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Internet, Oswald fake, pesquisas fakes…

ter, 09/02/10
por Emerson Gonçalves |

Se me pedissem hoje uma lista com as melhores coisas tornadas possíveis pela tecnologia, pelo progresso, de cara, sem pensar, eu alinharia três: internet, anestesia para tratar os dentes e um certo refrigerante com zero açúcar. Ah, também colocaria a TV por assinatura e o PPV, que me permitem ver tantos jogos ao ponto de não conseguir ver tantos jogos.

A internet é mesmo uma coisa maravilhosa e digo isso de boca cheia. Afinal, ela começou a ser usada de verdade e eu mesmo tive meu primeiro acesso doméstico já com mais de trinta anos de idade. Hoje, nem lembro mais como era a vida pré-internet. Não vou falar dos benefícios e de tudo que a rede mundial de computadores nos proporciona. Tampouco falarei das maldades que ela dissemina para quem já tem a maldade em mente. Vou falar de uma bobagem, uma brincadeira tola de quem não tem o que fazer ou de quem quer confundir e enganar outras pessoas.

Ontem, entre surpreso e indignado, li a matéria do portal GloboEsporte.com relatando ter sido vítima de um falso Oswald de Souza, pela rede de relacionamento twitter. Para quem ainda não leu, recomendo a leitura, basta clicar ali ou aqui.

Quem criou essa rede fake trabalhou direitinho, a ponto de enganar profissionais tarimbados de um grande veículo de comunicação. Essas informações falsas, porém, estão disseminadas. Além dos já famosos textos do Verissimo, do Vinicius, do , alguns até muito bem escritos, tivemos aqui mesmo neste Olhar Crônico Esportivo algumas pesquisas fakes. Ou, como prefiro dizer, tão reais quanto notas de treze e de sete reais, seguidas por uma tabela manipulada de clubes devedores.

A primeira pesquisa que apareceu em inúmeras citações de comentaristas, foi a “pesquisa” CNT/Sensus de dezembro de 2009. Citavam até informações como 83ª Pesquisa e outras, aumentando ainda mais a aparência de veracidade da coisa toda. Como relatei na época, há uns vinte dias, achei estranhíssima a tal pesquisa ter sido divulgada e eu não ter visto nada. Não que eu veja tudo, estou infinitamente longe disso, mas as pesquisas CNT/Sensus eu vejo, sim, vejo todas. E justamente uma sobre torcidas iria escapar? E não seria comentada por nenhum de meus colegas no GloboEsporte e em outros portais e veículos? Muito estranho.

Na dúvida, nada melhor que ir à origem e checar tudo. Foi o que fiz e a Confederação Nacional dos Transportes, por meio de sua assessoria de comunicação, confirmou o que, naquela altura, eu já sabia: a tal pesquisa não existia. Mas, sim, o tema torcidas já tinha sido abordado, em 2007. Aproveitei e divulguei essa pesquisa que, ora vejam, apenas confirmava, com números não muito diferentes, o que a contestada pesquisa Datafolha apontava.

Não parou por aí. De repente, do nada, brotou uma pesquisa sobre torcidas feita pela USP.

Ah, mas justo pela USP?

Escolado pelo caso anterior tratei de conferir.

Nada.

Um leitor disse que era uma pesquisa do Instituto de Matemática e Estatística e anexou um scanner de uma página de um suposto relatório. Desnecessário dizer, a essa altura, que no IME ninguém sabia de tal pesquisa, hoje ou em 2001. Mais um fake.

Por último, a lista dos clubes com maiores dívidas. Divulgada em agosto de 2009, a partir de trabalho da Casual Auditores, de repente surgiu e circulou uma lista de devedores com algumas alterações. Fake, também.

No caso das pesquisas falsas, o ponto central abordado e que elas supostamente desmentiriam, seria a posição da torcida do Vasco da Gama no ranking de maiores torcidas brasileiras. Nessas falsas pesquisas a torcida vascaína aparecia como a terceira, enquanto nas pesquisas Datafolha e IBOPE ela aparece como a quinta maior torcida entre os clubes brasileiros.

Mesmo depois de confrontados com a verdade, torcedores e pelo menos um site preferiram desacreditar e sustentar os dados da falsa pesquisa. Paciência.

Esses eventos deixam claro que precisamos tomar cuidados cada vez maiores na reprodução de informações. O que antes era impensável ou difícil, agora é fácil, tanto de executar como de disseminar.

Por isso mesmo, informações sobre finanças dos clubes para mim são apenas as que constam dos balanços ou outros documentos oficiais dos clubes. Fora essas, o resto é especulação ou estimativa e, quando mencionadas, isso fica claro no texto.


O gol da felicidade e a “sorte” do marketing

seg, 08/02/10
por Emerson Gonçalves |
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Robinho marcou um gol belíssimo ontem. E não foi contra a defesa do Vila Xurupita FC, foi contra a defesa do São Paulo, em cima de Rogério Ceni. Obviamente, isso valoriza ainda mais o seu gol. Que foi também inteligente, pois ele evitou o afobamento de muito atacante que se adianta e entra em impedimento: ficou atrás da linha da bola todo o tempo.

Robinho correu, passou, chutou, entregou-se ao jogo. Antes da partida, provocou o supervisor de futebol do São Paulo, Marco Aurélio Cunha, dizendo que se entrasse ia dar trabalho. O tipo de provocação alegre e que anima o futebol, motiva os torcedores sem ofender, menosprezar ou algo parecido. Durante a semana Robinho jogou bolo nos jornalistas e nos companheiros. Foi moleque, esbanjou alegria.

Robinho está na sua casa.

Por tudo isso, seu gol não foi “de letra”, foi o “gol da felicidade”.

Quando ele trocou o Santos pelo Real Madrid, critiquei. Achei uma saída prematura. Na minha opinião, ele precisava ficar mais dois, três anos no Santos, evoluindo, melhorando seu futebol, claro, mas sobretudo amadurecendo. Jogar no Madrid e ganhar montes de euros em nada contribuiu para seu amadurecimento, para seu crescimento como profissional.

O Robinho que dá gosto ver em campo é o de ontem, que participa do jogo, que toca a bola para os companheiros, que se esforça até mesmo para marcar ou pelo menos ocupar espaços.

Tal como o gol de Ronaldo no Corinthians, o gol de Robinho já correu o mundo, com o Go Visa estampado no peito. Ponto para o marketing da companhia, uma vez mais. Chamei de sorte no título, mas não foi somente sorte – aqui entendida como a beleza do gol. Por trás, na verdade, está a competência em enxergar uma oportunidade de patrocínio e aproveitá-la.

robinho san x sao2

Ainda não sabemos quem patrocinará o Santos em 2010, metade do ano com ele e metade sem, mas o começo não poderia ter sido melhor para o cartão Visa, a Lupo e a Net Shoes. O certo, agora, é esse pessoal aproveitar o embalo e, no mínimo, manter o patrocínio no jogo contra o Rio Claro, no domingo de Carnaval, quando o Santos entrará em campo com seu uniforme tradicional, branco, destacando ainda mais os patrocinadores.

Mas não há nada acertado ainda, pelo menos não havia até o almoço de  hoje.

Esse resultado de ontem foi muito importante para o trabalho futuro do presidente Luis Álvaro, que precisa fechar um bom patrocínio para todo o ano, começando a recompor as finanças santistas. E precisa, é claro, fechar o esquema de sustentação de Robinho, que feliz ou não, em casa ou não, tem um salário a receber e que não é nada pequeno, muito pelo contrário.

Isso tudo também foi muito bom para o Manchester City, que viu seu patrimônio correr mundo. Dependendo da Copa, o clube inglês poderá ter feito o melhor negócio desses tempos liberando Robinho para jogar no Brasil.

Onde ele é feliz e tem valorização assegurada. Basta continuar jogando futebol e concentrar-se nisso.


