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Atirando no próprio pé

ter, 08/12/09
por Emerson Gonçalves |

O ex-presidente rubronegro Marcio Braga, já foi elogiado e já foi criticado aqui neste Olhar Crônico Esportivo. Mais criticado que elogiado, verdade seja dita. Seria agora o momento de um elogio com ressalvas, várias ressalvas, por conta da conquista do BR, mas, e não por mim, mas unicamente por ele, vai mesmo é uma crítica.

(Aos críticos de plantão: as ressalvas a que me refiro são à gestão Braga e Braga/Leite, e não ao título conquistado.)

Recentemente, o clube fez uma demonstração de suas contas no período 2003 a 2008, que, basicamente, coincide com a gestão Braga. Houve, inegavelmente, uma evolução significativa nesse período, em que o ponto alto foi o pagamente de 75 milhões de reais em dívidas. O que não impediu que o valor consolidado nesse final de 2009 tenha atingido o total de 333 milhões de reais. Dívidas que, como diz o ex-presidente, foram contraídas em outras gestões.

Ao lado desse valor, temos alguns outros bastante interessantes, como, por exemplo, o crescimento das receitas de 53 milhões em 2003 e em 2004 para 118 milhões em 2008. O valor recebido pelos direitos de TV passou de 15,9 milhões nos anos de 2003 e 2004, para 43,6 milhões de reais em 2009. A receita de bilheteria, em sua maior parte do Campeonato Brasileiro, foi de 20,9 milhões em 2007 e de 21,1 em 2008. Em 2003 foi de 6,3 milhões e a soma de 2000, 2001 e 2002 atingiu 9,4 milhões de reais. Nesse Brasileiro recém-terminado, o Flamengo teve uma receita bruta de bilheteria no valor de 14,6 milhões de reais. Entre 2004 e 2008 o clube pagou 63 milhões de débitos cíveis e trabalhistas – estes, a maior parte do valor.

Dados esses números, reparem que eles coincidem, como já falei, com a gestão Braga e essa coincide, ora vejam, com a introdução dos pontos corridos no campeonato.

Mera coincidência ou haverá alguma ligação entre esses números, esse desempenho de uma gestão, e as necessidades que o novo sistema de disputa passou a exigir dos clubes? Eis uma questão interessante.

Ontem, no calor da comemoração, Marcio Braga manifestou-se contra a fórmula dos pontos corridos e pregou a conveniência financeira de playoffs entre os ponteiros da competição.

Playoff é uma beleza, playoff é bárbaro, playoff é tudo de bom.

Quando o time da gente está dentro.

E quando o time da gente está fora?

Nesse momento de festa e comemoração de título é fácil para um dirigente falar contra os pontos corridos. Os cofres vão bem, obrigado. Mas de 20 clubes, 16 ficariam à margem da festa financeira. Ou 12, com outros 4 só sentindo o gostinho e já caindo fora.

Como fechar um patrocínio de doze meses com a perspectiva de ficar um mês ou pouco mais às moscas?

O dirigente que defende a volta ao mata-mata está atirando no próprio pé.

Essas e outras perguntas são chatas de serem respondidas no meio da festa.

Então, volto a perguntar:

E quando o time da gente está fora?

Pontos corridos: preferência do torcedor paulista

seg, 23/11/09
por Emerson Gonçalves |
categoria Pesquisas

Volto à tecla dos pontos corridos. É assunto chato? Sim, para alguns é mesmo muito chato, mas, para azar desses, eu mesmo nada vejo de chato nessa discussão, pelo contrário. Volto a esse tema em função de uma pesquisa muito interessante. Ela foi feita pela APPM, empresa tradicional no mercado, e teve como tema a posição do torcedor paulista em relação aos formatos “pontos corridos” e “mata-mata”.

Embora seu alcance seja limitado – foi feita somente no estado de São Paulo – nem por isso deixa de ser interessante.

E por que somente em São Paulo? Pesquisas são trabalhos extremamente caros. Opa, deixa reformular: pesquisas são trabalhos que têm custos elevados, principalmente na captação, no levantamento dos dados. Muitos trabalhos interessantes são feitos numa base rotineira por alguns institutos. Por motivos diversos, eles mantêm equipes permanentes levantando dados sobre os mais diferentes assuntos, seja por semana, quinzena ou mês. Com isso, não somente os institutos mantêm profissionais especializados trabalhando regularmente, como também constroem excelentes bases de dados. Algumas empresas fazem isso nas sete maiores praças consumidoras do país. Outras, em localidades específicas e outras, ainda, em estados isolados, como é o caso presente.

