Em algum lugar da Europa*, Andrés Sanchez foi questionado pelo repórter a respeito da venda dos direitos federativos de Douglas, Cristian e André Santos. Sua resposta, autêntica e verdadeira, é exemplar:
“Não havia como segurá-los. Eles foram para ganhar muito mais, e vendi dois jogadores que não eram jovens e um [Douglas] que era vaiado pela torcida todo jogo.”
Primeiro fator pró-venda: os jogadores foram ganhar muito mais do que lhes pagava o Corinthians e do que poderia pagar qualquer outro clube brasileiro.
Segundo fator pró-venda: dois deles já não eram jovens. Ou seja, os próprios jogadores e, principalmente, suas famílias, pressionam por uma lucrativa transferência para o exterior, pois, afinal, o tempo é implacável e absolutamente inelástico.
Terceiro fator pró-venda: um dos jogadores, como soi acontecer com torcidas brasileiras, jamais caiu nas boas graças dos torcedores. O caso de Douglas não é único, assim como tampouco são únicos os torcedores corintianos, Leo Moura que o diga.
Esses três são os fatores aparentes e listados pelo presidente corintiano. Há outros. O mais forte deles, sem dúvida, o acerto feito com o São Caetano e seu presidente. Douglas foi para o Parque São Jorge por um valor baixo, mas com o compromisso tácito e contratual, de liberação para o exterior tão logo surgisse boa proposta. Pelo que sei de Nairo Ferreira, presidente do São Caetano, não duvido nem um pouco que o contrato contenha uma cláusula que forçaria o Corinthians a comprar os direitos em poder do Azulão num prazo determinado.
Sobre os outros dois falam em pressão de empresários e coisa e tal. Pode ser, pode não ser, a crença no sim ou não fica ao gosto do freguês.
Quarto e poderosíssimo fator pró-venda, também exposto por Sanchez, explícita e implicitamente: o clube tem necessidade urgente e grande de fazer caixa. Precisa de dinheiro, não só para os compromissos correntes como para os encargos da dívida que ultrapassa o valor de 100 milhões de reais. Uma dívida administrável e, aparentemente, dentro dos eixos e das possibilidades do clube, mas que, assim mesmo, existe e exige mês a mês desembolsos variados e pesados para o orçamento.
Por que Zezé Perrella negocia seus jogadores?
Porque precisa.
Assim como precisou Sanchez e como precisou o Internacional e como precisa o São Paulo e precisam todos os demais. Esse é o fato. O que deu origem a ele, se é do passado ou se é do presente, se a direção tem culpa por isso ou não, é uma outra história, uma outra discussão.
É claro que o caos administrativo de muitos clubes contribui e força a necessidade de vender, entretanto, mesmo os não muito caóticos têm também suas necessidades. Em muitos casos, diria que na maioria, não adianta culpar o dirigente, pois ele, ou melhor, o clube, não teria como segurar o jogador. A menos, é claro, que pela força de contrato vigente. Nesse caso, o jogador fica sem tugir nem mugir. Mas… (e esse é um “mas” poderoso), renderá o que um jogador insatisfeito? Que viu nas mãos maços e maços de verdes células esvaírem-se em fumaça e nela seu próprio futuro e o de sua família? Renderá nada ou perto disso e, provavelmente, será um foco de insatisfação dentro do elenco. Há exceções, claro, cujo maior valor é justamente confirmarem a regra.
Em função de nossa estrutura social e nossa distribuição de renda e benesses associadas (educação, saúde, alimentação, conforto e outras coisinhas), a maior parte de nossos jogadores sustenta uma pequena multidão, pessoas que dependem do “craque” da família para sobreviver com um mínimo de dignidade. Dado que a carreira é curta demais e mais curto ainda o tempo que permite ganhar bons salários, não vá uma contusão grave acabar com tudo, jogadores e seus familiares sabem muito bem o quão importante é ganhar hoje o dinheiro possível hoje.
