Loch Ness é um grande lago escocês, famoso por, supostamente, abrigar em suas profundezas um monstro pré-histórico. Muito já se pesquisou e nada se encontrou, de concreto, a respeito de tal monstro. Até fotografias desfocadas andaram circulando, mostrando o que seria o tal monstro. Curioso, certa feita encontrei um livro a respeito, relatando toda a história em torno desse mito e também as pesquisas feitas até a publicação do mesmo.
O Loch Ness tupiniquim existe, tal como existe o escocês, e fica em São Paulo.
Lembrei-me de tudo isso ao ler as últimas e bombásticas declarações do secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, a respeito da virtual impossibilidade do Estádio Cícero Pompeu de Toledo, o Morumbi, sediar não somente a abertura da Copa do Mundo, mas qualquer jogo desse torneio de 2014.
Apenas a título de lembrança, e nada mais, Valcke foi o responsável pelo affaire FIFA/Mastercard, ao mudar para a Visa, ignorando os direitos e contratos da primeira. Segundo um juiz federal de Nova York, Valcke mentiu às duas companhias na condução das negociações para o patrocínio das Copas 2010 e 2014. De acordo com o magistrado, a conduta da FIFA, encarnada em seu então executivo de marketing e hoje secretário-geral, foi qualquer coisa, exceto regida pelo fair play que a entidade tanto cobra dos clubes. A brincadeira custou 90 milhões de dólares aos cofres da Federação, ele foi afastado por algum tempo, mas parece ter voltado com mais poder que antes. Coisa típica de federação estadual tupiniquim, ocorrida, entretanto, entre as frias e austeras montanhas suíças na federação maior do futebol.
O governo do Estado de São Paulo e a prefeitura da cidade de São Paulo decidiram, conjuntamente, que o estádio da cidade para abrigar os jogos da Copa, inclusive a abertura, pleiteada por esses dirigentes, será o Morumbi. Com essa decisão, Serra e Kassab poupam aos cofres públicos, vale dizer, ao bolso do contribuinte, uma soma gigantesca de recursos que seria usada para fazer mais um estádio numa cidade que já possui quatro. Aqui é o momento em que a cidade vira o Loch Paulicéia e passa a contar com seu próprio Nessie, apelido carinhoso dos escoceses ao seu bichinho de estimação. O tupiniquim, entretanto, ainda não tem nome e também não tem paternidade (ao menos conhecida), parece ter caído do céu, de paraquedas, surgido do nada, nesse caso das profundas profundezas (desculpem pela redundância) de bolsos ávidos por dinheiro abundante, fácil e público ou público, abundante e fácil. Aqui, a ordem dos fatores em nada altera o produto.
O Projeto Morumbi 2014
O clube já apresentou um projeto novo, dia 4 de setembro, no qual, segundo dirigentes e arquitetos, inclusive da GMP (empresa alemã que cuidou do estádio de Berlim usado na Copa 2006), as exigências da federação foram atendidas, tanto no que diz respeito às áreas internas como ao entorno do Estádio do Morumbi.
Os dirigentes do clube e os encarregados da candidatura paulista acreditam que nem a FIFA e nem o presidente da federação tupiniquim leram esse documento, ainda.
Nem lerão da maneira devida, a menos que haja um firme posicionamento de quem de direito a respeito.
O troco de Ricardo Teixeira
Há anos o São Paulo faz oposição à forma como a CBF conduz e trata o futebol brasileiro. Foi o único clube a não votar pela reeleição de Teixeira na sua penúltima de sei lá quantas reeleições. Durante alguns anos cobrou da federação nacional o valor devido pela mesma referente aos salários pagos a jogadores do clube enquanto prestavam serviços (muito bem remunerados, diga-se) à entidade. Essas coisas pesam.
Com a candidatura da cidade e do estádio para sediar não somente jogos, mas a própria abertura do Mundial, o presidente tricolor Juvenal Juvêncio engavetou as críticas, suspendeu a cobrança da dívida e até mesmo votou em Teixeira em sua última (de não sei quantas, novamente) reeleição.
Em vão.
Em entrevista ao Sportv o dirigente maior do futebol tupiniquim lavou suas mãos nessa questão, tal e qual o mais famoso lavador de mãos da história, Poncius Pilatus. Segundo pessoas que conhecem o Pilatus brasileiro, essa postura é um troco à postura do clube paulista em relação à sua gestão, que ao término do atual mandato, caso não haja mais uma reeleição, ultrapassará um quarto de século. Uma presidência vitalícia, pode-se dizer.
A alternativa e o custo
Com ela sonham muitos: a construção de arena “moderna e à altura da cidade de São Paulo, capacitada a receber jogos da Copa do Mundo”.
