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A polêmica das 21:50…

dom, 28/02/10
por Emerson Gonçalves |

… está só começando.

Há poucos dias, dois vereadores paulistanos apresentaram projeto de lei municipal determinando que nenhum espetáculo esportivo termine depois das 23:15. No caso do futebol, alvo único da medida, os jogos teriam que começar, no máximo, até 21:30, teoricamente. Como há os acréscimos e o intervalo tem os quinze minutos de regra como mera referência, teríamos, ou teremos, na prática que iniciar os jogos o mais tardar às 21:00 ou 21:10, para quem gosta de fortes emoções. O desrespeito ao horário final implicará o pagamento de pesadas multas pelos infratores.

(E se um jogador do time visitante provoca uma enorme confusão em campo, como já aconteceu muitas vezes, interrompendo o jogo por 15, 20 minutos, forçando o término da partida às 23:30, como ficará a situação? Quem deverá ser multado?)

Dos quatro grandes clubes paulistas, dois manifestaram-se a favor da lei, que foi encaminhada para o prefeito sancionar ou vetar. Em caso de veto voltará à Câmara, onde os edis prometem derrubar o veto em nova votação. Foram os dirigentes do Palmeiras e do São Paulo. Os outros dois, Corinthians e Santos, manifestaram-se contrários, entendendo que a receita dos direitos de TV é muito importante para correr o risco de ser prejudicada.

Andei xeretando por alguns sites de torcedores dos diversos clubes e o tema não é muito discutido. Quando o é, os torcedores que se manifestam são favoráveis à implantação da lei.

O presidente da Federação Paulista de Futebol, Marco Polo del Nero, manifestou-se contrário ao projeto e foi além: se aprovado, vai tirar os jogos das 21:50 de São Paulo e transferi-los para outras cidades, como Barueri ou Santo André, por exemplo.

Essas declarações provocaram reações de alguns parlamentares, tanto estaduais – um deles já tem projeto pronto transformando essa medida em lei estadual – como pelo menos um federal, o deputado pelo PT Carlos Zarattini, que pretende propor a mesma medida com validade em todo o território nacional.

Nada mais justo e correto que cada um defenda o que considera justo e correto. Essa é a essência e a beleza dos regimes democráticos. E não será este Olhar Crônico Esportivo que irá manifestar-se contra essa liberdade, assim como defende ardorosamente a liberdade plena de expressão e o fim da censura – aproveitando para lembrar que no democrático Brasil o jornal O Estado de S.Paulo está sob censura há 212 dias, hoje. Algo impensável para quem, como este blogueiro, dedicou as melhores horas do que se convencionou chamar melhores anos da vida, à luta pelas liberdades democráticas, pelo fim da censura, pela anistia ampla, geral e irrestrita, pela democracia, enfim, sem adjetivos ou limites.

Cabem, porém, algumas perguntas: a quem interessa, realmente, o fim desse horário?

É justo uma megalópole com doze milhões de habitantes na área municipal e mais de vinte milhões hoje na área metropolitana, ser obrigada a conviver com limite tão estreito?

O trânsito comportará sem sequelas jogos em horários mais cedo? Começar mais cedo atenderá aos interesses de quantos torcedores?

Podem os clubes correr o risco de perder receita dos direitos de TV por conta do fim desse horário?

Por último, mas não menos importante e tampouco esgotando o rol de perguntas, não seria mais correto os senhores vereadores apresentarem propostas para que o transporte público adentre os horários da madrugada, ou seja, ampliando serviços à população ao invés de restringi-los?

Há, ainda, mais algumas perguntas…

Como disse o presidente da FPF, a média de público nos jogos da primeira metade dessa edição do Campeonato Paulista às 21:50 é a maior – uma média de 10.224 torcedores contra 8.447 nos outros horários. Esse fato, por si só, já deveria provocar alguns questionamentos em quem propõe mudanças. Como, por exemplo:

- Qual o percentual de torcedores que vão aos estádios de ônibus, de trem, em vans e em carros particulares?

- Qual o percentual de torcedores que vão direto de seus serviços para os estádios? E quantos vão primeiro para suas casas, pegam o filho ou filhos e só depois vão para o estádio?

