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Tamanho não é documento - mais números para entender o dinheiro da TV

sáb, 04/07/09
por Emerson Gonçalves |


Do alto de seu metro e sessenta e um, meu pai, conhecido por Baixinho, costumava dizer que tamanho não é documento. Grande verdade, vista com facilidade, por exemplo, no futebol de Romário.

Houve uma época, no início dos anos setenta, logo depois que descobrimos que petróleo e seus derivados eram coisas não só finitas como sujeitas a chuvas, trovoadas e Opeps, em que tentou-se botar nas cabeças ianques que o tamanho de seus carrões não era tudo. Foi a época em que fez sucesso o “small is beautiful”. Sucesso de boca e jamais de mercado, os SUVs que o digam, sucessores dos enormes Cadillacs.

Em economia, tamanho grande pode ser bom, mas pode ser ruim. Nada mais relativo.

Culturalmente, o enorme tamanho do Brasil parece-me mais um trambolho que uma vantagem competitiva. Um país-continente tem lá suas muitas vantagens, é bem verdade, mas tem, também, grandes desvantagens.

Estamos acostumados a conceitos como renda per capita, por exemplo. Coisa simples: pega-se o PIB - o valor total de todos os bens e serviços produzidos pelo país no período de um ano, basicamente - e divide-se pelo número de habitantes estimado para aquele ano.

Tomando por base 2008, o Brasil tem um PIB da ordem de 1,3 bilhão de dólares e uma renda per capita de 8,676 dólares. Usei esses dados no post em que comparei os direitos de TV recebidos pelos clubes na Inglaterra, França e Brasil. Vários leitores seguiram questionando o valor pago pela TV brasileira. Em alguns desses questionamentos sobrou até para mim, pelo fato deste Olhar Crônico Esportivo estar no GloboEsporte, isso pelo fato de eu declarar que esse valor é bom, está longe de ser ruim.


Pois bem, como a TV paga e principalmente os jogos pagos são a base da TV europeia e começam a ganhar espaço e força no Brasil, vou jogar com mais um dado importante em defesa dessa minha tese.

Poderia falar, por exemplo, dos “gatos” e fraudes diversas que permitem a um enorme número de brasileiros assistirem aos canais pagos, e mesmo aos jogos em ppv, sem nada pagar. Isso, assim como a pirataria, faz parte do famoso “custo Brasil”, também e, obviamente, penaliza com valores maiores do que o que seria possível aos assinantes dos canais e jogos pagos. É a mesma coisa que ocorre com seguros, por exemplo, onde somos penalizados ao fazer o seguro do carro por conta da grande quantidade de fraudes. A velha malandragem brasileira.

Vou falar, entretanto, de outro ponto: o tamanho do Brasil e o PIB por área. Para facilitar, vejam a tabela:

País

Área (km2)

PIB (US$)

PIB/km2

M US$

Hab/km2 **

Reino Unido *

244.820

2,800,000,000,000

11.4

243

França

547.030

2,600,000,000,000

4.8

110

Brasil

8.511.965

1,300,000,000,000

0.16

21

* Inglaterra, Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte

** Habitantes por km2 (densidade populacional – dados de 2006)


Antes de continuarmos, um dado interessante: o Reino Unido é menor que o estado de São Paulo, que tem 248.209 km2. A França é menor que o estado de Minas Gerais, com seus 586.526 km2. Essas áreas de estados brasileiros permitem-nos uma melhor compreensão do que vem a seguir.

Confesso que não lembro de ter visto essa comparação de PIB por área, mas considero-a bastante relevante. Se pensarmos, por exemplo, numa empresa de prestação de serviços, é natural que se ela operar num país com alta densidade de riqueza por área terá menos custos para operar do que outra, similar, operando numa região com grande área e baixa riqueza por área. Isso é simples e é um dos fatores que determinam, por exemplo, o valor de um ponto comercial, nesse caso associado à concentração populacional, outro dado interessante.

A TV por assinatura é uma prestação de serviço cuja unidade padrão é a residência do assinante. Ou seja, esse serviço tem que ser levado à casa do consumidor. Ele não pega o seu carro e se desloca um quarteirão ou cem quilômetros em busca dele: ele quer e precisa receber o serviço sentado no sofazão da sala.

Porque nas grandes cidades do mundo a alimentação e demais gêneros de consumo são vendidos em centros de compra - os supermercados - cada vez maiores e gigantes? Porque, um dos pontos principais, esse tipo de comércio altamente centralizado e com grandes volumes, diminui o custo de distribuição dos bens.

Distribuição custa caro. Imaginem se não existissem supermercados… O arroz nosso de cada dia, por exemplo, teria que ser distribuído por uma frota gigantesca de caminhões e vans para uma miríade de pequenos armazéns de esquina. Haja trânsito, haja tempo, haja pessoal, haja dinheiro para pagar tudo isso.

Voltemos à TV a cabo. O serviço tem que ser levado individualmente ao consumidor. Ora, se você tem 1 milhão de consumidores em uma área de 50.000 km2, teu custo para atingir um a um será muito mais baixo do que atingir 200.000 consumidores em 1 milhão de km2. Estou usando apenas números hipotéticos, como exemplo, pois não tenho o número de lares com TV paga na Inglaterra e França. Mas esse número será igual ou próximo ao total de lares. Enquanto isso, nós recém-ultrapassamos a marca de cinco milhões de assinantes. Em todos os oito e meio milhões de quilômetros quadrados do Brasil. Agora, volte um pouco e veja as áreas da Inglaterra e do estado de São Paulo, e da França e Minas Gerais.

Usando a tabela acima, imagine a facilidade e a infraestrutura existente onde se tem uma renda anual de onze ou cinco milhões de dólares por quilômetro quadrado, comparando com outra onde a renda anual mal passa de cento e cinqüenta mil dólares na mesma área. Some a isso o fato dessa renda ser mal distribuída geograficamente - não me refiro só às grandes regiões, mas também à renda metrópoles x rural e cidades pequenas - e pessimamente distribuída entre as pessoas. Esse é um dos motivos que explicam como é possível a times franceses e ingleses receberem o que recebem e o quanto a TV brasileira acaba pagando bem aos nossos times.


Essa é uma amostra perfeita de nossa grandeza - ainda e por muito tempo meramente potencial - e de nossos problemas em muitas áreas, principalmente infraestrutura.

Quando digo que a TV brasileira paga bem pelos direitos de transmissão de nosso futebol, não o digo por escrever numa empresa Globo ou o que quer que seja. Digo isto porque é o que eu acredito ser verdadeiro. Vale dizer que, infelizemente, nunca tive oportunidade de discutir esses pontos com ninguém da GLOBOSAT. Mas os números falam por si próprios.