O futuro das bases está em jogo… Na justiça

dom, 07/02/10
por Emerson Gonçalves |

Ou, enquanto a bola rola nos gramados pelos importantíssimos torneios estaduais, aguardando o início da Copa Libertadores, uma outra disputa está sendo travada, mais importante para o futuro dos clubes do que qualquer um desses torneios.

O jornal O Estado de S.Paulo de sábado informou que a desembargadora Sonia Maria Forster do Amaral, do Tribunal Regional do Trabalho, decidiu que o São Paulo FC pode registrar o contrato de Lucas Piazon. O jogador, que completou 16 anos há poucos dias, e seus pais, entraram na justiça pedindo que o clube não pudesse registrar contrato assinado entre as partes – clube e responsáveis pelo jogador – quando ele tinha 14 anos. Segundo a magistrada “a celebração de contrato de trabalho para o futuro, como fizeram as partes, não infringiu qualquer disposição legal”.

Esse contrato, que entraria em vigor dia 20 de janeiro, 16º aniversário do atleta, garantiria seu vínculo com o São Paulo por três anos, até completar 19. Segundo o advogado do clube, há 5 anos o São Paulo faz contratos de aprendizagem com seus jovens atletas e negocia uma garantia para preservar o vínculo uma vez completados 16 anos. Essa medida não impede ninguém de sair, mudar de clube, de país, desde que respeite o contrato e pague a multa estabelecida.

Em sua decisão, a desembargadora foi além e disse que “o tempo de espera (pelo julgamento final do processo) não será determinante em sua carreira profissional, até porque o próprio jogador diz que jogar no clube é a realização de um sonho”.

Segundo a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, Lucas Piazon já estaria treinando no Corinthians, cujo presidente, Andrés Sanches, correu a buscar o garoto, buscando, com esse gesto, vingar-se do São Paulo, que, segundo ele, tirou o garoto Marcelinho da base corintiana.

Desde o final de 2009 até agora, três atletas tricolores buscaram a justiça visando quebrar seus vínculos com o São Paulo: Oscar, Diogo e Piazon. Nos três casos o clube conseguiu reverter a decisão inicial no caso Oscar, e garantir a permanência, ao menos juridicamente, de Diogo e Lucas.

Há algo mais para entender nessa história?

Com certeza, sem a menor dúvida há muito  mais o que entender com tudo isso que está acontecendo. Embora torcedores adversários e até dirigentes façam piadas e comemorem as ações contra o clube do Morumbi, o que está em jogo pode afetar todos os clubes brasileiros e colocar em risco o trabalho de formação de atletas. Por isso mesmo, os dirigentes adversários com um mínimo de visão estão preocupados e torcendo, aberta ou discretamente, por uma vitória do São Paulo em todos os processos. Até porque, numa análise fria, como os clubes dependem e dependerão mais ainda de suas divisões de base para sobreviverem e faturarem, é o próprio futuro deles que está em risco.

Se os reclamantes vencerem um, dois ou os três processos, mais que o precedente, estará criada jurisprudência a respeito. Com isso, nenhum empresário deixará de buscar na justiça a liberação de jogadores jovens, para imediatamente negociá-los com clubes europeus ou mesmo brasileiros. Levada às últimas consequências, isso tornaria inúteis e sem futuro todos os trabalhos com divisões de base no país, pois os clubes perderiam até mesmo a relativa proteção jurídica que têm hoje.

Para quem gosta, uma conspiração

As pessoas gostam de histórias de mistério, de tramas rocambolescas, de conspirações de todo tipo. A internet está sempre repleta com as mais delirantes teorias conspiratórias possíveis. O que está acontecendo hoje com essas idas quase simultâneas à justiça enquadra-se à perfeição numa bela teoria conspiratória.

Dizem os especialistas nessa teoria, que justamente por ser o São Paulo o clube tido como mais organizado, além de ter um excelente trabalho de base, foi ele o alvo do ataque de pessoas interessadas em quebrar os vínculos dos jovens atletas com seus clubes, aumentando, assim, o tamanho do mercado para negociar jogadores e ao mesmo tempo facilitando as negociações. Muitos clubes com menor poder de fogo e estruturas internas com problemas tornar-se-ão vítimas fáceis para empresários e advogados. Basta vencer agora e criar a jurisprudência.

Se vitoriosas, essas ações impedirão o Santos de manter um novo Robinho, um novo Neymar, que foi emancipado há dois anos e assinou novo contrato com o clube já com essa condição, contestada por Oscar. Ou, ainda antes dos 16 anos, Neymar foi levado ao Real Madrid para uma “visita”. Foi e voltou, pois o Santos tinha proteção semelhante à que tem o São Paulo com Lucas Piazon. Derrubadas essas práticas na justiça, volta a questão: algum clube, em sã consciência, vai investir um centavo que seja em trabalho de base?

Por enquanto, para felicidade dos clubes brasileiros, o São Paulo está garantido pela justiça. Oscar voltou ao CT, mas só treina e segue falando para a imprensa que não é mais jogador do clube e que não jogará por ele. Diogo não se reapresentou ainda, contrariando, inclusive, recomendação de sua advogada. Lucas, como disse a Folha, estaria treinando no Corinthians. Em tempo: nesse caso não creio em nenhuma teoria conspiratória. Simplesmente, em função do litígio, o jogador caiu de presente nas mãos do presidente corintiano, que acreditou ser um bom troco à perda de Marcelinho.

Nos três casos teremos novas ações judiciais, julgamentos, recursos, liminares… Provavelmente, se tudo correr dentro da normalidade e nos prazos normais da justiça, essa disputa durará alguns anos. Não será impossível que as três carreiras promissoras sofram prejuízos. Muitas vozes erguer-se-ão gritando contra tamanha injustiça. Nesse caso, porém, tudo indica que a parte injustiçada é o clube. Mesmo porque esses atletas, como já reconheceu a justiça ao menos num primeiro momento, são tratados corretamente em todos os sentidos pelo clube.

Eu mesmo sempre ironizo as inúmeras teorias conspiratórias que aparecem na internet ligadas ao futebol. Nesse caso, todavia, fica um pouco mais difícil simplesmente dizer que é mera coincidência os três atletas do mesmo clube entrarem na justiça ao mesmo tempo, praticamente. Ficamos com a impressão que há muito mais por trás, justamente como prega a teoria da conspiração.

Uma coisa, porém, é muito fácil de concluir: o futuro dos clubes brasileiros está em jogo nesse momento e não é nos gramados, não é nos estaduais, não é na Copa Libertadores, é nas salas dos tribunais.

E uma derrota do São Paulo será uma derrota de todos os clubes brasileiros.

As dívidas per capita dos torcedores brasileiros

sáb, 06/02/10
por Emerson Gonçalves |


Há muitos anos a dívida externa de Pindorama deixou de nos atormentar. Não porque tenha deixado de existir, pois ela existe, mas hoje em patamar mais civilizado, economicamente falando. Ao mesmo tempo, em parte por isso, em parte por deter o poder, velhas cornetas do apocalipse calaram-se. Como todo brasileiro nascido antes de 1978, mais ou menos, sou um especialista em economia. Não por gosto, mas por força da sobrevivência aos inúmeros planos econômicos, cada um pior que o anterior, alguns usados da maneira mais calhorda possível como ferramentas eleitorais. Houve um momento da história em que executivos brasileiros de multinacionais viram-se valorizados, subitamente, porque turbulências atingiram as casas matrizes e filiais importantes em áreas livres de turbulência e a nossa rapaziada era o que se podia chamar de especialistas na matéria. Se conduzir a vida pessoal em meio aos planos e a índices inflacionários que chegaram a 80% – em um único mês! – imaginem, então, conduzir uma empresa, ainda mais multinacional, em meio a esse caos?

