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A volta do Vasco: a vitalidade do futebol brasileiro

dom, 08/11/09
por Emerson Gonçalves |

Na sua opinião, qual foi o evento mais importante do futebol brasileiro ou para o futebol brasileiro nos últimos, digamos, vinte anos? Ou, vá lá, trinta ou quarenta anos?

Já antecipo que, para mim, não foi nenhuma Copa do Mundo.

Escrevi em alguns lugares em outros tempos, como no antigo Jogo Aberto, do Lédio, que, na minha opinião o evento mais importante do futebol brasileiro nesse século XXI e, a bem dizer, talvez até da segunda metade do XX, foi o descenso e a ascensão do Palmeiras e Botafogo.

De uma só vez, dois dos maiores e mais tradicionais clubes brasileiros viram-se rebaixados para a, até então, temível segunda divisão de nosso futebol. No calor do momento, houve quem pedisse, houve quem sugerisse, felizmente não houve quem tentasse mais uma das muitas e malditas viradas-de-mesa que tanto mal fizeram ao futebol de Pindorama.

A regra foi cumprida, o regulamento foi seguido à risca e durante um ano inteiro não vimos jogos desses dois times no cenário principal do futebol.

Em campo, as duas equipes desdobraram-se e, de forma irretocável, conquistaram suas vagas na divisão de elite do futebol tupiniquim.

É esse conjunto de fatos que reputo os mais importantes, não só o descenso, como o retorno unicamente pelos méritos esportivos, conquistados nos gramados. Naquele momento, ficava claro a todos que, bem ou mal, existiam regras e elas, doravante, seriam cumpridas, doesse a quem doesse.


(Formalmente, eu poderia e deveria dizer que foi o Estatuto do Torcedor o evento mais importante, como de fato foi. Formalmente. Mas preferi apegar-me ao exemplo prático, visível, marcante e retumbante, como é o caso do rebaixamento de grandes clubes.)


Durante alguns anos, um então dirigente de clube, ex-deputado (de atuação pífia), figura de proa por muitas e muitas temporadas, alardeava que seu time nunca seria rebaixado – mesmo que os resultados em campo o levassem a isso. Como é de praxe, muita gente acreditava nesses rompantes. Bom, para não perder mais tempo com quem não é importante, basta dizer que essas palavras foram devidamente sepultadas.

Depois de Palmeiras e Botafogo outros clubes importantes e tradicionais foram rebaixados, entre eles o dono da segunda maior torcida brasileira. Todos voltaram, jogando futebol, cumprindo o regulamento, merecendo cada ponto conquistado.

Atrevo-me a dizer que esse é o lado mais “primeiro-mundo” de nosso futebol que, em boa parte, ainda é de terceiro, quarto ou quinto mundo. Isso, é claro, partindo do pressuposto que o quinto mundo aceitaria alguns de nossos gramados.

Senadores, principalmente, e deputados, sobretudo, poderiam e deveriam mirar esse exemplo e aplicá-lo, com as mudanças cabíveis, às suas próprias vidas como representantes do povo. Mas isso já é sonhar demais. Saltar do sétimo ou oitavo mundo, onde estão nossos parlamentos, para o primeiro, parece-me hoje mera utopia.


O Vascão voltou!

Alvíssaras!

Mas não exageremos: o clube fez o que tinha que fazer. Como dizem os torcedores amantes de faixas, cumpriu sua obrigação.

Parabéns ao Presidente Roberto Dinamite. Um cara tão corajoso hoje como dirigente, como ontem como centroavante. Não conheço os bastidores de São Januario, mas estou certo que Roberto precisou de muito equilíbrio, muita determinação e muita fé em seu trabalho e de alguns companheiros, para conduzir o clube e o time durante esse ano de 2009.

Parabéns a Dorival Junior. Sim, critiquei o valor de seu salário, mas ao mesmo tempo disse que havia o caro barato e o barato caro. E eu acreditava, como acredito, que Dorival é o caro que sai barato, porque dá resultado. Praticamente sem recursos financeiros e vivendo em meio à turbulência, ele montou um time dentro da realidade, um time possível, um time vencedor, mesmo em meio à descrença de muita gente.

