a chave da vitória era a paciência, ou melhor, a falta dela. Foi aí que me lembrei que o Luxa estava ali embaixo, a menos de 50 metros de distância!

-  O Vanderlei! Vandeeeerllei! Gritei.

Nisso meu neto olhou pra mim.

- Tá na hora de começar né vovô?

- Como você sabe?

- Ô Vanderleeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei!

- Custou hein! Tá surdo?

Ele não respondeu. Daí continuei

- Vanderleeeeeeeeeeeeeeeeeeei! Tá um calorão hein? Não vai tirar o Armani? Vai derreter ai!

A reação foi imediata. Ele olhou para as cadeiras novamente e eu mostrei a flanela pra ele. Luxa estava com cara de poucos amigos e ficaria ainda mais porquê a nossa história estava apenas no início.

Logo em seguida,  o Fábio saiu mal do gol e o tal de Tardelli deu um chutão pra cima. A bola, por uma milagre, entraria, e não é que o Leonardo Silva meteu o pezão 43 dele e desviou! O caminho estava aberto, depois dessa o jogo era nosso. Não tinha escapatória. Mas o Luxa, coitado, foi enganado pelo destino e olhou para a minha direção com um sorrisinho sarcástico.

Ah maledetto! Ainda bem que não entrou. Você não perde por esperar. Foi aí que o Cruzeiro conseguiu um escanteio. Com certeza, o Adilson falou para o Gilberto para jogar a bola bem no meio da área.

Dito e feito! Bola na área, toque do Gil, bola desviada pelo Leandro e gooooooooooooool.  O Cruzeiro abriu o marcador, a torcida abriu as flanelas para comemorar e agradecer pelos serviços prestados pela concorrência em 2009. Essa foi a senha para mais uma carga sobre o combalido treinador adversário:

- E agora maledetto? Olha pra cá! Perdendo e com esse calorão você vai tirar a gravatinha né? Deixa de ser covarde e bota seu time para jogar.

Luxa olhou, pensou. Dois minutos depois parecia uma galinha choca gesticulando na frente do túnel. Nossa! Era uma infindável  coleção de gestos e de instruções táticas que deixou até o bandeirinha meio confuso. Ficou meio tonto mesmo!

Acho, na verdade, que aquela gesticulação toda era para tirar a atenção do bandeirinha.  Olha que o Luxa conseguiu, quando o Atlético chegou ao empate, o assistente simplesmente não viu que o tal Tardelli, que eles querem na seleção, não vou rir aqui para não  dizerem que não sou imparcial, estava em impedimento no momento em que o zagueirão tocou no contra-pé do Fábio empatando a partita.

- O Luxa! Para de se mexer ai. O bandeirinha não agüenta mais tanto frenezi.

Mais uma vez a resposta foi um sorrisinho sarcástico.

- Já descobri porquê você queria tanto este túnel. Para  com isso maledetto! Parece que está dançando o rebolation, credo!

Nisso terminou o primeiro tempo. Empate até que justo pelas condições.  Fui tomar um ar nos corredores das cadeiras e,  na volta, passei próximo a tribuna e pude ver algumas camisas listradas em vermelho e branco na torcida adversária.  Não agüentei a curiosidade e perguntei.

- O Eduardo que diabo de camisa é aquela vermelha e branca? A Torcida do Villa uniu com a destes maledettos?

- Que nada Vovô. Lembra do Estudiantes?

-Porca miséria! Não me lembre disso! Tem hora que eu perco a memória.

- Pois é essas são camisas do time que eles torcem na Argentina.

- No credo! Quer dizer que eles usam isso aqui?

- Isso e muito mais vovô! Você ainda não viu nenhuma do Borussia não? Sem contar que a moda agora é a do Velez.

- Do Velez? Com aquele V gigantesco na frente?

-Isso mesmo!

No credo! A que ponto chegaram.

- E tem mais!

- Mais? Que isso meu neto!?

- Tá vendo como tá vazio o lado deles?

- Sim. Antigamente eles lotavam tudo. Era um Deus nos acuda o descontrole.

-Pois é vovô. Hoje o jogo deles só lota com ingresso a R$ 2,00. Aumentou, eles reclamam.

Nisso eu estava perfeitamente acomodado para assistir o segundo tempo e ainda tive o prazer de ver o Luxa me procurando nas cadeiras. Os olhos dele só diziam uma coisa: vou calar a boca deste velhote.

A situação piorou um pouquinho quando o tal de Tardelli, aquele mesmo, o da Seleção,  cracaço, fez um gol que o juiz anulou. Eu e o bandeirinha  vimos o impedimento. O Luxa não.

- Você viu aquilo? O juiz marcou impedimento! Enlouqueceu?!

- Que nada Luxa! O bandeirinha é bom pra caramba. Para de chorar!

- Não to chorando não!  Fui roubado! Isso é roubo!

- Luuuuuuuuuuuuuuuuuuuxa? O Luxa? Põe o Obina! Tá me ouvindo? Mas tira um homem do meio.

O treineiro olhou para trás novamente e dessa vez não fez nada. Deve ter pensado: “O velhinho tá certo.  Meu time ‘gostou do jogo’ estamos melhores, vou ganhar”.

- Obina! Ô Obina! Vem cá meu filho!

A massa gostou. Bateu palma até. Cantou musiquinha e tudo mais.

- Que isso vovô? Tá dando o caminho das pedras aí pro cara? Perguntou o Eduardo.

- Não, meu neto. Olha lá a nossa raposa astuta. Vai colocar o Roger. Enquanto eles colocam força a gente acrescenta qualidade. Quer ver o resultado?

No primeiro lance em campo, Roger lançou Thiago Ribeiro que fuzilou de primeira e quase fez um golaço. Já o Obina levou todo mundo na força e agradou o treinador. Aproveitando a empolgação do momento  gritei de novo.

- O Luxa! Luuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuxa! Que tal o Marques? Abra o time! Que tal quatro atacantes?

Antes de Luxemburgo promover uma revolução em campo que, se desse resultado, ele se auto intitularia o melhor do mundo, Roger bateu um certo escanteio pela esquerda do ataque celeste. Leonardo Silva, bem colocado, fuzilou de cabeça  e….

- GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL

O capitão colou o Cruzeiro na frente para o desespero do engomadinho. Em seguida, falei para o Eduardo:

- Ta na hora de provocar!

- Só você mesmo vô! Cuidado com o coração hein!

- Não se preocupe voltei aos meus onze anos agora. Paleeeeeestra! Zeroooooooo!

De pé, em cima da minha cadeira, gritei:

- Luuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuxa! Bota o Marques!

Eram 37 do segundo tempo  e ele colocou.

- Vai lá garotooooooo!

Mas não deu nem tempo. O Roger, raposão, pegou uma bola na intermediária, driblou o adversário e fuzilou o goleiro listrado que, estava adiantado. Resultado:

- GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOL!!!! Com direito a se vestir de raposão e tudo mais.

- E agora Luxa? Toooooooooooooooooomaaaaaa!

CruxGayloPlacar elástico: 3 a 1 e a festa garantida. Esqueci o amigo da onça lá de baixo e passei a reger a galera. Primeiro foi Olllêeeeeeeeeeeeeeeee Marqueeeeeeees! Depois gritamos o nome do Obina e, em um final apoteótico,  Ah! É Luxemburgoooooo! Eu e a torcida conseguimos mexer com o brio do consagrado.  Enquanto eu comemorava, meu neto gritava:

- Olha lá vô! O maledetto apontou prá cá e deu uma banana!

- Xiii! Foi pra mim! Como nos velhos tempos! Descontrolei mais um! Dá próxima vez fica lá no seu tunelzinho e não escute o inimigo viu Luxinha!

Jogo terminado, mais uma vitória para a minha coleção, aliás e que coleção! Só com o Adilson no comando a 12ª. Quando cheguei em casa foi aquele interrogatório! Todos preocupados comigo. Até a caspita da empregada queria saber onde foi que eu me meti. Com a cara mais lavada do mundo respondi:

- Fui à missa. Estava rezando. Pagando os meus pecados, capisce? Não posso nem mais ir a Igreja porca miséria!

- Que bela missa em vovô! Completou Eduardo.

- É mesmo! Com direito a show do coroinha. Quando será a próxima?

- Em breve, vovô! Em breve!

–***–

Isto é uma obra de ficção baseada em fatos reais.