Isso tudo, por enquanto, é história. Durante esses muitos anos, acostumamo-nos a ver nos jornais as matérias sobre a dívida externa e um índice que era aterrador: a dívida externa per capita. Meu segundo filho, Gustavo, nasceu em 1981, já devendo os olhos da cara para os bancos estrangeiros. Não lembro quanto, não vale a pena, mas era coisa aí da ordem de cinco a seis mil dólares. Isso quando o dólar valia muito.

Mudou. Mudou o mundo, mudou o Brasil, mudamos todos. Tanto mudamos que mesmo muitos de nós que por tudo isso passaram, pouco ou nada recordam. Tudo isso brotou ao pensar no tema desse post: as dívidas dos clubes divididas pelo número de torcedores de cada um.


Essa ideia simples e interessante é do Lucas Camargo, “olheiro” tanto crônico quanto crítico há muito tempo, com muitas contribuições em seus comentários.

Quanto “deve” cada torcedor?

Supondo que cada torcedor se dispusesse a pagar a parte que lhe cabe nas dívidas de seu clube do coração, para saná-las de vez, e isso é mera suposição, posto que na prática jamais funcionaria (num passado remoto houve até uma malfadada campanha com o nome “Dê ouro para o bem do Brasil” – houve até quem desse, geralmente os mais humildes; meus pais deram alguma coisa… inacreditável), de quanto seria esse valor? É o que vamos ver.


A base de dados para esse post é a já conhecida e vilipendiada pesquisa sobre torcidas brasileiras feita pelo Datafolha em dezembro de 2009 e exaustivamente abordada neste Olhar Crônico Esportivo no começo de janeiro.

Infelizmente, a pesquisa não cobriu o mesmo número de clubes que foi abordado pelos estudas da Casual, o que, lamentavelmente, deixa clubes importantes fora desse post.

Minha primeira ideia foi pegar somente os torcedores na faixa de renda acima de 5 salários-mínimos, mas rapidamente lembrei-me que isso geraria tanto comentário, digamos, críticos, que desisti. Além disso, como falei no parênteses logo atrás, as pessoas que mais contribuem com as “nobres” e nobres causas são as que menos podem fazê-lo. Logo, nada mais justo e correto que colocar nos cálculos todos os torcedores.

Não faço distinção entre tipo de torcedor. Para mim, torcedor é um só. Se vai ao estádio ou não, se compra o PPV ou não, se tem trinta camisas oficiais ou nenhuma, se compra a camisa suada do pirata do varal ou não, se tem outro time em seu coração ou não, nada disso interessa. Todos são torcedores. Essas distinções têm valor apenas para trabalhos de marketing, que precisam ter um perfil dos torcedores justamente para melhor criar e direcionar suas mensagens e campanhas. O importante, porém, é que todos são torcedores. Assim como os brasileiros: independentemente do tamanho da conta bancária ou do gosto futebolístico ou político ou sexual ou o que seja, somos todos brasileiros. Inclusive os que aqui não nasceram, mas optaram por aqui viver. Todos brasileiros, sem distinção. Da mesma forma, todos torcedores, sem distinção de valor.


Temos, portanto, uma massa de 134 milhões de torcedores, tomando por base a população brasileira estimada pelo IBGE para o dia 9 de janeiro do corrente ano (192.307.730 habitantes). Como esse número-base já está arredondado, não vi necessidade de ver a previsão da população para hoje, menos de 30 dias depois da estimativa usada nos posts sobre a pesquisa. Ficaram de fora desse número os brasileiros que não gostam de futebol e os brasileiros que ainda não completaram 16 anos de idade. Para os cálculos, usei os valores do passivo total de cada clube, já sem as despesas ditas correntes, ou seja, os passivos “depurados”, como chamei-os. São, portanto, os mesmos números do post anterior.


Clube

Passivo * (Milhões de Reais)

Torcedores (Milhões)

R$ per capita

Vasco

308,1

6,7

45,98

Flamengo

278,3

25,5

10,91

Fluminense

272,9

1,3

209,92

Atlético MG

267,8

2,7

99,19

Botafogo

219,0

2,7

81,11

Corinthians

118,3

17,4

6,80

Palmeiras

55,1

9,4

5,86

Internacional

126,7

4

31,67

Santos

134,3

2,7

49,74

Grêmio

108,5

4

27,12

São Paulo

143,3

10,7

13,39

Cruzeiro

84,7

5,4

15,69


Apenas como parâmetro, se pegarmos o total das dívidas dos clubes no ano de 2008 e dividirmos pelo total de torcedores estimado para janeiro de 2010, chegamos ao resultado de R$ 17,00 – esse é o valor médio que cada torcedor brasileiro deve.

Esse trabalho não conduz, necessariamente, a algum lugar. É apenas um exercício, uma curiosidade. Nada impede, porém, que o torcedor dê asas à sua imaginação, mas deixo um aviso chato: ninguém, em sã consciência, vai propor que cada torcedor doe um valor qualquer para seu clube. Na prática não funciona. Além disso, o custo envolvido na captação de algum recurso é muito alto. Ou seja, qualquer coisa que tivesse essa ideia como fundamento, teria que partir de um valor mínimo que pagasse todos os custos e deixasse algo apreciável para o clube. E esse valor mínimo deve girar em torno de dez reais.

Boa diversão e bom final de semana.


As dívidas per capita dos torcedores brasileiros

As dívidas dos clubes brasileiros e como se dividem

qui, 04/02/10
por Emerson Gonçalves |

Estamos já no início de fevereiro. Os clubes têm prazo legal até 30 de abril para apresentarem e publicarem seus balanços. O mesmo ocorre com as federações e com a confederação. Alguns balanços são expostos publicamente, sem pejo, sem medo. Outros permanecem escondidos. São publicados em veículos obscuros e o acesso a eles pelo torcedor não versado nas artes & manhas do assunto é simplesmente impossível. Eu mesmo, embora com um certo traquejo nessas caçadas, até hoje não botei os olhos sobre alguns balanços coroados. Um deles, por sinal, é de todos o mais coroado e um dos maiores em números de entrada de dinheiro: o balanço da confederação. Isso mesmo, o balanço da CBF. Dizem que ele existe, há, inclusive, quem jure a respeito e até dizem já ter sido visto. Eu, entretanto, não consegui tal proeza. Nem mesmo pedindo à confederação cópia do mesmo. Não entendo o porquê disso, pois, afinal, dizem que o balanço é belíssimo em seus números, todos azuis, mais que isso, azulões.

Não conseguir certos balanços não é privilégio somente meu. Alguns, aparentemente, são mais bem guardados que os novos “papeis do Pentágono” que tanta celeuma renderam décadas atrás.

Até 2002 e a publicação da MP 39, que tornou obrigatória a publicação de balanços e a contratação de empresas de auditoria pelos clubes, a maioria, para não dizer a quase totalidade, não publicava seus balanços. A exceção a essa regra sempre foi o São Paulo, cujos balanços são publicados desde 1956.

Os números e as prestações de contas ficavam sempre em petit comité nos clubes. Nos mais avançados e progressistas, chegavam até o Conselho e daí não passavam. Esse conhecimento restrito das práticas administrativas de inúmeros clubes levou ao estado em que muitos se encontram hoje, com dívidas da ordem de dezenas e dezenas de milhões de reais com o fisco. Depois da MP 39 e do Estatuto do Torcedor, o futebol brasileiro começou a entrar, lenta, muito lentamente, numa nova fase. Estamos em transição e ela é dolorida, é sofrida. Um grande exemplo de correção foi dado pelo presidente do Vasco da Gama, Roberto Dinamite, que depois de empossado vasculhou as contas do clube e revelou seus verdadeiros números, escondidos durante anos e anos, iludindo a torcida e a sociedade.