Parabéns a Carlos Alberto. Encontrou um lugar em que se sente bem e encontrou-se. Esse cumprimento vai para todo o time, mas prefiro personalizá-lo na figura de Carlos Alberto.


Parabéns, finalmente, à torcida vascaína, que apoiou o time de forma fantástica em momentos importantes.


As manchetes de hoje referem-se á saída do “inferno”. Esse portal mesmo fala em “fim do pesadelo para o Vasco”, referindo-se à Série B.

Desconcordo.

A Série B não é um inferno, tampouco é um pesadelo. É uma divisão de nosso futebol, cada dia mais estruturada e atraente, com boas disputas, bons jogadores, ocupando espaço e tempo nas diversas mídias.

Para alguns clubes, ela pode ser, isso sim, um rito de passagem, uma transição, uma lição em muitos sentidos, principalmente administrativos. Como foi e tem sido para o Corinthians, por exemplo. Como, aparentemente, foi e tem sido para o Vasco da Gama.

Disputar a Série B jamais pode ser motivo de vergonha, sob nenhuma hipótese. Deve ser, isso sim, um desafio e uma passagem. Porque é a Série B que dá valor e peso à Série A. Porque futebol profissional, estruturado e levado a sério como competição e mesmo como negócio, precisa da movimentação vertical de seus participantes, indo e vindo para as diferentes séries em que nosso futebol se divide.


Tanto quanto celebramos o retorno do Clube de Regatas Vasco da Gama, celebramos, também, a vitalidade do futebol brasileiro.


Pot-pourri agostinho

ter, 25/08/09
por Emerson Gonçalves |
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Mas como você, leitor do Olhar Crônico Esportivo, é moderno e antenado, pode chamar de Medley agostinho.


Aviso aos navegantes

Este Olhar Crônico Esportivo está derrapando na freqüência de postagens em virtude de problemas técnicos do tipo TMB – Tendinite Muito Braba.

Tão logo esse escrevinhador volte a ter condições de digitar as habituais mal traçadas, ou mal digitadas, voltaremos à velha frequência.



111 anos de glórias em alto estilo

80.000 torcedores no Maracanã.

Jogo contra o Ipatinga.

Campeonato Brasileiro da Série B.


Ô loco, meu, quanta gente!

É vero, bello, gente de monte, tudo vascaíno.

Que beleza!


Realmente, uma beleza. Fico feliz por meus amigos vascaínos e pelo clube, sua história e sua torcida. Confesso que esse sentimento não seria tanto assim em outros tempos, mas o Vasco de hoje, com Roberto à frente e a demostração de amor de sua torcida é empolgante.


Dorival Jr. montou um bom time, dentro da realidade do clube, sem arroubos, sem lances megalomaníacos. Quando seu salário veio a público, eu disse que era exagerado, como de fato é, mas disse,também, que pelo menos Dorival era um profissional talhado para trazer resultados. Era o caro que poderia ficar barato. E está ficando, para felicidade da direção que apostou nele a da torcida que tem dado todo o apoio.

Carlos Alberto é meio problemático, mas é bom moço. Encontrou-se no Vasco, foi bem acolhido, tem dado retorno ao carinho recebido. Torço por ele.

Jogadores jovens e desconhecidos precisam de um treinador capacitado, que enxergue suas qualidades e aposte nelas. Nem todo treinador é assim. Essa rapaziada boa e barata que veste a camisa da Cruz de Malta está em boas mãos.


A direção andou dando umas derrapadas, mas tem crédito, acertando mais que errando. Acertou na chegada da Champs e errou na condução do processo com a empresa, que acabou sendo a única ou maior vítima do imbróglio. Criado o pepino, a nova troca de fornecedor foi positiva. Assim como errou na demora para lançar o programa de sócio-torcedor, mas vem acertando na condução do mesmo e em outras ações de marketing. Sobre o patrocínio máster eu passo batido, dado sua forte conotação política de origem.