Escrita por Cláudio Guimarães, jornalista e Cruzeirense apaixonado.

Idealizada por Cláudio Guimarães e P.C.Almeida

–***–

Subtópico: Roupa nova.

Hoje foi lançada a nova linha de uniformes do Cruzeiro. Dentro dos padrões da Reebok, a camisa nova é bem próxima àquela apresentada aqui no Bloguerreiro há algumas semanas.

O único porém da camisa são as cores dos patrocinadores que fugiram completamente às tradições da sempre maravilhosa camisa estrelada. Se ao menos os valores fossem compensadores, mas nem tanto. Estima-se que o patrocínio da camisa e da manga rendam, juntos, ao clube R$ 18 milhões por ano. Muito pouco, perto do valor da Marca Cruzeiro, a 7ª mais valiosa do Brasil.

Veja o novo uniforme:

Uniforme2010-2

Leo Silva, Kleber, Roger e Fábio apresentam a nova camisa

Saudações Celestes!!!

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Foto: Agência VipComm

Charge: Paulo Werner

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Capítulo 07: O castigo e o Palestra

qui, 18/02/10
por pcalmeida |

J.V.Ferraz

J.V.Ferraz

A briga em frente à Liga Mineira rendeu na minha casa. Minha mãe não acreditou quando meu pai contou que eu e o caspita do Manoel rolamos na rua.

- Genaro, já para o quarto! Filho meu não briga na rua! Vai ficar de castigo por um bom tempo! Gritou a mamma enfurecida.

- Desculpa, mamma! Só cobrei as minhas bolinhas e, aquele, aquele sujeitinho disse que não ia pagar.

- Sem desculpas! Já para o quarto!

- Mas mamma! Ele falou mal do Palestra, porca miséria!

- Limpe essa boca menino! Ah se eu estivesse lá!

- Ah mas eu posso ir aos jogos do Palestra? Você deixa né, pappa?

­- Eu? Eu não! Resolva com a sua mamma, senão sobra pra mim.

- Com você me acerto depois, senhor Enrico. Onde já se viu deixar o menino brigar desse jeito e ainda por causa de futebol. Olha só o estado da roupa dele.

- Já o castiguei, respondeu Enrico.

- Ahan, sei como são os seus castigos!

- Mas mamma..

- Nem mais nem menos, Genaro. O senhor ficará duas semanas sem sair de casa. É da escola direto para casa. Futebol nem pensar. E tem mais: quero as novas bolinhas na minha mão assim que o menino de entregar.

- Mamma! E se tiver jogo do Palestra?

- Genaro! Quer ficar ajoelhado no milho? Nem mais um pio!

- Mas mamma!

- Genaroooooo!

Tratei de ficar quieto. A mamma estava muito brava. Do jeito que as coisas estavam era perigoso até meu pai ficar de castigo.

Confesso que o castigo em si não me preocupava. O que me tirava do sério era o tal torneio classificatório. Como seria? E os adversários? Mamma mia! É o primeiro campeonato do Palestra. Só espero que a Liga não marque nenhum jogo para as próximas duas semanas. Já pensou? O meu time em campo e eu trancado em casa? Não vai dar certo.

Os dias se seguiram normalmente. Eu cumprindo o castigo e a Mamma de olho em mim. Parecia detetive particular. Até na porta da escola apareceu para verificar se realmente eu não estava no campinho no horário da aula. Apesar disso, tudo transcorria bem. Até o dia em que meu pai chegou com a notícia. Na hora do jantar a conversa começou:

- Estive com o senhor Aurélio hoje. Genaro, você quer as boas ou as más notícias?

- Ah pappa, conte as boas primeiro.

- A Liga Mineira definiu como será o torneio classificatório e o adversário do Palestra.

- Conta logo!

- Tá bom! Tá bom! O torneio é simples: se o Palestra ganhar a primeira partida, vai direto para a decisão da vaga.

- Quer dizer que se o Palestra ganhar dois jogos estará na primeira divisão?

- Isso mesmo, Genaro.

- Contra quem é o primeiro jogo?

- Contra o Ipanema. Quer a má notícia?

- Hum…qual é?

- O jogo é dia 19 de abril e, pelas minhas contas, você ainda estará de castigo.

- Estará mesmo! Interrompeu a mamma.

- Mas é o Palestra! Tudo pelo Palestra! Esqueceu mamma?

- Tudo não! Quase tudo! O senhor está de castigo e ponto final. Quem mandou brigar na rua? Decretou Dona Lina, ainda enfurecida.

No dia do jogo, meu pai saiu cedo para o trabalho e de lá foi direto para o Estádio. Minha mãe arrumou uma cesta cheia de salgados e saiu para vender. Ela sabia que a colônia estaria em peso no Prado e o movimento seria bom. Daria para faturar um bom dinheiro e fechar as contas do mês. Antes de sair, ela deu o recado:

- Genaro, não se esqueça do seu castigo. Senão já sabe, capisce?

-Sim mamma. Io não sou loco.

- Não se preocupe. De todo jeito você saberá o resultado.

Porca miséria! Todo mundo indo ver o Palestra e eu em casa trancado! Não posso ficar aqui sem ver o meu time. Preciso arrumar uma maneira de ir ao estádio sem que a mamma me veja. Mas como? Se eu passar no portão principal, com certeza, ela me verá e aí não sei nem do que ela é capaz.

Sem encontrar uma solução para o dilema, o tempo passou. Quando assustei o jogo tinha começado e eu ainda estava em casa bolando uma estratégia. O jeito foi me disfarçar. Vesti um uniforme da escola do meu irmão, botei a boina do meu pai na cabeça e pulei a janela de casa.

Não era a melhor forma de ir ao estádio. Imagina só: de uniforme escolar e boina. E o pior: sem a minha bandeira. Mas o que importa é que estava a caminho do estadinho do Prado. Estava atrasado e precisava correr muito para chegar a tempo de ver alguma coisa.

Corri como nunca. Ao chegar no Prado fiz o caminho inverso. Ao invés de entrar no portão principal, dei a volta e procurei a entrada lateral. O problema é que o portão estava fechado. Droga! Não é possível! Essa correria toda para chegar até aqui e encontrar o portão fechado! Desse jeito não verei nada dessa partita!

Minha angústia aumentou ainda mais quando escutei a vibração da torcida. Será que foi gol? Tomara que seja do Palestra. Ai meu Deus! De repente outra vibração. Ah não! E agora? O que aconteceu?

- Abram esse portão!  Por favor! Me deixem entrar! Gritava sem sucesso.

Ninguém respondia. Todos estavam ligados no jogo. Essa é a pior sensação que existe. Estar tão perto e tão longe ao mesmo tempo. Terminou o primeiro tempo. Começou o segundo. Mais algumas vibrações. A torcida cantando a Tarantella e eu ainda do lado de fora. Já ia desistir da minha aventura quando, de repente, vi uma figura conhecida. Não acredito! Era ele! O zelador do estádio.

- Não acredito! O Senhor por aqui?

- Uai menino! Estou te reconhecendo. Você é aquele italianinho que pediu para conhecer o estádio. O que faz aqui fora? Ainda mais com essa roupa esquisita? Seu time tá jogando.

- É uma longa história… Por favor, me deixa entrar! Abra este portão! Quanto tá o jogo?

- Calma! Calma! Seu time está empatando em 2 a 2. O jogo está disputado e emocionante. Faltam menos de dez minutos para acabar.

- Abre logo! Por favor! Quero ver o finalzinho!

- Não era para abrir esse portão. Mas vou quebrar o seu galho. Você entrará por aqui e ficará embaixo das arquibancadas.

- Grazie, signore!

- Corre, garoto!

Finalmente consegui! As arquibancadas estavam cheias e não tinha como subir. O jeito foi me acomodar do jeito que o zelador falou. Entre as frestas vi uma verdadeira batalha nos últimos minutos.

Quase morri do coração quando o Ipanema acertou uma bola na trave. No entanto, o susto se transformou em alegria. Em um contra-ataque fulminante o Palestra fez o gol da vitória.  Pra falar a verdade nem vi quem marcou. Aliás nem vi o gol. Mas o que importa? Sentir a vibração da torcida não tinha preço. Esperei o árbitro apitar o fim da partida e saí correndo para casa.

Precisava chegar antes que todo mundo. Dessa vez perdi o medo e passei até pela portaria principal. Vi minha mãe recolhendo as coisas e meu pai comemorando. Não parei. Corri ainda mais rápido.

