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Um arraial sobrenatural

Qua, 18/06/08
por joao marcelo garcez |
categoria Gravatinha

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Convidado para uma Festa Junina em Itaipava, visto um casaco de lã, entro no carro e rumo para a Região Serrana do Rio. Apesar da forte neblina, o cenário é dos mais agradáveis: barraquinhas e músicas típicas da data compõem o local, tomado de caipiras que se esbaldavam numa quadrilha pra lá de animada e que, tudo indicava, vararia a noite toda.

Enquanto procuro pelo estande de bebidas, avisto uma enorme fogueira bem no centro do sítio. Acompanhadas de perto pelos pais, crianças divertiam-se só de ouvir os estalos de gravetos que ardiam em brasa. Uma simpática senhora de meia-idade aproxima-se e me oferece um pote de canjica. Agradeço-a pela cortesia e refastelo-me num enorme pufe situado estrategicamente ao lado do touro mecânico.

Sinto súbito e estranho cansaço e adormeço ali mesmo, apesar de todo o agito e da música a altíssimos decibéis. Mais alguns minutos e desperto da providencial cochilada. Abro o olho e tomo um susto: uma criança aparentando uns quatro anos de idade aproxima-se perigosamente da fogueira. Pulo de onde estou e corro desesperadamente em direção à jovem menininha de pele alva. Puxo-a pelo braço no momento em que uma língua de fogo queima superficialmente um de meus cotovelos. Olho para trás; a fumaça parece atingir a lua.

Quando a labareda, enfim, começa a ceder, aponto para o céu e vejo um daqueles antigos balões japonês, já sem a bucha, caindo justamente na direção da fogueira. Agarrado nele está Gravatinha. “Não é possível”, pensei. De chapéu de palha e sardas pintadas pelo rosto, comia um suculento salsichão no palito com a mão que sobrara. Em questão de segundos, volitou em minha direção.

- Viva essa energia, João!

- Estou vivendo, ora! O arraial está um barato e…

- Arraial que nada, pô! Estou falando desses dias que antecedem os grandes jogos do Fluzão na Libertadores!

- Ah, claro, claro! A adrenalina sobe só de pensar no time em campo. Emoção pura!

Gravatinha tira de seu vistoso chapéu uma faixa: “Fluminense, campeão da Copa Libertadores da América-2008”.

- Cadê a sua, João?

- Está louco! Não ganhamos absolutamente nada ainda! Nada!

- Ah, já sei! – disse em tom irônico – Você se deixou abater por esses dois últimos joguinhos do Flu no Brasileiro.

- Bem, o pessoal ficou meio chateado…

Possesso, Gravatinha berrou:

- De quantas provas mais você precisa da capacidade e poder de superação do nosso time? Quantas? Eliminamos o São Paulo e o Boca Juniors, o Boca Juniors – repetiu – Pela primeira vez em mais de quatro décadas um clube brasileiro elimina o Boca da Libertadores, acha pouco? Temos um time suficientemente maduro, que já nos deu várias provas de força e equilíbrio na competição.

- Verdade…

- Terminamos com a melhor colocação entre todos os participantes da competição na primeira fase.

- É, mas…

- Mas nada!!! Temos mesmo que assumir nossa condição de favorito. Somos o Fluminense, o centenário e glorioso Tricolor, que vem despertando paixões a cada batalha. Vamos ganhar! Vamos ganhar!

- Vamos sim! – disse, após a injeção de ânimo

- E tem mais uma coisinha…

- O quê, Gravatinha?

- Está escrito nas estrelas que no ano em que comemoramos os 50 anos do primeiro título mundial da Seleção Brasileira um clube de nosso país, até como forma de homenagem, repetirá o feito daquela máquina de jogar bola.

- Sério? Ganharemos o Mundial?

- E ai de quem duvidar – desafiou Gravatinha, antes de sumir

Volto para a festa renovado e esperançoso na conquista maior do Fluminense. Noto, porém, que a quadrilha não estava dançando… A música havia parado.

Sérios, todos os convidados viram-se para mim, parecendo fitar meus olhos. Sem entender, penso em sair de fininho. Mas logo renuncio à minha idéia. Quase que de maneira orquestrada, homens e mulheres tiraram suas roupas de caipira. Sob elas, camisas do Fluminense. Todos, sem exceção, estavam vestidos com o manto do finalista da Libertadores.

Dei a mão a eles, unindo-me numa conspiração de afeto, sobretudo pela música que, a toda, voltara a tocar:

“Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão…”.

Um balão japonês voltou a subir, misturando-se às estrelas.

“O Fluminense é a nossa vida”, dizia.

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