
J.V.Ferraz
Foi só o juiz apitar o fim do jogo contra o Atlético que a colônia italiana começou mais um carnaval pelas ruas da cidade. Em meio a toda aquela alegria, meus pensamentos se fixaram nas vinte bolinhas de gude que ganhei do Manoel (o dobro ou nada!) e no rosto daquela menina que me encantou na arquibancada.
Quem seria ela? Por que chorava daquela forma? O que aconteceu para que o pai saísse tão rápido do Estádio? E o Manoel? Por onde andaria? Daria qualquer coisa para ver a cara daquele caspita. Até queria passar na casa dele, mas era tarde e meu pai precisava chegar logo em casa. O jeito era esperar e encontrá-lo na escola.
A poucos quarteirões de nossa casa, o presidente Aurélio surgiu na nossa frente como se fosse um fantasma. Eufórico, rouco de tanto gritar, aquele italiano não parava de pensar no Palestra nem nos momentos de festa.
- Enrico! Que bom encontrar com você aqui!
- Buona Notte presidente! Aconteceu alguma coisa?
- Não, Não. Que beleza a nossa vitória hein?
- A festa que fizemos vai ficar na história! Afirmou meu pai.
- Nem me fale! Só de lembrar da alegria da colônia e do primeiro gol do Atílio, fico com vontade de chorar. Estou muito orgulhoso com o que fizemos até aqui e temos muita coisa pela frente!
- Isso é verdade. É só o começo, respondeu o velho Enrico.
- Por isso faremos uma reunião amanhã à noite, na Casa D’Italia. Conto com a sua presença a partir das oito.
- Estarei lá, com certeza!
- Que bom! Apresentarei duas propostas para serem discutidas.
- Tudo bem. Amanhã nos encontraremos. Agora vamos para casa porque o trabalho nos espera logo cedo e esse bambino vai para a escola. Encerrou o velho Enrico com a pressa de sempre.
- Sim senhore, buonna notte.
Cada um seguiu o seu caminho e ganhei mais uma pulga atrás da orelha. Além de pensar na menina, no caspita do Manoel, nas bolinhas de gude, agora queria saber o que de tão importante o presidente tinha para falar na reunião. Em casa, o cansaço bateu mais forte e dormi feito uma pedra.
No outro dia só acordei porque minha mãe gritava da cozinha:
- Genaro, levanta! Vai perder a escola!
- Tá bom, mamma, to indo! Continuei enrolando até que ouvi:
- Genaro, ou levanta ou perde as 20 bolinhas. Avisado?
Essa ameaça me tirou imediatamente da cama. Como ela poderia me tomar uma coisa que nem recebi ainda? Troquei de roupa, peguei os cadernos, a bandeira do Palestra e saí correndo. Nem deu tempo de tomar o café.
Na escola, a primeira coisa que fiz foi procurar o Manoel. Rodei pelas salas, na cantina, no pátio e nada do maledeto. Passei pelo Vecchio Pedro e perguntei se ele tinha visto o sujeito. Ele disse que nem sinal. Fui para a aula injuriado, onde o Manoel se meteu?
O mistério foi desfeito no recreio. Encontrei com o Bené, o braço direito do Manoel e tão atleticano quanto ele.
- Poxa vida! Finalmente encontrei um de vocês. Perdeu o caminho de casa ontem? Cadê o Manoel e as minhas bolinhas de gude?
- Que isso, meu filho! Vocês deram foi muita sorte ontem. O Atlético é muito melhor que o time de vocês. Demos foi uma mãozinha. Não se esqueça: somos campeões de 1915, respondeu Bené.
Quando vi que a ladainha começaria, encurtei o assunto:
- Cadê o Manoel? Tá com medo? Acho que ele está me devendo alguma coisa…
- É … O Manoel faltou à aula… Tá com dor de barriga desde ontem… Bené contou sem graça.
- Não brinca! Piriri? Ele se borrou? Fale com ele que amanhã espero as minhas 20 bolinhas! Sem atraso, hein! Caí na gargalhada.