Cheguei em casa. Pulei a janela. Tirei a roupa do meu irmão.  Coloquei a boina do meu pai no quarto dele, botei o pijama e me deitei. Foi o tempo de escutar a porta da frente se abrindo e meu pai gritando:

- Genaro! Ganhamos! Pode comemorar bambinno!

- Paleeeeeeestra! Gritei

- No feriado do dia 21 decidiremos a vaga.

- Dessa vez eu vou né mamma?

- Vou pensar, respondeu Dona Nina.

De repente meu irmão gritou de seu quarto:

- Mamma! A senhora lavou o uniforme da escola? Não encontrei.

- Lavei sim!

- Por acaso foi esse aqui? Mostrou meu irmão.

- Sim é esse! Genarooooo! O que você fez?

- Eu??? Nada!

-Ah menino! Se eu descobrir qualquer estripulia você vai ver!

- Mas eu não fiz nada… Mamma, vou dormir! Buona notte!

- Olha lá hein! Já pro seu quarto!

- Sim senhora!

***

Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais.

Escrita por Cláudio Guimarães, jornalista e Cruzeirense apaixonado.

Idealizada por Cláudio Guimarães e P.C.Almeida


Subtópico: Ingressos para o clássico.

Guerreiros, até hoje, quinta-feira, foram vendidos 20045 ingressos para o clássico deste sábado. Sendo que a torcida do Cruzeiro adquiriu 11.716 ingressos, contra apenas 8.329 do lado de lá.

Vamos dobrar esse número, só pra mostrarmos, mais uma vez, quem é A Maior de Minas. Quero ver o dobro e mais um na Toca da Raposa 3.

Saudações Celestes!!!

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Capítulo 06: A primeira guerra de bastidores

sex, 12/02/10
por pcalmeida |

J.V.Ferraz

J.V.Ferraz

A minha ansiedade era tanta que nem esperei chegar em casa para contar o que aconteceu para o Francesco. De quebra, meu pai também escutou a história da menina chorona do futebol. Quando terminei, um longo silêncio se fez até que o Seu Enrico puxou a conversa:

- Meu bambino se apaixonou, que belo! Mas você não é muito novo para essas coisas?

- Que nada, pai!  Eu não, tá doido!

Do meu lado, o primo Francesco caia na risada:

-É vero titio. Esse bambino não sabe nem onde a menina mora.

Enquanto meu pai caminhava bem a nossa frente pedi a ajuda de Francesco:

- Aí é que você entra, caspita. Você vai me ajudar a encontrá-la. Nunca vi conhecer tanta gente assim. Não é possível que não saiba quem ela é.

- Escute aqui bambino. Trabalho no centro, conheço muita gente mesmo. Mas fazer milagre? Isso é demais.

- Deixa de ser engraçadinho, maledetto!

- Engraçadinho? Eu? O piadista aqui é você, caspita. Quem viu a ragazza no futebol, no meio daquela bagunça e saindo antes do jogo acabar  foi você. No mínimo o pai dela é atleticano.

- Isso deve ser mesmo. Você precisava ver a cara do homem. Ele parecia louco da vida, a menina chorava e até parei de vibrar com dó. Ai ai…

Chegamos em casa e o velho Enrico tratou de acabar com o papo:

­ – Buona notte Francesco. Amanhã é dia de lavoro. Depois vocês encontram essa dama misteriosa.

- Buona notte titio e você bambino? Sonhe com a ragazza, caspita!

- Que sonhar o que! Só quero saber por que ela chorava tanto. Vou encontrá-la,  seu caspita.

Francesco seguiu o seu caminho e nós entramos em casa. Meu pai foi conversar com a mamma na cozinha. Eu fui direto para a cama. Faltava terminar o dever de casa. No entanto, eu estava tão cansado que dormi em cima do caderno.

Acordei com alguém batendo desesperadamente na porta de casa. Ainda estava muito escuro. Será que alguém morreu? Encontrei meu pai descendo as escadas do sobrado com cara de poucos amigos.

- Já vou! Já vou! Porca miséria, maledeto, caspita! Não são nem cinco da manhã e estão batendo assim! Quem será? Perdeu a noção? Praguejava o velho.

Quando abrimos a porta demos de cara com o Seu Aurélio.

- Enrico, mi dispiace pela hora. Vou viajar e tenho uma missão para o seu bambino.

- Pra mim?

- Sim. Quero que depois da escola, você vá até à sede Liga Mineira para saber o dia da reunião que definirá o campeonato. Como só voltarei amanhã preciso que alguém vá até lá.

- Só isso? Eu vou. O senhor não precisa nem me dar bolas de gude.

- Conto com você, bambino. Enrico, peço-lhe desculpas. Mas eu tinha que pedir esse favor.

-Não se preocupe, presidente. Se é pelo Palestra fazemos qualquer coisa. Disse meu pai.

- E você, Genaro, não esqueça da tarefa!

- Pode deixar! A sede é perto da minha escola e eu nem vou me atrasar para o almoço!

- Então já vou.  Buon giorno pra vocês

- Buon giorno e boa viagem. Despediu-se meu pai.

- O Aurélio está enlouquecendo. Só pode. Afirmou Enrico

- Que nada pai! Tudo pelo Palestra, esqueceu?

-É verdade meu filho. Vamos descansar mais um pouco que o dia será longo.

Fui para o meu quarto e esperei o dia amanhecer. Quem disse que consegui dormir? Não fechei os olhos. Só esperei a minha mãe levantar para descer e tomar o café. Em seguida, saí para a aula. Até que o tempo passou rápido. Quando percebi estava a caminho da sede da Liga .

A casa ficava no centro da cidade. Chegando lá dei de cara com um daqueles funcionários engomadinhos de terno e gravata que parecia o dono do lugar.

- Bom dia, senhor!

- Bom o que menino? Fala direito. Parece que engoliu um sapo.

- Boa tarde, senhor.

- Agora sim. O que você quer? Fala rápido que meu tempo é curto.

- O presidente do Palestra quer saber que dia é a reunião da Liga.

- Ah? Pa… o que?

- Palestra! Precisa soletrar?

- Então tá explicado. Você é italiano. Por isso não te entendi. Mas pra que ele quer saber? Só porque ganhou um mero amistoso contra o Atlético quer disputar campeonato? Coitado!

- Não tenho culpa se o Palestra é bom e já ganhou dois jogos. Eu quero saber apenas a data e o horário da reunião.

- Não posso falar. Apenas para representantes credenciados.

- Mas por quê? O presidente viajou e pediu que eu viesse olhar para ele. É só falar o dia e o horário. Ele vai brigar comigo se eu não descobrir. Por favor!

- Ô moleque chato! Fala com o seu presidente que será na sexta às 18 horas. Se chegar atrasado não entra!

- Muito obrigado! Tchau!

Missão cumprida. Saí correndo feito um louco pelas ruas do centro da cidade até chegar na casa do “Seu” Aurélio. Conversei com a esposa dele e pedi para que ela informasse a ele a data da reunião na Liga.

No dia marcado, encontrei com meu pai em frente à sede da Liga Mineira. No entanto fui proibido de entrar por um segurança gigante que cuidava da porta.

- Me desculpe, senhor. Criança não entra. Ordens da casa.

- Ele é meu filho. Sou o responsável.

- Nada feito, não poderei deixá-los entrar.

- Tudo bem, pai. Eu fico aqui até terminar. Respondi.

Meu pai entrou e logo apareceram o Seu Aurélio, os vice-presidentes palestrinos e importantes membros da colônia italiana. Em seguida, eis que surgem o Manoel e seu pai. Engraçado que eu podia jurar que o conhecida de algum lugar.

Manoel passou por mim e fingiu nem me conhecer. Mas eu sabia que ele voltaria. Era questão de tempo. Afinal criança não entrava na Liga. Em poucos minutos ele estava de volta.

- Borrão! Quanto tempo! E as calças? Estão limpas?

- Cala a boca, italianinho! Quem você pensa que é?

- Eu? Aquele que vai ganhar 20 bolinhas de gude de você. Esqueceu?

- Quem disse que vou te pagar? Seu time não disputa nem campeonato e você quer ganhar bolinhas de gude? Aquela aposta não valeu.

- Ah valeu sim! Ninguém mandou você acreditar naquele time zebrado. Apostou, perdeu, pagou.

- Não pago! Não pago! Quero ver você me fazer pagar!