Como dizia meu pai, tamanho não é mesmo documento.


Direitos de TV na França, Inglaterra e Brasil – uma comparação

qua, 01/07/09
por Emerson Gonçalves |
categoria TV

Recentemente, a LFP - Liga de Futebol Profissional Francesa - divulgou os valores referentes aos direitos de TV negociados para o triênio 2009/2010 a 2011/2012, chegando a 614 milhões de Euros por temporada. Valor equivalente hoje a cerca de 1,66 bilhão de reais, ou quatro vezes mais do que recebem os clubes da Série A brasileira.

Um pouco antes, a Premier League fechou os contratos de transmissão de TV para o mesmo triênio por 2,25 bilhões de reais por temporada, um valor astronômico sob quaisquer parâmetros, cinco vezes maior que o que recebem nossos clubes.

Diante de números dessa magnitude, é comum torcedores brasileiros ficarem espantados e sem entender o porquê de tamanha disparidade. Outros, simplesmente, optam pelo facilitário interpretativo e detonam as emissoras, acusando-as de pagar pouco pelo futebol e ganhar muito.

Por que a disparidade?

A TV brasileira paga pouco, mesmo?

Antes de entrarmos em qualquer tentativa de análise, uma coisa tem que ficar clara: na prática, a TV é mera repassadora de valores entre seus anunciantes e assinantes e os clubes. Não é “dinheiro da TV” que paga o futebol. Este é pago pelo dinheiro das empresas que compram os patrocínios das transmissões e pelos espectadores que pagam assinatura da TV de sinal fechado e, cada vez mais, compram os pacotes PPV do Campeonato Brasileiro.

A receita dos clubes com as vendas do futebol brasileiro ao exterior é, ainda, muito pequena, mas vem crescendo, principalmente nos países onde há bom número de brasileiros. Por mais que nos doa, o futebol brasileiro carece de atrativos que atraiam a massa torcedora de outras terras. E, por favor, atentem para “massa torcedora”.

Voltando à questão dos valores: não existe almoço grátis. Para que um prato de arroz e feijão, bife e batatas fritas e uma salada de alface, tomate e cebola chegue à mesa, toda uma grande legião de pessoas e empresas foi mobilizada. Desde os agricultores e criadores, até os varejistas de qualquer porte, passando pelos fornecedores e produtores de fertilizantes, sementes, combustíveis e lubrificantes, defensivos, caminhões, tratores, etc, etc, etc. Nada do que está no prato teve custo zero, muito pelo contrário.

O mesmo acontece com um campeonato de futebol. Sua realização implica em custos enormes. Um dos motivos pelos quais o Brasil só veio a ter um campeonato nacional nos anos 70, foi justamente o custo gigantesco e as dificuldades logísticas para uma equipe de São Paulo enfrentar uma de Fortaleza, uma do Recife enfrentar outra de Porto Alegre, por exemplo. Ainda hoje, uma mera viagem Rio-São Paulo custa os olhos da cara. O Brasileiro ter começado nos anos 70, no período do “milagre econômico”, não foi uma simples coincidência.

Esses custos, hoje, são repassados pura e simplesmente para a televisão. Esta, por sua vez, vai ao mercado em busca de dinheiro para bancar as transmissões. Uma empresa quer patrocinar o futebol porque tem interesse em atingir uma parcela de seus potenciais consumidores que gosta e acompanha os jogos de futebol. Para tanto, ela recebe da emissora um preço qualquer, digamos, mil moedas. Ora, a empresa diretamente e suas agências de propaganda, vão considerar se esse custo é bom ou não. Com o mesmo dinheiro eles poderão atingir as mesmas pessoas de outra forma? E com menos dinheiro? Digamos que a emissora cedeu aos desejos dos clubes e comprou os direitos de transmissão por mil moedas. Ora, ela tem um custo enorme para transmitir os jogos, precisa de uma estrutura gigantesca e cara, principalmente num país-continente como este. E há os impostos, a única coisa certa na vida além da morte. E no Brasil imposto é tão abundante quanto areia no Sahara. Mesmo assim, os clubes conseguem receber um belo valor pela transmissão de seus jogos.

Essa afirmação fica mais clara quando analisamos a tabela a seguir:

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Categoria

Brasil

França

Inglaterra

BR/FR

BR/IN

PNB – US$

1.3

2.6

2.8

50%

46%

Renda per capita – US$

8,676

48,012

45,681

18%

19%

Direitos TV – Euros

172 M

598 M

651 M

29%

26%


Dados do PNB e PPP em Trilhões de dólares; ano-base 2007.

Dados de Renda per Capita em Milhares de dólares; ano-base 2007.

Direitos de TV em Milhões de euros

Brasil – temporada 2009; câmbio considerado: R$ 2,50 por euro (à época das negociações que definiram os valores)

França – temporada 2008/2009

Inglaterra – temporada 2008/2009

Vejam que nossa renda per capita - esse é o grande indicador para definir uma sociedade - corresponde a somente 18% da francesa e 19% da inglesa. Entretanto, o valor pago aos clubes da Série A por seus direitos de TV do Brasileiro corresponde a 29% do francês e 26% do inglês. Ou seja, proporcionalmente, tomando a renda per capita como parâmetro, a TV brasileira paga mais que a inglesa e a francesa.

Claro, há outros fatores que devem ser levados em consideração, não é tão simples assim, mas, a grosso modo, é uma comparação bastante válida.

Reparem que o valor citado no início desse texto é 614 milhões de euros, enquanto o valor colocado na tabela e que serviu como comparação é de 598 milhões. Optei por esse valor pela diferença de calendário entre Europa e Brasil, e porque o valor pago no Brasil em 2009 foi negociado e acertado no segundo semestre de 2008, durante a vigência do acordo que pagava os 598 milhões aos times franceses.


O modelo francês


Nessa temporada recém-terminada, os clubes que mais receberam da Liga foram o Marseille, Lyon e Bordeux, cabendo a eles, respectivamente, 46,5 milhões de euros, 43,5 e 41,4 milhões de euros. O Saint Etienne, que menos recebeu, ficou com 24,4 milhões de euros.

Para se chegar a esses valores, a liga francesa considera o número de torcedores, a audiência de televisão de cada time e o mérito esportivo, com a colocação na Liga como base.

O grosso do dinheiro da TV na Europa vem dos jogos pagos pelos torcedores, o ppv. No Brasil, devido às características do nosso sistema de televisão, o grosso ainda vem do sinal aberto, mas o ppv vem ganhando terreno a passos largos, em especial nos últimos 3 anos - coincidindo com a melhoria de renda na classe C. O crescimento da renda das classes D e na E deu-se,  basicamente, pela distribuição da ajuda oficial.

