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Má educação e indiferença

dom, 28/02/10
por Emerson Gonçalves |

Nos últimos dias os dois grandes jornais de São Paulo, o Estado e a Folha, publicaram excelentes matérias sobre o Campeonato Paulista, sobre a polêmica do horário das 21:50, sobre os patrocínios brasileiros e hoje Paulo Vinicius Coelho arremata com uma coluna excelente, comentando, ora vejam, a falta de educação – título de sua coluna – da confederação, entres outra coisas. PVC, como todos o conhecem, que é um dos mais brilhantes analistas de nosso futebol, ou melhor, de futebol, pois não se limita ao Brasil, botou o dedo numa ferida purulenta e que também sangra sem parar, sangra os nossos clubes.

Há alguns dias eu, como a direção santista, sua torcida e todos que acompanham o futebol brasileiro, vinha aguardando que a CBF atendesse aos pedidos do Santos e liberasse Robinho.

Nada.

Como relata PVC, o presidente Luis Álvaro começou a tentar uma resposta da confederação quando ainda estava internado, recuperando-se de um problema médico. Isso foi antes do dia 10 de fevereiro, quando deixou o hospital. A confederação, que em tese deve ser organizadora do futebol a serviço de e para os clubes, simplesmente não se dignou a responder ao pedido insistente, lógico e extremamente razoável de um de seus filiados. Ignorou-o. Má educação, como disse o colunista da Folha, mas também arrogância, prepotência, absoluta indiferença com os clubes brasileiros.

O Santos investiu pesado para repatriar Robinho. Pela ótica do treinador da confederação, o clube fez um grande favor a ele e a ela, pois Robinho é nome mais do que certo na lista dos que vão para a África do Sul tentar mais um título mundial. Na Inglaterra, o jogador definhava atlética e futebolisticamente, sequer entrando em campo para jogar e, quando o fazia, melhor teria sido ter ficado em sua casa. Seria uma cortesia e, mais que isso, o reconhecimento que o clube prestou um favor ao futebol brasileiro, e sobretudo à confederação e ao seu treinador, liberar o atleta para defender seu clube num jogo fundamental a equipe, numa competição que o clube quer e precisa vencer, como parte de seu esforço de recuperação.

Mas, nada veio. Nem a cortesia, nem o reconhecimento, nada, sequer uma resposta. Apenas a indiferença.

Cruzeiro e Flamengo também têm jogadores convocados, que também poderiam entrar em campo para defesa dos clubes que pagam seus salários. Como as tabelas marcavam jogos considerados fáceis para ambos, ninguém ficou muito preocupado com a ausência dos atletas convocados.

Os próximos anos não serão piores, serão apenas tão ruins quanto esses últimos. Ano a ano nossos clubes são desrespeitados em seus direitos mais elementares, pois a confederação, ao contrário das outras todas, não respeita as datas FIFA. Ou melhor, só as respeita em relação aos clubes estrangeiros. Aqui, na falsa terra de ninguém, posto que ela tem dono, os campeonatos prosseguem regularmente nas datas FIFA. Com ou sem jogadores convocados pela confederação para um de seus muitos times, tanto o principal como os sub alguma coisa. Há quem diga que a confederação faz um favor aos clubes quando convoca seus atletas, pois assim valoriza-os e favorece melhores transferências. Pois é, há quem diga e defenda essa posição. Pobre confederação, além de boazinha, incompreendida.

Pobre Santos, isso sim, que investiu pesado para ficar sem seu astro num jogo importante pelos pontos e pela receita. Pobres clubes…

E assim segue ela, a confederação, impávido colosso, hoje como sempre, ignorando a tudo e a todos, hoje mais ainda do que nunca, afinal, a tão desejada Copa do Mundo em terras de Pindorama está logo adiante.

O Brasil tem hoje um presidente eleito pelo povo e dois imperadores (vá lá, três, com o Adriano) absolutistas, como soi acontecer com os imperadores (Adriano, inclusive, nesse caso).

Os clubes… Bem, aos clubes resta obedecer, afinal, como também soi acontecer nos impérios, manda quem pode, obedece quem tem juízio. Principalmente quando os súditos desconhecem a força da união e colocam suas questiúnculas e rivalidades acima do bem comum.


Dunga e a definição do BR – Parte II

sex, 09/10/09
por Emerson Gonçalves |


Em Teresópolis, na Granja Comary, Diego Souza, Adriano e Miranda treinam no time principal. Diego Tardelli e Sandro no time reserva. Ao lado dos dois, Kaká e Luiz Fabiano.