Neste momento o sangue quente italiano subiu e parti para cima do maledetto. A briga começou na porta da Liga e continuou no passeio. Levantamos poeira rolamos pelo chão e ninguém conseguia apartar a briga. Muita gente foi se aglomerando até que, de repente, apareceu uma menina gritando desesperada:

- Manoel! Manoel! Pára! Será que você não aprende? Que vergonha!

Soltei o maledeto, olhei a ragazza e imediatamente a reconheci. Era a chorona! Puxa vida! Ela era irmã do frangote! Fiquei sem reação. Só sei que ela me olhou com ar de reprovação e levou o Manoel para um canto. Nisso, meu pai, e até o Seu Aurélio estavam lá para ver o que tinha acontecido.

- Francesco! Olha ali! Gritei.

- O que foi, caspita?

- É ela! A chorona!

- Não é possível! Eu a conheço! É filha do Omar Kalid, um árabe que vende tecidos na Rua Carijós e é atleticano doente!

- Grazie! Sabia que você a conhecia.

- Mas não pense nisso agora. Aproveite que está todo mundo aqui. Arrume a sua roupa e entre para ver a reunião.

Dito e feito! Enquanto todo mundo cercava o Manoel aproveitei para entrar. Pelo menos a briga serviu para alguma coisa. Fiquei escondido em um canto no fundo da sala e vi todo o discurso do presidente da Liga que pedia uma solução para o Campeonato daquele ano. Quando ele terminou, “Seu” Aurélio pediu a palavra:

- Sugiro um torneio eliminatório entre os clubes que não se registraram e os da segunda divisão, além do Palestra, para definirmos os participantes.

- Ótima ideia! Parabéns para o nobre presidente do Palestra. Mal chegou e já apresentou uma solução, afirmou o presidente da Liga.

- Então faremos este torneio. Mas, sem o Palestra, que entrará na segunda divisão.

- Com o perdão da palavra, o senhor ficou louco? Como o Palestra disputará a segunda se nem a primeira está definida? Gritou Aurélio, vermelho e louco de raiva.

- Vocês são novos, tem que respeitar as regras.

- Quais regras? Respeitar o que não existe? O Palestra é um clube novo, mas está registrado e tem os seus direitos. Ou o senhor prefere que a colônia venha até aqui para reivindicar?

- Não! Não! Acalme-se presidente. Não é necessário. Alguém tem algum tipo de objeção para o Palestra participar?

O silêncio tomou conta da sala. Ninguém se manifestou e, sem alternativas, o presidente da Liga anunciou o torneio classificatório.

- Se estão de acordo, Palmeiras, Guarany, Hygiênicos, Lusitanos, Christovam Colombo, Sete de Setembro, Progresso e Palestra participarão do torneio. Os quatro melhores se juntarão a Yale, América e Atlético

- Bravo! Bravissímo! PALEEEEEEESTRAAAA! Os dirigentes comemoraram como um título a vitória nos bastidores.

Terminada a reunião, fui direto para casa com o dia ganho. Apesar do castigo que ganhei por causa da briga, presenciei a entrada do Palestra no primeiro torneio e agora sabia quem era a ragazza chorona. Agora o negócio era arrumar um jeito de cobrar dela as bolas de gude que o Manoel me devia

Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais.

Escrita por Cláudio Guimarães, jornalista e cruzeirense apaixonado.

Idealizada por Cláudio Guimarães e P.C.Almeida

Subtópico: Camisa nova.

Guerreiros, vem aí a nova camisa do Cruzeiro. Ela será finalmente apresentada dia 22 de fevereiro num evento promovido pela Reebok e pelo Marketing do Cruzeiro na Toca da Raposa 2. Além das camisas 1 e 2 de jogos, será lançada toda a linha 2010 da Reebok/Cruzeiro.

Como as fornecedoras de material esportivo, geralmente, possuem um padrão de design, nós adiantamos aqui como ficaria a camisa 2010 do Cruzeiro, baseado nas camisas do Inter e do São Paulo, numa contribuição do leitor Rodrigo Marques.

Rodrigo Maraques

Rodrigo Marques

Saudações Celestes!!!

Para mais informações, siga o Twitter: http://twitter.com/PCAlmeida

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Capítulo 5: Importantes decisões

sex, 05/02/10
por pcalmeida |

J.V.Ferraz

J.V.Ferraz

Foi só o juiz apitar o fim do jogo contra o Atlético que a colônia italiana começou mais um carnaval pelas ruas da cidade. Em meio a toda aquela alegria, meus pensamentos se fixaram nas vinte bolinhas de gude que ganhei do Manoel (o dobro ou nada!) e no rosto daquela menina que me encantou na arquibancada.

Quem seria ela? Por que chorava daquela forma? O que aconteceu para que o pai saísse tão rápido do Estádio? E o Manoel? Por onde andaria? Daria qualquer coisa para ver a cara daquele caspita. Até queria passar na casa dele, mas era tarde e meu pai precisava chegar logo em casa. O jeito era esperar e encontrá-lo na escola.

A poucos quarteirões de nossa casa, o presidente Aurélio surgiu na nossa frente como se fosse um fantasma. Eufórico, rouco de tanto gritar, aquele italiano não parava de pensar no Palestra nem nos momentos de festa.

- Enrico! Que bom encontrar com você aqui!

- Buona Notte presidente! Aconteceu alguma coisa?

- Não, Não. Que beleza a nossa vitória hein?

- A festa que fizemos vai ficar na história! Afirmou meu pai.

- Nem me fale! Só de lembrar da alegria da colônia e do primeiro gol do Atílio, fico com vontade de chorar. Estou muito orgulhoso com o que fizemos até aqui e temos muita coisa pela frente!

- Isso é verdade.  É só o começo, respondeu o velho Enrico.

- Por isso faremos uma reunião amanhã à noite, na Casa D’Italia. Conto com a sua presença a partir das oito.

- Estarei lá, com certeza!

- Que bom! Apresentarei duas propostas para serem discutidas.

- Tudo bem. Amanhã nos encontraremos. Agora vamos para casa porque o trabalho nos espera logo cedo e esse bambino vai para a escola. Encerrou o velho Enrico com a pressa de sempre.

- Sim senhore, buonna notte.

­Cada um seguiu o seu caminho e ganhei mais uma pulga atrás da orelha. Além de pensar na menina, no caspita do Manoel, nas bolinhas de gude, agora queria saber o que de tão importante o presidente tinha para falar na reunião. Em casa, o cansaço bateu mais forte e dormi feito uma pedra.

No outro dia só acordei porque minha mãe gritava da cozinha:

- Genaro, levanta! Vai perder a escola!

- Tá bom, mamma, to indo! Continuei enrolando até que ouvi:

- Genaro, ou levanta ou perde as 20 bolinhas. Avisado?

Essa ameaça me tirou imediatamente da cama. Como ela poderia me tomar uma coisa que nem recebi ainda? Troquei de roupa, peguei os cadernos, a bandeira do Palestra e saí correndo. Nem deu tempo de tomar o café.

Na escola, a primeira coisa que fiz foi procurar o Manoel. Rodei pelas salas, na cantina, no pátio e nada do maledeto. Passei pelo Vecchio Pedro e perguntei se ele tinha visto o sujeito. Ele disse que nem sinal. Fui para a aula injuriado, onde o Manoel se meteu?

O mistério foi desfeito no recreio. Encontrei com o Bené, o braço direito do Manoel e tão atleticano quanto ele.

- Poxa vida! Finalmente encontrei um de vocês. Perdeu o caminho de casa ontem? Cadê o Manoel e as minhas bolinhas de gude?

- Que isso, meu filho! Vocês deram foi muita sorte ontem. O Atlético é muito melhor que o time de vocês. Demos foi uma mãozinha. Não se esqueça: somos campeões de 1915, respondeu Bené.

Quando vi que a ladainha começaria, encurtei o assunto:

- Cadê o Manoel? Tá com medo? Acho que ele está me devendo alguma coisa…

- É … O Manoel faltou à aula… Tá com dor de barriga desde ontem… Bené contou sem graça.

- Não brinca! Piriri? Ele se borrou? Fale com ele que amanhã espero as minhas 20 bolinhas! Sem atraso, hein! Caí na gargalhada.