As novas feras do futebol

qua, 01/07/09
por Emerson Gonçalves |

À guisa de explicação

Ultimamente, a chiadeira com arbitragens tem atingido um nível que começo a achar doentio. Reclamam torcedores, reclamam jornalistas e reclamam dirigentes. Estes, é bom que se diga, sempre reclamaram, sempre reclamarão. Reclamam, também, técnicos e jogadores, preparadores físicos e massagistas, gandulas e Cia. Bela.

Na base para tanto tititi, as imagens da TV. Puxadas na zoom, editadas em slow motion, dramatizadas, cortadas, separadas de seu contexto. Juízes dos tribunais diversos valem-se delas, deletando a autoridade de quem esteve em campo, ao lado da jogada.

E de volta aos dirigentes: está virando moda as imagens gravadas e editadas servirem de base para dossiês, cartas, memorandos, entrevistas, conversas ao pé de ouvidos privilegiados, etc.

O futebol começa a perder sentido. Na nova disputa que se instala, “meu time foi mais prejudicado”, vale tudo, até mesmo imagens de outras eras. Se bobearmos, logo logo veremos imagens exumadas de arquivos mortos das cinematecas.

Diante de tudo isso, claro fica que as imagens das TVs já não serão suficientes e todo time que se preza vai querer gravar e editar suas próprias imagens para acusar a arbitragem - claro que só em caso de derrota. Porque estamos chegando ao ponto de nem mesmo as imagens das emissoras serem suficientes. Cada um vai querer as próprias imagens para comprovar o quão roubado foi.

Essas, portanto, são as novas feras do futebol: o pessoal das imagens. Serão eles que definirão os resultados considerados reais por cada cartola desse Brasil varonil. Serão eles as próximas grandes estrelas do show business futebolístico no Brasil.

E haja dossiês…


Kaká?

Cristiano Ronaldo?

Ronaldo?

Ramires?

Nilmar?


Bobagem.

O futebol tem novas feras, novas estrelas, novos astros. Não são ainda conhecidos do grande público, embora suas jogadas encantem e desencantem e sejam decisivas. Esses caras são os novos caras. Um joga pra frente, exposto, correndo atrás de tudo e de todos, chegando junto e às vezes até antes. Outro fica na retaguarda, arruma aqui, arruma ali, remonta, reconstroi, aprimora e apresenta. Raramente vê a luz do sol ou dos refletores, mas suas ações são decisivas.

Um é o “Zezinho Carrapato”, cinegrafista de mão-cheia, que segundo a legislação deve ser chamado de repórter cinematográfico. Carrapato porque ele gruda e não desgruda das cenas do jogo. Aciona a zoom de sua lente poderosa e aproxima a imagem até nos sentirmos dentro dela. Se os jogadores não usassem chuteira e meião, muitas imagens permitir-nos-iam a visualização em detalhe das veias e calos dos jogadores. Zezinho tem noção perfeita de perspectiva e enquadramento. Enquadramento é tudo, não importa o quão fechada ou aberta esteja a zoom.

O outro é o “Jorginho Dedos Leves”, editor de dedos tão ágeis quanto sua mente. Tudo que o Zezinho captou, implacavelmente, ele transforma, dramatiza, aumenta às raias do infinito. Para ele, o tempo é apenas uma mera referência de trabalho, pois um mísero segundo pode ser transformado em 30 segundos. Ou eternizado num frame frizado - quero dizer, uma cena, uma imagem congelada, parada. Se nós contamos nosso tempo em horas e montes de minutos, ele conta seu tempo em frames - um frame é 1 trigésimo de segundo, ou um trinta avos. O slow motion valoriza e dramatiza qualquer cena. Na ilha de edição é a salvação do diretor, que diante de uma cena que ficou mais pobre que o previsto e visto na gravação, vira-se para o editor e comanda:

“Põe um “islouzinho” aí, dá uma valorizada, dramatiza um pouco.”

Essas são as feras do momento.

Time nenhum pode ir a campo sem que os dois, no mínimo, estejam concentrados, de preferência escalados como titulares.

Depois, caso o esquadrão perca, basta recorrer às imagens e detonar a arbitragem. Nenhum time mais será derrotado pelo adversário, todas as derrotas terão o árbitro como responsável. Teremos um futebol só de vencedores: metade favorecida, metade garfada.

Todavia, estimadíssima leitora, estimadíssimo leitor, não ouse mudar de lado da mesa, pois você terá a mesma situação com sinal invertido.

Espantoso, não?

Todo cartola esperto - epa, isso é uma redundância; todo cartola é esperto, mesmo porque ele teve que ser mais esperto que enorme bando de pretendentes ao mesmo cargo; quem conhece um clube, qualquer clube, sabe bem a que humilhações e absurdos se submetem provectos e respeitáveis senhores, em troca do cargo de vice-diretor de pebolim e da carteirinha correspondente, que vai dar-lhe o direito de diferenciar-se dos mortais comuns e ganhar uma vaguinha pro possante lá no fundão do estacionamento - dos dias de hoje, vale dizer, todo cartola, já tem em seu planejamento de contratações imediatas uma boa dupla de cinegrafista e editor.

Sua planilha de custos prevê atrasos de salários, mas não comporta, nem por brincadeira, um atrasinho sequer no pagamento do equipamento de vídeo e edição.

Porque este é o futuro próximo, abrir mão das imagens das emissoras e gerar e editar as próprias imagens.

Finalizando, repetirei uma frase que deve ser lida e pensada com mais cuidado e vagar do que da primeira vez:

Estimadíssima leitora, estimadíssimo leitor, não ouse mudar de lado da mesa, pois você terá a mesma situação com sinal invertido.


Observação: “Zezinho Carrapato” e “Jorginho Dedos Leves” são nomes fictícios e uma pequena homenagem aos excepcionais profissionais com quem tive e tenho a honra e o prazer em trabalhar.


Campeonato de 4 turnos + 2

seg, 29/06/09
por Emerson Gonçalves |

Oficialmente o Campeonato Brasileiro da Série A tem dois turnos, apenas. Na vida real, entretanto, temos quatro turnos, com alguns deles ocorrendo simultaneamente em boa parte de suas durações. Vejamos, então, quais são esses turnos.

Turnos oficiais: primeiro e segundo, de acordo com a tabela e diretrizes da CBF, organizadora da competição. Na prática, significam apenas a mudança de mando.