Apesar dos avanços, ainda hoje é complicado buscar por informações nos balanços dos clubes. Alguns são bem elaborados, mostram as informações de forma relativamente acessível. Nesse ponto, novamente o balanço do São Paulo, o primeiro a adequar-se às novas determinações legais para publicação de balanços, definidas em 2006, continua servindo como modelo. Mesmo alguém sem muita intimidade com as normas e linguagem contábeis consegue ler o balanço e entender o principal.

Enquanto a safra com os novos números referentes ao ano de 2009 não aparece e pode ser colhida, vamos dar uma olhada nos números das dívidas dos clubes no ano de 2008. Esse assunto foi tema de matéria do portal GloboEsporte em agosto, a partir de trabalho realizado pela Casual Auditores na época; dê uma olhada, clique aqui. Na matéria, o portal enfatizou as dívidas dos clubes cariocas e listou os passivos totais – circulante e exigível a longo prazo – de 21 clubes brasileiros.

Para esse post contei também com o auxílio da Casual Auditores, através do Carlos Aragaki, que depurou os passivos dos clubes das obrigações corriqueiras do dia-a-dia, deixando somente os grandes números considerados efetivamente como dívida (ainda assim, em função dos lançamentos feitos em seu balanço, os direitos de imagem e outras despesas correntes do São Paulo foram arroladas tanto no circulante – obrigações a vencer em até 360 dias – como no exigível a longo prazo, o que infla um pouco o valor da dívida tricolor).

A melhor parte do trabalho desenvolvido pelo Carlos Aragaki e seu pessoal da Casual, foi a divisão dessas dívidas em três categorias:

- Fiscais: as dívidas com o governo federal (quase que exclusivamente), referentes ao não pagamento de tributos diversos, inclusive INSS e IR; a  maior parte desses débitos está com seus pagamentos negociados no acordo da Timemania.

- Contingências: compreende as dívidas trabalhistas – a grande maioria nesse item – e dívidas cíveis.

- Empréstimos: dinheiro tomado nos bancos ou adiantado via Clube dos 13 e federações; no caso, como já explicado neste e no velho OCE, a parcela a receber futuramente sai via empréstimo bancário, devidamente aprovada pelo Clube dos 13 e Rede Globo e GLOBOSAT; grande parte da dívida do Clube Atlético Mineiro com seu ex-presidente, Ricardo Guimarães, está nesse item.

Entendendo os números

Sem entrar nas minúcias contábeis e repetindo um pouco o que já foi dito há pouco, vamos ao básico: dívida é tudo que uma empresa ou uma pessoa tem que pagar. Nos balanços, ela aparece no passivo, dividida em duas partes: o passivo circulante e o exigível a longo prazo. No primeiro caso temos os compromissos a pagar em até 360 dias. No segundo caso, como já diz o nome, temos as dívidas de longo prazo, superiores a 360 dias.

Alguns valores que entram nos balanços corretos, feitos como manda o figurino, poderiam até não ser chamados de dívidas. É o caso, por exemplo, dos direitos de imagem dos atletas, que na prática é considerado como parte da folha de pagamento mensal. No dia-a-dia, esse tipo de obrigação não é encarado como uma dívida, assim como não é encarado como dívida o salário a ser pago futuramente a um funcionário.

Na tabela a seguir, vocês poderão ver os passivos totais dos clubes e os passivos já depurados dessas despesas citadas:

Clube

Passivo total

Passivo depurado

Proporção

Vasco

377.854

308.120

81,5%

Flamengo

333.328

278.288

83,5%

Fluminense

320.721

272.912

85,1%

Atlético MG

283.334

267.787

94,5%

Botafogo

265.424

218.952

82,5%

Corinthians

255.164

118.294

46,4%

Palmeiras

197.229

55.083

27,9%

Internacional

176.906

126.697

71,6%

Santos

175.565

134.280

76,5%

Portuguesa

155.598

*

Grêmio

154.638

108.460

70,1%

São Paulo

148.380

143.282

96,6%

Cruzeiro

131.578

84.729

64,4%

Vitoria

91.313

*

Coritiba

52.994

54.587

103,0%

Náutico

49.857

44.844

89,9%

Atletico PR

37.028

23.162

62,6%

Paraná

27.303

26.246

96,1%

Figueirense

10.940

9.330

85,3%

São Caetano

3.137

2.068

65,9%

Barueri

539

534

99,1%


A próxima tabela é a mais interessante e que merece um olhar mais atento de cada torcedor. Ela mostra como é a composição dessas dívidas em cada clube.

Clube

Passivo *

Fiscais

%

Conting

%

Emprest

%

Vasco

308,1

99,2

32,2

111,1

36,1

97,8

31.7

Flamengo

278,3

201,5

72,4

36,5

13,1

40,3

14,5

Fluminense

272,9

140,3

51,4

132,6

48,6

0,02

0

Atlético MG

267,8

138,3

51,6

23,5

8,8

106,0

39,6

Botafogo

219,0

132,8

60,6

71,8

32,8

14,4

6,6

Corinthians

118,3

48,6

41,1

17,2

14,5

52,5

44,4

Palmeiras

55,1

39,5

71,7

0

0

15,6

28,3

Internacional

126,7

120,1

94,8

2,4

1,9

4,2

3,3

Santos

134,3

90,8

67,6

2,2

1,6

41,3

30,8

Grêmio

108,5

76,7

70,7

17,9

16,5

13,9

12,8

São Paulo

143,3

95,9

66,9

2,5

1,8

44,9

31,3

Cruzeiro

84,7

65,7

77,5

1,4

1,7

17,6

20,8

Coritiba

54,6

35,6

65,2

5,0

9,2

14,0

25,6

Náutico

44,9

28,9

64,4

14,1

31,4

1,9

4,2

Atlético PR

23,1

7,8

33,7

4,5

19,5

10,8

46,8

Paraná

26,2

16,6

63,4

9,3

35,5

0,3

1,1

Figueirense

9,3

8,4

90,3

0,9

9,7

0

0

São Caetano

2,1

0,3

14,2

0,1

4,8

1,7

81,0

Barueri

0,5

0,001

0

0,5

100,0

0

0

Totais

2.277,7

1.347,0

59,1

453,5

19,9

477,2

21,0


A primeira informação que salta aos nossos olhos é velha e bem conhecida: nossos clubes devem para a sociedade. Há quem diga que eles devem para o governo. Há quem diga, com mais acerto, que eles devem para o Estado. Eu prefiro dizer que devem para a sociedade, pois o governo é mera ferramenta transitória (ou assim deveria ser) na administração do Estado, enquanto que este é tão somente o braço organizado da própria sociedade para gerir seus negócios. O governo somos nós. O Estado somos nós. Esse conceito é um conjunto vazio no Brasil, mas algum dia precisará ser preenchido. Nesse dia, quem sabe, cédulas numa cueca ou numa meia & assemelhados, será motivo de profundo opróbrio e levará ao degredo moral e político de quem com isso se envolve. Por enquanto, porém, essas insignes figuras continuam governando e legislando sem maiores conseqüências, afinal, a sociedade não sabe que o governo é mero servidor dela e não o contrário, e que o Estado nada mais é que seu braço operacional, jamais o seu cérebro.

Considerando os números de 2008 – estes são os números oficiais disponíveis; qualquer coisa fora deles não é oficial e não tem valor para análise, lembrando que esses balanços são peças legais, devidamente auditados e dignos de fé; até prova em contrário, claro, mas se não há prova, então eles representam a verdade – nossos maiores clubes tem um passivo (depurado) total de 2.277.700.000 ou, trocando em miúdos, 2,27 bilhões de reais.

Desse total, as dívidas com o fisco representam bem mais da metade – 59,1% – ou seja, 1,35 bilhão de reais. Lembram da história de não precisar apresentar balanços e os números ficarem restritos a meia dúzia de iniciados nos clubes? Em boa parte por isso chegamos a esse ponto.

Aqui, porém, há dívidas que não são desse tipo.

