A volta do Vasco: a vitalidade do futebol brasileiro
Na sua opinião, qual foi o evento mais importante do futebol brasileiro ou para o futebol brasileiro nos últimos, digamos, vinte anos? Ou, vá lá, trinta ou quarenta anos?
Já antecipo que, para mim, não foi nenhuma Copa do Mundo.
Escrevi em alguns lugares em outros tempos, como no antigo Jogo Aberto, do Lédio, que, na minha opinião o evento mais importante do futebol brasileiro nesse século XXI e, a bem dizer, talvez até da segunda metade do XX, foi o descenso e a ascensão do Palmeiras e Botafogo.
De uma só vez, dois dos maiores e mais tradicionais clubes brasileiros viram-se rebaixados para a, até então, temível segunda divisão de nosso futebol. No calor do momento, houve quem pedisse, houve quem sugerisse, felizmente não houve quem tentasse mais uma das muitas e malditas viradas-de-mesa que tanto mal fizeram ao futebol de Pindorama.
A regra foi cumprida, o regulamento foi seguido à risca e durante um ano inteiro não vimos jogos desses dois times no cenário principal do futebol.
Em campo, as duas equipes desdobraram-se e, de forma irretocável, conquistaram suas vagas na divisão de elite do futebol tupiniquim.
É esse conjunto de fatos que reputo os mais importantes, não só o descenso, como o retorno unicamente pelos méritos esportivos, conquistados nos gramados. Naquele momento, ficava claro a todos que, bem ou mal, existiam regras e elas, doravante, seriam cumpridas, doesse a quem doesse.
(Formalmente, eu poderia e deveria dizer que foi o Estatuto do Torcedor o evento mais importante, como de fato foi. Formalmente. Mas preferi apegar-me ao exemplo prático, visível, marcante e retumbante, como é o caso do rebaixamento de grandes clubes.)
Durante alguns anos, um então dirigente de clube, ex-deputado (de atuação pífia), figura de proa por muitas e muitas temporadas, alardeava que seu time nunca seria rebaixado – mesmo que os resultados em campo o levassem a isso. Como é de praxe, muita gente acreditava nesses rompantes. Bom, para não perder mais tempo com quem não é importante, basta dizer que essas palavras foram devidamente sepultadas.
Depois de Palmeiras e Botafogo outros clubes importantes e tradicionais foram rebaixados, entre eles o dono da segunda maior torcida brasileira. Todos voltaram, jogando futebol, cumprindo o regulamento, merecendo cada ponto conquistado.
Atrevo-me a dizer que esse é o lado mais “primeiro-mundo” de nosso futebol que, em boa parte, ainda é de terceiro, quarto ou quinto mundo. Isso, é claro, partindo do pressuposto que o quinto mundo aceitaria alguns de nossos gramados.
Senadores, principalmente, e deputados, sobretudo, poderiam e deveriam mirar esse exemplo e aplicá-lo, com as mudanças cabíveis, às suas próprias vidas como representantes do povo. Mas isso já é sonhar demais. Saltar do sétimo ou oitavo mundo, onde estão nossos parlamentos, para o primeiro, parece-me hoje mera utopia.
O Vascão voltou!
Alvíssaras!
Mas não exageremos: o clube fez o que tinha que fazer. Como dizem os torcedores amantes de faixas, cumpriu sua obrigação.
Parabéns ao Presidente Roberto Dinamite. Um cara tão corajoso hoje como dirigente, como ontem como centroavante. Não conheço os bastidores de São Januario, mas estou certo que Roberto precisou de muito equilíbrio, muita determinação e muita fé em seu trabalho e de alguns companheiros, para conduzir o clube e o time durante esse ano de 2009.
Parabéns a Dorival Junior. Sim, critiquei o valor de seu salário, mas ao mesmo tempo disse que havia o caro barato e o barato caro. E eu acreditava, como acredito, que Dorival é o caro que sai barato, porque dá resultado. Praticamente sem recursos financeiros e vivendo em meio à turbulência, ele montou um time dentro da realidade, um time possível, um time vencedor, mesmo em meio à descrença de muita gente.
Parabéns a Carlos Alberto. Encontrou um lugar em que se sente bem e encontrou-se. Esse cumprimento vai para todo o time, mas prefiro personalizá-lo na figura de Carlos Alberto.
Parabéns, finalmente, à torcida vascaína, que apoiou o time de forma fantástica em momentos importantes.
As manchetes de hoje referem-se á saída do “inferno”. Esse portal mesmo fala em “fim do pesadelo para o Vasco”, referindo-se à Série B.
Desconcordo.
A Série B não é um inferno, tampouco é um pesadelo. É uma divisão de nosso futebol, cada dia mais estruturada e atraente, com boas disputas, bons jogadores, ocupando espaço e tempo nas diversas mídias.
Para alguns clubes, ela pode ser, isso sim, um rito de passagem, uma transição, uma lição em muitos sentidos, principalmente administrativos. Como foi e tem sido para o Corinthians, por exemplo. Como, aparentemente, foi e tem sido para o Vasco da Gama.
Disputar a Série B jamais pode ser motivo de vergonha, sob nenhuma hipótese. Deve ser, isso sim, um desafio e uma passagem. Porque é a Série B que dá valor e peso à Série A. Porque futebol profissional, estruturado e levado a sério como competição e mesmo como negócio, precisa da movimentação vertical de seus participantes, indo e vindo para as diferentes séries em que nosso futebol se divide.
Tanto quanto celebramos o retorno do Clube de Regatas Vasco da Gama, celebramos, também, a vitalidade do futebol brasileiro.
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