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A Nightmare on Maracanã Stadium

seg, 16/03/09
por joao marcelo garcez |

Bem que Francisco Horta avisou. E seu Juarez também. A estréia de Fred no Fluminense enlouqueceu e renovou os ânimos da apaixonante torcida tricolor, que desde o histórico 15 de março já tem um novo e predestinado ídolo. 

O depoimento de Horta e a previsão do pai de Fred na véspera do jogo se confirmaram no sagrado palco do Maracanã, que tem agora a sorte de ver mais um craque dos campos desfilar seu talento sobre seu gramado. 

Tais quais Rivelino, em 1975, e Romário, em 2002, Fred, mesmo sem atuar há três meses, envergou o uniforme tricolor marcando gols. Assim mesmo, no plural. E gols de puro mérito do novo e iluminado camisa 9 tricolor, que tem a virtude de saber se posicionar e de balançar a rede como poucos. No primeiro, o de empate, até lembrou o Baixinho na decisão da Copa América-1989, antecipando o goleiro após belo centro de Conca. No segundo, o terceiro do Flu, aproveitou desvio de Éverton Santos, para, com espantosa tranqüilidade, só tocar no canto direito de Darci, após bela matada no peito. 

Quando Fred fechou o caixão do Macaé, os torcedores já faziam festa e reverenciavam o novo craque tricolor. “Que torcida”, exclamou. Pelo menos quatro novas canções foram preparadas exclusivamente para o atacante – duas delas provocativas a Ronaldo e Washington, o ex-Coração Valente do Flu. A principal delas, porém, tal qual diz a letra, já pegou. “Fred vem te pegar” é o novo hit da cidade e já está na boca de todos. 

Em lua-de-mel com Fred, como ele mesmo declarou – “Rolou uma química” –, os tricolores já aguardam com ansiedade a chegada dos clássicos para ver o Krueger brasileiro afiando as facas de sua luva e aterrorizando as defesas de Botafogo, Flamengo e Vasco. “Fred vai te pegar”, repetiu a torcida inúmeras vezes. 

Registre-se também a ótima participação de Éverton Santos na partida, que se movimentou muito, abrindo espaços, e participou diretamente de dois gols: o segundo, ao chutar no travessão bola que sobrou para o lindo voleio de Thiago Neves; e o terceiro, quando só raspou de cabeça para a conclusão de Fred. 

***

Fred declarou que sequer estava conseguindo dormir de tanta ansiedade pela estréia com a camisa tricolor. Na série “A Hora do Pesadelo”, é durante o sonho dos personagens que Freddy Krueger ataca suas vítimas, que, para escapar das garras do monstro, chegam a tomar remédios para não dormir. 

Que os homens encarregados de marcar o craque daqui pra frente tomem isso como um aviso porque uma mínima cochilada durante o jogo e… Fred vai te pegar. 

***

É, mas se Fred é o novo Krueger tricolor, os laterais parecem ser nossos Brinquedos Assassinos. O boneco Chucky deve estar orgulhoso de ver como Mariano e Leandro comprometem o rendimento do Fluminense, que sem apoio pelos lados do campo fica previsível e de uma nota só. 

A impaciência com a dupla já é tanta que a mudança já é praticamente uma unanimidade. Seus reservas imediatos, porém, Ratinho e João Paulo, infelizmente, também não chegam a ser nenhum sopro de esperança. Por isso, o lançamento de QUALQUER outro jogador na posição já será de grande valia – até Ricardo Berna. Pensando bem, não é má idéia… Está lançada a campanha para Berna ser o novo lateral tricolor. 

***

Parreira não caiu de pára-quedas no futebol. Muitíssimo pelo contrário: entre cargos de preparador físico e técnico, tem décadas de experiência e vivência no esporte. Tamanha bagagem e conhecimento faz dele consultor da FIFA e freqüentador de centro de convenções modernas em todo o mundo. 

E Parreira foi cirúrgico contra o Macaé, tirando de campo justamente as peças que atravancavam o rendimento do time no primeiro tempo – Romeu, Mariano e Leandro. Em seus lugares, colocou Leandro Bomfim, que teve destacada atuação, Maicon e Marquinhos, que caíram pelas laterais fazendo os que os jogadores de ofício das posições não fizeram. 