Um belo acerto da direção foi mandar esse jogo no Maracanã, quando a lógica limitada usual no futebol brasileiro mandava fazê-lo em São Januário.

O resltado fala por si só:

- 80.000 torcedores presentes

- renda bruta de R$ 1.415.278,00

- renda líquida de R$ 953.721,67

- penhora de R$ 286.116,50

- despesas no total de R$ 497.556,40 (FERJ, bilhetes e muito etc)

- renda líquida final de R$ 667.605,17

Não prestem muita atenção aos valores de despesas e penhora, não hoje, pelo menos, afinal, festa é festa. Vejam que quase 700.000 líquidos é uma belíssima injeção de recursos para um clube que está com problemas financeiros graves. Se fosse em São Januário, a receita líquida dificilmente chegaria aos 200.000 reais.

Foi um presente de aniversário pela metade, mas já foi alguma coisa.

Assim segue o Vasco, ao entrar nos primeiros dias do seu 112º ano de vida.

Felicidades ao clube, ao time e aos torcedores.


Ah, Dona Cristina…

Na virada do século XIX para o XX, a Argentina era um dos cinco países mais ricos do mundo; para alguns historiadores chegou a ser a terceira economia do planeta. Buenos Aires era uma das capitais culturais do mundo. Um circuito artístico mínimo contemplava Londres, Paris, Nova York e Buenos Aires. Já naquela época, Paris entrava pelo glamour eterno, somente, e as outras entravam pelo dinheiro, acima de tudo.

Governos ruins em sucessão, um pior que o outro, desmontaram o que foi a maior potência econômica e cultural da America do Sul. Dona Cristina, esposa do “seu” Néstor, é a personificação de tudo isso que disse. Aliás, o maridão também. Ambos personificam com sobras o que há de pior no mundo político de Latino America.

Enquanto o país e o povo empobrecem a olhos vistos (e o patrimônio pessoal do casal cresce em ritmo galopante), Dona Cristina destina pouco mais de cem milhões de euros, ou 600 milhões de pesos, para bancar os direitos de transmissão do Campeonato Argentino de futebol. Bom, se ainda fosse a Suécia ou a Noruega ou a Dinamarca ou, claro, os Emirados Árabes Unidos, eu ainda entenderia, embora igualmente discordasse.

Mas, a Argentina?


Dívidas? Lance ações

Foi o que fez o Valencia, em desespero de causa. A dívida do clube é dantesca: passa os quinhentos milhões de euros, mais de cinco vezes a receita total do clube por ano. Uma dívida impagável. Recentemente, o Valencia lançou novas ações no mercado e em poucas semanas arrecadou ótimos, mas míseros 26 milhões de dólares (estranhei o valor em dólares, mas como a fonte é a americaníssima Bloomberg, está explicado). Ainda há torcedores que acreditam e querem salvar o clube e o time e desembolsam alguns euros por isso, fora o que gastam em estádio, camisas e outros produtos.

Cada ação foi vendida na faixa de 45 a 50 euros, e o lançamento total foi de quase meio milhão de ações. Como a operação foi considerada um sucesso, a direção do Valencia está pensando em lançar uma nova emissão.

De repente, quem sabe? De ação em ação sobra algum para quitar parte da dívida.


Fico imaginando essa moda em certa república ao sul do Equador.


De volta à Argentina

Graças à generosa e nada interesseira ação de Dona Cristina, foi desfeito o nó que impedia o campeonato Hermano de começar. Dinheiro foi adiantado e parte das dívidas dos clubes foi paga. Uma parte somente, mas o suficiente para permitir o início da competição mais importante do futebol argentino.

Essa história de não poder jogar tendo dívidas para acertar é um perigo para nossas tardes de domingo e noites de quarta-feira. Se implantada em Pindorama, é capaz de termos um campeonato restrito a meia dúzia de 3 ou 4 equipes, metade das quais sob suspeita de dever e não mostrar. Haverá muita discussão sobre o caráter de determinadas dívidas, se entram ou não no caso de impedimento de participação no campeonato. Comentaristas de dívidas serão contratados e, naturalmente, comentarão os lances mais bizarros.