Se o coração tem razões que a própria razão desconhece, o estado tupiniquim tem impostos, normas e decretos que o próprio fisco desconhece, tamanha a quantidade e diversidade. Isso levou a muitas cobranças julgadas indevidas pelos clubes, principalmente em transferências de atletas para o exterior, que foram contestadas judicialmente. Quando se fez o acordo Timemania, o governo exigiu que os clubes reconhecessem todas as dívidas para poder participar. A contragosto isso foi feito. Então, nesse imbróglio todo há dívidas que, provavelmente, a justiça decidiria a favor dos clubes. O Sindicato dos Clubes entrou na justiça e conseguiu uma liminar que, pelo que sei, ainda não foi julgada.

Os restantes 40% dividem-se de maneira quase igual entre as dívidas contingenciais e as financeiras. No primeiro caso o que mais aparece são as dívidas trabalhistas. Há enxurradas delas, a maioria com apoio legal. Outras, são questionáveis, como cobranças de horas extras pela concentração, participação em direito de arena acima da taxa combinada com os sindicatos, etc. No geral, porém, a maior parte dessas ações resultarão em sentenças pró-atletas, pois os clubes não primam pela correção nos pagamentos a seus funcionários.

Virou uma prática comum rolar dívidas através de adiantamentos de direitos de TV. Uma verdadeira festa. Há clubes que pouco têm a receber inclusive em 2011, pois já engoliram parte de suas receitas. E em 2011 teremos um novo drama se desenhando: os adiantamentos sobre o BR, que representam a maior parte dessas operações, não poderão entrar em 2012, pelo simples motivo que o contrato que dá guarida a todas essas operações terminará em 31 de dezembro de 2011. E sem a guarida de um contrato não há adiantamento, pois não há garantia. Isso desmistifica, ou deveria desmistificar, o tal de “rabo preso” dos clubes com a TV por conta de adiantamentos. Mas não acontecerá, afinal, a tese do “rabo preso” é muito mais simples e simpática de ser explorada. Aliás, em 2008, Flamengo e São Paulo brigavam, juntamente com o Corinthians, por mudanças no contrato que estava em discussão para a cessão dos direitos a partir de 2009. Premido pela falta de dinheiro e a necessidade de obter recursos o mais rápido possível, o presidente do Corinthians assinou o novo contrato sem sequer avisar seus colegas. Isolados, Juvenal Juvêncio e Marcio Braga também assinaram. O “velho” OCE comentou esse fato à época. Voltando aos números das dívidas: essas operações representam boa parte desses empréstimos, sendo a outra parte referente aos emprestadores clássicos de dinheiro, pelas vias clássicas: os bancos.

Ainda é um pouco cedo analisar essas divisões, embora tenhamos os números relativos a 2007. Todavia, tão logo saiam os balanços, teremos melhores condições para análise, com três anos em perspectiva. A Casual Auditores já tem programado um trabalho comparando as dívidas dos clubes brasileiros com as dos clubes europeus e tão logo ele saia será mostrado aqui. Pelo que andei vendo nos últimos tempos, há uma certa latinidade nesse negócio de dever para o fisco. Sei lá, talvez não vejamos com bons olhos essa coisa de pagar tributos, o que talvez indique que temos todos um bocado do sangue galês de Asterix & Cia.

Enquanto isso, cada torcedor pode dar uma olhada nos números e ver a composição da dívida de seu clube e como ele está em relação à média dos clubes brasileiros.

É a crise, ainda que tardia

ter, 02/02/10
por Emerson Gonçalves |
categoria Globalização

Na janela de inverno de 2009, ou mais precisamente, em janeiro de 2009, os clubes da Premier League investiram 170 milhões de libras na compra de direitos federativos de jogadores. Um recorde, comemorado efusivamente, enquanto o desemprego aumentava, os negócios imobiliários definhavam em ritmo assustador, a produção decrescia, o PIB diminuía. Eram os efeitos da crise, do Crash de 2008, aos quais o futebol e principalmente a English Premier League pareciam imunes, como se tivessem tomado uma vacina contra essas pequenas dores-de-cabeça do cotidiano, que afilgem pessoas e empresas comuns.

Na janela de inverno de 2010, enquanto as economias ora sinalizam que a crise é passado, ora sinalizam que não é bem assim, muito antes pelo contrário, esse mês de janeiro viu o registro de tão somente 30 milhões de libras em negociações de direitos de jogadores. Antes que peguem suas calculadoras, já adianto: esse valor equivale a meros 18% do que foi negociado em 2009. Vamos arredondar melhor: os clubes ingleses investiram em janeiro de 2010 um quinto do que investiram em janeiro de 2009. Impressionante, não?

O panorama não é diferente nos demais países que fazem parte do Top 5 do mundo da bola: Espanha, Itália, Alemanha e França. Apenas um destaque para a Itália, cujos clubes investiram aproximadamente os mesmos 30 milhões de libras para levar jogadores para a Serie A do Calcio. Nos demais, valores baixos, muito baixos.

Enquanto isso, na emergente Terra de Vera Cruz, emergente ainda que atrasada, há um certo clima de festa no ar. Patrocínios milionários, ingressos com valores de primeiro mundo para alguns clubes, uma febre – de novo – para a construção de arenas, melhor dizer “arenas” e helicópteros descarregando astros da bola nos gramados em que se pratica o nobre esporte bretão que consagrou Eduardo da Silva, que apesar do nome nunca jogou de verdade nessa Pindorama quente e muito chuvosa.

Os motivos alegados e oficiais são muitos e diversos, mas não é coincidência que Robinho, Adriano, Ronaldo, Roberto Carlos, Fred, Vagner Love, Alex Silva e outros menos votados e menos convocados estejam de volta à terrinha do arroz com feijão e malemolência.

É a crise, ainda que tardia.

Vaias injustas ou mal direcionadas?

dom, 31/01/10
por Emerson Gonçalves |

Nos fantásticos e valorosos estaduais, vaias para o Corinthians, Palmeiras, São Paulo e para o recém-desembarcado Cruzeiro…

Caramba, até para o Cruzeiro que veio do ceu boliviano para as Alterosas.

As mais injustas vaias, sem dúvida, cujo jogo contra o Ipatinga não assisti, mas nem preciso fazê-lo para dizer que elas foram injustas (só vi os melhores momentos… do Ipatinga).

Há alguns anos venho escrevendo uma obviedade: times que retornam de viagens complicadas para jogos da Libertadores, perdem ao chegar em casa. Perdem para o Ipatinga (que, mesmo trocando treinador, tem um bom time, novamente), como foi o caso do Cruzeiro, e perdem para o Sorocaba, entre outros adversários de menor expressão, como foi o caso do São Paulo em 2005, 2006, 2007… Nesses últimos anos, não recordo do time tricolor ter vencido um jogo de estadual logo depois de retornar de uma viagem pela Libertadores. É o preço da Copa.

Depois de disputar uma partida a 4.000 metros acima do nível do mar, um jogo que exige muito do preparo físico, do corpo e do espírito de cada atleta, culminando com uma demorada e cansativa viagem de volta, em plena véspera da partida pelo Campeonato Mineiro, era mais que natural, era mais que óbvio que o Cruzeiro não entraria em campo, figurativamente falando. Tão ruim quanto jogadores cansados, Adilson escalou oito reservas, alguns dos quais vivenciaram a mesma maratona dos titulares.

O torcedor, entretanto, não se conforma com o que vê e vaia. Esquece, como sempre e como todo torcedor, o objetivo maior e se concentra no que vê em campo naquele momento. Nada de novo sob o sol. Ou sob a lua. Ou sob a chuva, para ser mais preciso e realista.