Vamos, agora, aos que chamo de “Turnos reais”, com características próprias e bem distintas. São eles:

1º turno: 9 de maio a 8 de julho                       Fase “das Copas”

2º turno: 1º de julho a 31 de agosto                 Fase “Janela de Verão”

3º turno: 11 de julho a 23 de agosto                Fase “Jogos Sem Descanso”

4º turno: 29 de agosto a 6 de dezembro           Fase “Reta Final”


1º Turno ou turno da Libertadores e Copa do Brasil

9 de maio a 8 de julho

Esse é um turno complicado para as principais equipes brasileiras, já que, em tese, todas elas estão nas fases eliminatórias das copas Libertadores e do Brasil.

Treinadores e dirigentes priorizam as copas e as rodadas iniciais do Brasileiro são disputadas com formações quase totalmente reservas ou perto disso. Não bastasse isso, é muito provável e natural que os próprios jogadores se poupem mais que o normal nos jogos pelo Brasileiro, já que terão até dezembro para compensar as perdas iniciais (sim, essa crença existe no consciente de alguns e, o que é pior, no inconsciente de todos), ao passo que os jogos das copas são eliminatórios.

Em tese, esse período deveria ser aproveitado ao máximo por equipes que tendem a ficar no meio da tabela e podem, na ausência dos maiores favoritos e maiores pedreiras, acumularem alguns pontos preciosos.

Na outra vertente, a dos favoritos, embora nenhuma equipe brasileira tenha elenco para as duas disputas simultâneas, uma campanha de razoável para boa nessa fase pode fazer a diferença no final. Em 2008, por exemplo, apesar de ter time para ser campeão brasileiro, o Fluminense arrastou-se por meses na zona de rebaixamento, fruto de uma opção radical de sua direção, que deu prioridade total à Libertadores.


2º Turno ou turno da “Janela de Verão”

1º de julho a 31 de agosto


Embora ainda não aparente, esse turno já começou há algum tempo e se sobrepõe com o Turno das Copas. Mesmo que em escala muito menor que nos anos anteriores, os bastidores andam agitados com promessas menos ou mais concretas de transferências.

Nesse 2009 há um dado novo a considerar: o possível retorno de jogadores atuando na Europa, já com um retorno muito significativo: Maxi Lopes, no Grêmio. Ronaldo, Fred e Adriano também voltaram e também por influência da crise econômico-financeira. Mas, no caso deles, somente em parte, já que fatores outros, principalmente de foro íntimo ou médico, foram mais decisivos.

Nesse momento, a poucos dias da abertura oficial da janela de transferências, o Palmeiras já perdeu Keirrison e, na esteira, em movimento benéfico às finanças do clube, também perdeu seu treinador. Uma das surpresas dessa temporada, o Barueri, está perdendo seu artilheiro Pedrão, que também é um dos artilheiros da competição, para o futebol árabe. Há vários outros casos em andamento e há muitos jogadores rendendo abaixo do que poderiam e deveriam, já que suas cabeças andam por terras e times d’Europa.



3º Turno ou turno dos jogos seguidos, sem descanso

11 de julho a 23 de agosto

Fase complicada, que em 2009 está bem menor que em 2008 e 2007, por exemplo. Acredito que isso ocorreu devido, em boa parte, às reclamações consistentes de Luxemburgo e Muricy, os dois desempregados mais famosos do Brasil, pelo menos até o momento em que digito esse texto, nessa manhã gelada de 2ª-feira.

Há quem diga ser isso frescura e já saca o exemplo dos europeus, que jogam duas vezes por semana, também. Ora, já disse mil vezes e estou certo que direi muito mais ainda: os vôos europeus são, na maioria dos casos, muito curtos. E salvo em dias de nevascas monstruosas, não há caos aéreo e os aviões partem e chegam razoavelmente dentro de seus horários.

Por aqui é um pouco diferente. Mesmo uma viagem curta, como São Paulo/Goiânia, por exemplo, implica em um dia perdido, sem treinamento. Isto porque a delegação tem que chegar ao aeroporto pelo menos 60 minutos antes do embarque teórico. Para grandes grupos, há sempre a recomendação de chegar ainda antes. Digamos, então, que a delegação sai do clube por volta de 9:00, chegando ao aeroporto por volta de 9:40 para um voo marcado para decolar às 11:30. Como é praxe, num dia de sorte a decolagem ocorrerá por volta de 12:00 e a chegada em Goiânia será às 13:00, o que colocará a delegação no hotel ao redor de 13:45 ou 14:00. Alguns minutos para o pessoal se preparar e almoço. Nesse dia de sorte, o treinador conseguirá um treininho básico, mais para desintoxicar e alongar, no final da tarde. Normalmente, porém, isso não ocorre e a atividade física limita-se a uma leve movimentação, nada mais. A história se repete toda semana, e quando não há viagem sobra tempo para um único treino de fato.

Essa é, também, a fase dos cartões bobos e das suspensões seguidas, que se somam às contusões em maior número. Os jogadores já vêm “carregados” e, atuando no limite do preparo físico, tendem a cometer mais erros e mais faltas. Pelo mesmo motivo, contundem-se mais e os desfalques são muitos e frequentes, complicando a vida dos “professores”.

Essa é a fase em que ter um grande elenco faz toda a diferença.



4º Turno ou turno da Reta Final

29 de agosto a 6 de dezembro


Aqui o bicho pega de vez e os favoritos, de fato, tomam a frente. Os jogos são semanais, quase todos, a janela de verão já acabou e a de inverno anda meio distante. As cabecinhas coroadas podem, assim, concentrar-se somente na competição. De maneira geral, os times chegam mais ou menos inteiros fisicamente e o diferencial maior passa a ser o preparo físico depois de cinco e seis meses de competição, e a “cabeça”, o famoso “lado psicológico”. Se o treinador não consegue empolgar o time, pode-se perceber um certo cansaço de ordem mental, em especial para quem tem chances remotas ou nulas de título e não está ameaçado pela degola do rebaixamento. Essa “turma da marola” às vezes desequilibra o campeonato, fazendo ora grandes partidas contra favoritos, ora partidas abaixo da crítica, influindo no título e no rebaixamento.



Gestão e Planejamento


O ano futebolístico tem onze meses, dos quais nada menos que sete são tomados diretamente pela disputa do Brasileiro.

Os três pontos de uma vitória na primeira rodada valem exatamente a mesma coisa que três pontos na última rodada. Essa conta é pior para os pontos que não foram conquistados. No fim, quando a vaca já está no brejo, atolada, olha-se para trás e lamenta-se pelos pontos que não foram conquistados lá no comecinho… Mas aí é tarde, pois Inês é morta e o leite derramado escoou-se.

Mais da metade dos participantes tem ainda que considerar as disputas simultâneas com as copas continentais e do Brasil, cada qual com suas próprias demandas e importância.

Outro complicador: o 1º e o 2º turno encavalam, assim como o 2º e o 3º, gerando mais dores de cabeça para treinadores e gestores.