Kaká, Luiz Fabiano e Gilberto Silva, provavelmente sequer seguirão para La Paz, indo diretamente para Campo Grande. Motivo: poupá-los do jogo na altitude de La Paz, coisa que nossos times enfrentam corriqueiramente, sem maiores dramas, apesar de algumas ocasionais pantomimas.

Na Granja Comary, descontração

Na Granja Comary, descontração

Enquanto tudo isso acontece no róseo mundo do futebol da CBF, por aqui rolaram os jogos previstos do Campeonato Brasileiro.


No jogo do Morumbi o São Paulo empatou a duras penas com o Coritiba. Detalhe: sofreu dois gols em falhas não muito comuns da defesa.

Detalhe: o titularíssimo Miranda, como vimos, treinava em Teresópolis.


No jogo do Engenhão, o Galo, que apesar do que pensa parte de sua torcida não tem um elenco com boas alternativas, foi derrotado sem choro nem vela pelo Botafogo. Não que com Diego Tardelli em campo o resultado viesse a ser diferentes, nunca saberemos, mas sabemos que ele fez muita falta ao time que lhe paga o salário e que perdeu a chance de alcançar a vice-liderança.


Em Salvador, num daqueles jogos tão épicos quanto malucos, o Flamengo, sonhando em chegar ao G4, empatou com o Vitória em 3×3. Pode-se dizer exatamente o mesmo que foi dito para o jogo do Galo e a ausência de Tardelli.


Em Porto Alegre, o Internacional sem Sandro venceu o Náutico, na estreia de Mario Sergio, o técnico que veio para ficar 60 dias. Os colorados reclamam, ainda, a ausência de Giuliano, jogando pela sub 20.


Finalmente, no jogo do líder do campeonato, a situação ficou feia, e a vantagem ampla correu risco. O Avaí fez 2×0 e a duríssimas penas o Palmeiras empatou, já no final da partida. Enquanto isso, em Teresópolis, Diego Souza sonha, com todo o direito e justiça, em fazer o jogo da sua vida em La Paz. Com ele em campo, muito provavelmente o resultado poderia ser outro.


Não custa repetir que enquanto tudo isso acontece por aqui, em além-mar nada acontece, exceto os jogos das seleções nacionais.

Garoa, frio e mais descontração em Teresópolis

Garoa, frio e mais descontração em Teresópolis

Como o treinador brasileiro é bonzinho e os dois jogos já não têm importância, ele deixará dois jogadores-chave descansando, para sorte dos times europeus que pagam seus régios salários. Justíssimos, diga-se de passagem.


Nessa história toda, os bobos de sempre são os mesmos bobos de sempre: os clubes brasileiros.

E, por último, mas não menos importantes, muito pelo contrário, os torcedores brasileiros.

Aguardemos, agora, pela parte III dessa mini-série.


Dunga pode definir o campeão brasileiro de 2009

ter, 06/10/09
por Emerson Gonçalves |


Vou fugir um pouco ao batidão deste Olhar Crônico Esportivo, se bem que, pensando bem, será uma fuga apenas parcial.


Selecionei 6 jogos dessas duas próximas rodadas:

São Paulo x Coritiba

Botafogo x Atlético Mineiro

Palmeiras x Avaí

Flamengo x São Paulo

Botafogo x Atlético Mineiro

Náutico x Palmeiras

Como vocês puderam ver, eles reúnem os três maiores candidatos ao título desse ano: Palmeiras, São Paulo e Atlético Mineiro. Segundo os matemáticos e segundo os cronistas esportivos, são os três candidatos ao título com chances reais.

Aproveito para falar do trabalho desenvolvido por meu amigo Ricardo, flamenguista roxo (pode ser roxo?), que já definiu que a pequena Catarina, que chegará em breve, será uma rubronegra ferrenha. Quem sabe no futuro ela se encontra no Maracanã com o Lucas, o neto do Xaruto, outro rubronegro roxo? (Desculpem pela digressão e as menções a dois amigos.) O Ricardo é fera em matemática, trabalha com isso e vem desenvolvendo um sistema bastante interessante para previsões de jogos e títulos. Sujeitas, felizmente, a todas as chuvas e trovoadas possíveis, afinal, isso é futebol. De acordo com seus cálculos, essas são as chances de título, nesse momento:

Clube

Chance

Palmeiras

65%

São Paulo

13%

Atlético Mineiro

12%

Goiás

5%

Internacional

2%

Flamengo

2%

Grêmio

1%

Corinthians

1%

Outros

0

Esses três clubes, portanto, reúnem 90% das chances de título. Vamos, agora, a uma curtíssima análise de cada um dos jogos. Peço a atenção e a indulgênca de vocês para a essa análise, que levará em consideração, basicamente, somente o “fator Dunga”. Os jogos estão na ordem de data e na mesma ordem da tabela publicada por esse portal.