Essas vaias, acredito, seriam mais justas ou menos injustas, se dirigidas ao presidente do Cruzeiro. Darei um desconto prévio: não sei até que ponto o clube precisa dos milhões do Porto para se manter, assim como não sei até que ponto Kleber foi sincero ao dizer que queria ficar em Belo Horizonte e disputar a Llibertadores. Como também não sei se ele está “de bem” com o restante do elenco. Qualquer um desses três fatores seria uma boa desculpa, uma desculpa válida, para efetuar a venda dos direitos federativos do atleta. Mas…

O clube acaba de fechar um excelente pacote de patrocínio com dois anunciantes, que garantirão que todo mês começará com o caixa em condições mais que razoáveis. O atual elenco não é tão caro como era o do ano passado, com as saídas, por exemplo, de Wagner e Ramires. Atletas que, por sinal, trouxeram significativos aportes de euros, dólares ou simplesmente reais para os cofres cruzeirenses.

Aparentemente, Kleber e colegas estavam “de bem”, “na boa”, jogando juntos. Se não estão, enganaram bem a quem os viu em campo. Eventuais rusgas desse tipo sempre podem ser mais ou menos bem consertadas. Tem muito time campeão no qual os jogadores sequer se davam bom-dia fora de campo. É grave, mas não chega a ser mortal, digamos.

Quanto à cabeça e às reais intenções de Kleber é difícil saber. Diziam que ele queria voltar para São Paulo e jogar no Palmeiras. Houve muito falatório, a ponto dele mesmo vir a público e dizer que já estava com o “saco cheio” disso. Depois disso, veio a declaração de querer ficar, que bem pode ser autêntica, dada a sua hesitação em assinar com o clube português.

Enfim, qualquer um desses fatores poderia influir fortemente no sentido da transferência de Kleber e, em qualquer desses casos, seria difícil, até mesmo injusto criticar a direção.

O problema, porém, a grande questão, é que o clube está em plena disputa da Copa Libertadores, precisando, ainda, confirmar sua presença no restante da mesma. Depois do vice-campeonato de 2009, a conquista do título é um sonho, um desejo forte demais da torcida. Sem Kleber, esse sonho fica mais difícil. Justamente por isso, a maioria dos cruzeirenses, alguns, inclusive, como o Cristiano Cruz, falando comigo por e-mails, fazem uma só e a mesma pergunta:

Precisava mesmo vender o Kleber?

Precisava mesmo?

Ainda mais por um valor bem inferior ao que foi dito que seria o mínimo para justificar sua saída?

E justamente nesse momento, no início de mais uma Copa Libertadores?

Só o presidente do clube ou o atleta poderão responder a essa pergunta.

Uma coisa, entretanto, é certa: sem Kleber fica tudo mais difícil, até porque, como disse o Cristiano em seu e-mail, ele é o único jogador do Cruzeiro capaz de fazer a diferença num confronto contra outros brasileiros, nesse momento, sem dúvida, os mais cotados à conquista do título desse ano.

(Ser o mais cotado significa apenas isso: ser o mais cotado. É garantia de nada.)

Bom, ao fim e ao cabo, só sei de uma coisa: o time que entrou em campo ontem não deveria ter sido vaiado.

Futebol profissional, direções amadoras

sáb, 30/01/10
por Emerson Gonçalves |

Corinthians x Palmeiras, o Derby, um dos mais tradicionais clássicos do futebol paulista e brasileiro será disputado domingo, no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o Pacaembu, com previsão de lotação quase total. Da carga total de 35.000 ingressos, mais de 23.000 já tinham sido vendidos até a noite de quinta-feira.  A lotação quase completa fica por conta dos preços cobrados pelos lugares “Vips”: 100 reais nos descobertos e 180 nos cobertos. Considerando a presença da “meia entrada” (curiosamente, o pessoal que paga metade assiste ao jogo inteiro…), pode-se chegar a uma renda de um milhão e trezentos, um milhão e quatrocentos mil reais, brutos. Descontos efetuados, como os dois clubes concordaram em repartir a renda igualmente, cada qual levará quinhentos mil reais ou pouco  menos que isso para casa.

Do lado palmeirense, um bom dinheiro, mas insuficiente para fazer cócegas na situação financeira do clube, que fechou 2009 com razoável déficit (a ser confirmado pelo balanço, cuja aprovação transformou-se em verdadeira batalha).

Do lado corintiano, um bom dinheiro, mas insuficiente para pagar um mês de salário de Ronaldo ou mesmo de Roberto Carlos, sem fazer cócegas, igualmente, na dívida do clube que, se não cresceu em 2009, tampouco diminuiu, permanecendo, na melhor das hipóteses, na faixa dos cem milhões de reais.

Por sinal, esse quesito “dívidas” anda incomodando os grandes clubes paulistas. O novo presidente santista assustou-se com o volume de dívidas vencendo a curto prazo e ainda está levantando o montante. No Morumbi, onde tudo parecia sob controle, não há, aparentemente, grandes motivos para tranqüilidade. Pelo menos a dar-se crédito a levantamento da Casual Auditores, que apontava para o clube uma dívida na faixa de 140 milhões de reais. Em conversa a respeito com o diretor-financeiro do clube, o Dr. Osvaldo Vieira de Abreu, ele disse-me que o pessoal misturou números do passivo e que a situação segue sob controle, inclusive com o balanço 2009 fechando novamente no azul. Independentemente disso, o clube precisou correr atrás de dinheiro durante o ano que passou.

Voltando ao Derby de amanhã: esse jogo clássico volta ao Pacaembu depois de uma década de ausência. Nesse ano de 2010, considerando somente o Campeonato Brasileiro, teremos mais duas partidas entre essas equipes. Dependendo dos resultados no Paulista, poderemos ter outras duas. Todas elas, por acordo entre as duas diretorias, serão jogadas no velho, bonito (apesar do grotesco “Tobogã”) e aconchegante Paulo Machado de Carvalho. Até o final do ano, 175.000 torcedores poderão ver Corinthians x Palmeiras e Palmeiras x Corinthians.

Isso daria uma renda acumulada para as cinco partidas de sete milhões de reais, considerando a venda total de 35.000 ingressos por jogo, e um ticket médio de 40 reais, um número bastante generoso, diga-se, justamente pela existência das meias-entradas.

A esses sete milhões brutos, corresponde uma receita líquida, também projetada para o alto, pouco superior a cinco milhões de reais, considerando que as despesas totais fiquem num patamar próximo de 25%, resultando, portanto, em 500.000 reais para cada clube, por partida. Dois e meio milhões de reais para cada um no total dos cinco possíveis jogos.

Considerando o mesmo ticket médio de 40 reais por partida e uma lotação incompleta de 60.000 pessoas para o Estádio do Morumbi (com capacidade para pouco mais de 70.000 pessoas e 68.000 para clássicos, de acordo com a Polícia Militar), teríamos uma arrecadação de doze milhões de reais nas cinco partidas. Considerando uma despesa superior à do Pacaembu, algo como 30%, restaria um líquido de oito e meio milhões de reais, rendendo, portanto, mais de quatro milhões de reais para cada clube. Uma receita pelo menos 40% maior do que jogando no Pacaembu.

Se o futebol é profissional, e ele é, fica difícil entender, no domínio da razão, o porquê dessa picuinha do presidente corintiano não querer jogar no Morumbi, mantendo todos os seus jogos no Pacaembu e deixando de arrecadar um bom dinheiro. Picuinha que, segundo se comenta há um bom tempo, encontra oposição dentro do Parque São Jorge, justamente por parte de quem tem a incumbência de gerar recursos para pagar as contas do centenário. Contas estouradas, como admitiu ontem Andrés Sanches.

A mesma colocação é válida para a Sociedade Esportiva Palmeiras. Nessa semana, depois da já comentada guerra interna, as contas de 2009 foram aprovadas. Segundo a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, dos 138 votos favoráveis à aprovação, 107 foram de conselheiros que são, também, diretores do clube. Fica claro que todo reforço de caixa é necessário nesse momento.