Fica claro, portanto, que a disputa de um bom Brasileiro depende de um bom time e coisa e tal, mas não há como existir bom time, ou um bom time manter-se como tal, sem um rigoroso planejamento que deve começar muito antes do campeonato, e sem uma gestão profissional das coisas do futebol e, naturalmente, do próprio clube.

Um dos pecados mortais, de todos o mais mortal, é atrasar salários. E é bom manter essa palavra no plural, pois a renda de um boleiro hoje é composta pelo tradicional salário e pelos       “direitos de imagem”. Logo, nem um, nem outro, podem ser pagos com atraso, embora seja mais ou menos praxe os dirigentes relegarem os direitos de imagem para um plano secundário. Juridicamente tem lá sua razão de ser, mas na prática é tão daninho no campo esportivo quanto o atraso do salário propriamente dito. Outra: bicho prometido tem que ser pago. Se alguém me pedisse para definir gestão do futebol com uma só frase e uma só ação, eu diria sem pestanejar:

Gestão boa é pagar em dia.

O resto é perfumaria.

Pagamentos em dia dependem, também, do famoso planejamento. O clube não pode ficar sem renda de patrocínio, por exemplo. Negociações devem começar muito antes do término de um contrato. Nem sempre se consegue repor um patrocínio no momento em que termina o que está em vigência, mas deve ser tentado. É o correto.

Isso tudo é somente uma pincelada no que é e no que ocorre num Brasileiro, um campeonato que, definitivamente, não é para amadores.


Uma queda há muito desejada

sáb, 27/06/09
por Emerson Gonçalves |


Vanderlei Luxemburgo caiu. Oficialmente, como ele próprio anunciou em primeira mão e com absoluta exclusividade em seu blog, por “quebrar a hierarquia” do clube, ao barrar Keirrison por conta da transferência em negociação para o Barcelona.

Verdade seja dita, porém, essa é uma queda há muito anunciada e desejada pela direção palmeirense.

Desejo que crescia às raias do insuportável todo mês, quando o pessoal do financeiro mandava a mais recente posição de caixa do clube.

Informações mais recentes dos bastidores palestrinos, dão conta que a conta de Luxemburgo chegava a 1,3 milhão de reais por mês, dos quais 700 mil para o treinador e o restante para sua comissão técnica. Entre essas informações e os desmentidos singelos, estou mais inclinado a acreditar nas informações, e não somente eu.

O clube já não conseguia bancar essa conta sozinho há muitos meses e a Traffic pagava parte dos valores, sendo reembolsada com participações em jogadores da base palmeirense. Uma rematada loucura, simplesmente.

Por falar na agência de negócios de jogadores, já consta no mercado que J. Hawilla irritou-se profundamente com a mesma “quebra de hierarquia”. Não gostou de ver o treinador em quem apostou pesado barrar Keirrison e não trazer resultados significativos com o monte de jogadores colocados à sua disposição pelo dinheiro da agência. Tem lógica, eis uma informação de bastidores à qual dou pleno crédito.

Tenho para mim que o próprio treinador optou pela saída, ao “quebrar a hierarquia” do clube, dando ao presidente Belluzzo o pretexto que faltava para a demissão. Sim, porque, dirigente moderno e incensado por todos, o Professor Luiz Gonzaga Belluzzo não poderia dar o braço a torcer e demitir o treinador por uma mera eliminação de Libertadores, como fez seu colega Juvenal Juvêncio com Muricy Ramalho, cedendo às pressões de diretores tão intolerantes quanto míopes, e também não poderia demiti-lo por pura e simples contenção de despesas, aumentando ainda mais suas áreas de atrito com diversas correntes e pessoas dentro do clube. Dessa forma, com a “hierarquia quebrada”, foi feita a foto e, surpresa, todos estão muito bem nela.


Dois treinadores top caíram e estão à solta no mercado: Muricy e Luxemburgo. Certamente, deve ter subido o consumo de ansiolíticos e calmantes diversos, nem que seja o prosaico chá de camomila, em muitos lares de norte a sul desse Brasil varonil. Com essas feras no mercado, cartolas os mais diversos ganharam poderosos argumentos em suas conversas com os “professores” sob contrato - “dá um jeito nisso tudo aí ou a gente vai procurar alternativas no mercado”…

A primeira indagação que todos se fazem é a mais obvia: quem vai para o lugar de Luxemburgo? Também obviamente, o nome de Muricy é o mais comentado e até o fato de familiares do ex-treinador são-paulino serem palmeirenses é apontado como indício favorável.

Como o desenlace deu-se há poucas horas, ainda é muito cedo para alguma novidade, a menos que Belluzzo já tenha um nome em vista e corra a contratá-lo, como fez Juvenal Juvêncio com Ricardo Gomes, um treinador simpático e elegante, tal como o São Paulo gostaria que fosse sua imagem, mas está longe de ser no momento. Se usar a cabeça, o presidente da Sociedade Esportiva Palmeiras pensará, conversará, ponderará com calma antes da escolha definitiva. Tudo que seu colega e vizinho de muro de CT não fez.

E o primeiro turno real nem terminou ainda, faltam pouco menos de três semanas para isso, o que é assunto para o próximo post, se nada de extraordinário acontecer antes.


Racismo ou frescura?

qui, 25/06/09
por Emerson Gonçalves |
categoria Comportamento



Estava no Morumbi na noite em que Grafite - personagem da semana no Boletim FIFA - acusou Desábato de racismo e acompanhei parte da pantomima mais ou menos próximo. O que muitos esquecem é que o próprio jogador nem estava muito interessado em levar o caso adiante, até que foi atropelado por um delegado de polícia, que assistia ao jogo em sua casa e se disse indignado com o episódio e com a ofensa racial de que o atleta do São Paulo fora vítima. No momento em que o tal delegado tirou o traseiro do sofazão de sua casa, começou a função.

Por função entenda-se, como antigamente, espetáculo circense.

Passado algum tempo, Grafite disse estar arrependido da confusão criada. Desábato, depois de uma noite em delegacia paulistana, seguiu sua vida sem maiores dores de cabeça e, certamente, nenhuma de consciência, pois nunca houve motivo para tal.


Não sei e ninguém sabe se Maxi Lopes ofendeu Elicarlos racialmente ou não. Tudo que sei é que no calor do jogo fala-se tudo e qualquer coisa que vem à língua. Diria que a adrenalina cria um canal de comunicação direta entre o fígado e a fala, não passando pelo cérebro e seus centros de controle.