O trio deixou mais insinuante o time do Fluminense, que contou também com a subida de produção de Conca no segundo tempo. O argentino e Thiago Neves passaram a tabelar na entrada da área do Macaé, confundindo a marcação adversária. 

***

O público de 25 mil pessoas foi, sim, decepcionante – embora três vezes maior do que o de quarta passada, contra o Volta Redonda. É compreensível também que a chuva e a indefinição em torno da escalação de Fred, que praticamente descartou sua escalação na sexta, tenha confundido a torcida, que, na dúvida, preferiu assistir ao jogo pela TV aberta. 

Sorte de quem foi, como eu, que viu de perto a emoção do craque – louva-se os simpáticos corações que mandou em retribuição para a torcida, que, desde a sua chegada, é só carinho ao jogador. 

Mas àqueles que preferiram a pipoca caseira, não faltará oportunidade para ver Fred em ação com a camisa tricolor. 

***

Das 25 mil pessoas presentes ao Maior do Mundo, uma não pagou ingresso. Era Gravatinha, que – pluft! – apareceu nas sociais quando o jogo estava ainda em seus minutos iniciais. 

Assim como os demais tricolores, Gravatinha não gostou nada do que viu no primeiro tempo. Mas foi só Parreira mexer no time e Fred deslanchar no segundo tempo para o fantasminha camarada lembrar seu pai, Nélson Rodrigues. 

“Enquanto o Fluminense foi perfeito, não fez gol nenhum. E vem a grande verdade: a obra-prima no futebol e na arte tem de ser imperfeita. A partir do momento em que o Fluminense deixou de ser tão elitista, tão Flaubert, os gols começaram a jorrar aos borbotões”. 

***

“Ufa”. Suspiro de alívio que Celso Barros deve ter dado após a estréia apoteótica de Fred e o investimento de quase R$400 mil mensais pagos ao jogador. 

*** 

Créditos das telas: Marco Gall (Krueger) e Ricardo Lima (”Fred Chegol”).

*** 

Fred, Chucky, Maicon (Meyer, do Halloween)… só faltou o Jason na tarde-noite de terror do Macaé, que de Fred, Flu e Cia quer distância por um bom tempo. 

***

“Fluminense, prazer, Fred!”

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E-mails para esta coluna: joaogarcez@yahoo.com.br 

Esta coluna é publicada duas vezes por semana (geralmente às segundas e quintas-feiras), sempre nos dias seguintes aos jogos do Fluminense.

O Réveillon do Gravatinha

seg, 29/12/08
por joao marcelo garcez |
categoria Gravatinha

reveillon-2.jpg

 

Convidado para uma festa de arromba, cujo figurino deveria ser traje passeio ou branco (fiquei com a segunda opção), tratei de levar elevada dose de alegria e boas energias para a chegada do Ano-Novo.

 

Jorge Benjor, em carne e osso, e com seu “W Brasil”, é o artista contratado para embalar a chegada de um novo tempo. No ar, um indisfarçável clima de euforia.

 

Troco o agito da festa por uma ida ao lago. Lá, sou abordado por um leitor do Blog do Flu.

 

- João, o que houve com o Gravatinha? Há muito tempo não aparece.

- É, rapaz… O baque pela perda da Libertadores foi um duro golpe para o nosso amigo.

- Águas passadas não movem moinho, João. Todos nós sobrevivemos àquilo e estamos aqui, firmes e fortes.

- Pode ser… Mas soube que o Gravatinha se sentiu responsável pelo que aconteceu.

- Por quê?

- Depois que o Thiago Neves fez o terceiro gol, de falta, sobre a LDU, ele estava certo de que sua missão seria cumprida em questão de minutos e voltou para o além.

- E daí?

- Daí que ele não contava com a chegada do Sobrenatural de Almeida.

- Ah, não!!! Jura?

- Foi aquela figura dantesca que puxou o freio de mão do Flu, impedindo o quarto gol do time. Depois, fartou-se, fazendo com que o Tricolor perdesse três penalidades na disputa final.

- Puxa vida! Posso imaginar como o Gravatinha se sentiu. Agora entendo tão longo período de reclusão.

 

Despeço-me e volto para a festa. Uma criança puxa a bainha da minha calça e faz um pedido.

 

- Tio, desenha um coração pra mim?

- Como?

- Desenha um coração pra mim? – repetiu, entregando-me um lápis de cera e um papel em branco.

- