Esta frase dá nome ao título deste Blog que tenho o orgulho e a honra de escrever expondo minhas opiniões todos os dias sobre minha maior paixão, mas também cai como uma luva para contar a história de um simples santista…
Eu me lembro como se fosse hoje um amiguinho dizendo: Por que você não torce para o São Paulo? Careca, Zé Teodoro, Mario Tilíco… vai meu, quer esperar até quando pra ver seu time campeão?
Refleti, confesso que refleti, mas resisti e continuei firme e forte com minha camisa número 9, do Serginho Chulapa, costurada na mão que ganhei como prêmio por passar de ano no colégio.
Meu irmão mais velho era daqueles que não entendia por que o jogador arremessava a bola com as mãos no lateral num jogo em que só pode utilizar os pés. E adivinha para qual time minha mãe torcia. Isso mesmo, o Brasil. Isso quando ela não estava na cozinha fazendo bolo de cenoura em pleno jogo da seleção da Copa do Mundo.
O meu velho amigo, alguns anos mais tarde, insistia nas perguntas: Meu, Bi-Campeão do Mundo! Telê Santana! Raí, Muller, Cerezo…
Lá se ia mais um ano letivo com sucesso e mais uma gratificação: uma camisa novinha número 9 do Paulinho McLaren. Resisti mais uma vez. Mas, poxa, agora a minha camisa do Peixe era mais moderna, número plastificado, malha quadriculada, patrocínio da Coca-Cola e tudo mais.
Contrariando todos os costumes da família, segui com minha paixão por futebol e causei discussões dentro de casa quando descobriram meu pôster de um certo centroavante com nome de carro de Fórmula 1 que ficava atrás da porta do meu quarto.
Ao anoitecer, quando minha mãe fazia questão de lembrar meu nome em voz alta para todos os vizinhos, eu arrumava um jeito de jogar futebol sobre a mesa de jantar com botões feitos de tampa de relógio.
Seu Nelson, chegou mais celulóide (as tais tampas de relógio)?
Não, garoto… ainda são 7 da manhã. A relojoaria só abre às 8 horas e você já comprou todos ontem, esqueceu?
Várias vezes, deixei de lanchar na escola para comprar jogo de botão. Abria mão de qualquer outra brincadeira para jogar ou praticar qualquer coisa relacionada a futebol. O dono daquele portão azul que morava na minha rua que diga: três dentro três fora, gol a gol, goleiro linha, gol caixote e até os contras contra as outras ruas do bairro eram disputados na porta do seu… me desculpe, mas não lembro o nome do tiozinho japonês que devia ter um acervo interminável de bolas Dente de Leite dentro de casa.
Minha camisa do Paulinho estava ficando apertada quando comprei meu primeiro jogo de botões oficiais do Peixe. Bastaram algumas partidas para nunca mais desperdiçar dinheiro com porcaria. Que graça tinha jogar com um time pronto? O bacana era confeccionar, pintar, lixar e principalmente criar, que no futuro seria minha palavra chave para virar o médio-volante do time de portuários da cidade.
Eu estava ficando doente e cada vez mais louco por um clube que me fazia sofrer de culpa quando vestia a camisa azul daquele clube que mal pagava um lanche de presunto e queijo no final dos jogos que, aliás, era a única recompensa por toda dedicação, mas que não supria a ausência do público familiar no alambrado.
Eu era daqueles que morria quando o tempo fechava por treinar em campos que mais pareciam piscina em dia de chuva, ou então aqueles que gritam pênalti quando a mãe escorrega e cai na área de serviço que, por sinal, era a única área que eu freqüentava como meio de campo dos Portuários, para ajudar a levantar minha mãe, é claro, e ver se minha camisa do Santos não estava pra lavar. Sabe como é, né? Essas camisas mais novas não podem ficar sendo lavadas toda hora porque acabam saindo o número, o distintivo, essas coisas.
A peneira do Santos Futebol Clube estava aberta, e eu não me sentia muito preparado, embora já estivesse sendo aproveitado na Portuguesa Santista e jogando não em piscinas, mas agora em campos que eram parecidos com campos de futebol apenas nas laterais e nos escanteios.