Nunca vou esquecer um jogo em que do outro lado estava um de meus primos de quem sempre gostei muito, éramos como irmãos e nossas mães estavam mais para mães, de fato, do que para tias um do outro. Mesmo assim, pegamo-nos a nos chamar de filho disso e daquilo em altos brados, quase chegando às famosas e antigas vias de fato, não fosse a não menos famosa e antiga turma do deixa-disso. Um pequeno detalhe: o outro lado a que me refiro não era o time adversário, e sim o outro lado do campo. Estávamos, pasmem, no mesmo time.

Tenho certeza que todos já passaram por isso.

Quem joga bola passa por isto todo jogo, praticamente.

Por isso mesmo, sempre relevei o que era dito dentro do campo.

É como nos seriados americanos quando os protagonistas vão para o México: o que se faz no México, fica no México.

O que se fala em campo, fica no campo.

Se porventura Maxi chamou Elicarlos de macaco, há um fator atenuante, embora dele ninguém goste: é comum, ou pelo menos era, que argentinos da Província de Buenos Aires, porteños, principalmente, refiram-se a nosotros como macaquitos, independentemente de sermos loiros de olhos azuis ou pretos de olhos castanhos. Houve tempo que isso me deixava irritado, revoltado, pronto a escrever milhões de palavras contra isso.

Hoje relevo.

Aprendi com Luiz Inácio Lula da Silva que há racismo e racismo.

Explico melhor: na visão presidencial o racismo é uma coisa relativa. Assim, quando ele se refere aos “loiros de olhos azuis” como responsáveis pela crise atual, não é racismo, não é uma visão preconceituosa, é apenas uma forma divertida e didática de apontar quem ele considera culpados.

Ora, como o presidente da república costuma ser a autoridade máxima de um país e sua palavra é lei ou algo próximo disso, aprendi que há racismo e racismo, e sua aplicação fica ao gosto do freguês.

Essa questão é séria e deveria ser melhor discutida pela sociedade brasileira. Esse tratamento que estou dando ao tema é jocoso, sem dúvida, mas não significa que não o considere importante. Só que palavras proferidas dentro do campo devem ficar dentro do campo. Se alguém for levar a sério tudo que um zagueiro fala para um atacante, por exemplo, centenas de processos por calúnias e ofensas morais teriam que ser abertos a cada rodada de um campeonato.

Não pretendia escrever a respeito desse episódio, mas mudei de ideia ao ler as declarações de Alex, o meia do Fenerbahce, desejado por onze em cada dez clubes brasileiros, herói da tríplice coroa cruzeirense e ídolo eterno da torcida do Cruzeiro, e concordo plenamente com tudo que ele disse:

“-Para mim, isso é frescura. É algo que acontece o tempo todo dentro de campo. É totalmente normal. Não entendo como algo fora do comum… Aconteceu comigo várias vezes. E já fiz também. Eu não denunciaria.”


(Clique aqui para a matéria completa.)


Alerta: comentários mal-educados, além dos ofensivos e agressivos, serão sumariamente deletados.



Post Scriptum


Agradeço a enxurrada de comentários, tanto os que foram favoráveis como os que foram contrários.

Como de hábito, uma enorme quantidade teve que ser deletada, dessa vez não só por ofensas as mais baixas e grotescas, como também por racismo e preconceito extremados. Nada mais interessante do que um pretenso defensor da igualdade, etc e tal, atacar de maneira violenta e virulenta outras pessoas, seja por divergência de opinião, seja por diferença de nacionalidade.

Respeito as manifestações críticas, mas educadas e ponderadas, de uma parcela dos leitores, e a esses respondo que não mudo uma única vírgula no que escrevi. Se fosse o caso, por sinal, minha tendência seria considerar tudo isso como uma armação tosca da direção do clube.

É-me indiferente que um time ou outro passe para a final, são ambos muito bons, com características e estilos bem diferentes. Para ser honesto, confesso-me um torcedor pessoal do jogador Souza, de quem gosto muito e admiro, o que não significa que torcerei pelo Grêmio.


Obviamente, não sou conhecido e nem tenho pretensão a sê-lo, mas tenho minha própria história no que diz respeito à defesa dos direitos humanos, à luta contra o racismo e preconceitos de todo tipo. Como muitos, a maioria de forma idiota e ofensiva, citaram minha família, digo, sem necessidade, mas com orgulho, que ao contrário do ex-presidente Fernando Henrique que disse ter “um pé na cozinha”, eu não tenho. Eu tenho um único pé fora da cozinha, pois todo o resto esteve nas cozinhas e outras partes das casas de outrora. Minha família paterna é toda de Minas Gerais, por onde tenho parentes em diversas partes, desde os sertões do oeste até as montanhas da Mantiqueira. Sim, com muito sangue negro, evidentemente, e sangue indígena de minha bisavó e outros ancestrais mais distantes. Na outra vertente, o sangue caboclo do interior paulista unido ao sangue calabrês de imigrantes miseráveis, expulsos pela fome e falta de trabalho da Itália dos fins do século XIX e começo do século XX.


Aos “juristas”-comentaristas, recomendo um reestudo da legislação. Poderão ver que o suposto crime cometido por Maxi Lopes foi uma injúria e, por sinal, assim foi tipificado pela delegada que tratou do caso.


No mais, senhoras e senhores, blog é produto pessoal e o meu é absolutamente pessoal. Aqui eu expresso a minha opinião, “duela a quien duela”, como disse outro memorável presidente de Pindorama. Lutei nos anos 70 pelo direito de manifestar-me livremente e dele não abro mão, é direito conquistado, do qual toda a sociedade hoje usufrui sem barreiras, inclusive os idiotas que confundem crítica com ofensa.


Por último, mas não menos importante, procurem ler mais.

Sugiro Machado de Assis, o melhor escritor em língua portuguesa do lado de cá do Atlântico.

A leitura e compreensão do texto rico e genial facilitará em muito a leitura de pequenos e pobres textos de blogueiros desconhecidos.


Aaatchimmm! Saúde…

qua, 24/06/09
por Emerson Gonçalves |


O Ministro da Saúde do Brasil, oficialmente nossa maior autoridade médica, recomenda às pessoas com mais de 60 anos, ou com baixa imunidade e crianças até dois anos, que evitem viajar agora para o Chile e para a Argentina, devido à gripe H1N1, ou “suína”, que está atacando nos dois países, com um bom número de pessoas atingidas.

Mas…

Caso o argentino Estudiantes passe pelo uruguaio Nacional, os jogadores de Cruzeiro ou Grêmio (aviso aos radicais de botequim: os dois nomes foram colocados em ordem alfabética) deverão viajar para Buenos Aires?

Isto, é claro, no caso de até uma semana antes do possível jogo na Argentina - dia 2 de julho, a somente 8 dias, portanto, já que o primeiro jogo pela final deve acontecer a 9 de julho e, caso dê Estudiantes, será na Argentina - a situação não ter saído desse sinal de perigo. Mesmo porque, se não evoluir positivamente, rapidamente essa restrição será estendida a toda e qualquer pessoa.