- Entre os freqüentadores dos estádios, quantos são a favor da mudança?

- Entre os não freqüentadores, quantos deixam de ir aos estádios em função do horário? E quantos iriam em outros horários? Nesse caso, por que não vão aos jogos das 19:00 ou 20:30, por exemplo?

Minha posição pessoal não é nova, pelo contrário: considero o horário de 21:50 extremamente confortável para quem mora em São Paulo e na Grande São Paulo. Permite chegar aos estádios sem atropelos, sem congestionamentos monstruosos – que mesmo assim, em jogos importantes, não deixam de existir. Embora os jogos terminem muito tarde, isso traz a contrapartida do trânsito livre e da maior velocidade média.

Esse, por sinal, é um ponto a favor do transporte público nesses horários: o custo do quilômetro rodado é, certamente, muito menor que durante o dia ou nas primeiras horas da noite. O bastante, provavelmente, para compensar o gasto maior com mão-de-obra. Outra informação não disponível, mas que os senhores vereadores e deputados podem conseguir com grande facilidade.

Lembrando que, justamente por seu gigantismo e economia altamente diversificada, com grande número de atividades que adentram a madrugada, aumentar os horários do transporte público beneficiaria uma grande quantidade de trabalhadores que terminam suas tarefas depois da meia-noite. Por exemplo: funcionários de bares e restaurantes, estabelecimentos dos quais a cidade de São Paulo é pródiga e é famosa por isso. Talvez fosse o caso dos senhores parlamentares conversarem com representantes das categorias profissionais que trabalham até tarde, como a rapaziada da manutenção e limpeza das empresas, em outro exemplo.

O futebol é cada vez mais um espetáculo de massa. Sua existência é devida hoje muito mais às grandes massas que assistem pelas diversas mídias, do que pelas pessoas que comparecem aos estádios. Os grandes clubes não são mais locais, nem regionais, nem mesmo nacionais: são globais. No caso brasileiro, nossos grandes clubes são nacionais e regionais. Precisam da televisão. Essa necessidade transcende, simplesmente, às receitas vindas diretamente dos direitos de transmissão, e que já são há muito as maiores receitas dos clubes brasileiros. Vivemos um momento particularmente rico em patrocínios, tema do próximo post. Mas, perguntem-se por que as empresas patrocinam os clubes? A resposta é simples: principalmente pela exposição de suas marcas na televisão. Eliminar o horário das 21:50 provocará reflexos na cadeia econômica do futebol na televisão. E, sinceramente, não acredito que seja para melhor.

Hoje, a TV aberta, ou seja, de acesso gratuito à população, responde pela maior parte dos direitos pagos aos clubes, ao contrário do que ocorre na maior parte do mundo, principalmente na Europa. A grosso modo, creio que o sinal aberto responde por 60% dos valores pagos como direitos de transmissão. Ora, a TV aberta (Rede Globo) usa dois horários em sua grade de programação: as noites de quarta-feira, às 21:50 e as tardes de domingo, às 16:00 ou 17:00 horas.

Demonstrando desconhecer o assunto, um dos vereadores que apresentou esse projeto disse: “A audiência do futebol é muito maior que a de qualquer outro programa. Tem gente que nem gosta de novela. Ela poderia cancelar novelas às quartas-feiras” – nada mais errado que isso, infelizmente para o futebol. Exceto por jogos decisivos, e aí qualquer horário teria audiência máxima, a audiência média do futebol é muito inferior à média das novelas mais fracas, bem como do Jornal Nacional. Basta pedir uma tabela de preços da emissora e comparar quanto custa um comercial de 30” na novela e quanto custa no futebol.

A audiência de televisão se dá por módulos familiares, a família reunida em torno de um aparelho de TV. Não sei qual é hoje a família média, a família padrão brasileira, mas ela é formada, no mínimo, por cinco ou mais pessoas. Dessas, pode-se considerar como espectador de futebol preferencialmente, apenas o homem adulto. Numa família padrão, creio que 20% ou no máximo 40% dos membros dá preferência ao futebol sobre outros programas. É o tipo de informação que precisa de uma pesquisa e ao mesmo tempo não precisa tanto: basta vermos como são as coisas em nossas próprias famílias, nos vizinhos, parentes e amigos.