Com o Manoel fora de combate, passei o resto do dia estudando uma estratégia para encontrar a menina do jogo. A única coisa que me passou pela cabeça foi pedir ajuda para o meu primo Francesco. Este sujeito conhecia todo mundo em Belo Horizonte. Nunca vi tanta popularidade. No entanto, só encontraria com ele à noite, na reunião convocada pelo presidente Aurélio. Aproveitei para fazer a lição, limpar a bandeira do Palestra e esperar o velho chegar.

Quando meu pai abriu o portão de casa, eu estava pronto para sair. Faltavam poucos minutos para as seis da tarde e ele foi direto para o banho. Em poucos minutos, Seu Enrico retornou, de terno e gravata, disposto a chegar cedo na Casa D’ Itália.

- Vamos bambino? Que tal uma caminhada? Perguntou.

- Já tô pronto! O senhor sabe o que será falado lá?

- Não sei. Deve ser coisa boa. Quanto mais cedo chegarmos, mais rápido saberemos. Concorda?

- Sim. Então vamos rápido, conclui.

A caminhada até o local da reunião demorava, no máximo, meia hora. No caminho encontramos vários amigos da colônia que tinham o mesmo destino. Ao chegar, percebi que a casa estava lotada e era impressionante como os assuntos que envolviam o Palestra mobilizavam os italianos de todas as origens, uns ricos outros pobres. Muitos comerciantes, outros operários como meu pai. Todos unidos e fascinados por um amor novo, que ainda engatinhava, mas que a cada dia ganhava maiores proporções.

Às oito da noite, o presidente iniciou a reunião e apresentou o primeiro assunto:

- Amigos, estamos felizes com a vitória sobre o Atlético, mas não podemos nos contentar com migalhas. Precisamos de um título e conquistas só acontecem quando disputamos campeonatos. O torneio da Liga Mineira vai começar. E aí? O que acham? Vamos disputar?

A resposta veio com uma imensa gritaria que tomou conta do salão. Ninguém se entendia e a discussão parecia não ter fim. Até que o senhor Pepe pediu a palavra:

- Presidente! Títulos importantes conquistamos na primeira divisão. Como o Palestra, com menos de seis meses de vida, vai direto para a elite sem disputar o acesso? Alguma fórmula mágica?

Outro burburinho se formou e o presidente precisou bater na mesa para retomar a palavra.

- Conversei com os dirigentes do Yale. Eles me disseram que a Liga Mineira, ano passado, exigiu que todos os clubes associados fossem registrados como pessoas jurídicas até o dia 31 de dezembro. Quem não fizesse seria excluído dos quadros. Apenas o Atlético, o América e o Yale fizeram. Nenhum outro se registrou.

- Onde o senhor quer chegar? Fale logo, maledeto! Gritou um ragazzo no fundo do salão.

- Eles não farão um campeonato com apenas três clubes. Na reunião da Liga vou propor a realização de uma seletiva com a justificativa de que o Palestra foi fundado e registrado em 1921 e, como membro da Liga, tem o direito de entrar na disputa. O que acham?

- Bravo! Bravo! Todos no salão aplaudiram de pé o presidente.

- Não custa nada tentar. Vou à reunião e semana que vem teremos a resposta.

Aos gritos de “Palestra”, a segunda parte da reunião começou e foi aprovada rapidamente.

- Senhores e o nosso estádio? Jogaremos a vida inteira no Prado? Vamos ou não encarar a construção da nossa casa? Perguntou o presidente.

- Bravo! Bravíssimo! Queremos o nosso estádio! Todos responderam em coro.

- Então tratem de gastar a sola de sapato e arrumem um lugar! Disposição e gente para a obra não faltarão e buona notte a todos, concluiu o presidente.

- Paleeeeeeeeeeestra!

Na volta para casa, meu pai estava pensativo, mas logo soltou a melhor frase da noite:

- O Palestra será um gigante! Pode escrever, profetizou o velho Enrico.

Nisso meu primo Francesco apareceu e logo gritei:

- Francesco, quero te pedir uma ajuda!

- Claro Genaro, o que é?

- Vamos lá em casa que lhe contarei…

—***—

Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais.

Escrita por Cláudio Guimarães, jornalista e Cruzeirense apaixonado.

Idealizada por Cláudio Guimarães e P.C.Almeida.

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Capítulo 4: O primeiro encontro

sex, 22/01/10
por pcalmeida |

J.V.Ferraz

J.V.Ferraz

A vitória do Palestra foi comemorada como nunca pela colônia italiana. A festa começou no estádio do Prado, passou pelo Barro Preto e foi parar no centro de Belo Horizonte, mais uma vez na Casa D’Itália. Em êxtase, os italianos chamavam a atenção pela alegria e barulheira que tomaram conta da cidade.

Minha família participou de boa parte das comemorações. Conheci uma face de meu pai que não sabia eu existia. Primeiro, ainda nas arquibancadas, o choro de felicidade que fez as bochechas quase explodirem de tão vermelhas. Depois, nas ruas, a animação e o pique para cantar e gritar o nome do Palestra como se comemorasse a vitória de uma batalha.

Naquele dia, fui dormir feliz e com a certeza que nascia ali uma das grandes paixões da minha vida. Na manhã seguinte, uma segunda-feira daquelas, era dia de encarar a escola. Levantei, coloquei o meu uniforme, tomei o café da manhã com uma preguiça sem fim e sai perambulando. Lógico que não esqueci a parte mais importante do meu material naquele dia: a bandeira do Palestra.

Ao andar pela cidade percebi que algo havia mudado. Para minha surpresa, a maioria das casas dos italianos estava decorada com panos ou bandeiras nas cores branca, vermelha e verde. Essa foi a deixa que precisava, peguei a minha e comecei a gritar pelas ruas:

- Palestra! Palestra!

No armazém encontrei o Senhor Pepe novamente. O velho, antes carrancudo e tristonho estava feliz e logo puxou assunto:

Buon giorno bambino. Que belo gol de Nani, ontem!

- Buon giorno Senhor Pepe. Foi mesmo. Onde o senhor ficou lá? Perguntei.

- Io assisti em pé no último degrau da arquibancada. Gostei muito e quero voltar. Quando será a próxima giornata sportiva?

- Seu Aurelio falou com meu pai que será contra o Atlético, respondi.

- Mamma mia! Io no perco isso por nada deste mondo, afirmou Sr. Pepe.

- Nem eu! O time deles é forte tem Eduardo, Coutinho e Ernani, mas vamos ganhar, respondi.

- Isso com certeza. Vou procurar notícias e depois te falo.

- Grazie, Senhor Pepe. Vou para a escola, tenha um bom dia.

A conversa foi boa, mas precisei apertar o passo para não chegar atrasado na escola e levar uma advertência na caderneta. A educação era algo sagrado em minha casa e me atrasar por causa de futebol não seria uma boa.

Por sorte, os portões estavam abertos. Entrei correndo e dei de cara com meu primo Francesco que veio com a novidade:

- Genaro, a molecada italiana está fazendo a maior festa no pátio, vamos lá! Corre!

- Que isso, Francesco! Eles estão cantando a tarantela! Disparei a rir.

- É vero! Tuto por causa do Palestra, explicou Francesco.

A algazarra continuou até a chegada dos professores e voltou com força total na hora do recreio. No fim da aula, encontrei com o Manoel, um garoto atleticano fanático que logo afirmou:

- Comemorem! Ganharam de quem? Logo esta empolgação acabará. Daqui a pouco vocês jogarão com o Atlético e aí eu quero ver.

- Ver o que? Perguntei

- Ver se a alegria vai continuar. Nosso time é muito melhor do que o seu. Aposto o que você quiser que o Atlético vai ganhar e de goleada, afirmou Manoel.

- Tem certeza? Quer apostar mesmo? 10 bolinhas de gude?

- Você é louco, Genaro? O time deles é muito melhor que o nosso! Onde você vai arrumar tanta bolinha assim? Afirmou o primo Francesco, já com os olhos arregalados de susto.

Depois de uma gargalhada, Manoel aceitou e saiu gritando:

- Essa é a aposta mais fácil que vou ganhar na vida!

- Vamos ver, espere. Respondi e saí sem olhar para ele.

A semana passou e todas as vezes que encontrei com o Manoel, ele falava alguma coisa. Sempre saia uma piadinha. Manoel falava até no título do campeonato mineiro que o time dele ganhou em 1915 (Não se esqueça estávamos em 1921).

- Vocês acabaram de fazer o primeiro jogo. O meu Atlético é o primeiro campeão mineiro, desista da aposta, ainda tem tempo, melhor, nem vá ao Prado ver o jogo. Aconselhou.