Ora, tomando como exemplo o último grande estádio público construído em Pindorama, o Engenhão, aliás, Estádio Olímpico João Havelange (que vem a ser ex-presidente da federação de futebol e sogro, bem como introdutor de Teixeira no mundo do futebol), teremos na Paulicéia um espetáculo digno da pena de Ionesco. Se o Engenhão foi orçado em 40 milhões, revisado para 80 e terminou custando – oficialmente – 400 milhões de reais, quanto custará a portentosa arena paulistana, cujo orçamento inicial já é apontado como sendo de 400 milhões de reais por alguns ingênuos e otimistas? Outros especialistas, menos ingênuos, mas também otimistas, apontam seu custo entre 600 e 700 milhões de reais. Nessa altura do campeonato, qualquer um com um mínimo de conhecimento sobre Pindorama e seus subterrâneos, sabe que esse custo ficará na casa do bilhão, mas não no singular e sim no plural: bilhões.
Dinheiro que sairá das burras do Tesouro e para elas nunca retornará.
Dinheiro que Serra e Kassab não querem comprometer, afinal, a cidade conta com gigantesca lista de carências fundamentais, e uma “arena etc e tal” não está incluída entre elas.
Os dois executivos já se comprometeram com uma série de obras, viárias, inclusive, na região do estádio, o que é correto, pois a cidade cresceu tremendamente naquele sentido, o que não foi acompanhado por obras viárias. A mais importante será a Avenida Perimetral, que criará um novo acesso, e rápido, ao Morumbi e região. O metrô, necessidade básica, terá sua estação inaugurada em 2011, distando mil metros da praça esportiva.
O dinheiro comprometido nessas obras atenderá a toda a população, independentemente de gostar ou não de futebol, torcer ou não por um clube. Mais que isso começa a complicar.
Como dizia Juca Chaves, ligeiramente modificado: água de morro abaixo, fogo de morro acima e custo de obra pública, ninguém segura (no Brasil).
A temida farra dos elefantes brancos
Quem acompanhou a Mini-Copa criada pela ditadura para festejar o Sesquicentenário da Independência (cruzes), sabe muito bem o que foi a farra da época, com a construção de estádios enormes em cidades muito pelo contrário. Estádios que viraram grandes e caros elefantes brancos. Se bem que, na verdade, a melhor cor para designá-los é cinza-ruína.
Dinheiro público foi usado a rodo nas construções e os controles foram, digamos, ausentes ou frágeis. Terminada a tal competição, o abandono e a degradação encarregaram-se das praças esportivas.
Para 2014, há cidades planejando estádios “FIFA” cuja capacidade “FIFA”será suficiente para abrigar o público de todos os jogos de seu campeonato estadual de um ano. Todos os jogos, de todos os clubes, durante um campeonato inteiro. Essa é uma boa tradução para elefante cinza-ruína. Ou branco, se assim preferirem.
A cor do Nessie paulistano
Como não sabemos a cor do Nessie escocês, também não sabemos qual será a cor do Nessie paulistano.
Todavia, eu tenho cá a forte impressão, diria mais, a firme certeza, que a cor do nosso monstro será verde. Não o verde esmeraldino ou o verde da bandeira, símbolo de matas há muito perdidas, mas o verde-dólar, o verde das cédulas da moeda americana, ainda valioso entre nós, enquanto a China não cria uma moeda alternativa, já que o euro, europeisticamente, não se firma.
Verde-dólar, por sinal, segundo pesquisa secreta nunca revelada, é a cor favorita de larga parcela de importantes personagens tupiniquins.
Esses personagens torcem por times e suas cores, as mais diversas. Há entre eles torcedores até das três cores do Morumbi, com certeza, assim como torcedores das duas cores do Parque São Jorge, da Vila Mais Famosa, das cores da Gávea e até torcedores dos verdes de São Paulo e Goiânia. Cores de norte a sul, de leste a oeste. Mas esses personagens todos têm algo em comum: o amor maior ao verde-dólar. (Texto modificado para evitar interpretações maliciosas ou simplesmente mal feitas.)
Então, ficamos assim, com gente dizendo que Nessie existe e até fotografado foi, enquanto gentes outras dizem que é tudo lenda, não passa de ficção, e que tudo que está em jogo são apenas os interesses maiores da cidade e da nação e… Chega.
No que me diz respeito, já acredito firmemente que Nessie será o mais novo paulistano, forte, robusto e saudável, como convém a um bilionário em dólar. Não demora muito ele sairá das profundezas em que se esconde hoje e mostrará ao público uma simpática cara.
Será essa a melhor solução para o paulistano? Recebê-lo e dar-lhe o título de cidadão paulistano?
Quanto a isso, tenho outra certeza:
Não.