E raramente uma direção pode resistir e segurar o atleta
A “Decisão Belluzzo”
Quando escrevi sobre a decisão de Belluzzo de segurar o elenco até o fim do ano, fui criticado por muitos palmeirenses, alguns de uma forma tão grosseira e ofensiva que não restou outra alternativa a não ser deletar os comentários. Queriam, querem ainda, que eu elogie o presidente palmeirense.
Ora, eu não escrevo para elogiar ou criticar, embora faça uma coisa e outra com freqüência. Escrevo, ainda mais num caso como esse, para tentar entender e explanar sobre o que há por trás e o que pode ocorrer a partir daí. Sua chegada à presidência do Palmeiras foi saudada como um sopro de renovação e a entrada em cena de alguém que, mais que civilizado, é um intelectual de respeito. Isso não se discute, é verdadeiro, mas há que ter em mente que as crenças, práticas, opiniões e visão de mundo do Prof. Belluzzo não são a verdade absoluta e delas discordar é direito pleno.
Sua decisão cai em cheio no gosto e atende aos sonhos de todo torcedor.
Qual corintiano não gostaria que Sanchez tivesse dito o mesmo? Ou Piffero, Dumbrosck, Juvêncio, Perrella, Kalil…
Se tudo correr bem, o Palmeiras terminará o ano com seu atual elenco, com grandes chances de conquistar o título brasileiro, ao qual é hoje o maior favorito, não só na minha opinião, mas de uma forma geral. Campeão ou não, entretanto, o clube terá que arcar com o custo dessa decisão, que não será baixo – e a renovação de Pierre é o peso menor nessa conta.
Além disso, escrevi sobre a oportunidade que o Prof. Belluzzo viu e aproveitou, ágil e espertamente (e isso é um elogio, aviso aos xiitas de plantão). O cenário, por alguns dias, estava propício a isso. Tal como aquelas bolas que passam em frente ao gol e parecem pedir “me chuta, me chuta, me chuta”. Às vezes aparece um atacante com faro de gol, chuta e marca. Foi o que fez Belluzzo.
O caso Emerson
Falo do atacante do Flamengo, claro. Não estou com essa bola toda para merecer um “caso”.
Bom atacante, encaixou no Flamengo instituição e encaixou no Flamengo time. Em tese, o melhor dos mundos. E era, até que surgiu a proposta árabe. Para sorte desse Emerson de que falamos, ele já ganhou um bom dinheiro, parece estar meio resolvido sob esse aspecto. Flamenguista, seu sonho era jogar no clube do coração, tal como Adriano, esse sim, muito bem resolvido financeiramente.
Mas surgiu a proposta das arábias. E o Flamengo, apesar da situação financeira que conhecemos, disse não.
Esse não foi positivo, uma vez que o dinheiro oferecido era pouco e, certamente, seria melhor apostar na manutenção do atleta e nos ganhos possíveis que o time poderá trazer, time no qual ele é peça fundamental.
Mas os árabes melhoraram a proposta.
Ainda assim a resposta foi não, afinal, o dinheiro já começa a ficar interessante, mas…
Pombas, o que dirão torcedores e oposição ainda com a “decisão Belluzzo” na cabeça? E olha o Prof. Belluzzo novamente no texto.
Um outro porém pode surgir no horizonte: o próprio atleta disse acreditar que os árabes melhorarão a proposta. E então, que fazer?
Se a proposta for melhorada e bater ou ultrapassar 5 milhões de reais limpos para o Flamengo, a decisão, na minha opinião, deve ser uma só: vender.
Porque nesse caso teremos dinheiro de verdade na parada, suficiente para uma certa tranqüilidade no clube. E se o jogador é importante para o bom desempenho da equipe em campo, salários em dia e cabeças tranquilas são mais importantes ainda.
Finalizando, volto ao título, mas pela metade: Vender é preciso.
Triste? Claro que sim, mas verdadeiro.
* Tallinn, capital da Estônia, pequena república do norte da Europa, que fazia parte do colar báltico da URSS ao lado de suas parceiras Letônia e Lituânia. Por razões que ignoro, o time da CBF, também conhecido por seleção brasileira, vai jogar lá.