Campeonato de 4 turnos + 2
Oficialmente o Campeonato Brasileiro da Série A tem dois turnos, apenas. Na vida real, entretanto, temos quatro turnos, com alguns deles ocorrendo simultaneamente em boa parte de suas durações. Vejamos, então, quais são esses turnos.
Turnos oficiais: primeiro e segundo, de acordo com a tabela e diretrizes da CBF, organizadora da competição. Na prática, significam apenas a mudança de mando.
Vamos, agora, aos que chamo de “Turnos reais”, com características próprias e bem distintas. São eles:
1º turno: 9 de maio a 8 de julho Fase “das Copas”
2º turno: 1º de julho a 31 de agosto Fase “Janela de Verão”
3º turno: 11 de julho a 23 de agosto Fase “Jogos Sem Descanso”
4º turno: 29 de agosto a 6 de dezembro Fase “Reta Final”
1º Turno ou turno da Libertadores e Copa do Brasil
9 de maio a 8 de julho
Esse é um turno complicado para as principais equipes brasileiras, já que, em tese, todas elas estão nas fases eliminatórias das copas Libertadores e do Brasil.
Treinadores e dirigentes priorizam as copas e as rodadas iniciais do Brasileiro são disputadas com formações quase totalmente reservas ou perto disso. Não bastasse isso, é muito provável e natural que os próprios jogadores se poupem mais que o normal nos jogos pelo Brasileiro, já que terão até dezembro para compensar as perdas iniciais (sim, essa crença existe no consciente de alguns e, o que é pior, no inconsciente de todos), ao passo que os jogos das copas são eliminatórios.
Em tese, esse período deveria ser aproveitado ao máximo por equipes que tendem a ficar no meio da tabela e podem, na ausência dos maiores favoritos e maiores pedreiras, acumularem alguns pontos preciosos.
Na outra vertente, a dos favoritos, embora nenhuma equipe brasileira tenha elenco para as duas disputas simultâneas, uma campanha de razoável para boa nessa fase pode fazer a diferença no final. Em 2008, por exemplo, apesar de ter time para ser campeão brasileiro, o Fluminense arrastou-se por meses na zona de rebaixamento, fruto de uma opção radical de sua direção, que deu prioridade total à Libertadores.
2º Turno ou turno da “Janela de Verão”
1º de julho a 31 de agosto
Embora ainda não aparente, esse turno já começou há algum tempo e se sobrepõe com o Turno das Copas. Mesmo que em escala muito menor que nos anos anteriores, os bastidores andam agitados com promessas menos ou mais concretas de transferências.
Nesse 2009 há um dado novo a considerar: o possível retorno de jogadores atuando na Europa, já com um retorno muito significativo: Maxi Lopes, no Grêmio. Ronaldo, Fred e Adriano também voltaram e também por influência da crise econômico-financeira. Mas, no caso deles, somente em parte, já que fatores outros, principalmente de foro íntimo ou médico, foram mais decisivos.
Nesse momento, a poucos dias da abertura oficial da janela de transferências, o Palmeiras já perdeu Keirrison e, na esteira, em movimento benéfico às finanças do clube, também perdeu seu treinador. Uma das surpresas dessa temporada, o Barueri, está perdendo seu artilheiro Pedrão, que também é um dos artilheiros da competição, para o futebol árabe. Há vários outros casos em andamento e há muitos jogadores rendendo abaixo do que poderiam e deveriam, já que suas cabeças andam por terras e times d’Europa.
3º Turno ou turno dos jogos seguidos, sem descanso
11 de julho a 23 de agosto
Fase complicada, que em 2009 está bem menor que em 2008 e 2007, por exemplo. Acredito que isso ocorreu devido, em boa parte, às reclamações consistentes de Luxemburgo e Muricy, os dois desempregados mais famosos do Brasil, pelo menos até o momento em que digito esse texto, nessa manhã gelada de 2ª-feira.
Há quem diga ser isso frescura e já saca o exemplo dos europeus, que jogam duas vezes por semana, também. Ora, já disse mil vezes e estou certo que direi muito mais ainda: os vôos europeus são, na maioria dos casos, muito curtos. E salvo em dias de nevascas monstruosas, não há caos aéreo e os aviões partem e chegam razoavelmente dentro de seus horários.
Por aqui é um pouco diferente. Mesmo uma viagem curta, como São Paulo/Goiânia, por exemplo, implica em um dia perdido, sem treinamento. Isto porque a delegação tem que chegar ao aeroporto pelo menos 60 minutos antes do embarque teórico. Para grandes grupos, há sempre a recomendação de chegar ainda antes. Digamos, então, que a delegação sai do clube por volta de 9:00, chegando ao aeroporto por volta de 9:40 para um voo marcado para decolar às 11:30. Como é praxe, num dia de sorte a decolagem ocorrerá por volta de 12:00 e a chegada em Goiânia será às 13:00, o que colocará a delegação no hotel ao redor de 13:45 ou 14:00. Alguns minutos para o pessoal se preparar e almoço. Nesse dia de sorte, o treinador conseguirá um treininho básico, mais para desintoxicar e alongar, no final da tarde. Normalmente, porém, isso não ocorre e a atividade física limita-se a uma leve movimentação, nada mais. A história se repete toda semana, e quando não há viagem sobra tempo para um único treino de fato.