- Que isso, meu amigo! Confio demais no meu time, não desisto. Por acaso você viu o Nani, o Spartaco e o Quiquino jogar? Acho que quem precisa se preocupar é você.

- Nossa nem vou dormir mais. Estou tremendo de medo, afirmou o irônico atleticano.

Confesso que fiquei inseguro com a última conversa e fui falar com meu pai sobre o assunto.

- Pai, preciso conversar com o Senhor.

- Nossa, Genaro, quanta seriedade! O que aconteceu? Perguntou o velho Enrico.

- Será que o Palestra vai ganhar do Atlético? O Nani vai jogar?

- Bom, futebol é decidido dentro das quatro linhas, meu filho. Mas eu acredito e o Nani esta pronto para o jogo sim, respondeu.

- É que eu apostei todas as minhas bolinhas de gude com um menino atleticano lá da escola, expliquei.

-Por falta de luta não vai ser, te garanto, afirmou.

-Obrigado pai!

Naquela noite dormi mais tranquilo. Meu pai conseguiu reavivar o famoso espírito do italiano guerreiro e a confiança em mais uma vitória palestrina voltou com tudo.

Tanto que a semana seguinte passou rápido e logo chegou o dia do grande jogo. Pela manhã encontrei com o Manoel e o surpreendi:

- O dobro ou nada, perguntei.

- Tá dobrado! Você vai se arrepender. Tem certeza?

- Claro que tenho, o Palestra vai ganhar, não duvide disso, afirmei.

- Olha aí o italianinho iludido, coitado dele, afirmou o atleticano já vestido com uma blusa preto e branca e pronto para ir ao estádio.

- Te vejo lá e depois passo na sua casa para pegar as bolinhas, respondi.

Na hora do almoço, a macarronada da mamma nem desceu direito. Estava ansioso e, pelo visto, não era só eu. Meu pai e meus irmãos comemoram com foguetes e imediatamente saímos a giornata sportiva.

No Prado, vi as duas torcidas chegarem. De um lado, os atleticanos felizes e convencidos que o time deles ganharia fácil. Do outro, a colônia italiana chegava com a faca entre os dentes e pronta para disputar mais uma batalha dentro das quatro linhas.

Por superstição sentei na mesma fileira de arquibancada onde fiquei na primeira vitória do Palestra. Olhei para cima e logo reconheci o Senhor Pepe enrolado em sua bandeira.

J.V.Ferraz

J.V.Ferraz

O jogo começou e o Palestra repetia o nervosismo da partida anterior. No entanto, durou pouco tempo. Com apenas dois minutos de jogo Atilio abriu o marcador e fez a colônia explodir. O favoritismo adversário começava a ruir e ainda não tínhamos nem cinco minutos do primeiro tempo.

A torcida atleticana não acreditava no que via. Os novatos abriram o marcador e tomavam conta do jogo. Bem que eles tentaram reagir, pressionaram por um bom tempo em busca da igualdade. Mas tomaram o segundo gol, outra vez com Atílio, para novo delírio da italianada que não acreditava na vantagem aberta com apenas 31 minutos de jogo.

Veio o intervalo e a torcida do Palestra cantava sem parar a tradicional tarantela. Os rivais, atordoados, procuravam explicações sobre o que acontecera com o time e eu, procurava pelo Manoel em todo canto daquele estádio. Onde será que aquele caspita se meteu.

Não encontrei o maledeto para cobrar as minhas bolinhas e voltei a tempo de ver o início do segundo tempo. O Palestra passou a administrar a vantagem enquanto o adversário não conseguiu vencer a barreira formada por Polenta, Ciccio e Quiquino. À medida que o tempo passava, a torcida do Atlético começou a sair do estádio conformada com a derrota, e foi embora de vez quando o artilheiro Nani fechou o marcador com o terceiro gol.

Placar definido, festa no estádio. No meio daquela empolgação e euforia italiana, vi uma menina que fez balançar o meu coração. Moreninha, cabelos longos, parecia um pouco mais velha do que eu e que chorava copiosamente. Pena que não deu para vê-la de perto, mas vi o seu rosto entre lágrimas e o gravei na memória.

O negócio era descobrir quem era ela. A única coisa que sabia era que o pai torcia pelo Atlético, pois ela chorava muito e nem esperou o juiz apitar o fim da partida e logo saiu para não presenciar um novo carnaval italiano nas ruas de Belo Horizonte.

Fim de jogo e início de festa. Além das vinte bolinhas de gude, ganhei um novo desafio: descobrir quem era a menina chorona que fez o coração italiano de bambino bater mais forte.

Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais.

Escrita por Cláudio Guimarães, jornalista e cruzeirense apaixonado.

Idelizada por Cláudio Guimarães e P.C.Almeida.

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Capítulo 3: Com o pé direito

sex, 15/01/10
por pcalmeida |

J.V.Ferraz

J.V.Ferraz

Na véspera da partida de estreia do Palestra, meu pai chegou em casa do trabalho e, como de costume, lavou as mãos e logo sentou-se à mesa para o jantar. Essa era uma hora sagrada em minha casa. Toda família se reunia ao redor da mesa para conversar e comer. Naquela noite minha mãe fez uma bela sopa de macarrão com carne e batata. Eu adorava esse prato, sempre repetia e era o último a deixar a mesa.

Enquanto dava as últimas colheradas, meu pai terminou a sua refeição e se dirigiu ao quintal de nossa casa, onde costumava descansar sentado em uma cadeira e olhando o céu. De repente escutei um grito:

- Genaro! Venha cá bambino! Sua voz parecia um trovão.

- Tô indo pai, ainda não acabei de comer.

- Anda logo que preciso te passar uma tarefa muito importante para este fim de semana.

Quando ouvi isso tratei de engolir o que faltava e rapidamente ir ao encontro do Seu  Enrico que não tinha muita paciência para esperar.

- Pronto, pai.

- Já não era sem tempo. Comeu tudo? Não gosto de sobras hein?

- Aham!

- Ainda bem.

Enquanto ele fazia as perguntas, as mesmas de todos os dias,  minha vontade era de ir direto ao assunto. Mas aguardei com paciência, até que ele começou:

- Genaro, você sabe que domingo tem jogo do Palestra, capiche?

- Sei sim. Mal posso esperar para ver o nosso time em campo, respondi.

Com um sorrisinho nos lábio meu pai continuou:

- Você conhece, muito bem, a maioria dos nossos vizinhos e boa parte do centro dessa cidade. Por isso quero que amanhã você reúna seus amicos e saia falando a todos sobre a partida. Passe no armazém e não se esqueça nem do padre Roberto Walz. Fale com todos sobre o Palestra. Vamos lotar o campo!

- Sim, senhor! Fácil demais! Amanhã cedinho vou chamar o pessoal!

Antes do amanhecer pulei da cama, troquei de roupa, desci correndo as escadas e logo encontrei minha mãe.

- Bom dia, mamma!

- Buon giorno bambino! Já de pé? Caiu da cama?

- Não, mamma. Esqueceu que amanhã é o jogo do Palestra? Vou correr todos os cantos dessa città e falar com as pessoas.

Depois disso virei de uma só vez o copo de leite e engoli um pedaço de pão.  Saí correndo e só escutei minha mamma gritando:

- Genaro! Volta aqui, bambino! Mal tomou o café. Esse bambino não tem jeito mesmo!

Só olhei para trás, acenei e sebo nas canelas.

O primeiro passo para a execução do plano era reunir os amigos. Passei na casa da minha tia e recrutei Francesco, Marinho e Zezé. Marinho, dorminhoco como sempre, custou a se levantar. Logo em seguida apareceram Durval, Ferdinando, o veccio Pedro e até meus irmãos que estavam de folga e resolveram participar da jornada.

Meus irmãos foram para a porta das fábricas. Francesco e Zezé resolveram circular por todas as construções da cidade. Eu e Marinho fomos para o centro de Belo Horizonte e para a Casa de Itália.

Falamos com muitas pessoas. Até com aqueles que não eram da colônia e todos ficaram curiosos para ver o Palestra. O mais engraçado foi a conversa que tivemos com o “Seu Pepe”, um italiano rabugento e bonachão que tinha lá os seus 70 anos e vivia sentado em um armazém na Rua Tamoios. Marinho puxou a prosa.

- Buon giorno Senhor Pepe.