Vivemos recentemente a mesma situação pelas oitavas-de-final, e tanto o São Paulo como o Nacional não foram para o México, onde teriam seus primeiros compromissos. Na época, houve quem, de forma completamente equivocada e divorciada da realidade, criticasse a CONMEBOL e até mesmo os dois clubes. Agora, temos a possibilidade da mesma situação pela frente e simplesmente para a final da Copa Santander Libertadores.

Pode parecer prematuro, mas seria conveniente que a CONMEBOL e as federações nacionais dos três países envolvidos já estivessem discutindo alternativas. O mais provável, felizmente, é que o surto argentino atinja seu auge e diminua, deixando de oferecer riscos, permitindo que um dos jogos de uma possível final com o Estudiantes seja realizado sem maiores contratempos. Todavia, autoridades, sejam elas quais forem, não podem basear-se em “provavelmente” ou conjeturas outras. Precisam ter alternativas prontas, principalmente em casos que envolvem segurança ou a saúde das pessoas.

Se o ministro brasileiro não recomenda a ida de turistas, pensemos nos atletas. Não se trata de nada tão dramático como risco de vida (embora essa gripe tenha provocado razoável número de óbitos), mas sim de algo mais prosaico: submetidos a uma situação de contágio e regressando ao país de origem, é muito provável que as autoridades médicas ordenem um período de quarentena para todos. Se isso já é tenebroso para um turista que volta de férias, o que dizer de um atleta profissional, envolvido em competições importantes, uma delas em sua final? Muito pior: tal medida não afetará um atleta, mas toda uma delegação.

E então?

Seria justo suspender todas as competições até que a quarentena terminasse? Eis uma boa questão a ser discutida.

Nesse caso, porém, o que fazer com o calendário - apertadíssimo - do ano?

Para que continuemos tão longe dessas questões como estamos hoje, é conveniente que a discussão entre os responsáveis tenha lugar agora. Entretanto, apesar dos riscos potenciais, não se vê nenhuma movimentação dessas autoridades. Vão esperar pelo pior para correr atrás e chegar a uma decisão tão estapafúrdia como a que foi adotada em relação aos times mexicanos?


Rir é o melhor remédio

ter, 23/06/09
por Emerson Gonçalves |


Quando criança e adolescente, apesar de não recomendável ideologicamente (mais uma velha tolice), era leitor de Seleções. Como não poderia deixar de ser, não perdia a seção “Rir é o melhor remédio”. Sempre acreditei nisto. Rir é muito mais gostoso e relaxante do que, por exemplo, xingar. A risada fere mais que o calão, muito mais. E por aí vai. Além disso tudo, o riso é pacífico.

No futebol não pode ser diferente. Tudo bem, o futebol traz a dor da derrota, muitas vezes acompanhada pelo choro. É saudável em qualquer idade, não há contra-indicações. O choro demonstra que estamos vivos, que temos sentimentos, que temos uma alma.

Não vou perder tempo e humor falando de outras reações que, dizem, o pobre do futebol tem provocado.

A outra reação que nos dá o futebol, fora o prazer das vitórias e das conquistas, é o riso pela derrota alheia. Ah, isso é bom demais! De quem ri dos outros eu só costumo pedir uma coisa: que aceite com bom humor quando for o alvo das risadas.

É o que sobra hoje para a torcida são-paulina.

Ainda não sei quem criou essa tirada ótima, mas está de parabéns.

Depois das camisetas 4-3-3, 5-3-3 e 6-3-3, essa 4-3-2-1 é uma resposta no melhor estilo do humor brasileiro. Inteligente, ferina, muito bem-humorada, não há como não gostar dela. Mesmo os são-paulinos que não estão com a cabeça muito quente hão de reconhecer que é um chiste (ops…) bem bolado.

Dizem, e eu acredito, que quem não é capaz de rir de si próprio não consegue rir da vida e para a vida.

Post  Scriptum


A criação é da Yule Bisseto e do Ricardo Taves. A Yule é a titular do blog do torcedor corintiano, aqui no portal GloboEsporte.

Parabéns a ambos e agora aguentem o Daniel Perrone, titular do blog do torcedor são-paulino, e suas respostas.

A criatividade está em alta e bem humorada.

Entendendo (em parte) porque o futebol europeu vai bem

ter, 23/06/09
por Emerson Gonçalves |


Dizem as cartilhas e os manuais de como sobreviver em tempos difíceis que a primeira providência é cortar todo gasto supérfluo.

Certo?

Não sei, já tenho dúvidas, não sobre esse princípio, mas sobre o que é supérfluo.

O esporte, por exemplo, e mais especificamente o futebol, e o futebol pela TV, sobretudo, é gasto supérfluo?

Por considerar que sim, quando estourou essa crise em setembro e outubro, ainda em seus primórdios, imaginei que o futebol europeu seria bastante afetado por ela. Sim, porque não é necessário ser um gênio financeiro para saber que a uma crise, ainda mais com a proporção que a dita cuja tomaria, segue-se desemprego, cortes nos investimentos, redução de consumo e outras milongas mais.

Olhando o quadro europeu, em especial a zona do euro, tudo isso anda acontecendo em maior ou menor grau. Ou quase tudo que previ, pois o futebol vai bem, obrigado. Para minha surpresa e não somente minha. Na abertura do “Football Money League 2009″, a Deloitte destaca justamente “a natureza única da indústria do futebol, apoiada por torcedores leais e suportada por contratos de longa duração de direitos de TV e patrocínios”, permitirá aos clubes resistirem melhor à crise que outras empresas, passando por ela com poucas perdas.

Minhas previsões, portanto, revelaram-se furadas, em parte. Há ainda um bocado de água por rolar, mas a menos que algum acidente de percurso mais grave apareça, a tendência é a que foi colocada pela Deloitte, dos clubes não serem muito afetados.

Ainda nessa linha, um possível dano que na minha fértil imaginação dada a cenários catastróficos poderia desencadear um efeito dominó, foi sanado ontem: a Setanta foi comprada pelo Grupo Disney - leia-se ESPN. Ou melhor, para ser mais exato, a Setanta vendeu à ESPN seus direitos de transmissão de 46 jogos da Premier League na próxima temporada por 90 milhões de libras. Praticamente, dois milhões de libras por jogo. Isso, numa moeda mais próxima de nossa compreensão, significa 105 milhões de euros, 2 3 milhões de euros por partida. O pagamento total de direitos de TV para 20 clubes da Série A, no Brasil, gira nesse ano não chega a 170 milhões de euros. O pacote da Setanta era o menor dos que foram negociados para a próxima temporada da Premier League. Por aí, pode-se ter uma ideia da dimensão e valor de cada mercado.