Essa é, também, a fase dos cartões bobos e das suspensões seguidas, que se somam às contusões em maior número. Os jogadores já vêm “carregados” e, atuando no limite do preparo físico, tendem a cometer mais erros e mais faltas. Pelo mesmo motivo, contundem-se mais e os desfalques são muitos e frequentes, complicando a vida dos “professores”.
Essa é a fase em que ter um grande elenco faz toda a diferença.
4º Turno ou turno da Reta Final
29 de agosto a 6 de dezembro
Aqui o bicho pega de vez e os favoritos, de fato, tomam a frente. Os jogos são semanais, quase todos, a janela de verão já acabou e a de inverno anda meio distante. As cabecinhas coroadas podem, assim, concentrar-se somente na competição. De maneira geral, os times chegam mais ou menos inteiros fisicamente e o diferencial maior passa a ser o preparo físico depois de cinco e seis meses de competição, e a “cabeça”, o famoso “lado psicológico”. Se o treinador não consegue empolgar o time, pode-se perceber um certo cansaço de ordem mental, em especial para quem tem chances remotas ou nulas de título e não está ameaçado pela degola do rebaixamento. Essa “turma da marola” às vezes desequilibra o campeonato, fazendo ora grandes partidas contra favoritos, ora partidas abaixo da crítica, influindo no título e no rebaixamento.
Gestão e Planejamento
O ano futebolístico tem onze meses, dos quais nada menos que sete são tomados diretamente pela disputa do Brasileiro.
Os três pontos de uma vitória na primeira rodada valem exatamente a mesma coisa que três pontos na última rodada. Essa conta é pior para os pontos que não foram conquistados. No fim, quando a vaca já está no brejo, atolada, olha-se para trás e lamenta-se pelos pontos que não foram conquistados lá no comecinho… Mas aí é tarde, pois Inês é morta e o leite derramado escoou-se.
Mais da metade dos participantes tem ainda que considerar as disputas simultâneas com as copas continentais e do Brasil, cada qual com suas próprias demandas e importância.
Outro complicador: o 1º e o 2º turno encavalam, assim como o 2º e o 3º, gerando mais dores de cabeça para treinadores e gestores.
Fica claro, portanto, que a disputa de um bom Brasileiro depende de um bom time e coisa e tal, mas não há como existir bom time, ou um bom time manter-se como tal, sem um rigoroso planejamento que deve começar muito antes do campeonato, e sem uma gestão profissional das coisas do futebol e, naturalmente, do próprio clube.
Um dos pecados mortais, de todos o mais mortal, é atrasar salários. E é bom manter essa palavra no plural, pois a renda de um boleiro hoje é composta pelo tradicional salário e pelos “direitos de imagem”. Logo, nem um, nem outro, podem ser pagos com atraso, embora seja mais ou menos praxe os dirigentes relegarem os direitos de imagem para um plano secundário. Juridicamente tem lá sua razão de ser, mas na prática é tão daninho no campo esportivo quanto o atraso do salário propriamente dito. Outra: bicho prometido tem que ser pago. Se alguém me pedisse para definir gestão do futebol com uma só frase e uma só ação, eu diria sem pestanejar:
Gestão boa é pagar em dia.
O resto é perfumaria.
Pagamentos em dia dependem, também, do famoso planejamento. O clube não pode ficar sem renda de patrocínio, por exemplo. Negociações devem começar muito antes do término de um contrato. Nem sempre se consegue repor um patrocínio no momento em que termina o que está em vigência, mas deve ser tentado. É o correto.
Isso tudo é somente uma pincelada no que é e no que ocorre num Brasileiro, um campeonato que, definitivamente, não é para amadores.
rss do blog
29 junho, 2009 as 11:25
Minha opinião: o ano é bem corrido mesmo… mas é só reorganizar os campeonatos e o calendário:
Como tenho minhas duvidas quanto à Copa do Brasil, eu substituiria pela Copa dos Campeões Estaduais, (eu sei e todo mundo sabe que a CB beneficia os clubes menores, mas nunca fui a favor de ver um “Pernas de Pau Tabajara” disputando a Libertadores, nada pessoal contra os times menos expressivos), mas pra não haver zebras…
Imaginem, cria-se um modelo padrão para todos os campeonatos estaduais pelo país (27) e as 5 vagas remanecentes podem ser distribuídas para os 5 melhores 2os colocados, ou para as 5 Federações mais bem classificadas no ranking da CBF, devendo essas vagas serem destinadas aos campeões do Módulo 2 ou série B estadual.