Com o Manoel fora de combate, passei o resto do dia estudando uma estratégia para encontrar a menina do jogo. A única coisa que me passou pela cabeça foi pedir ajuda para o meu primo Francesco. Este sujeito conhecia todo mundo em Belo Horizonte. Nunca vi tanta popularidade. No entanto, só encontraria com ele à noite, na reunião convocada pelo presidente Aurélio. Aproveitei para fazer a lição, limpar a bandeira do Palestra e esperar o velho chegar.
Quando meu pai abriu o portão de casa, eu estava pronto para sair. Faltavam poucos minutos para as seis da tarde e ele foi direto para o banho. Em poucos minutos, Seu Enrico retornou, de terno e gravata, disposto a chegar cedo na Casa D’ Itália.
- Vamos bambino? Que tal uma caminhada? Perguntou.
- Já tô pronto! O senhor sabe o que será falado lá?
- Não sei. Deve ser coisa boa. Quanto mais cedo chegarmos, mais rápido saberemos. Concorda?
- Sim. Então vamos rápido, conclui.
A caminhada até o local da reunião demorava, no máximo, meia hora. No caminho encontramos vários amigos da colônia que tinham o mesmo destino. Ao chegar, percebi que a casa estava lotada e era impressionante como os assuntos que envolviam o Palestra mobilizavam os italianos de todas as origens, uns ricos outros pobres. Muitos comerciantes, outros operários como meu pai. Todos unidos e fascinados por um amor novo, que ainda engatinhava, mas que a cada dia ganhava maiores proporções.
Às oito da noite, o presidente iniciou a reunião e apresentou o primeiro assunto:
- Amigos, estamos felizes com a vitória sobre o Atlético, mas não podemos nos contentar com migalhas. Precisamos de um título e conquistas só acontecem quando disputamos campeonatos. O torneio da Liga Mineira vai começar. E aí? O que acham? Vamos disputar?
A resposta veio com uma imensa gritaria que tomou conta do salão. Ninguém se entendia e a discussão parecia não ter fim. Até que o senhor Pepe pediu a palavra:
- Presidente! Títulos importantes conquistamos na primeira divisão. Como o Palestra, com menos de seis meses de vida, vai direto para a elite sem disputar o acesso? Alguma fórmula mágica?
Outro burburinho se formou e o presidente precisou bater na mesa para retomar a palavra.
- Conversei com os dirigentes do Yale. Eles me disseram que a Liga Mineira, ano passado, exigiu que todos os clubes associados fossem registrados como pessoas jurídicas até o dia 31 de dezembro. Quem não fizesse seria excluído dos quadros. Apenas o Atlético, o América e o Yale fizeram. Nenhum outro se registrou.
- Onde o senhor quer chegar? Fale logo, maledeto! Gritou um ragazzo no fundo do salão.
- Eles não farão um campeonato com apenas três clubes. Na reunião da Liga vou propor a realização de uma seletiva com a justificativa de que o Palestra foi fundado e registrado em 1921 e, como membro da Liga, tem o direito de entrar na disputa. O que acham?
- Bravo! Bravo! Todos no salão aplaudiram de pé o presidente.
- Não custa nada tentar. Vou à reunião e semana que vem teremos a resposta.
Aos gritos de “Palestra”, a segunda parte da reunião começou e foi aprovada rapidamente.
- Senhores e o nosso estádio? Jogaremos a vida inteira no Prado? Vamos ou não encarar a construção da nossa casa? Perguntou o presidente.
- Bravo! Bravíssimo! Queremos o nosso estádio! Todos responderam em coro.
- Então tratem de gastar a sola de sapato e arrumem um lugar! Disposição e gente para a obra não faltarão e buona notte a todos, concluiu o presidente.
- Paleeeeeeeeeeestra!
Na volta para casa, meu pai estava pensativo, mas logo soltou a melhor frase da noite:
- O Palestra será um gigante! Pode escrever, profetizou o velho Enrico.
Nisso meu primo Francesco apareceu e logo gritei:
- Francesco, quero te pedir uma ajuda!
- Claro Genaro, o que é?
- Vamos lá em casa que lhe contarei…
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Esta é uma obra de ficção baseada em fatos reais.
Escrita por Cláudio Guimarães, jornalista e Cruzeirense apaixonado.
Idealizada por Cláudio Guimarães e P.C.Almeida.