Como disse no início, essa polêmica está só no começo. É bem provável que ela deixe o âmbito da cidade de São Paulo e passe para o estado e para o país. Se for a vontade da maioria, que se cumpra. Mas convém que se estude um pouco mais essa questão, que outros interessados sejam ouvidos, principalmente os torcedores.

Em tempo: não sou funcionário da Rede Globo. Esse post expressa a minha opinião que já era a mesma muito antes deste OCE vir para o portal GloboEsporte.

Quando a impunidade reina

ter, 29/09/09
por Emerson Gonçalves |

Fiquei surpreso, pois realmente esperava um São Paulo x Corinthians tranquilo nesse domingo e jamais passou por minha cabeça que pedras fossem atiradas por torcedores são-paulinos no ônibus com a delegação corintiana.

Na mesma semana em que uma bala de borracha disparada por um policial tirou a vista de um garoto de 13 anos.

Uma pedra pode ter o mesmo resultado que uma bala de borracha.

Fica claro que ninguém pensa em consequências.

Parece que o estádio e um jogo de futebol são salvo-condutos para que os instintos mais primários e selvagens venham à tona. Instintos que não devem ser chamados de selvagens, pensando bem, pois os animais ditos selvagens não se comportam irracionalmente como o fazem muitos humanos.


A única coisa a dizer é repetir o que vem sendo dito há muito por quem pensa a respeito: é preciso punir os marginais. É preciso acabar com o salvo-conduto que permite a marginais atirarem pedras, provocarem brigas, jogarem bombas, atacarem pessoas vestindo a camisa de um time que não seja o mesmo do gosto dos marginais.

Esqueçam, por favor, os discursos bonitos e bem-intencionados sobre as causas da violência estarem na vida sofrida, no capitalismo explorador, na injustiça da distribuição da renda brasileira, etc, etc.

Há limites.

Que só serão respeitados com punição efetiva, real, dura.


Quando a direção é irresponsável

Como está dito em meu perfil, sou produtor de vídeo. Já fiz inúmeros vídeos comemorativos e institucionais e sei por experiência muitas vezes repetida que nenhuma instituição contrata e paga por um vídeo para ser usado num grande evento sem que sua direção saiba detalhadamente o que está sendo feito e como está sendo feito.

Por isso mesmo, foi muito grave a ofensa cometida pela direção do Sport Club Corinthians Paulista ao São Paulo FC no jantar de comemoração de seu centenário, ao representar o clube com a figura de um “bambi”.

A declaração do presidente Andrés Sanches ao subir ao palco para pedir desculpas e dizer que não conhecia o teor do vídeo é mentirosa ou prova de irresponsabilidade administrativa. Pela descrição dos presentes ao jantar, entretanto, foi grande a diversão e foi grande a ovação quando o presidente terminou seu pedido de desculpas dizendo que até o fim de seu mandato seu time não voltará a jogar no estádio do adversário.


O que mais me impressionou nesse caso não foi o comportamento do presidente corintiano, nem um pouco surpreendente, e sim a omissão de seu vice-presidente de marketing.

Esse clima não é salutar para ninguém, principalmente para o futebol.

Não por coincidência, a boa convivência entre as direções de Palmeiras e São Paulo refletiu-se na tranqüilidade que cercou o último jogo entre os dois times.


(Sim, eu sei, esse foi mais um post paulista. Basta, entretanto, mudar os nomes dos protagonistas e ele aplica-se a todo o país.

Gostaria, sinceramente, de não tê-lo escrito, prefiro falar sobre coisas mais agradáveis, como criticar a CBF por tirar os astros de campo, além dos garotos sub 20, titulares em suas equipes.)

G 4 ou só mais um G?

qui, 09/07/09
por Emerson Gonçalves |


Lula e Sarkozy andam falando em extinguir o G8, dando mais voz e poder para o G20. Não podemos esquecer que o G8 nada mais é que o G7 ampliado pela força das ogivas nucleares de Putin. Embora Lula fale em acabar com o G 8, o Brasil é parte do G5, que, verdade seja dita, deveria ser G6, mas Putin, o cara das ogivas, prefere o G7 ampliado com ele mesmo, ou seja, o G8. Tem, também, o G172, que nada mais é que a própria ONU. Tem outros Gs por aí, mas já não recordo deles.