Foram ouvidas 1.000 pessoas em todo o estado de São Paulo, por telefone, de ambos os sexos, acima de 16 anos de idade. O número de entrevistados foi proporcional, naturalmente, à participação de cada região no total da população do estado. A margem de confiança da pesquisa é de 95,5% e sua margem de erro está entre 2% e 3%.

É comum as pessoas questionarem as pesquisas, principalmente o tamanho das amostras. “Pô, mas só mil pessoas? O estado tem quarenta milhões de habitantes, cara!”

Pois é, mas como diz o povo das pesquisas, quando você faz um exame de sangue, é recolhida somente uma amostra com dez, vinte, trinta mililitros e é o bastante para saber a quantas anda a tua saúde. Já imaginou se para fazer o exame todo o sangue do corpo tivesse que ser examinado?

É uma tendência natural desacreditarmos de tudo que não combina com nossa visão de mundo, nossas preferências. Isso num primeiro momento, que, em alguns casos, dura a vida inteira, o que já é sinônimo de cabeça dura. Uma pesquisa mostra um panorama de um dado momento.  Se bem feita, e elas são cada dia mais bem feitas, ela cobre toda uma população através de uma amostra que, aparentemente, é pequena. Bom, vamos à pesquisa.

A primeira pergunta feita pelos pesquisadores foi se o entrevistado acompanha o Campeonato Brasileiro, que resultou em 55% de respostas positivas, com 43% respondendo que não costuma acompanhar e 2% não responderam. Das pessoas que responderam que acompanham, 72% são do sexo masculino, enquanto 59% dos que disseram não acompanhar são do sexo feminino. Ficando agora com a freqüência, 47% de quem acompanha o BR o faz sempre e 18% na maioria das vezes.

Observação importante: embora a pesquisa também aponte alguns resultados pelo total de entrevistados, considerei para este post somente as opiniões dos que declararam acompanhar o Campeonato Brasileiro.

A pergunta seguinte já entrou no gosto do torcedor pelo sistema empregado: Qual sistema de disputas prefere? Pontos corridos ou mata-mata?

Entre os que acompanham o campeonato, 64% declararam-se a favor dos pontos corridos, enquanto 26% optaram pelo sistema mata-mata, 3% declararam-se indiferentes e 7% não responderam.


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Na divisão por sexo, 70% dos homens optaram pelos pontos corridos, contra 55% das mulheres.

Por faixa etária, 69% da rapaziada dos 16 aos 24 optou por esse formato, contra 61% do pessoal dos 25 aos 44 e 66% de quem tem acima de 45 anos de idade.

Considerando escolaridade, pontos corridos foi a escolha de 52% de quem cursou até a 4ª série, 62% de quem ficou entre a 5ª e 8ª séries do ensino básico, 69% de quem tem o ensino médio e 64% de quem tem curso superior.

Por faixas de renda os resultados foram também favoráveis a esse formato: 58% entre os que ganham até 2 salários-mínimos por mês, 61% entre os que ganham de 2 a  5 SM, 68% entre o pessoal de 5 a 10 SM e nada menos que 87% de preferência entre a turma de 10 ou mais salários-mínimos mensais.

Nessa altura da entrevista, o pesquisador colocou as seguintes frases:

- O campeonato de pontos corridos é melhor pois premia os times mais regulares e que investem melhor e também mantém a emoção até o final da disputa.

- O mata-mata é melhor pois permite que um time se destaque no final do campeonato e seja campeão, mesmo que não tenha tido uma campanha melhor que os outros.

Entre os que acompanham o Campeonato Brasileiro, 69% concordaram com a primeira frase e 26% com a segunda.

As últimas questões envolveram a preferência clubística dos entrevistados, conforme a tabela abaixo:

Corinthians

São Paulo

Palmeiras

Santos

Outros

Nenhum

Não resp.

Total

33%

20%

13%

7%

3%

21%

3%

BR *

39%

27%

16%

10%

3%

4%

1%

* Resultados entre os que acompanham o Campeonato Brasileiro)

Na verdade não há grande novidade nessa pesquisa. Uma boa amostra da preferência do torcedor, não só de São Paulo como do Brasil, é demonstrada pelo crescimento das vendas do PPV. Ao mesmo tempo, apesar dos inúmeros problemas que afligem quem quer ver um jogo ao vivo, a freqüência nos estádios tem aumentado consistentemente. Palmeiras e Corinthians, além disso, cobraram preços mais altos durante a competição e mesmo com PPV e transmissões diretas por sinal aberto, os dois clubes tiveram um faturamento excepcional com bilheteria.