Sabia que minha carreira na Briosa não teria muito futuro, já que eu matava aulas para ir aos treinamentos à tarde e porque era mais difícil drilblar minha família do que os próprios adversários.
Passei a noite que antecedia o grande teste do Santos em claro, ou melhor, em branco e preto, pois não tirei os olhos um minuto sequer daquele centroavante alvinegro que naquela altura já devia estar no XV de Jaú, mas no papel ainda continuava lá, bem atrás da minha porta na noite mais longa de minha vida.
- Quem é centroavante aqui?
Metade da turma levantou a mão.
Quem é meio campo?
Aguardei uns minutos e como quase toda a outra metade levantou, desisti.
Quem é lateral esquerdo?
Como só havia eu e mais um garoto, levantamos juntos.
Triste ironia, além de todo o sono, tive que disputar posição contra o futuro lateral esquerdo do Corinthians, e, mesmo assim, no final da peneira, quando achava que tinha perdido o duelo, ouvi: Você quer voltar amanhã?
Voltei um, dois, três, quatro dias depois, e já podia sentir o impagável orgulho de ser jogador do Santos. Sem contrato, sem benefícios, mas era.
Eu voltava cansado pra casa todos os dias, não por correr atrás da bola, mas por carregar a enorme pressão criada por mim mesmo, uma autocobrança por um sucesso insuportável que me consumia impiedosamente.
Quando notei que a disputa seria complicada, meu antigo técnico me ofereceu uma oportunidade no Mogi Mirim, mas para isso eu precisava mudar de mala e cuia para lá e morar em alojamento. Se já era impossível convencer alguém da família para poder continuar jogando futebol, jamais me deixariam sair de casa.
Naquele mesmo dia, voltando do treino, não imaginava que aquela manhã seria minha última lembrança como atleta quando fui intimado por meu velho para começar a trabalhar no dia seguinte.
A partir daí, passei a ter uma dificuldade tremenda para acordar no mesmo horário de sempre e nem todos aqueles motores de geladeira que tinha que carregar no novo emprego, conseguiam ser mais pesados que aquela cobrança que infelizmente nunca mais iria sentir novamente.
Cresci em uma família humilde, eu sei, mas com 16 anos de idade era difícil compreender que precisava ajudar em casa para voltarmos a comer mortadela no pão. Meu sonho terminava alí e só me restava então, torcer pelo clube que inexplicavelmente amava mais que todos os meus times de botões juntos.
Com o passar dos anos, vi muitas coisas. Se não bastassem todos os anos de espera, todo o sofrimento, testemunhei meu Santos ser roubado dentro do Pacaembu numa final de campeonato. Presenciei anjos de cabeça vermelha no gramado de Paulo Machado de Carvalho reverterem uma situação que parecia perdida no jogo mais espetacular que assisti até hoje. Vi um menino magrelo de São Vicente fazer coisas com a bola que pra mim só existiam nos filmes e trechos das jogadas do maior jogador do mundo. Notei que a longa fila sem títulos estava com seus dias contados quando comecei a me sentir grande perto daqueles que torciam pra outros times. Pude zombar pela primeira vez de todos aqueles amigos são-paulinos, corintianos que sempre tentaram me provar que estava errado e passei a questionar minhas amizades. Entendi o porquê toda aquela gente chegava à Praça da Independência aos prantos, gritando, buzinando, e alguns ajoelhados como se estivessem pagando uma dívida. Compreendi o porquê deste meu amor incondicional pelo Santos Futebol Clube quando percebi que meus olhos vermelhos não suportavam mais segurar as lágrimas que demoraram mais pra cair do que aquela maldita longa fila sem títulos.
Obrigado, Pelé, obrigado, Coutinho, Zito, Clodoaldo, Mauro, Pepe, Pita, Serginho, Giovanni, Diego, Robinho, Zé Roberto e… ah… como pude esquecer… Obrigado, Paulinho.