
A prova do crime. Guina em campo, como se nada tivesse acontecido. Quem se atreve à barrá-lo? Foto: Juliano Schüler
O departamento médico bem que tentou convencê-lo do contrário. Porém, ontem Guiñazú treinou no coletivo e afirmou estar pronto para o jogo contra o Boca. Mas não o que está marcado para a Bombonera, e sim na semana que vem, no Gigante da Beira-Rio.
Mais uma prova de que Guiñazú é a tradução literal de doação. O gringo é apaixonado pelo que faz, e ficar parado - para ele - é a maior de todas as torturas.
Quem não se lembra: logo após ter deslocado o braço em um lance horripilante, ele demorou a fazer cara feia, se dirigiu - obrigado - à beira do campo e teve seu braço imobilizado. Enquanto o Dr. Poisl fazia o procedimento, Guina não tirou os olhos do jogo. Era clara e óbvia sua intenção de voltar ao jogo, com o braço deslocado e tudo.
Fenómeno.
É por isso que a torcida colorada tem especial devoção pela raça, pela doação, pela entrega total, não se importando com eventuais problemas. Aliás, para ele até a solução de problemas é rápida.
Ou alguém se esqueceu que Guina, o Mutante Colorado, jogou a final do gauchão, nos históricos 8 x 1 sobre o Juventude, com um buraco no joelho e exatamente 15 dias após passar por uma artroscopia? E jogou como sempre. Dando seus carrinhos certeiros, suas arrancadas velozes, suas chegadas firmes e decisivas.
O bom e velho Guina de sempre.
Nunca, em meus 31 anos de vida, vi nada igual à Guiñazú. Ele realmente é um fora de série. Além de jogar bem, ter habilidade - porém sem frescura - e um preparo físico sobre-humano, ele também tem um poder de recuperação impressionante.
Soube de algumas particularidades dele que alguns podem desconhecer.
Guina, após os treinos chega a fazer uma hora de esteira, para suar o que ele acredita não ter suado durante o treino, que disputa - faça calor ou faça frio - de moletom pesado, para evaporar até o tutano do osso. Incrível.
Adicione a isso ainda quando, depois de treinar e ir pra casa, ele costuma matar a vontade de correr em sua esteira particular.
Outra:
Após os jogos, os jogadores imergem seu corpo em uma banheira com gelo, para acelerar a retração dos músculos e proporcionar uma rápida recuperação e descanso. Jogadores normais ficam 10, 15 no máximo 20 minutos. Guina: 1 hora. Não é por acaso que ele é o jogador que mais se desloca em campo, fazendo uma média superior a 15 km, em um jogo.
Enfim, Guiñazú é o símbolo de raça e garra que o futebol gaúcho admira e gosta de ver. Os colorados nunca sentiram tanto orgulho de ver alguém vestindo o manto vermelho como El Cholo o faz. Ele sintetiza a ânsia do torcedor, que se pudesse vestir a camisa e sair jogando, o faria assim. Sem restrições. Se atiraria como um faminto à um prato de comida na primeira bola perdida que cruzasse a sua frente.
Justamente por isso ele é o maior ídolo atual dos colorados, que ficaram órfãos de F9. Guina ilustra o desejo mais puro do torcedor de seu time: Jogar honrando o salário monstruoso que lhe pagam.
Ele é o melhor custo benefício do mercado futebolístico mundial.
Por isso, me orgulho tanto de ver aquele careca que, no dia 3 de agosto de 2006 vi gastar a grama do Gigante, perseguindo implacavelmente Alex, Fernandão ou quem quer que vestisse vermelho, estar do nosso lado.
Naquele dia, em que estava no Gigante assistindo El Cholo na Semi-final da Libertadores, com uma camisa alvi-negra, vi muitos que, assim como eu, se impressionaram com a carrapatice daquele “carequinha que parece ter 35 anos”. Uma saúde e disposição impressionantes. Todos se olhavam e diziam: “-Taí o substituto do Tinga!”
Demorou um ano, mas ele veio. E hoje impressiona o mundo com sua garra e coragem, seu futebol de qualidade e implacável precisão.
Guiñazú é patrimônio do Internacional.
Está na história do clube.
Enfim: um ÍDOLO.
Um forte abraço aqui do Sul