Voltando ao Corinthians: o grande objetivo do ano é a conquista da Copa Libertadores. Os jogos da primeira fase já estão marcados para o Pacaembu e boa parte dos ingressos já foi comercializada. A questão que se discute intramuros é onde mandar os jogos das fases eliminatórias da Copa. Também no Pacaembu? Nesse caso, a renúncia financeira será de porte ainda maior que essa exposta mais acima. Apenas para lembrar, na decisão de 2006, há três anos, portanto, o São Paulo teve uma renda de três milhões de reais. Não é irreal pensar que, chegando à final, o Sport Club Corinthians Paulista poderia faturar de doze a quinze milhões de reais nos 4 jogos eliminatórios. Mesmo que não negocie nada e pague um aluguel alto, ainda assim ficariam no caixa de nove a onze milhões de reais, contra a metade ou menos para os mesmos jogos no Pacaembu.

Naturalmente, ambas as direções darão inúmeros motivos para jogar no Pacaembu e não no Morumbi. Desculpem, mas não perderei tempo falando disso.

Fica difícil imaginar administradores profissionais no futebol brasileiro, como está propondo o Internacional. Eu, aqui do meu cantinho, duvido muito que esse tipo de gestão venha a ser implantado a curto prazo. Continuaremos com torcedores investidos nos cargos de presidente, vice, diretores diversos.

Perdendo dinheiro do clube ou deixando de ganhar dinheiro para o clube, em suma, o amadorismo na direção do profissional.


No fundo de tudo, os estaduais

sex, 29/01/10
por Emerson Gonçalves |

Este post é mais para fomentar um debate solicitado e suscitado por alguns internautas, entre eles o Lucas Camargo. Ideias, a priori, não são boas ou más, são simplesmente ideias jogadas para serem debatidas. Se forem tolas ou malignas, rapidamente os rumos do debate mostrarão, como também mostrarão, se for o caso, o contrário. O mais comum e saudável, entretanto, e prática comum nos regimes democráticos, é que algumas sejam aproveitadas, no todo ou em parte, juntamente com outras que vão surgindo. Como se diz popularmente, “a verdade está no meio” ou, também podemos dizer que esse é um processo dialético (não chega a ser, mas tem a mesma estrutura), em que teses e antíteses são apresentadas, discute-se e chega-se a uma síntese ao gosto da maioria.

A maioria dos clubes de futebol profissional no Brasil existem por 4, 5, no máximo 6 meses por ano. Fora isso, fecham as portas, pura e simplesmente. Esses clubes precisam operar o ano inteiro e isso só será possível com campeonatos brasileiros de divisões menores, bem estruturados, disputados regionalmente no decorrer do ano, com fases finais nacionais. Isso devido aos brutais custos de logística num país como o Brasil.

Os campeonatos estaduais não dão sustentação para os clubes pequenos e matam as datas que os grandes poderiam usar para torneios e excursões, sem falar numa pré-temporada de fato e não de mentirinha.

Os estaduais existem por três razões básicas:

1 – Sustentação do poder dos dirigentes de federações

2 – Sustentação da vida de clubes pequenos (que deveriam ser sustentados por suas comunidades)

3 – Maratona de clássicos estaduais num momento do ano em que o torcedor já tem saudades do futebol – válido mais para São Paulo e Rio de Janeiro

Na maioria dos estados já se sabe hoje o campeão de 2010, 2011, 2012, 13, 14, 15, 16… Será um ou outro: Atlético ou Cruzeiro, Grêmio ou Internacional e por aí vai. Se o Santa Cruz endireitar, Pernambuco poderá ser uma exceção, também: o campeão será um de três.

Depois de jogar contra os dois grandes ou três grandes ou quatro grandes, o pequeno do interior apaga a luz, fecha a porta e recolhe-se ao vazio. Sua torcida não se incomoda, pois além de não comparecer ao campo para ver o time jogar, cada um de seus torcedores é torcedor de um dos grandes e tradicionais times de expressão nacional e vai sentar-se no sofazão para acompanhar os jogos e depois discuti-los apaixonadamente com os amigos.

Tão grande é o amor e o carinho dos torcedores locais por suas equipes, que vários clubes já estão mandando seus jogos em locais mais convidativos. Em São Paulo, por exemplo, já tivemos jogo de campeonato oficial entre dois clubes do estado disputado em Londrina e vemos times de cidades distantes centenas de quilômetros da capital, mandarem seus jogos em pleno Pacaembu.

A federação do Rio de Janeiro foi mais objetiva: chegou ao ponto de determinar em regulamento que os times grandes enfrentariam os pequenos somente no Maracanã nos jogos decisivos. Não seria mais prático e justo fazer um torneio entre os quatro grandes? E reservar 5% ou 10% da renda para os pequenos dividirem? Eles não teriam nenhuma despesa e embolsariam um dinheirinho legal (sim, é até ofensivo escrever isso e eu não gostei de ter escrito, mas, há algum exagero ou erro ou preconceito nisso que escrevi?).

Se as próprias comunidades não se interessam, não se importam com a sobrevivência de suas equipes, por que cargas-d’água deveria esse encargo ser passado para os grandes clubes? Que na verdade são grandes apenas aqui, nessa Terra de Vera Cruz, pois fora daqui são tão desconhecidos quanto pequenos. Em parte por culpa dos próprios estaduais, mantidos por causa, etc, etc… Fecha-se o círculo.

Não há como mexer no calendário e na estrutura do futebol brasileiro sem mexer, a fundo, nos estaduais. Sem mexer, portanto, na estrutura de poder atualmente existente, onde os clubes são meros fornecedores de recursos para as federações e para a confederação. Que, magnanimamente, abre mão de algumas migalhas por já não precisar delas, mas nem por sonho pretende perder o poder que possui. E as federações nem por sonho abrirão mão do poder que possuem. Aliás, a história nos mostra que o poder não é cedido jamais, é sempre conquistado. Transferências de poder são frutos de relações de forças entre campos opostos.

Os dirigentes de clubes têm visão (muitos deles) e, mais que visão, eles têm a vivência dos problemas, sentem-nos na pele. Fazem loucuras e gastam rios de dinheiro justamente para resolver esses problemas, fazendo dinheiro, e tudo que conseguem é aumentar o buraco em que vive cada clube. Essa visão e esse conhecimento amargo e sofrido dos problemas, entretanto, não são o bastante para conseguir uni-los em torno de uma agenda única. Na hora H as rivalidades entram em cena e ofuscam a razão. A paixão vence, mesmo porque é sempre mais fácil e cômodo ceder à paixão que lutar pela manutenção da razão.

Se não prezo os estaduais, não sinto o mesmo em relação a uma Copa do Brasil modificada.

Com todos os clubes grandes, ainda mais aberta e mais ampla do que já é. Passaria de 64 para 128 clubes ou até mesmo 256, naturalmente pré-selecionando a turma até chegar aos atuais 64, dando aos clubes da Série A do Brasileiro, por exemplo, o direito de entrarem em fases mais adiantadas.

A Copa do Brasil é o espaço do sonho, é o torneio de todas as possibilidades, é a competição em que um pequeno aparece para o Brasil inteiro eliminando um gigante. Há que ter o sonho. Se o colorado, corintiano, cruzeirense, flamenguista ou são-paulino sonha hoje com a conquista das Américas e do Mundo em seguida, o ASA tem todo o direito de sonhar com a conquista do Brasil. O mesmo direito que tem o Vilhena, da agradável cidade do mesmo nome, em Rondônia, onde a soja é uma beleza e o clima é uma delícia, por causa da altitude. O mesmo direito que cabe ao ASSUM, ao Souza, ao Naviraiense e tantas outras equipes pouco conhecidas desse país.

Subjetivo, como disse o Lucas Camargo em um comentário?

Sim, totalmente subjetivo. Nem só de razão e objetividade vive o ser humano.

O tempo dessa Copa, entretanto, tem que ser outro, pois ela não deve encavalar com a Libertadores e com a Copa Sul Americana.