Ativo e passivo virarão palavras da moda, naturalmente que despidas de todas e quaisquer conotações que não sejam as contábeis. Da mesma forma circulante e não circulante, que nada terão a ver com a rapaziada que circula uma barbaridade nas baladas, ou aqueles boleiros que circulam também uma barbaridade de um clube para outro e outro e para um e assim vão. Será interessante vermos a florescente indústria dos “efeitos suspensivos”, que permitirão que clubes devedores disputem o campeonato. O presidente Lula será instado a seguir o exemplo da Sra. Kirchner e as pesquisas de opinião dir-lhe-ão que essa é a medida correta a ser tomada. Tomada essa medida, o Brasil mostrará, uma vez mais, que é um país plenamente integrado à America Latina e à sua preciosa dinâmica da marcha-à-ré.

Para comemorar tudo isso teremos portentoso amistoso, reunindo Boca Juniors de um lado e algum time brasileiro do outro. Na plateia, os casais da Silva e Kirchner, os quatro personagens ignorando as vaias. Ou melhor, três, pois um deles estará saboreando-as, dentro da velha visão do “falem mal, mas falem de mim”.


Enquanto isso, a tv estatal argentina pulou de 0,9 para 14 pontos de audiência, com a primeira rodada do Apertura. Dona Cristina vai fazer escola.


Ascensão azul

Dizer o que do Avaí e de Silas?

Simplesmente, as melhores e mais gratas surpresas deste BR pobre em boas surpresas e novos bons nomes.


Duas coisas a destacar no Avaí:


- O treinador foi mantido, mesmo com o time consistentemente na zona do rebaixamento.

- Sua direção parece pensar e sabe planejar (digo parece porque é sempre bom um pé atrás com nossos dirigentes; além disso, sou muito ignorante sobre as pessoas que dirigem o clube, falha que tentarei corrigir).


Exemplo desse planejamento é que em 2004 o clube tinha pouco mais de mil sócios e nesse agosta deverá bater em 12.000 sócios. Um número excelente, na verdade um número gigantesco, dado o tamanho da população de Florianópolis e de Santa Catarina como um todo. Esses sócios devem dar um bom suporte ao mês a mês avaiano.


A campanha do clube mostra que existe, ou melhor, pode existir vida no futebol brasileiro fora dos dois maiores centros do país. É difícil, obviamente, mas inteligência e criatividade, trabalho e dedicação, não são produtos exclusivos dessa ou daquela região geográfica. E esses atributos podem contrabalançar os cofres mais cheios de clubes de grandes centros e grandes torcidas.

Enfim, parabéns ao Avaí, mas não custa nada colocar o balanço no site, hein pessoal?


Que nada mude

qua, 25/03/09
por Emerson Gonçalves |



O Vasco conseguiu as CNDs – Certidão Negativa de Débito – por meio de uma medida liminar da justiça federal. Grande notícia para o clube e seus torcedores, pois agora o contrato com a Eletrobrás poderá, finalmente, ser fechado e o dinheiro começar a chegar aos cofres de São Januário.

Como diz o pessoal, melhor que isso, só dois disso.


Esse patrocínio tem o valor de 14 milhões de reais, dos quais 2,5 milhões deverão ser empregados em projetos de cunho social. Esses projetos não foram, até hoje, definidos com clareza. Para o futebol profissional ou para o clube, irão, portanto, 11,5 milhões de reais. Um bom dinheiro, sem a menor dúvida.

Uma dúvida preliminar: o contrato de patrocínio cobrirá somente o ano de 2009 ou entrará em 2010? No primeiro caso, os 14 milhões serão 10,5 milhões, dos quais 1,9 milhão para os projetos sociais e 8,6 milhões para o clube. Caso o contrato tenha a duração de doze meses, como previsto, terminará em 31 de março de 2010.

Não é automático que a duração do mesmo seja de um ano, independentemente da data de sua assinatura, principalmente por se tratar de empresa estatal. Se esse valor foi alocado para o ano de 2009 no orçamento, podem haver restrições ou dificuldades internas na Eletrobrás para transferir parte da despesa para 2010.