São Paulo x Coritiba: o tricolor paulista joga no Morumbi contra o Coritiba, sem o zagueiro Miranda. Em condições normais de pressão e temperatura, é o favorito nesse confronto, embora Marcelinho Paraíba esteja jogando muita bola e surpreenda com certa frequência.

Botafogo x Atlético Mineiro: o Galo vai ao Engenhão enfrentar um Botafogo que começa a mostrar o bom trabalho de Estevam. E vai sem Diego Tardelli, sua estrela maior. Vai, também, sem Eder Luiz e Renteria, mas aí já são outros quinhentos e essas ausências fogem ao tema desse post. Apesar das reclamações que vou ler dos atleticanos, Tardelli fará muita falta, sim. O elenco é bom, mas não o suficiente para suprir essa ausência. Palavra de Celso Roth. É um jogo com perspectiva de empate ou vitória do Botafogo.

Palmeiras x Avaí: jogo perigoso, entre o líder e a grande surpresa desse campeonato. O Avaí joga bem fora de casa, é perigoso e vem fazendo campanha excepcional. O Palmeiras é o líder e é treinado por Muricy, mas… Opa, uma pedra no sapato: jogará sem Diego Souza. E as únicas derrotas de Muricy foram justamente quando não pôde contar com seu meia, que é, para ele, e para muitos, o melhor jogador do campeonato. Até concordo com isso, nesse momento. Dizer o que desse confronto? Que o Palmeiras é o favorito? Seria, com Diego. Sem ele, não sei se é tão favorito, considerando o adversário que terá pela frente. Não ficarei surpreso, portanto, se o Palestra Itália assistir a um empate.

Já nessa 28ª rodada podemos ver que o “fator Dunga” poderá influir na contagem de pontos dos três favoritos. Vejamos, agora, os jogos da 29ª rodada:

Flamengo x São Paulo: Adriano não estará em campo pelo Flamengo, enquanto pelo São Paulo a ausência será de Miranda. A defesa tricolor, mesmo sem Miranda, tem se portado muito bem, e é, ao lado da palmeirense, a melhor do campeonato. O Flamengo, apesar de Pet e do excepcional momento de sua defesa, depende um bocado do Imperador. Teoricamente, o São Paulo estará em melhor situação que o Flamengo, em termos de desfalques. Um jogo de resultado imprevisível, mas com alguma cara de empate.

Atlético x Cruzeiro, o grande clássico das Alterosas. E o Galo sem Tardelli, que até aqui participou de 51% dos gols atleticanos nesse campeonato, contra um Cruzeiro mordido e reagindo jogo a jogo. Outra partida de resultado muito difícil de prever (todo resultado é difícil ou é mero chute, já que falamos de futebol, mas usando um pouco de lógica é isso).

Náutico x Palmeiras: aqui o bicho pega. O alvirrubro estará muito mais que simplesmente mordido e jogará em casa. O alviverde terá que fazer das tripas coração para conseguir um bom resultado no Aflitos, onde a ausência de Diego Souza poderá pesar mais que o normal.

Então é isso, pessoal. Uma combinação de resultados nada difícil de acontecer, como vimos nas análises de cada jogo, poderá provocar uma mudança de colocação que, nessa altura do campeonato talvez não seja mais revertida. Ou mesmo que venha a ser, jogará uma pressão e um fator completamente estranho à competição propriamente dita. E disso tudo poderá resultar o campeão brasileiro dessa temporada.

Sim, sim, sim, muitos dirão que escrevi isso porque sou são-paulino. Ok, sem problemas, mas, por favor, esqueçam esse detalhe e atentem para essas partidas e suas características. Aparentemente, dos três times na ponta o menos prejudicado e possivelmente até beneficiado pelas convocações será justamente o São Paulo (e agora os são-paulinos apressadinhos irão me criticar…).

Mas não importa, o que eu quis com esse post foi demonstrar cabalmente o absurdo que é os times brasileiros jogarem seu mais importante campeonato tendo jogadores convocados para a seleção.

As “datas FIFA” existem e são conhecidas com muita antecedência. Nessas datas, os clubes param, não disputam jogos oficiais, exceto no Brasil.

Mas o Campeonato Brasileiro não pode ter jogos nessas datas.

Esqueçam, por favor, as preferências clubísticas, e vejam que o “fator Dunga” poderá definir o campeão brasileiro de 2009.