Pode-se dizer sem medo de errar que o campeonato atrai o torcedor e não somente nesse ano, em que, muito provavelmente só conheceremos o campeão na última rodada.

Pontos Corridos, o gosto do torcedor brasileiro

qui, 14/05/09
por Emerson Gonçalves |
categoria Pesquisas


A TNS ouviu 8.018 pessoas em 26 capitais e mais o Distrito Federal, em fevereiro desse ano, e nessa pesquisa, ao contrário de anteriores que tinham como foco o campeonato preferido dos torcedores, uma pergunta simples foi feita aos entrevistados:

Qual o formato preferido para o Campeonato Brasileiro?

Mais da metade dos torcedores responderam Pontos Corridos: 53,3%.

Pouco mais de um terço – 36% – optou pelo formato “mata-mata” e 10,7% declararam ser indiferente o formato.

Formato

Preferência

Pontos Corridos

53,3%

Mata-Mata

36,0%

Não Importa

10,7%


As respostas à pergunta sobre o campeonato preferido não deixaram dúvidas sobre a escolha do formato preferido, comprovando o que foi dito por este Olhar Crônico Esportivo em post de 15 de abril de 2008 (no “velho” OCE, link ao lado) publicado também pelo Juca Kfouri em seu blog: por inferência dos dados de preferência de campeonato, podíamos dizer que o mesmo gosto aplicava-se ao formato de disputa. Essa conclusão foi alvo de críticas, principalmente no blog do Juca, taxada até de não-científica e chutada. Ora, ressalvando-se que se trata de uma inferência e não de resposta direta, ela é tão válida quanto qualquer outro dado de pesquisa.

Campeonato

Preferência

Brasileiro

55,6%

Libertadores

15,9%

Copa do Brasil

13,6%

Estaduais

11,9%


Esse índice de preferência pelo formato Pontos Corridos é extremamente consistente, levando-se em conta que estamos apenas no início da sétima edição do Brasileiro por pontos corridos e que um mesmo clube conquistou os últimos três títulos, com mais o agravante, se é que assim se pode chamar, da conquista de 2007 ter se desenhado com muita antecedência. Apesar disso, não somente a preferência se manteve, como também o público médio nos estádios apresentou números bastante significativos: 17.461 pessoas em 2007, ano em que tivemos uma grande promoção de troca de ingressos por produtos de uma empresa, a Nestlé, contra 16.992 em 2008, sem a presença de um grande puxador de público, o Corinthians, que disputou a Série B. Essa redução mínima, apenas 2,7%, tem um significado de crescimento, na verdade, uma vez que em 2008 não houve a promoção de troca de ingressos.

É interessante vermos a distribuição dessa preferência pelas grandes regiões brasileiras, mostrando uma relativa homogeneidade:

Região

Pontos Corridos

Mata-Mata

Não Importa

Centro-Oeste

56,94%

26,52%

16,54%

Nordeste

54,75%

33,85%

11,40%

Norte

54,29%

31,84%

13,87%

Sudeste

52,89%

36,91%

10,20%

Sul

51,37%

40,90%

7,73%


Um outro dado muito importante e que mostra a consolidação dessa preferência pode ser vista na preferência entre os torcedores que freqüentam os estádios:

Formato

Frequenta estádios

Não frequenta estádios

Pontos Corridos

55,81%

51,15%

Mata-Mata

38,27%

35,93%

Não Importa

5,92%

12,92%


Essa, sem dúvida, é uma informação importante e que contribui para jogar uma boa dose d’água fria nos críticos dos pontos corridos, que frequentemente levantam a bandeira que quem mais gosta desse formato é o “torcedor de TV” e não o torcedor que vai aos estádios.

O futebol brasileiro, a exemplo de outros países, tem hoje sua estrutura baseada puramente no mérito esportivo de todos contra todos em jogos de ida e volta, ao mesmo tempo que apresenta ao torcedor a oportunidade de torneios mais curtos, disputados em mata-mata com toda a carga de dramaticidade e apelos de mídia que essas competições podem apresentar, dependendo dos cruzamentos finais.

(As duas informações básicas dessa pesquisa – a preferência pelos pontos corridos e pelo Campeonato Brasileiro, foram publicadas em trabalho do excelente Eduardo Maluf, no Estadão de 8 do corrente. O Eduardo usou o título que eu queria ter usado nesse post: Pontos corridos, preferência nacional. Não linko a matéria por seu acesso ser exclusivo de assinantes.)




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