Como explicar o Fluminense?
Não sei. Talvez um tricolor ilustríssimo, muito mais citado do que efetivamente lido, possa fazê-lo. Afinal, deve estar em local e posição privilegiadíssimos para tanto, se é que não tem o dedo dele nisso tudo, desde o começo. Falo, é claro, de Nelson Rodrigues. Se bobear, ele está ao lado daquela turminha de gozadores, que adoram aprontar poucas e boas, os deuses dos estádios. Eles ficam lá no alto, onde os antigos locutores diziam que a coruja dormia. Hoje, sem corujas, e como os quero-queros habitam o gramado, o travessão ficou camarote exclusivo dessa turminha de divindades futebolísticas.
No início do BR apontei o Fluminense entre os sete times que, a meu ver, poderiam brigar pelo título. Embora considerasse que os grandes favoritos eram somente três. Ao fazer isso o mundo caiu. Lembro-me, sem consultar o post e seus comentários, que até tricolores cariocas duvidaram e criticaram minha previsão. Mas, que diabos, o time era o vice-campeão da Libertadores, e eu, ao contrário da maioria, dou imenso valor a um título como esse. Ninguém chega a um vice-campeonato da Libertadores por mero acaso. Tinha trazido Fred. Ia perder Thiago Neves, para mim mais um lucro que um prejuízo, e tinha mantido um dos melhores jogadores em ação no futebol brasileiro, o argentino Dario Conca. No mais, além de um elenco bom, tinha o comando de Parreira, por quem não morro de amores como treinador, mas que é um admirável organizador e que já tinha um bom histórico nas Laranjeiras.
Pois começou o BR e o Flu começou a afundar.
Na minha ingênua previsão não levei em consideração o “fator Horcades”, ou melhor, para não personalizar, o “fator gestão”.
Tenebrosa, tétrica, lamentavelmente incompetente. Se por culpa do passado ou não é outra história.
E o time desandou, entrou numa dinâmica de marcha-a-ré, sem dela sair, no Campeonato Brasileiro.
Ao mesmo tempo, meno male, foi se agüentando na Sul Americana.
A Série B deixou de ser uma ameaça e passou a ser uma certeza. Quase matemática. O único degrauzinho entre A e B era essa palavrinha: quase.
Mero detalhe, como poderia dizer o sempre mal citado Parreira (sua frase sobre o gol ser um detalhe é uma obra-prima da má transcrição, má citação, deturpação, colocação fora de contexto), ainda mais quando uma triste verdade tornou-se pública e ganhou o noticiário: a rapaziada “da casa” estava com três meses de salários atrasados, enquanto os contratados do patrocinador, justamente a rapaziada dos altos salários, estava com os ditos cujos em dia.
Ah, sim, é claro: no meio disso tudo, a direção trouxe Cuca. O ensimesmado Cuca, com seu permanente semblante meio triste. Aí, pensei com meus botões e até escrevi algo a respeito, a coisa desandou de vez. Como um time precisando de vibração trazia Cuca? Que era, pensava eu, a borracha que iria apagar a palavrinha “quase” e concretizar a passagem de A para B.
Pois não é que, justamente nesse momento, nessa situação, tudo começou a mudar? Não vou falar a respeito dessa epopeia já cantada em prosa (faltam os versos) por muitos cronistas bem melhores que eu. Lédio, Juca, PVC e outros mais escreveram textos brilhantes sobre a recente campanha do Fluminense. Tostão disse que o time joga o melhor futebol do momento no Brasil (sim, temos disso no Brasil, e muito: tem sempre alguém diferente jogando o melhor futebol do momento). Falar o que mais?
O que ninguém conseguiu explicar, porém, e tampouco serei eu a fazê-lo, é o motivo dessa transmutação da água para o vinho, não um qualquer, de garrafão, mas um vinho de alta qualidade.
No meio do caminho do poeta tinha uma pedra.
No meio do caminho do Flu tinha uma torcida.
Também não sei qual o papel, o peso dessa torcida nessa caminhada, mas com certeza é grande. A ponto de muita gente torcer pela permanência do time na Série A só pela torcida, por sua demonstração de amor absoluto.
Muito bonito e emocionante.
Dizem que Fred ajudou. Que ele conversou com os dirigentes e permitiu ou forçou um acordo que levou ao pagamento dos atrasados para a rapaziada. Dizem, há desmentidos, que o dinheiro para os atrasados veio de um banco graças à garantia da venda de um jovem valor de Xerem para o exterior.
Não importa. Qualquer que tenha sido o motivo não apaga a péssima gestão do gestor que livrou-se do impeachment, graças à ausência de eleitores.
Cá entre nós, o “fora de campo” do Fluminense não merece nem mesmo a Série B. E não me refiro somente à figura presidencial.
O último ato dessa verdadeira saga, enquanto digito essas linhas, foi a recepção da torcida aos derrotados de Quito, ainda no aeroporto. A chamada para a matéria do portal GloboEsporte, citando Fred, é autoexplicativa:
É de arrepiar.
Nesse momento é muito difícil não torcer pela permanência do Fluminense na Série A. Sem falar o óbvio: creio ser difícil encontrar alguém que não torça pelo título na Sul Americana. Porque, se a direção nada merece, o time e a torcida tudo merecem.
Em tempo: há alguns dias um leitor escreveu nos comentários que “gestão é tudo”.
De minha parte, digo que gestão é fundamental, essencial.
Mas ela não é tudo, nunca será, felizmente.
O Fluminense 2009 está provando isso.
Para grande diversão do ilustre tricolor do começo desse texto.
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