Tamanho não é documento - mais números para entender o dinheiro da TV
Do alto de seu metro e sessenta e um, meu pai, conhecido por Baixinho, costumava dizer que tamanho não é documento. Grande verdade, vista com facilidade, por exemplo, no futebol de Romário.
Houve uma época, no início dos anos setenta, logo depois que descobrimos que petróleo e seus derivados eram coisas não só finitas como sujeitas a chuvas, trovoadas e Opeps, em que tentou-se botar nas cabeças ianques que o tamanho de seus carrões não era tudo. Foi a época em que fez sucesso o “small is beautiful”. Sucesso de boca e jamais de mercado, os SUVs que o digam, sucessores dos enormes Cadillacs.
Em economia, tamanho grande pode ser bom, mas pode ser ruim. Nada mais relativo.
Culturalmente, o enorme tamanho do Brasil parece-me mais um trambolho que uma vantagem competitiva. Um país-continente tem lá suas muitas vantagens, é bem verdade, mas tem, também, grandes desvantagens.
Estamos acostumados a conceitos como renda per capita, por exemplo. Coisa simples: pega-se o PIB - o valor total de todos os bens e serviços produzidos pelo país no período de um ano, basicamente - e divide-se pelo número de habitantes estimado para aquele ano.
Tomando por base 2008, o Brasil tem um PIB da ordem de 1,3 bilhão de dólares e uma renda per capita de 8,676 dólares. Usei esses dados no post em que comparei os direitos de TV recebidos pelos clubes na Inglaterra, França e Brasil. Vários leitores seguiram questionando o valor pago pela TV brasileira. Em alguns desses questionamentos sobrou até para mim, pelo fato deste Olhar Crônico Esportivo estar no GloboEsporte, isso pelo fato de eu declarar que esse valor é bom, está longe de ser ruim.
Pois bem, como a TV paga e principalmente os jogos pagos são a base da TV europeia e começam a ganhar espaço e força no Brasil, vou jogar com mais um dado importante em defesa dessa minha tese.
Poderia falar, por exemplo, dos “gatos” e fraudes diversas que permitem a um enorme número de brasileiros assistirem aos canais pagos, e mesmo aos jogos em ppv, sem nada pagar. Isso, assim como a pirataria, faz parte do famoso “custo Brasil”, também e, obviamente, penaliza com valores maiores do que o que seria possível aos assinantes dos canais e jogos pagos. É a mesma coisa que ocorre com seguros, por exemplo, onde somos penalizados ao fazer o seguro do carro por conta da grande quantidade de fraudes. A velha malandragem brasileira.
Vou falar, entretanto, de outro ponto: o tamanho do Brasil e o PIB por área. Para facilitar, vejam a tabela:
|
País |
Área (km2) |
PIB (US$) |
PIB/km2 M US$ |
Hab/km2 ** |
|
Reino Unido * |
244.820 |
2,800,000,000,000 |
11.4 |
243 |
|
França |
547.030 |
2,600,000,000,000 |
4.8 |
110 |
|
Brasil |
8.511.965 |
1,300,000,000,000 |
0.16 |
21 |
* Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte
** Habitantes por km2 (densidade populacional – dados de 2006)
Antes de continuarmos, um dado interessante: o Reino Unido é menor que o estado de São Paulo, que tem 248.209 km2. A França é menor que o estado de Minas Gerais, com seus 586.526 km2. Essas áreas de estados brasileiros permitem-nos uma melhor compreensão do que vem a seguir.
Confesso que não lembro de ter visto essa comparação de PIB por área, mas considero-a bastante relevante. Se pensarmos, por exemplo, numa empresa de prestação de serviços, é natural que se ela operar num país com alta densidade de riqueza por área terá menos custos para operar do que outra, similar, operando numa região com grande área e baixa riqueza por área. Isso é simples e é um dos fatores que determinam, por exemplo, o valor de um ponto comercial, nesse caso associado à concentração populacional, outro dado interessante.
A TV por assinatura é uma prestação de serviço cuja unidade padrão é a residência do assinante. Ou seja, esse serviço tem que ser levado à casa do consumidor. Ele não pega o seu carro e se desloca um quarteirão ou cem quilômetros em busca dele: ele quer e precisa receber o serviço sentado no sofazão da sala.
Porque nas grandes cidades do mundo a alimentação e demais gêneros de consumo são vendidos em centros de compra - os supermercados - cada vez maiores e gigantes? Porque, um dos pontos principais, esse tipo de comércio altamente centralizado e com grandes volumes, diminui o custo de distribuição dos bens.
Distribuição custa caro. Imaginem se não existissem supermercados… O arroz nosso de cada dia, por exemplo, teria que ser distribuído por uma frota gigantesca de caminhões e vans para uma miríade de pequenos armazéns de esquina. Haja trânsito, haja tempo, haja pessoal, haja dinheiro para pagar tudo isso.
Voltemos à TV a cabo. O serviço tem que ser levado individualmente ao consumidor. Ora, se você tem 1 milhão de consumidores em uma área de 50.000 km2, teu custo para atingir um a um será muito mais baixo do que atingir 200.000 consumidores em 1 milhão de km2. Estou usando apenas números hipotéticos, como exemplo, pois não tenho o número de lares com TV paga na Inglaterra e França. Mas esse número será igual ou próximo ao total de lares. Enquanto isso, nós recém-ultrapassamos a marca de cinco milhões de assinantes. Em todos os oito e meio milhões de quilômetros quadrados do Brasil. Agora, volte um pouco e veja as áreas da Inglaterra e do estado de São Paulo, e da França e Minas Gerais.
Usando a tabela acima, imagine a facilidade e a infraestrutura existente onde se tem uma renda anual de onze ou cinco milhões de dólares por quilômetro quadrado, comparando com outra onde a renda anual mal passa de cento e cinqüenta mil dólares na mesma área. Some a isso o fato dessa renda ser mal distribuída geograficamente - não me refiro só às grandes regiões, mas também à renda metrópoles x rural e cidades pequenas - e pessimamente distribuída entre as pessoas. Esse é um dos motivos que explicam como é possível a times franceses e ingleses receberem o que recebem e o quanto a TV brasileira acaba pagando bem aos nossos times.
Essa é uma amostra perfeita de nossa grandeza - ainda e por muito tempo meramente potencial - e de nossos problemas em muitas áreas, principalmente infraestrutura.
Quando digo que a TV brasileira paga bem pelos direitos de transmissão de nosso futebol, não o digo por escrever numa empresa Globo ou o que quer que seja. Digo isto porque é o que eu acredito ser verdadeiro. Vale dizer que, infelizemente, nunca tive oportunidade de discutir esses pontos com ninguém da GLOBOSAT. Mas os números falam por si próprios.
Como dizia meu pai, tamanho não é mesmo documento.
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