O G de que eu gostava, o G14, foi extinto pela ação do super-burocrata Michel Platini. Em seu lugar ele criou a ECA, que seria um G100 ou G110, mas tenho a impressão que ninguém anda muito interessado em G alguma coisa por lá.

Por aqui temos um G que funciona, e até bem, mas não tem G no nome: é o C13 ou Clube dos 13. Dentro dele tinha o G4 que virou G3 que voltou a ser G4, virou G5, mas isso nunca foi uma certeza, e agora nem mesmo é certo que o G4 ainda exista. Se existir, é formado por Botafogo, Corinthians, Flamengo e São Paulo.

Para embaralhar de vez, temos mais um G, com direito a foto e logotipo: o G4, que nada mais é que o Trio de Ferro ampliado com o Santos.

Alguém na foto não conseguiu tirar o amarelo do sorriso

Alguém na foto não conseguiu tirar o amarelo do sorriso

Esse G4 nasce cheio de bons propósitos – bom, todos assim nascem, até que deparam com a realidade, quando morrem ou mudam os propósitos – e algumas ideias.

Mas…

Sei lá…

Lembram de “Flor da Idade”? Não? Ô loco, meu, é do Chico! Dá uma olhada:

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava Carlos que amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha
Que amava toda a quadrilha

Se você não conhece, pesquise e conheça. É antiga, mas bonita demais.

Ah, tem a linda “Quadrilha”, de Drummond:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

Tirem Dora, Carlos, Lili, Teresa, João, Raimundo, Maria, Pedro…

Agora, no lugar deles coloquem Andrés, Juvenal, Luiz Gonzaga, Marcelo.

Bom, tirem, por favor, qualquer conotação sexual, tirem o triste fim de Joaquim na poesia de Drummond e, o mais importante, troquem amava por detestava (menos forte que odiava) e pronto.

Eis o que penso sobre esse G4 e já aviso: não sou e não sei quem é J. Pinto Fernandes, que por mim pode continuar fora da história casado com Lili.


Em tempo: como além de reticente ando meio azedo com algumas dessas coisas, nem comentei que esse neo-G4 pretende fazer uma série de ações de marketing com os 4 clubes e comenta-se que a primeira ação ou a de mais impacto inicial, será a venda das mangas das 4 camisas para um só patrocinador.

No que me diz respeito, voltarei a reler um pouco de Drummond, talvez ouvir o “velho” Chico (na verdade, o jovem) e reler Fernando Pessoa, em especial aquele poema fantástico e simples de tudo, e por isso mesmo fantástico, que fala d’o rio da minha aldeia.

Rir é o melhor remédio

ter, 23/06/09
por Emerson Gonçalves |


Quando criança e adolescente, apesar de não recomendável ideologicamente (mais uma velha tolice), era leitor de Seleções. Como não poderia deixar de ser, não perdia a seção “Rir é o melhor remédio”. Sempre acreditei nisto. Rir é muito mais gostoso e relaxante do que, por exemplo, xingar. A risada fere mais que o calão, muito mais. E por aí vai. Além disso tudo, o riso é pacífico.

No futebol não pode ser diferente. Tudo bem, o futebol traz a dor da derrota, muitas vezes acompanhada pelo choro. É saudável em qualquer idade, não há contra-indicações. O choro demonstra que estamos vivos, que temos sentimentos, que temos uma alma.

Não vou perder tempo e humor falando de outras reações que, dizem, o pobre do futebol tem provocado.

A outra reação que nos dá o futebol, fora o prazer das vitórias e das conquistas, é o riso pela derrota alheia. Ah, isso é bom demais! De quem ri dos outros eu só costumo pedir uma coisa: que aceite com bom humor quando for o alvo das risadas.

É o que sobra hoje para a torcida são-paulina.

Ainda não sei quem criou essa tirada ótima, mas está de parabéns.

Depois das camisetas 4-3-3, 5-3-3 e 6-3-3, essa 4-3-2-1 é uma resposta no melhor estilo do humor brasileiro. Inteligente, ferina, muito bem-humorada, não há como não gostar dela. Mesmo os são-paulinos que não estão com a cabeça muito quente hão de reconhecer que é um chiste (ops…) bem bolado.