É justo?

Deixo a resposta com vocês.

Em tempo: o “fator Dunga” será mais forte que o “fator Muricy”?

Farra convocatória

qua, 30/09/09
por Emerson Gonçalves |

O autor deste blog e o “ministério da saúde” advertem: a leitura deste post poderá provocar azia, má digestão e mau humor. Especialmente a torcedores de times com jogadores convocados.


Mundial Sub17: graças a essa magnífica competição, o Santos ficará desfalcado de Neymar por um mês inteiro, exatamente na reta final do Campeonato Brasileiro da Série A. O mesmo ocorrerá com o Vasco, que sofrerá o desfalque de Philippe Coutinho, na reta final da Série B.


O Santos, cujo elenco atual está muito longe de poder ser considerado bom, em primeiro lugar, e suficiente, em segundo lugar, já perdeu o Paulo Henrique “Ganso”, disputando alguma coisa Sub20 não sei aonde.


Gosto desses dois jogadores e sempre que possível vejo jogos do Santos, principalmente para ver Neymar – com isso aprendi a ver Ganso (além deles, gosto de ver Madson jogar). Sem Ganso, é perceptível uma queda no jogo santista. O garoto, como era óbvio, faz muita falta.

Agora, vejam essa lista já bem conhecida:

Diego Tardelli

Adriano

Diego Souza

Sandro

Miranda

Vitor

São os jogadores convocados para a disputa de dois jogos pelas Eliminatórias para a Copa 2010. Essa ordem de nomes não é aleatória, é a ordem, na minha opinião (e ninguém precisa concordar com ela) da importância dos jogadores para seus times nesse momento.

Os dois jogos ocorrerão em “datas FIFA”, o que significa que na Europa, provavelmente o único lugar do mundo em que os clubes são mais ou menos respeitados (e eles que se cuidem com Michel Platini), não serão disputados os campeonatos das ligas nacionais, bem como, é claro, as copas continentais. Por lá, nas “datas FIFA” o futebol para.


Mas não aqui. No “impávido colosso” segue a vida, segue o futebol. Para não colidir com os jogos do selecionado, melhor chamado comumente de time da CBF, as tabelas são alteradas e as rotinas são quebradas.

Muito pior: os times vão a campo desfalcados de seus mais importantes jogadores ou, se não, peças fundamentais para os esquemas dos treinadores. Em convocação recente, o Atlético Mineiro, que também não tem um elenco grande e com bons nomes alternativos, viu-se prejudicado sem a presença de seu melhor jogador e artilheiro, Diego Tardelli. Agora, novamente.

O bom momento do Flamengo poderá ser comprometido pela ausência de Adriano.

A arrancada final, ou a manutenção da liderança com folga do Palmeiras de Muricy, poderá sofrer reveses com a ausência de Diego Souza.

Embora importantes, Sandro, Miranda e Vitor farão menos falta ao Internacional, São Paulo e Grêmio, mas ainda assim farão falta.

A confederação nada paga pela utilização dos jogadores. Compete aos clubes tudo pagar, principalmente o salário. Quando machucados, tudo fica na mesma e o prejuízo é multiplicado, que o diga o Flamengo de Kleberson, que só volta a jogar bola em 2010.

Tudo isso afeta as finanças dos clubes, compromete esforços de marketing, prejudica o planejamento da temporada. Mesmo assim, curiosamente, não se ouve um protesto firme, uma reclamação mais que justa. Parece-me que só o “ranzinza” Muricy reclamou. Fico com a impressão que os desfalques não importam, pois os jogadores estarão na vitrine proporcionada pelo time da confederação.

Por aqui, “data FIFA” e nada são sinônimos, para uns. Para outros, significa a chance de ver os cofres abastecidos.

Há, também, a costumeira e indigna subserviência à federação, algumas vezes recompensada com empréstimos a juros altos, mas salvadores do mês.

Enfim, falar o quê dessas convocações? Os jogadores gostam, os dirigentes adoram, os torcedores não têm influência, então, para que perder tempo escrevendo a respeito? E, por extensão, para que perder tempo lendo a respeito? Vou tomar um antiácido para combater a azia que ganhei com esse post mal humorado.

Exorcizando fantasmas, 31 anos depois

dom, 06/09/09
por Emerson Gonçalves |


Esse é somente um comentário de um torcedor de seleções de outros tempos.

Não analiso e não analisarei a partida, até porque não acompanho essa equipe o suficiente para falar com propriedade sobre ela. Para quem quer uma análise excelente da partida, e sobretudo do time de Dom Diego, recomendo o post do Lédio. Diz tudo que eu teria para dizer e muito melhor.