A venda chegou em excelente momento para a Setanta, uma das maiores operadoras na área de transmissão de eventos ppv, que atravessa dificuldades financeiras e não estava conseguindo honrar seus pagamentos com a Premier League. Para o Grupo Disney foi um grande negócio e discute-se, inclusive, a possibilidade de um novo canal que faria companhia à ESPN International e à ESPN America, voltado para o futebol europeu. Dessa forma, não só os danos foram evitados como, ainda por cima, teremos uma alavancagem na importância da Premier League.


Resultados da pesquisa Sport+Markt


Essa é mais uma pesquisa da qual só recebemos highlights, mas que são, por si só, bastante reveladores. A Sport+Markt fez uma pesquisa no Reino Unido e Alemanha sobre a crise e seus efeitos e reflexos nos consumidores dos dois países. A grande maioria, embora demonstrando preocupação com a situação, declarou que pretende manter suas despesas com esportes de maneira geral.

De acordo com o estudo, 60% dos alemães e 63% dos habitantes do Reino Unido descrevem a situação como “preocupante”. Apesar disso, somente 28% dos alemães e 35% dos britânicos descrevem sua própria situação como “negativa”.

Entrando na área esportiva, apenas 17% dos alemães tencionam gastar menos com eventos esportivos no futuro, para economizar dinheiro, e 19% deles planejam assistir mais TV ao invés de ir aos estádios.

Na Grã Bretanha a situação no que diz respeito a ir aos estádios é pior: 34% declararam que vão comprar e ir a menos eventos esportivos, devido à crise econômica.

Vale lembrar, como este Olhar Crônico Esportivo relatou, que há alguns meses, pela primeira vez na história, a despesa média do inglês com o matchday rompeu a barreira de 100 libras, algo como quase 120 euros, pouco mais de 320 reais. Para analistas locais, esse valor poderia ter efeito negativo sobre as receitas com matchday da Premier League. Só teremos uma boa ideia a respeito a partir do início efetivo da temporada. Esses percentuais, entretanto, não chegam a ser intimidadores, principalmente pelo fato de se referirem a despesas que têm pouco impacto para patrocinadores e por não afetar o que realmente pesa na balança: os direitos e as transmissões de TV. É até meio óbvio que a uma redução na presença nos estádios, corresponda um aumento nos sofás em frente aos televisores, mesmo tendo que pagar para ver.

Outros setores, porém, não tiveram a mesma boa vontade e os consumidores pesquisados revelaram intenções de corte no consumo de eletrônicos diversos, telefonia e computação, mantendo sem cortes outras atividades ligadas aos esportes, tanto como espectador como na condição de praticante.

Outras pesquisas e levantamentos como este, certamente, já foram ou estão sendo produzidos, apontando às empresas a conveniência de manter os investimentos nos clubes e torneios.

Voltando à questão inicial, gastar com esporte e, principalmente, pagar para ver um jogo de futebol é supérfluo?

Eis um tema que merece mais análise, pois, aparentemente, deixou de ser descartável para ser essencial. Com certeza, é uma posição que tem muito a ver com a vida nas grandes e médias cidades, com poucas opções de lazer, todas elas implicando em despesas de algum vulto. Já um jogo pela TV vira lazer por si só e se acompanhado (para quem gosta) por umas latinhas de cerveja e mais a família ou amigos, está fechado o círculo.

Estamos percebendo o mesmo movimento aqui no Brasil.

É o futuro chegando.


Uma crise com cenários contraditórios

dom, 21/06/09
por Emerson Gonçalves |


Às vezes até parece que não, mas há uma crise em curso e ela é séria.

Nesse ano, uma em cada seis pessoas no planeta viverá com fome, sem comida bastante para manter-se alimentada e relativamente nutrida. Isso significará um número superior a 1 bilhão de seres humanos.


Um bilhão.

Criança sendo atendida por um membro da organização Médicos Sem Fronteiras

Criança sendo atendida por um membro da organização Médicos Sem Fronteiras

Pela primeira vez, a fome crônica em tempo de paz ultrapassará a casa do bilhão de pessoas, iguais a nós. Para chegar a esse número, que de tão gigantesco nada desperta, exceto curiosidade, 100 milhões de pessoas estão engrossando o grupo dos sem comida. A culpa, segundo a FAO, é da crise econômico-financeira que, como de hábito, será muito mais terrível para os deserdados de sempre.

Enquanto isso, o mundo do futebol europeu continua navegando em grandes números, também, mas não de falta de comida e sim de abundância de euros. Parece envolto por uma bolha, inatingível pelas agruras das pessoas e das empresas.

Numa semana dominada por Florentino Peres, Cristiano Ronaldo, Kaká e os muitos milhões de euros envolvendo suas transferências, algumas informações passam batidas, despercebidas. O que não passou despercebido, contudo, foi a declaração do primeiro-ministro espanhol, Jose Luiz Zapatero, que criticou os valores envolvidos nas transferências, particularmente a de Cristiano. Faz sentido ele sentir-se chocado e dizer que não gostou do fato, afinal, por esses dias a Espanha está vivendo o drama de ver 1 em cada 6 adultos desempregados crescer para 1 em cada 5 adultos. Sem falar nas dívidas gigantescas dos clubes, o próprio Madrid, inclusive.

Na sequência, Elena Salgado, ministra da Economia espanhola, fez uma crítica e um alerta aos bancos que se envolveram na transação dos dois jogadores, motivando declaração do presidente do Santander a respeito da anunciada participação do banco no negócio - ver post a respeito neste Olhar Crônico Esportivo em 16 de junho: “Como comprar Kaká e Cristiano”. Ele negou sem negar, em típico negaceio financeiro, finalizando com a declaração que o banco não comenta ou divulga os negócios feitos com seus clientes.

Faz parte do espetáculo, mas ficou o sinal amarelo das duas maiores autoridades na área financeira do país: o primeiro-ministro e a sua responsável pela condução da área econômica.

Ainda nesses dias florentinos, a Sony Computer Entertainment Europe (SCEE) anunciou a renovação do patrocínio do Play Station para a UEFA Champions League, por três temporadas - 2009 a 2012 - juntando-se ao time de patrocinadores que já renovaram para o mesmo período: Heineken, UniCredit, MasterCard e a própria Sony Corporation.

Enfim, dados contraditórios, com euforia de um lado e temor, desemprego e crise do outro. Como pode, então, o futebol seguir tão tranquilo e endinheirado?

Parte da resposta a esta pergunta pode ser encontrada em pesquisa realizada pela Sport+Markt, sobre a qual falarei a seguir.




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