Dizem, e eu acredito, que quem não é capaz de rir de si próprio não consegue rir da vida e para a vida.

Post  Scriptum


A criação é da Yule Bisseto e do Ricardo Taves. A Yule é a titular do blog do torcedor corintiano, aqui no portal GloboEsporte.

Parabéns a ambos e agora aguentem o Daniel Perrone, titular do blog do torcedor são-paulino, e suas respostas.

A criatividade está em alta e bem humorada.

A sobremesa e os efeitos do almoço

sáb, 30/05/09
por Emerson Gonçalves |


O falecido G14 europeu fez escola entre nós. O gê maiúsculo seguido por um ou mais números, arábicos ou romanos, virou coqueluche. Assim tivemos o G4 no Clube dos 13, depois o G5, de novo o G4. No BR virou moda usar G4 como referência à turma que está na zona de classificação para a Libertadores. Temos, ou teremos, ainda é um pouco prematuro afirmar alguma coisa, o G4 paulista.

Sob essa sigla, ou sem sigla e nome, Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo tencionam se apresentar unidos para defender seus interesses dentro da federação estadual. A tradução correta dessa intenção é a briga por um naco maior nos direitos de transmissão de televisão do campeonato estadual. Como já ficou claro mais de uma vez, os quatro grandes acham pequeno o valor que recebem por suas participações, que nesse ano foi de 7,5 milhões de reais para cada um.


Outra novidade que nada de novo tem é a promessa dos quatro brigarem juntos contra a pirataria. Essa vontade já foi manifestada outras vezes e em nada de mais prático resultou, pelo simples motivo que falta vontade política às autoridades do Estado para combater, de fato, a pirataria. Como já estamos na metade de 2009 e 2010 é ano eleitoral pesado, aposto 97 em 100 fichas que a ação dos organismos responsáveis por essa ação será nenhuma. Ao fim e ao cabo, tudo que restará aos clubes será a ação de seus próprios fornecedores de uniformes, trabalhando em silêncio, no mais completo segredo, para apresentar novas coleções com detalhes ignorados pelos piratas, garantindo 30 a 40 dias de exclusividade de vendas.

No almoço, resultou a vontade de dar corpo a mais uma ideia: fazer do G4 o embrião de uma liga paulista. Uma vontade pouco ou nada realista. Criar um grupo e chamá-lo, oficial ou oficiosamente, de G4 não tem problema, é fácil. Dar-lhe o nome de “liga” também é fácil, basta chamar de “liga dos quatro” ou “liga do almoço” ou “liga qualquer-coisa” e pronto. Muito diferente, porém, será se essa “liga” quiser botar as manguinhas pra fora e ser uma Liga de fato e de direito. Cairá sobre ela o peso, a força e o ódio das entidades federativas, tal e qual em 1987 e 1988, abortando a transformação do Clube dos 13 em uma Liga de fato, relegando-o à condição de uma associação de clubes sem peso oficial no que importa: a organização e realização de campeonatos.

Se os clubes almejam um mínimo de independência e pretendem ser donos de seus narizes, ao invés de entidades que pouco ou nada fazem pelo futebol, exceto arrecadar taxas e vender patrocínios de times montados com os jogadores pagos pelos clubes, devem se unir nacionalmente, nunca localmente. Tudo isso, entretanto, não passa de sonhos de tardes de outono, pois até 2014 nada, absolutamente, mudará no futebol brasileiro. As mesmas caras de sempre, de norte a sul, continuarão comandando os destinos de nosso futebol.


O fator Morumbi


Ao fim e ao cabo, o que parece ser o saldo mais prático do almoço – além, é claro, da demonstração de boas intenções e redução de tensões, o que já é um saldo altamente positivo – é o desejo dos dirigentes em acertarem o uso do Morumbi para os clássicos e outros jogos de grande importância.

Pesou nessa decisão o Maracanã.

Isso mesmo, o velho Maraca. Um só jogo entre os finalistas cariocas, Flamengo e Botafogo, teve quase o dobro de torcedores que assistiram aos dois jogos da decisão paulista, somados. Considerando que o valor médio do ingresso em São Paulo foi bem superior ao valor médio da final carioca, os dirigentes viram que estavam deixando de ganhar uma quantia vultuosa, ainda mais expressiva num ano difícil como 2009.