Ainda há pouco um internauta vascaíno, o Mazen, perguntou-me o que muda no modelo de gestão vascaíno com a entrada desse contrato, ou melhor, do dinheiro correspondente.

Espero que nada mude e que Roberto e seus diretores simplesmente usem o dinheiro para pagar funcionários e jogadores. Já será o bastante. Esse é o momento em que a direção deve deixar bem claro a todos que os momentos de privação e dificuldades não foram esquecidos e que, se possível, não mais acontecerão. Pensar ou falar em investimentos e contratações será a “maior roubada”, como diz a rapaziada. Funcionários e jogadores jogam juntos com o clube quando sentem que a direção está preocupada de fato com eles.

Apesar dos problemas, Roberto vem conseguindo manter o futebol à margem dos principais problemas, o que por si só já é um feito. Dorival montou um bom elenco e já conseguiu, também, montar um bom time. O foco de 2009 não deve ser esquecido em momento algum: o retorno à Série A. Todo o resto, tanto o Carioca como a própria Copa do Brasil, não são importantes.

Em 2008 escrevi que o melhor para o Corinthians seria até chegar à final da Copa do Brasil, mas não vencê-la. Esse fato geraria tremenda carga de expectativas e demandas em todos os sentidos e, mesmo que não impactasse de forma negativa na campanha da Série B (sim, esse tipo de coisa acontece, é a tal perda do foco, o “virar o fio”, etc), era bem capaz de levar a direção a fazer investimentos prematuros, atrapalhando a consolidação das finanças do clube. Esse alerta é mais importante ainda para o Vasco, cuja situação financeira é mais complicada do que era a do Corinthians no começo de 2008.

Portanto, que nada mude e a Eletrobrás seja apenas um grande reforço para uma campanha vitoriosa no Brasileiro da Série B. E por vitoriosa entenda-se qualquer posição entre o 1º e o 4º lugares.

São Januário: mudanças em curso

qua, 04/02/09
por Emerson Gonçalves |


Uma das boas coisas do futebol brasileiro nessa fase que vivemos, é a chegada de caras novas na sua linha de frente fora dos gramados.

De norte a sul, literalmente, novos presidentes, novos diretores, novas cabeças, novas ideias. Nem tudo que é novo é garantia de ser bom, isso é claro, mas num ambiente viciado e dominado por velhas e permanentes figuras por infindáveis anos, como é ainda o futebol brasileiro, renovar é muito bom e salutar, e velhas estruturas começam a ser mexidas.


Comentei em dezembro que o Vasco da Gama provavelmente daria força ao marketing, tal como fez o Corinthians desde o final de 2007, e que o clube deveria aproveitar a situação para desenvolver uma série de ações, às quais chamei de “agenda positiva” no clube do Parque São Jorge. O mesmo, na minha visão, aconteceria com o clube de outro SJ, São Januário.

Por isso e pelo desenrolar dos acontecimentos, estava curioso acerca do que anda ocorrendo em São Januário, nesse começo de ano em que o clube disputará a Série B. Minha curiosidade começava, como não poderia deixar de ser, pela entrada em vigor do novo patrocínio vascaíno. E foi por aí que começou a conversa com o José Henrique Coelho, vice-presidente do clube encarregado do marketing. Ele reconhece que o timing foi benéfico ao Vasco, que negociou seus novos e bons patrocínios – Champs e Eletrobrás – antes do aprofundamento da crise financeira mundial.

O contrato com a MRV terminou no último dia de janeiro, mas a Eletrobrás ainda não terá seu nome estampado na camisa. Segundo José Henrique, faltam apenas as certidões federais, para que o contrato entre em vigor, assunto que está sob os cuidados do departamento jurídico do clube.

A expectativa é que essa situação seja resolvida no decorrer desse mês, começando março com a Eletrobrás no peito.

Durante esse mês de fevereiro, o clube vai aproveitar o espaço da camisa para lançar uma campanha institucional do próprio Vasco, cujo tema será conhecido nos próximos dias.

