“Pai, minha colação de grau será na quarta-feira, a noite”, anunciava meu filho.
Confesso que passei uns 5 minutos para entender que não poderia ver o jogo do Náutico, contra o Inter - no mesmo horário da solenidade educacional.
Mas, como um bom pai que tento ser, nem cogitei em mandar um representante no meu lugar, para presenciar evento escolar.
“Tá certo, estaremos lá”.
Só que, o subconsciente ficou em conflito. Como deixar de ver o jogo do timbu? Que sacrilégio! Que sacrifício!!! Quem marcou colação de grau, neste dia deve ser rubro negro. Quanta falta da sensibilidade….
O dia foi chegando. E a noite do evento, também. Como um viciado privado de suas necessidades fisiológicas, não parava quieto. Os joelhos batiam. O queixo tremia. Angustia apertava o coração.
Do trabalho, pelo MSN me comuniquei com meu filho. “Leve o MP4″. Afinal, se não posso ver o jogo, pelo menos, tenho como ouví-lo, pelo rádio.
Mais tranqüilo, porém, ainda lamentando a coincidência de horário dos dois eventos, me dirigi ao local designado para a festividade escolar. Lá chegando, via os garotos e garotas tirando fotos e mais fotos. No meio do corredor que dividia as cadeiras. Na entrada da casa de festas. Até no banheiro. Em ponto, as 19h30 (horário local), cumpri o ritual de ligar o rádio e acompanhar o jogo, na imaginação - levado pela narrativa do radialista.
No entanto, sentados muito próximo do palco, tinham interferências intermináveis na transmissão e não conseguia ouvir direito o que era dito. Nem pelos oradores, nem pelo pequeno fone de ouvido.
Aproveitando um descuido na marcação cerrada da família, fui para as últimas fileiras - onde pude ter um resultado melhor no entendimento do que era narrado. C
onfesso que mal podia ouvir nada do que era dito. E só escutava o radialista dizer (gritando): “EDUAAAAAAAAARRRDO!”. Pensei até que fosse defeito do rádio, de tanto se repetir tal palavra. Mas, depois de 45 minutos de “EDUAAAAAAAAAARRRDO!”, pude constatar que o rádio não estava quebrado, pois nos 15 minutos dedicados ao intervalo de jogo, as propagandas foram expostas normalmente pelos patrocinadores daquela estação radiofônica. Desliguei o aparelho e fui ver um pouco da cerimônia educacional.
Docentes se destacavam em meio ao ambiente das respectivas famílias. Garotos e garotas felizes e entusiasmados com seus professores, procuravam deixar claro, através de gritos dignos das melhores torcidas organizadas, a sua preferência pelos educadores. Os mestres eram ovacionados tal e qual os jogadores, em um estádio, quando anunciam a escalação do time. “Ah, Rogério é paredão” ou “Uh, Nestor é matador”. Coisas deste tipo.
Após acompanhar algumas falas, voltei a atenção para a partida do timbu. Não antes de receber a ameaça da esposa: ”Não grite gol, se o Náutico fizer”. Ah, pedido difícil…..que coisa agoniante. Não gritar num gol do Timba? Fala sério! Tão difícil, quanto deixar de ver o jogo do alvirrubro…. Mas prometi…mesmo sem ter certeza se cumpriria tamanho desafio… O jogo seguia. E, só ouvia o tal narrador gritar “EDUAAAAAAAAAAAAAARRRDO!”. Não havia toque de bola, só defesa de Eduardo. Que sufoco, amigo. 5, 10, 15, 20, 25, 30, 35 minutos do segundo tempo. Muito próximo dos minutos que o time é tão fragilizado (entre os 38 e 45 do segundo tempo - quando sofremos gols de quase todos os times na competição - inclusive do Inter, no primeiro turno). Sempre imaginei um jogo ideal para o Náutico, com apenas 40 minutos. Ah, como seria bom…. O nervosismo bate mais forte. 0 x 0 é um bom placar - apesar da vitória da Portuguesa contra o Ipatinga nos empurrar para zona de rebaixamento. Mas o empate é lucro, face o bombardeio da equipe de Tite na nau alvirrubra. Acaba logo, seu juiz! Não tem quem agüente. E tome “EDUAAAAAAAAAAARRRRDO!” no fone de ouvido.
Até que, quase como se esperado fosse, ouvi o desgraçado do narrador mudar a frase tão repetida ao longo dos 85 minutos, para GOOOOOL, do Inter. Ah, que frasezinha safada! Preferia continuar ouvindo o danado do ”EDUAAAAAAAAAARRRRDO!”. 1 x 0 para o Internacional, aos 40 do segundo tempo. Quase joguei o MP4 num professor que parecia um urso panda vestido de paletó e gravata. Mas, me contive e não desisti de ouvir os minutos finais. O juizão deu apenas 3 minutos de acréscimos. E na última volta do ponteiro, conseguimos um escanteio. Ouço a voz do repórter de campo avisando: “Eduardo vai para área”. Sabe aquele estalo que dá, nas premonições? Sem querer, as esperanças se renovam. O coração bate mais forte. O pulso ainda pulsa. Imagino a cena. Eduardo pulando, no meio de Guinazu, Índio e Marcão. Vagner, Everaldo e Adriano se empurrando na área colorada. Que tensão! Para piorar, uma luzinha se acende no MP4, com uns dizeres: “BAT” “BAT”. Piscando. Como que tirando onda com minha cara. O córner é batido.