Marcelo Teixeira e Juvenal Juvêncio deixaram acertada a realização de 5 jogos do Santos no Morumbi, atitude que este Olhar Crônico Esportivo já preconizou algumas vezes. E aqui, no caso santista, são dois os fatores a considerar: o primeiro e mais óbvio é que jogar no Morumbi garante ao Santos uma arrecadação de respeito. O segundo, e muito mais importante, é que fazendo isso o Santos estará se exibindo para o seu maior contingente de torcedores, que é o público paulistano. Contingente ainda maior se considerarmos a Grande São Paulo como um todo. É bom destacar, também, que é justamente na Grande São Paulo que o Santos tem a maior e melhor perspectiva de crescimento, quer no número de torcedores, quer na arrecadação de direitos via licensing. O diretor da sede paulistana do Santos, José Carlos Peres, que inclusive teve seu nome comentado como possível sucessor de Teixeira, há anos briga por mais jogos da equipe na Capital, onde os números de bilheteria são sempre melhores que na Vila Belmiro.

Andrés Sanchez, que entrou meio contrariado e saiu bem-humorado, apesar de uma resposta atravessada aos jornalistas que insistiram em perguntar se o Corinthians voltará a jogar no Morumbi, já concluiu que não jogar no maior estádio da cidade implica numa perda de receita – ainda mais com Ronaldo em campo – que não se pode permitir. Eu não ficarei surpreso se antes do final do ano o Corinthians voltar a jogar no Morumbi como mandante, ainda mais se o time estiver de fato na disputa do título. O próprio Belluzzo, muito mais afeito aos números, estimativas, projeções e assemelhados, encara com bons olhos mandar alguns jogos no território “inimigo”. Caso a WTorre tire a arena palmeirense do papel, de fato, jogar no Morumbi será uma necessidade para o Palmeiras em boa parte de seus compromissos.

A mentalidade do torcedor palmeirense, corintiano ou santista – principalmente se da Baixada – é direta e imediatista: não jogar no Morumbi para não favorecer o São Paulo ou não jogar para prejudicar o São Paulo. Essa, contudo, é a perspectiva de quem não tem responsabilidade direta com as contas dos clubes. Para o torcedor, assim como para dirigentes emocionais e afoitos, é fácil falar isso. Basta uma olhada simples nos números, porém, para que a razão se imponha, até com certa facilidade.

O que ficou claro desde o começo desse imbróglio e este Olhar Crônico Esportivo destacou, foi a falta de negociação, foi a ausência da política no seu sentido amplo e nobre, na condução do assunto. Os grandes podem e devem jogar os clássicos no Morumbi, pois isso é do interesse de todos. Basta sentar e negociar, de forma civilizada, como começou a ser feito ontem. Ao fim e ao cabo, o torcedor será o beneficiado, assim como o espetáculo.

É bom que se diga que os jogos de outros mandantes no Morumbi (basicamente, só o Corinthians até agora) não são essenciais para que essa unidade de negócios do clube dê bom resultado, como comprovam os balanços dos últimos anos. É interessante ao São Paulo ter o estádio alugado, mas não é essencial para sua geração de receitas.


O almoço terminou com um enorme cesto cheio de boas intenções, aquela coisa da qual a casa do “coisa ruim” está abarrotada. O tempo dirá, agora, até que ponto os dirigentes vão realmente encarar a sério as conversas de ontem.

Se pensarmos nesse encontro como um grande clássico, podemos dizer que a rodada de ontem terminou com quatro vencedores e nenhum derrotado.

Cardápio do dia: Paz e Bom Senso

sex, 29/05/09
por Emerson Gonçalves |


Hoje tem clássico em São Paulo. Não é o Majestoso, nem o Choque-Rei, nem o Derby e nem o Sansão. Aliás, não é sequer num gramado, embora tenha um bem ao lado. O clássico de hoje, que não é inédito, mas é raro, será agradável almoço. Espero que não se aplique a ele a palavra embate.