O contrato terminou, mas não a relação amigável, e o clube vem conversando com a MRV sobre novas possibilidades de negócios, inclusive envolvendo a área social, mas, para não fugir à regra dos dias que correm, a empresa recuou um pouco enquanto observa o mercado.

Com a Reebok, como lembram os leitores deste Olhar Crônico Esportivo, o rompimento não foi dos mais amistosos, mas o distrato está no final e o José Henrique espera emitir uma nota comunicando ao mercado o final do contrato sem nenhuma pendência jurídica, um verdadeiro marco em muitos anos, disse-me ele bastante satisfeito com esse desenlace.

O contrato com a Habib’s está em vigor, ainda, e mesmo tendo um porte menor é muito importante para o clube, que já está negociando a renovação buscando nova base financeira.


A Champs está trabalhando nos uniformes para os diferentes esportes do clube, mas a camisa oficial popular não foi esquecida, muito pelo contrário. Junto com o fornecedor, o Vasco espera lançar essa camisa já em abril, na boca do início do Campeonato Brasileiro. “Confecção não é padaria”, disse Zé Henrique, explicando a demora da fornecedora para definir e produzir essa nova peça. O preço continua o mesmo que foi prometido no anúncio do patrocínio: máximo de R$ 39,90 por unidade.


Abrindo um parêntese na conversa com o José Henrique: eu, particularmente, estou esperando esta camisa do Vasco com bastante interesse. Essa é uma antiga demanda não só da torcida vascaína, mas de todas as outras torcidas, pois para boa parte dos torcedores brasileiros é difícil pagar 150 ou 160 reais por uma camisa.Tal como a grande maioria das pessoas, não consigo entender como e porque um clube não tenha camisas populares, oficiais. Se os estádios já são segmentados cada vez mais em função do poder aquisitivo dos torcedores, por que não os uniformes? Essa é uma oportunidade de ouro para a Champs aparecer no mercado em grande estilo… e baixo preço. Torço para que essa camisa venha com qualidade e seja bonita, para vender bem e abrir um mercado que nos faz falta.


E por falar em segmentar estádio, Coelho falou que São Januário está passando por uma reforma que faz parte de um programa mais amplo, que visa proporcionar maior conforto e segurança ao torcedor. Um dos pontos mais interessantes e de maior potencial de renda desse projeto é o “Bus Service“, que permitirá ao torcedor deixar seu carro num estacionamento fora de São Januário, deslocando-se para o estádio num ônibus com ar condicionado, com check in exclusivo para um setor das Sociais.

Na minha visão, essas medidas são interessantes, embora alguns ainda critiquem sua adoção, porque permitem aos clubes melhorar a receita por parte dos torcedores habituais com alto poder aquisitivo e, ao mesmo tempo, aumentar a receita com a adesão do torcedor que tem vontade de ir ao estádio, mas fica em dúvida porque ouviu dizer que o trânsito, que os riscos, que os flanelinhas, que isso, que aquilo. Trazer esse torcedor – e eu vejo isso por conhecidos aqui de São Paulo – significa trazer não uma pessoa, mas sim três, quatro, até mais, pois o jogo passa a ser um programa familiar. Esse é um dos pontos interessantes que podem e devem ser adotados pelos clubes que possuem estádios.



Turista esportivo


Comentei com o Zé Henrique que é comum a torcida visitante queixar-se de ser mal recebida, não só em São Januario, mas em todo estádio brasileiro, praticamente. A ideia da direção vascaína, que vem sendo colocada em prática paulatinamente, é tratar o torcedor adversário como um turista, um turista do esporte, que eu acho que pode bem ser chamado de turista esportivo. Nesse sentido, os funcionários vêm sendo orientados para dispensar aos visitantes a melhor acolhida possível dentro da casa vascaína. A maior questão com os visitantes costuma ser a segurança, o problema maior em toda parte, o que já levou os dirigentes do clube a se reunirem com a direção do policiamento para melhorar a segurança não só de torcedores visitantes, mas da torcida como um todo. Nesse sentido, José Henrique dá grande importância ao comportamento de setores da torcida, que precisarão fazer parte da solução, deixando de ser parte do problema.