A bola sobe. Eduardo sobe e, de cabeça, trisca a pelota para trás. A bola sobra para Vagner. Tonto, chuta sem direção. Neste momento, um pai de um amigo de meu filho se aproxima. Vem com a mão estendida, no intuito de parabenizar e ser reciprocamente parabenizado, pela colação de grau dos respectivos rebentos. Confesso que titubeei em retribuir o cumprimento. Até porque não conseguia enxergar mais nada. Apenas imaginar a cena, que continuava a ser narrada, nas palavras do radialista. Vagner chuta de 2 dedos. A bola, sem direção, bate na barriga de um defensor colorado e……….entra no gol de Lauro. GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Do Náutico! Do Náutico! DO NÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁUTICOOOOOOOOOOOOOOOOOOO! Ainda me lembrei da promessa de não gritar. Mas não prometi pular. E sai pulando feito maluco. Sozinho, no meio de diversos pais sentados e compenetrados nos intermináveis discursos. Só então percebi que outro pai pulava comigo. Era aquele que tinha vindo me cumprimentar. Mão apertada na hora do gol, foi como se estendesse a emoção pelo condutor de energia. Quase sai correndo, para poder gritar gol, lá fora. Entretanto, pude ver minha alma sair do corpo e dar cambalhotas, na minha frente. GOLLLLLLLLLLLL, P*!! Que sufoco! Que gol! Na raça! Na vontade! Que determinação!
Passada a euforia, comecei a pensar. Zona de rebaixamento? E dai? Faltam 6 rodadas! Vamos sair dela. Ou alguém duvida? Mesmo que faltasse uma rodada, ainda assim, eu teria fé que este time não seria rebaixado. Não pelo que fez nesta quarta, em Porto Alegre. Do que fez no Morumbi, contra o São Paulo ou do Sport, na ilha. Esse time não perdeu para o Inter, no campeonato (dois empates). O Botafogo não conseguiu nos vencer (perdeu uma e empatou outra). Uma das poucas derrotas do São Paulo (apenas 5), na competição foi para o Náutico. Grêmio e Palmeiras tiveram que suar para conseguir empatar conosco, nos Aflitos. E um empate como este, em Porto Alegre, sempre é um marco. Como foi, contra o Coritiba, no Couto Pereira, em 2006 - quando arrancamos para a primeira divisão e tivemos uma serie de bons resultados, logo depois. Ou como no ano passado, contra este mesmo Internacional, quando Cristian perdeu um pênalti e empatamos o jogo perdido, com Sidny fazendo um belo gol, de fora da área. Se o Náutico vencer 3 partidas (Vitória, Atlético-PR e Cruzeiro, nos Aflitos ou Figueirense, em Floripa) chegaremos a 42 pontos. Se o Sport, com os atuais 42 não é apontado como possível rebaixado, pode-se dizer que, com o mesmo número, o timbu não tem como ir parar na segunda divisão. E, olhando os jogos dos adversários diretos, também podemos nos animar. Dá até para torcer por Santos e Fluminense. Desde que estes vençam a Portuguesa, Ipatinga e Figueirense (apenas o Flu) e o Vasco (ambos). Ver confrontos diretos entre Figueirense x Atlético-PR - além de Náutico x Atlético-PR (note-se que o furacão só tem confrontos diretos fora de casa) e Figueirense x Náutico. E torcer para que dê a lógica e as equipes em perigo, percam nos embates do Ipatinga contra o Inter (em Porto Alegre), Palmeiras (em São Paulo) e Grêmio (no Ipatingão); da Portuguesa contra o Flamengo (no Maracanã), contra o São Paulo (no Canidé) e Cruzeiro (no Mineirão); do Atlético-PR contra o Botafogo (no Engenhão); do Vasco contra o Santos (em São Januário), contra o Galo (no Mineirão), contra o São Paulo (mesmo em São Januário) e Coritiba (no Couto Pereira); E do Figueirense contra o Grêmio (no Olímpico), São Paulo (no Morumbi) e Botafogo (no engenhão).
Fácil? De jeito nenhum. Mas vai me dizer que foi fácil empatar com o Internacional em Porto Alegre? Sem Felipe, Hamilton, Derley (todos titulares) ou Tite? Foi fácil resistir a pressão do Colorado, durante 85 minutos? De jeito algum. Fácil mesmo foi torcer pelo timbu, mesmo em silêncio, com um fone de ouvido na orelha e um monte de concluintes celebrando o fim de uma etapa nas suas vidas, como se comemorassem um gol do Náutico….