- Buon giorno por que, caspita? Respondeu mal humorado.

- Ora porque hoje é sábado e amanhã tem jogo do Palestra. Respondeu Marinho.

-Mamma Mia! É vero! Io adoro calcio. Estarei lá. Mas, peraí, onde fica o estádio da giornata sportiva? Perguntou o italiano.

- O estádio fica no Prado (Atualmente é o Quartel da Polícia Militar de Belo Horizonte). O senhore pode ir com o pessoal que vai sair da Casa D’ Itália, disse.

- Grazie bambino! Bela notícia! Peguem um sanduíche e um refresco por minha conta.

- Eba! Grazie. Pegamos o sanduíche e continuamos a peregrinação.

Rodamos o dia todo e a tardinha encontramos com a turma na porta da casa de Marinho.  A empolgação era geral. Apesar do cansaço de todos, a sensação de ver a italianada mobilizada não tinha preço.

Cheguei em casa, tomei o banho e apaguei.

No domingo, o primeiro compromisso foi a missa. Esse era sagrado. Assim que acabou, aproveitei para falar com mais algumas pessoas e principalmente com o Padre Roberto Walz que daria a benção protetora aos atletas.

- Padre, o senhor não esqueceu do compromisso de hoje com o seu Aurélio, né?

- Claro que não, meu filho! Vou lá e nosso time vai estrear com o pé direito!

- Obrigado padre, até mais tarde!

Saí correndo da Igreja. Passei em casa e, muito ansioso, peguei a minha camisa do Palestra e segui para o estádio. Quando cheguei lá não tinha ninguém. Mas o dia estava bonito e resolvi esperar na portaria para ver a chegada da torcida.

O jogo estava marcado para as 15 horas e por volta do meio dia os primeiros torcedores começaram a aparecer. Muitos traziam bandeiras com as cores da Itália e um sonoro grito de Paleeeeeeeeeeeeeeeeestra na garganta. Devia ser uma hora da tarde quando o portão se abriu e eu entrei para achar um bom lugar.

Aos poucos, o lugar encheu. A euforia italiana tomou conta do estadinho. Ao som da tarantella, o estádio se pintou de verde, vermelho e branco. Foguetes estouravam por toda a parte e a emoção estava a flor da pele.

Poucos minutos antes de começar a partida, meu pai se sentou ao meu lado e disse que um dos seus sonhos estava se realizando naquele momento. Com lágrimas nos olhos, o velho Enrico se sentia na Itália e deixou a emoção tomar conta quando o time entrou em campo.

Muita festa, aplausos e alegria em todo o estádio. O presidente Aurélio apresentou todos os atletas que compunham o elenco palestrino e logo a bola rolou. O único momento de vaias foi quando o combinado Villa Nova e Palmeiras de Nova Lima entrou em campo.

Em questão de segundos, as vaias transformaram-se em efusivos aplausos, para o time do Palestra. O scratch era formado por jogadores que vieram do Yale, do Atlético e por alguns que fizeram testes ou estavam parados.  Muitos estranharam o campo lotado e o nervosismo era visível. No entanto, antes do juiz apitar o término do primeiro tempo, o atacante Nani fez o primeiro gol da história do Palestra. A torcida comemorou como se fosse um título e a ansiedade se transformou em alegria. Meu pai parecia uma criança e gritava abraçado a toda família.

Na etapa complementar, o mesmo Nani se encarregou de fazer o segundo gol e liquidar a fatura. Como o padre Roberto Walz previu , a estreia foi com o pé direito e o Palestra saía de campo com o carinho da colônia italiana que se apaixonou à primeira vista pelo clube. Na saída, meu pai ganhou um efusivo abraço do presidente Aurélio Noce que gritou entusiasmado:

- Domingo que vem é o Atlético!

E o grito de Paleeeeeeeeesstra ecoou ainda mais forte pelas ruas do Prado.

Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais.

Escrita por Cláudio Guimarães,  jornalista e cruzeirense apaixonado. Idealizado por Cláudio Guimarães e P.C.Almeida.

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Capítulo 2: Hora de trabalhar

sex, 08/01/10
por pcalmeida |

J.V.Ferraz

J.V.Ferraz

Passadas as emoções das solenidades de fundação do Palestra, a colônia se mobilizou para trabalhar em busca de um clube forte. Cada um, a seu modo, contribuía, dia e noite para que o time representasse dignamente o seu povo.

Trabalho não faltava. O presidente Aurélio e seus companheiros precisavam providenciar o registro do clube nas ligas esportivas, a confecção dos uniformes, a formação do elenco de jogadores e até mesmo um lugar para treinarem. Isso sem contar a ambição de ter a sua casa, ou seja, o próprio estádio.

Toda a minha família ajudou o “Seu” Aurélio. Minha mãe, Dona Lina, era uma das costureiras dos uniformes palestrinos. Meu pai procurava um lugar para o time treinar. Meus irmãos mais velhos, Ítalo e Francisco, se empenhavam para serem escolhidos como atletas da equipe. Eu, todos os dias depois da escola, dava um jeito de fazer alguma coisa para ajudar.

Nessa época fiz de tudo. Entreguei documentos, comprei linhas e panos, ajudei meu pai e o presidente Aurélio nas coisas que me pediam. Quando não tinha nada para fazer tratei de observar o povo trabalhar. Seu Aurélio, por exemplo, não media esforços para montar o time e logo estrear oficialmente o Palestra pelos campos da cidade. Era um incansável.

A primeira batalha vencida por ele foi o registro do clube na Liga Mineira de Desportos Terrestres (LMDT). A meta era ambiciosa: disputar imediatamente a primeira divisão já em 1921.

Registro feito, a Societá Sportiva Palestra Itália era oficialmente reconhecida como uma agremiação esportiva e já poderia entrar em campo para o orgulho dos italianos de toda Belo Horizonte. A ansiedade era tamanha e aumentava ainda mais com a chegada dos primeiros jogadores para a formação do grupo. Dentre eles, o zagueiro Polenta e os atacantes Henriqueto e Armandinho.

Meu pai gastou a sola do sapato. Rodou por toda a cidade e, junto com o presidente Aurélio, o vice Tolentino Miraglia, os secretários Giuseppe Perona e Giovanni Zolini, chegaram a conclusão de que o time deveria jogar e treinar próximo ao centro da cidade.

O local escolhido foi o campo do Prado Mineiro. Elenco montado e treinamentos iniciados, era questão de tempo para o Palestra entrar em campo pela primeira vez. No dia 25 de março de 1921, minha mãe chegou em casa com a grande notícia: os uniformes estavam prontos.

De dentro de uma sacola, ela retirou a camisa verde e mostrou a todos. Meu pai dava saltos de alegria e gargalhava de satisfação. Emocionado, o velho chamou os companheiros de luta para ver a “obra de arte”. Foi aí que a festa começou. Muita música, vinho e macarrão vararam a noite para comemorar a chegada do primeiro uniforme.

De quebra, o presidente Aurélio anunciou um novo passo:

- Senhores! Nosso primeiro jogo foi marcado! Será dia 03 de abril. Enfrentaremos um combinado formado pelo Villa Nova e pelo Palmeiras de Nova Lima.

Aplausos por todos os lados, gritos e fogos de artifício estouraram no céu da cidade e muitos gritos foram ouvidos:

- Paleeeeeeeeeeeeeestra! Paleeeeeeeeeeeeeeestra!

Quando “Seu” Aurélio anunciou o primeiro jogo, meus olhos brilharam. Novamente mal consegui dormir e assim que o dia amanheceu sai de casa e fui conhecer o nosso primeiro palco.

Foi difícil entrar. Os portões estavam fechados e ninguém estava por perto para abri-los. Foi aí que vi um senhor de chapéu e paletó carregando um molho de chaves, uma garrafa de café e um pedaço de pão. Corri em sua direção e gritei:

- Moço, Moço! O senhor trabalha aqui no campo?

- Sim garoto. Sou o zelador.

- Posso entrar? Quero conhecer o campo e as arquibancadas.

- Nossa, por que tanto interesse? Você nunca viu um campo de futebol?

- Já vi sim. Mas não esse. Aqui é especial.

O homem coçou a cabeça e perguntou:

- Uai? Especial por que meu filho?

- Meu time vai estrear aqui no Prado dia 03 de abril. É o Palestra. O senhor já ouviu falar?