Dentro dessa filosofia de receber bem, o Vasco passou a convidar todos os presidentes de clubes adversários a dividirem a tribuna com Roberto e seus diretores, mas somente Márcio Braga atendeu a esse convite, até agora.

É bem verdade que nem todo presidente acompanha o clube em jogos fora de casa, mas os que acompanham e não aceitam esse convite, dão, na minha opinião e somente minha, quero deixar claro, uma certa demonstração de visão estreita e provinciana. Tenho certeza que o próprio torcedor visitante ficaria satisfeito por saber que seu presidente está na tribuna, ao lado do colega anfitrião e seus diretores. Essa é uma daquelas coisinhas esquecidas do futebol, raramente comentadas, mas que tem uma certa importância.

Bem sei que sempre há obstáculos a separar a vontade da realidade, mas gostei de saber dessa preocupação da diretoria vascaína com o visitante de São Januario, o “turista esportivo”. Esse é exatamente o tipo de mentalidade que é bem-vinda no futebol brasileiro.



“Vascaíno de Carteirinha”


Os planos vão além, e dele fazem parte dois projetos para o sócio do Vasco.

O primeiro, que deve entrar em execução rapidamente, ainda em março, visa trazer novos e velhos sócios ao clube propriamente dito, e parte do incentivo será a garantia de ingresso para os jogos.

O outro projeto é mais na linha dos programas de sócio-torcedor, o Torcedor Oficial ou “Vascaíno de Carteirinha“, e nesse caso a direção vascaína olha com interesse os programas desenvolvidos pelo Internacional e pelo Grêmio.

Em troca da contribuição mensal, esse sócio terá benefícios na compra de ingressos e serviços diversos, inclusive dentro do estádio. Fará parte desses benefícios, o acesso ao Clube de Vantagens, com descontos em produtos e estabelecimentos conveniados.

Nem tudo são flores e projetos no mundo de São Januário. Gerar receitas imediatas é, com certeza, o drama maior de Roberto e seus diretores.

A principal verba dos clubes brasileiros, os direitos de TV, foi antecipada quase na totalmente ainda antes da posse. O que sobrou do Carioca, por exemplo, foi o espaço publicitário na televisão, que deverá ser usado em uma campanha para promover o clube, talvez na chamada de novos sócios.

Num quadro como esse, ganha força o que o Zé Henrique me disse no final de nossa conversa, referindo-se à atuação de seu departamento: “O importante aqui é faturar. Somos o departamento comercial do clube, temos que pensar e criar novas formas de faturamento, desde vendendo pacotes de viagens aéreas e rodoviárias para acompanhar os jogos do clube, até a criação dos programas de sócios, passando pelo Bus Service, setores diferenciados e, claro, novos patrocínios onde houver uma brecha.”


Eu sempre acho animador conversar com pessoas que estão trazendo novas ideias e práticas para o mundo da bola brasileiro. É preciso dizer que a atuação dessas pessoas não é fácil, pois esse mundo boleiro é meio avesso a mudanças. O próprio José Henrique diz que profissionais de outras áreas, muitas vezes professores de instituições importantes, encontram dificuldades para implementar projetos, fazer reformas e precisam adaptar-se à velocidade com que cada instituição se move.

Nesse ponto o Vasco da Gama não é diferente dos demais. Mesmo em clubes onde o marketing já tem um espaço maior e reconhecidamente importante, os profissionais da área costumam esbarrar em velhos conceitos e, principalmente, em posições consolidadas ocupadas há muito tempo pelas mesmas pessoas ou grupos.

Aprendi com um velho professor há muito tempo, que mudar a cultura é muito mais difícil que levantar paredes e fazer estradas e isso vale para a sociedade como um todo, em toda parte do mundo.

Com uma boa “agenda positiva” e muita persistência, porém, até mesmo culturas arraigadas são mudadas.

Torço por isso.




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