Ah, sim, e acabar com essa história de garantia de vaga na Libertadores. A quinta vaga da Copa deve ser do quinto colocado no Brasileiro, a competição-base de nosso futebol. Difícil, longo, cansativo, duríssimo, por isso mesmo é injusto que seu quinto colocado não conquiste a vaga a que tem direito na copa continental.

Então, vamos agora à desprezada Copa Sul Americana…

Pouco importante, sim, por artes e manhas da CONMEBOL, cujos dirigentes curvam-se à vontade argentina e tentam dar a essa Copa uma importância e um valor que ela nunca terá. Tal como na Europa, ela deve ser simultânea à copa principal do continente, no nosso caso a Libertadores. Quem está em uma não está na outra. Quem está na Libertadores e não se classifica para as fases eliminatórias, poderia passar, automaticamente, para uma fase da Sul Americana. Por exemplo, os melhores terceiros colocados. Mas não o inverso, com times da Sul Americana subindo para a Libertadores ou conquistando vaga na do ano seguinte pela conquista do título.

Conquista esportiva dá-se por mérito ou não se dá, não tem valor.

A Sul Americana paga pouco. Durante sua disputa, o Brasileiro vai se afunilando e as atenções voltam-se para ele. As disputas nas duas pontas da tabela ocupam toda atenção e todos os espaços. Se disputada ao mesmo tempo que a Copa Libertadores, ela teria de imediato uma valorização. Que, eu acredito, seria crescente com o passar dos anos.

Isso tudo é muito básico, tudo isso já foi proposto, discutido, nada de novo há nessas ideias aqui alinhavadas sumariamente. Mas vale, naturalmente, o debate. E se tudo isso já foi discutido, um dos pontos aqui levantados foge a essa regra: o poder das federações. Esse assunto parece ser tabu. O próprio pessoal do G4, por exemplo, toca nesse assunto com extremo cuidado, enfatizando sempre que os objetivos do grupo são somente mercadológicos. No Brasil, mexer com as federações não é muito saudável. O mesmo se dá na Europa, como pudemos ver pela extinção do G14, comandada por Michel Platini pessoalmente. Em lugar do combativo e chato G14, nasceu a ECA, com cerca de cem clubes. Dividiu para conquistar.


Dívidas, a preocupação do momento

qua, 27/01/10
por Emerson Gonçalves |

Calma, torcedores de norte a sul, calma, isso não é no Brasil, país onde as dívidas são conduzidas via empurrômetro, modalidade esportiva não olímpica em que o principal órgão, ou melhor, a principal parte do corpo humano envolvida não é o bolso, como deveria ser, e sim a barriga.

Essa é a preocupação da Europa, em especial da Europa Ocidental, uma vez que na Oriental há uma certa tendência a disfarces e correlatos.

Preocupação em 10, Downing Street

Como sabem os leitores dos livros de espionagem, principalmente, esse é o endereço oficial do primeiro-ministro de Sua Majestade, em Londres. Seu atual ocupante é o escocês James Gordon Brown (o Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda do Norte compreende quatro nações: Inglaterra, Escócia, País de Gales e o canto nordeste da ilha da Irlanda, a Irlanda do Norte), que sucedeu Tony Blair em 2007 e gosta um bocado de futebol, a ponto de ser acionista do time escocês Raith Roovers.

Anteontem, falando a respeito das enormes dívidas dos clubes da Premier League, Brown disse que os clubes “precisam olhar muito seriamente suas responsabilidades”, descartando a possibilidade de uma intervenção governamental, em resposta à pergunta de um jornalista em coletiva de imprensa em Londres. O primeiro-ministro falou que há uma grande preocupação com o elevado volume de dívidas dos clubes, dos quais o Manchester United é um bom exemplo – buscou no mercado 500 milhões de libras por meio da venda de ações de seus controladores para fazer caixa e enfrentar um débito que já ultrapassa os 700 milhões de libras. Praticamente todos os clubes da League enfrentam problemas sérios ou mesmo muito graves de dívidas.

“Claro, em muitos casos há meios bem simples de lidar com esses, mas em outros casos os clubes de futebol não têm receitas para poder lidar com o montante que atingiram suas dívidas” – disse ainda Gordon Brown. Trocando em miúdos, se um Manchester, Liverpool, Arsenal têm condições de negociar e resolver, outros, como o Portsmouth, não tem a mínima capacidade de gerar receitas que lhes permitam manter-se na League e, ao mesmo tempo, reduzir o estoque de suas dívidas.

Primeiros-ministros de Sua Majestade não costumam falar abobrinhas em público, ao contrário do que soi acontecer ao sul do Equador. São pesadamente cobrados por qualquer declaração e mais ainda por qualquer promessa. Para Brown falar o que falou é porque a situação é considerada realmente muito grave.

Preocupação na Route de Genève, 46

Na aprazível Nyon (nunca estive lá, mas pelas imagens é mais do que aprazível, pelo menos com tempo bom), na Suíça, onde a UEFA tem sua sede, a preocupação é a mesma do primeiro-ministro britânico, mas em escala bem maior.

Ontem, o secretário-geral da UEFA, Gianni Infantino, disse que metade dos clubes europeus está perdendo dinheiro e que 20% deles têm déficits anuais de grande porte – a UEFA assim classifica os deficits que ultrapassam 20% das receitas anuais do clube.

Infantino disse isto em conferência de imprensa, quando comunicou que em fevereiro a UEFA divulgará uma ampla pesquisa feita junto a 650 clubes europeus, levantando suas condições econômico-financeiras.

O estudo mostrou que mais da metade desses clubes perde dinheiro ano após ano, não conseguindo sustentar-se sem fazer dívidas. Nada menos que 20% deles tem perdas consideradas pesadas, a ponto de Infantino ter dito que as pessoas podem não se preocupar com o destino de um clube, mas a UEFA preocupa-se com cada um e com todos, temendo um efeito em cadeia caso um clube quebre.

Outro dado extremamente preocupante é que um terço desses clubes pesquisados gastam mais de 70% de suas receitas operacionais com salários. Lembrando que o extinto G14 (por obra, graça, manhas & artimanhas de Platini) preconizava que os salários deveriam ficar entre 55% e 70%, mas sempre mais próximos da parte baixa desse limite, para que o clube tivesse o melhor equilíbrio entre manter uma equipe competitiva e ao mesmo ser saudável financeiramente.

Em 2008, no espoucar da crise financeira, este Olhar Crônico Esportivo previu que os clubes europeus – à época já endividados – seriam muito atingidos e isso acabaria repercutindo por aqui, com o retorno de muitos de nossos boleiros. Esse movimento a princípio foi meio tímido e marcado por retornos atípicos, como os de Ronaldo, Fred e Adriano. Mas tivemos o retorno de Maxi Lopes, comemorado por este blog como um sinal do que estava por vir, e mais alguns, até que houve um aparente refluxo, um novo momento de loucura a la Florentino Peres, executada uma vez mais pelo próprio. Durante algum tempo pareceu que o futebol vivia numa bolha, à margem da sociedade. A AIG quebrou nos Estados Unidos, mas manteve seu último ano de contrato com o Manchester United. Que saiu ensandecido à caça de patrocínios, batendo em portas árabes, hindus e até brasileiras – as portas da Petrobras – para, no fim, fechar um novo patrocínio gigante e retumbante com outro grupo financeiro ianque, a AON. Parecia, então, que a bolha era mais que uma bolha. O final de 2009, entretanto, começou a mostrar realidades pouco agradáveis, marcadas por faturamentos em queda e dívidas em alta. Sempre com as exceções de praxe, claro. Mas a vida não é feita pelas exceções e sim pela maioria.

E a maioira, diz a UEFA, está perdendo dinheiro e está mais e mais endividada.

Sem dúvida, há motivos para preocupações e não só em Downing Street e na Route de Genève.



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