No final das contas teriamos 32 clubes brigando pelo titulo de Campeão dos Campeões do Brasil, sendo: Fase Classificatória, Oitavas, Quartas, Semi e a Grande FINAL. Com vagas para a libertadores para o Campeão e o Vice.
Campeonato Brasileiro: 3 vagas para a libertadores.
Apesar de não me agradar o modelo da Copa Sulamericana (Surramericana), 8 vagas pra SULA…
Cinco times se mantém na Elite e 4 são rebaixados….
Calendário:
15 de janeiro à 1º de março (1 mês e meio): Campeonatos Estaduais;
8 de março até 1º de maio (dois meses): Copa dos Campeões do Brasil;
8 e maio à 15 e dezembro (oito meses): Campeonato Brasileiro
A Copa Libertadores começa sempre no fim de janeiro e vai até julho, é só acertar o calendário e as datas.
Teremos um ano com grandes disputas e muitas emoções.
29 junho, 2009 as 10:53
Emerson,
até nisso teremos que nos adaptar … estamos no inverno e a janela que abre é a de verão … arre egua!!! … pois bem refazendo o que eu disse acima, a CBF deveria proibir a janela de Verão para que os times montem um elenco que dure o ano inteiro … mas entendo a sua explicação em relação as “datas da FIFA” …
Vovô Xaruto
29 junho, 2009 as 10:43
Você colocou um ponto interessante, que geralmente não é colocado quando o assunto é “maratona de jogos”: o Brasil é um país continental. Os europeus vão sentir isso na pele em 2014.
Quanto ao quesito “planejamento”, concordo que salários e direitos de imagem devem ser pagos sem atraso, acrescentando que receita com venda de atletas deve ser investida integralmente nas categorias de base ou, em situações excepcionais, alocada na reposição desse mesmo atleta que foi vendido, com vistas a manter a regularidade do elenco, que deve ser montado de acordo com as receitas de patrocínio e direitos de transmissão.
Uma coisa que poderia ajudar um pouco os clubes, principalemnte os grandes, seria uma reformulação na Lei Pelé.
Por essa lei, o vínculo federativo do atleta acaba com o vínculo trabalhista. Há jogadores que por sua qualidade acabam sendo negociados antes do têrmino de seus contratos, o que não traz prejuízos ao clube. Os de menos qualidade (a maioria), no entanto, não podem ser negociados porque os poucos clubes (em geral clubes de menor expressão) que demonstram algum interesse neles não conseguem igualar os altos salários recebidos nos clubes grandes. O resultado é que o clube tem que arcar com altos salários de atletas que sequer são aproveitados até o término de seus contratos. Depois disso, esses atletas conseguem colocação em times de menor expressão, com salários menores, sem que o clube que neles apostou receba nenhum centavo.
É claro que a grave situação financeira dos clubes se deve principalmente ao amadorismo que permeia o esporte, mas rever a Lei Pelé também ajudaria um pouco.
Luís, mexer na Lei Pelé é complicado e mais ainda quebrar vínculos entre atleta e clube.
Há um fator importante: o clube investe em jogadores. Investimento implica em risco, então, se você tem a perspectiva de ganhar muito com um jogador, tem, por outro lado, o risco de não ganhar ou até perder.
Eu, pessoalmente, acho a Lei Pelé boa. O único ajuste seria dar ao formador o direito a um prazo maior no primeiro contrato. Fora isso, o grande problema de nossos clubes, no geral, é gestão.
EG
29 junho, 2009 as 09:49
Fala Emerson,
bom dia e saudações rubro negras a todos do OCE …
de tudo o que voce escreveu acima o que mais me preocupa é a Janela de Inverno … ela praticamente obriga a maioria dos clubes a refazerem os seus elencos e reestruturar um time no decorrer de um campeonato como um Campeonato Brasileiro é super complicado e a chance de dar certo é de 1 em 1000. Acho dificil fazer um bom planejamento que alivie as perdas, pelo menos no aspecto tecnico e tatico, causados pela Janela de Inverno … Ja a disputa paralela de outros torneios como a CB e a LA já fazem parte do planejamento de qualquer time e todos querem participar pois significa mais cifras ($$$) para seus cofres …
O dia em que a CBF baixar um norma que só permita a transferencia de jogadores na chamada Janela de Verão, creio que teremos um Campeonato Brasileiro mais disputado e por consequencia mais competitivo …
Vovô xaruto
Xaruto, a CBF não tem como legislar nesse sentido, proibindo a transferência o ano inteiro e liberando uma só janela; ela precisa seguir as “datas FIFA”.
Essas janelas de verão – que começa agora, em 1o. de julho – e a de inverno – que dura o mês de janeiro – têm suas datas definidas pela UEFA, mas de acordo com o calendário FIFA. Há alguns limites para as confederações continentais atuarem.
EG