- Já sim! Estarei aqui para ver esse jogo. Todo mundo na cidade só fala sobre isso, afirmou o zelador.  Você vai jogar? É apenas um menino.

- Não senhor. Não vou jogar. Sou só um torcedor. Por favor, me deixe entrar?

- Tudo bem. Vá até lá e pise no gramado.

Agradeci e sai correndo em direção ao meio campo. Olhei para um lado, para o outro, vi as balizas e arquibancadas e imaginei o que aconteceria no dia 03 de abril.

Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais.

Escrita por Cláudio Guimarães, jornalista e cruzeirense apaixonado.

Off Topic: 100%

Os garotos do sub18 estão fazendo bonito na Copinha. Venceram mais uma, desta feita o Taboão da Serra por 2×1 e garantiram a classificação à proxima fase em primeiro lugar no grupo A da competição. Dá-lhe Raposinha rumo ao bi!!!

_rodape

89 anos de Sucesso Genuíno!!!

sáb, 02/01/10
por pcalmeida |

J.V.Ferraz

J.V.Ferraz

Alô Guerreiros Azuis!!!

Hoje é dia de festa!! Dia do Cruzeirense!!

São 89 anos de uma paixão que construiu uma Nação. Sim, ao contrário de outros que possuem uma massa de seguidores, somos uma Nação. Não sei se sabem, mas toda massa é burra, somente reage, não tem desejos próprios. Já uma Nação não. A Nação é democrática, crítica, construtiva e apaixonada.

Parabéns, Cruzeiro. Obrigado por existir e fazer dos nossos dias mais felizes e nos ensinar que com muita luta, disciplina e talento é que se vai ao longe.

E hoje é dia de estreia aqui no Bloguerreiro. Teremos a partir de então uma série contando a história do Cruzeiro, mas de uma forma diferente. Com um personagem fictício que foi testemunha ocular da gloriosa história do Cruzeiro Esporte Clube, desde os idos tempos do modesto Palestra Itália, fundado pela colônia de italianos radicados em Belo Horizonte, até a transformação em uma potência mundial.

Vamos acompanhar a trajetória do nosso amado clube no texto do jornalista Cláudio Guimarães.

J.V.Ferraz

J.V.Ferraz

Capítulo 1 – Nasce um gigante

Olá! Para quem não me conhece, vou logo me apresentando: meu nome é Genaro, sou um típico italiano de sangue quente. Já vivi um século neste mundo. Tenho muita história para contar.  Acompanhei os progressos da humanidade, vi o homem pisar na lua, o Brasil ser penta e a Itália tetracampeã mundial de futebol. Tive muitas alegrias nessa vida e, hoje, ganhei um espaço para falar daquilo que vi nascer, crescer e se tornar uma verdadeira potência mundial: o Cruzeiro Esporte Clube.

Nasci no sul da Itália e, ainda pequeno, acompanhei meus pais na maior aventura de nossas vidas. Seduzidos por um anuncio de jornal que prometia trabalho, terras, riqueza e progresso, deixamos nossa querida terra e chegamos ao Brasil. Para ser mais preciso, a uma cidade chamada Belo Horizonte.

Naquela época, ainda pequenina, a cidade cabia dentro do que atualmente é chamado de Avenida do Contorno. Lá pelos idos de 1912, corria e brincava pelas ruas do Barro Preto. Meu pai trabalhava na construção civil e minha mãe completava o orçamento costurando e ainda cuidava de mim, meus irmãos e da casa. Não tínhamos luxo, o salário do meu pai era contado, no entanto, vivíamos felizes ao lado de outras famílias italianas que também viviam na região e ajudavam na construção do alicerce do que é esta cidade atualmente.

Claro que nossa vida não foi apenas de trabalho, luta e abnegação. Também nos divertíamos. A colônia era unida e sempre se reunia para tomar vinho, comer uma bela massa, falar alto, dar boas risadas, cantar e dançar. Não era só isso. Os mais velhos jogavam bocha e a garotada era completamente apaixonada pelo tal de futebol.

Febre mundial, este esporte deixava em polvorosa toda a colônia. Sinceramente não me lembro da primeira tentativa de se montar um time italiano na cidade. Era criança  me recordo que o clube se chamava Yale e sobreviveu até os meados da década de 20.

A segunda e definitiva recordo como se fosse hoje. Ao lado de seus amigos, meu pai, o saudoso Enrico, fez uma longa viagem até a cidade de São Paulo. Naquela época era difícil deixar as montanhas de Minas e chegar até a terra da garoa. Meu pai demorou uns três meses para ir, visitar os parentes e voltar. Ele não deixou que eu fosse. Disse que precisava ficar em casa porque era muito novo e precisava começar os estudos.

Ao retornar para Belo Horizonte, os viajantes tinham uma idéia fixa na cabeça: repetir em Minas Gerais o sucesso que o time da colônia italiana fazia em terras paulistas. Era o Palestra Itália de São Paulo que ganhava partidas heróicas e enchia de orgulho a “italianada” radicada na metrópole paulista.

A meta era a fundação do Palestra Itália mineiro. Um clube criado pela colônia, com o objetivo de reunir a massa de operários, o empresariado local e os comerciantes que tinham em comum a origem italiana.

Lembro-me, como se fosse hoje, da reunião que aconteceu no dia 20 de dezembro de 1920. Ao lado de meu pai, todo imponente, de chapéu, bengala, terno e gravata, fui até a Societa italiana di Mutuo Soccorso Dante Alighieri. Nome imponente e local mais do que apropriado para a importância da ocasião. Afinal, ali seria discutida a criação do Palestra.

Em meus 11 anos de vida, nunca vi tantos italianos juntos, nem mesmo nas festas típicas da colônia. Tinha gente do lado de fora do prédio e, lá dentro, todos falavam alto, discursos exaltados aconteciam a todo momento e o sonho se transformou em realidade. Estava viabilizada a criação do Palestra Itália. Confesso que me emocionei com a alegria da colônia reunida naquele lugar e, pela primeira vez, vi lágrimas saltando do rosto do velho Enrico. Fui para casa satisfeito e ansioso para comparecer a outra reunião marcada para o dia dois de janeiro do ano seguinte.

Minha família celebrou o natal, comemorou a chegada do ano novo mas, o meu pensamento estava fixado no dia dois. O pior é que o tempo não passava. Jogava bola na várzea. Comemorava os gols como se fossem palestrinos e o resto do tempo passava contando as horas para o tão sonhado nascimento do Palestra.

Finalmente chegou o dia do grande acontecimento. Levantei cedo tomei o meu café da manhã como se fosse um raio, vesti a minha melhor roupa e encontrei com meu pai na porta de casa esperando. Acho que foi o grande acontecimento da minha vida até aquele instante.

Nos dirigimos até a Rua dos Caetés, na antiga fábrica de calçados e materiais esportivos Ranieri. Em minha mente se desenhava outra reunião das mais acaloradas, novamente recheada de infindáveis discussões e discursos. No entanto, encontramos um ambiente mais calmo, cercado de emoção, entusiasmo, força e garra para criar um time capaz de rivalizar com o Atlético, o América, o Yale e os demais clubes da capital.

Dessa forma nascia a Societá  Sportiva Palestra Itália. O sonho de meu pai e de toda a colônia se transformava em realidade. O uniforme tinha as cores da bandeira italiana, vermelho, verde e branco e o escudo era em forma de losango com as iniciais SSPI.

Por aclamação, Aurélio Noce foi eleito o primeiro presidente e logo arregaçou as mangas e botou a mão na massa.

Terminada a reunião, voltei para casa realizado. Pedi a minha mãe para costurar uma bandeira com as cores palestrinas e gritei para todos ouvirem: Viva o Palestra!

Tinha a certeza que a vida de toda a colônia italiana radicada em Belo Horizonte mudaria a partir daquele momento. Meu pai mesmo voltou de forma diferente para casa. Orgulhoso, ele tinha a missão em comum com  o presidente Aurélio, comigo e todos os outros: fazer do Palestra uma potência. Tal missão nunca acabará e sempre será transmitida entre as gerações que virão por aí.

Bom, por hoje é só. Temos muito papo e excelentes histórias para contar a partir de agora. Tempo não me faltará. Memória também não. Terei enorme prazer em repartir com vocês toda a história. Aguardem os próximos capítulos.

Isso é uma obra de ficção baseada em fatos reais.

Cláudio Guimarães é jornalista e Cruzeirense apaixonado.

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