O presidente do Santos, Marcelo Teixeira,  numa iniciativa digna de todos os elogios, marcou um almoço hoje, na Vila, com os presidentes dos outros três grandes paulistas: Corinthians, Palmeiras e São Paulo. Salvo alguma infeliz mudança de última hora, todos confirmaram suas presenças.


Consta que a refeição propriamente dita será à base de frutos do mar, mas, com certeza, o cardápio principal terá como peças de resistência a Paz e o Bom Senso. Espero que o Professor Belluzzo, respeitado por todos como intelectual, consiga controlar ânimos eventualmente exaltados e conduza seus alunos, quero dizer, companheiros, a um final de almoço, como se fosse uma aula na Unicamp.  Ou numa escola primária, a julgar pelo nível de alguns embates recentes entre os senhores presidentes.

Nesse turbulento Campeonato Paulista, tivemos entreveros entre Juvêncio e Sanchez, entre Sanchez e Teixeira, entre Belluzzo e Teixeira.

Na maioria das vezes, ou melhor, em todas elas, questões referentes a ingressos para os jogos entre os clubes.

O começo dessa boba “guerra dos ingressos” foi protagonizado por Juvenal Juvêncio, ao anunciar, de supetão, que destinaria somente a cota de lei de 10% da carga para os torcedores corintianos, isso na semana mesmo do Majestoso. O mundo veio abaixo, em parte com razão. Este Olhar Crônico Esportivo posicionou-se criticamente em relação ao presidente do São Paulo. Nesse caso, dois pontos devem ser levados em consideração: o primeiro, e razão maior da minha crítica, a falta de sensibilidade política do presidente tricolor, quebrando velha tradição entre os dois clubes. O segundo ponto é a segmentação do estádio, algo inevitável, sem dúvida, mas que não implicaria, necessariamente, na impossibilidade de uma divisão mais amigável dos espaços com o Corinthians. Tanto isso é verdade que no Choque-Rei, Juvêncio ofertou a Belluzzo lugares de numerada a preços de arquibancada, entre outras medidas destinadas a abrigar a torcida palmeirense. Ao fim e ao cabo, a velha festa do estádio “dividido”, já privada das bandeiras, ficou privada da festa. Uma pena.

Tivemos, depois, embates localizados por conta de mais mil, menos mil ingressos.

Sanchez, que foi vítima e esperneou no confronto com Juvêncio, fez o mesmo papel deste ao enfrentar o time de Teixeira. A rigor, apesar de uma confusão com Teixeira, Belluzzo foi o que melhor se saiu, fazendo um Derby memorável pela amizade e, como já citado, um Choque-Rei tranquilo, sem confusão, no Morumbi.



A confusão permitiu a subida ao palco de autoridades que melhor fariam ficando recolhidas a suas funções. A esdrúxula tese de limitar a torcida adversária nos clássicos a 10% da lotação, passou a correr o risco de ser substituída pela mais esdrúxula tese de 5%. E, cereja podre de um bolo azedo, os porta-vozes da inoperância do serviço público e da vitória da minoria de bandidos, jogou no ar a tese de clássicos com uma só torcida. Melhor fariam propondo o fim dos torneios de futebol, afinal, se as forças policiais do Estado são incapazes de organizar e manter um mínimo de paz num jogo de futebol, de duas uma: fecha-se o Estado ou fecha-se o futebol. Como no Brasil o Estado é tudo e o indivíduo é nada, a resposta é óbvia.


Espero que hoje Belluzzo, Juvêncio, Sanchez e Teixeira usem do bom senso que devem ou deveriam possuir – afinal, já são todos bem crescidinhos.

Que conversem e acertem seus ponteiros e deem início a uma era em que o futebol de São Paulo seja decidido pelos clubes e não por cartolas federativos.

Sintomaticamente, o presidente da federação de São Paulo ainda permanece afastado de seu cargo pelo ligeiro e singelo castigo recebido de um tribunal benevolente. Mesmo assim, não deixa de ser sintomático e essa ausência que, jocosamente, preenche uma lacuna, tem tudo para ser simbólica.

A bola desse jogo está com os Senhores Presidentes.

Que justifiquem seus títulos e o pê maiúsculo no nome do cargo.

Que tragam o futebol de volta para os clubes e para os torcedores.




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