Há muitos anos não vejo a Seleção Brasileira com o mesmo prazer e paixão que já vi em outras eras. Para ser mais preciso, a última vez que a Seleção emocionou-me e fez-me parar tudo só para vê-la jogar, foi no já distante ano de 1982. A melhor e mais fantástica seleção que vi jogar foi a de 1970. Também, pudera, com Pelé no auge de sua maturidade como jogador… Depois, foi a de 1982, a seleção de Telê Santana.

Desde então, um deserto, ou quase isso.


No momento presente não morro de amores pela seleção. Refiro-me a ela como “o time da CBF”. Não gostei da indicação de Dunga como treinador e sigo não gostando, embora esteja fazendo um bom trabalho. Tampouco gostei de seus antecessores, inclusive Scolari e Parreira, que foram campeões mundiais. Pouco tenho visto essa atual seleção jogar.


Brasil x Argentina, porém, ainda mais na mítica Rosário, onde empatamos em 0×0 em 1978, em peleja duríssima ainda hoje presente em minhas lembranças marcantes, é jogo que merece ser visto e merece, inclusive, abertura de parágrafo próprio.

O Cara faz o terceiro do Brasil, o seu segundo em Rosario

O Cara faz o terceiro do Brasil, o seu segundo em Rosario


Esse jogo de ontem interessava-me, também, por causa da presença de Diego Maradona no comando da seleção argentina. Não morro de amores por ele, nunca morri. Lamento, mas quem viu Sua Majestade jogar sabe que não houve e dificilmente haverá outro como ele. Maradona, como treinador, é um desastre ou algo muito perto disso. Ao contrário de Dunga, ele não conhece e não reconhece suas limitações e não evita, pelo contrário, até, ser o centro das atenções. Nesse ponto tiro o chapéu para o treinador brasileiro, que demonstra com sua postura uma de suas maiores qualidades: a inteligência. Até hoje, também, não engoli a história da água – aquela, da água batizada na Copa de 90 – e as gracinhas sem graça e sem ética do atual treinador do time argentino a respeito do episódio. Por isso tudo e muito mais, principalmente pela grandeza e pela história de um jogo entre duas das maiores escolas de futebol do mundo, vibrei com a vitória maiúscula, como diriam os velhos locutores.


O Outro Cara, que fez o passe, abraça o Cara

O Outro Cara, que fez o passe, abraça o Cara


Vibrei com a atuação dos Caras: Luiz Fabiano e Kaká. O mínimo a dizer a respeito deles: resolvem.

Ao contrário de outro que tinha e tem (ainda) tudo para ser mais um Cara, mas não é, embora titular absoluto de Dunga: Robinho.

Lamentei por Messi, craque na acepção da palavra, mal escalado, mal comandado. Nada lamentei por Mascherano e Tevez, melhores com a língua solta do que com a bola nos pés.


Trinta e um anos depois, acho que começo a exorcizar o fantasma do 0×0 de Rosário. Também naquele ano, um treinador metido a besta, embora muito melhor que o atual, quis jogar em Rosario para ter o “efeito caldeirão”, para atemorizar o time brasileiro, demonstrando um medo atávico por esse enfrentamento. Mas não deu certo, pois apesar do clima de guerra, incentivado ainda mais por um governo militar assassino, o time brasileiro entrou em campo com espírito e disposição de luta como poucas vezes (ou talvez nenhuma outra) vi. Não vencemos, mas estivemos muito mais próximos da vitória do que a seleção da Argentina. Depois, bom, depois veio o Peru, veio a vergonha e deu no que deu.


Chicão, que já não está entre nós, deve estar feliz, onde quer que esteja. Claudio Coutinho também deve ter vibrado muito.

De minha microscópica parte como torcedor, dedico a vitória de ontem a eles.

E também à memória de Jorge Mendonça e Dirceu, dois jogadores que marcaram nosso futebol naquela época. Jorge era clássico, habilidoso, tratava a bola com intimidade restrita aos craques. Dirceuzinho já nasceu moderno no futebol. Armava, atacava e combatia com uma energia impressionante, o que encantava a alguns treinadores e desagradava a outros. O mesmo ocorria com torcedores e cronistas. Não tinha a habilidade dos meias clássicos com os quais estávamos acostumados, mas assim mesmo conquistou um belo lugar na história. (Texto atualizado; agradeço ao Claudio pela lembrança.)


Em tempo: estamos na Copa 2010.

A mística continua.




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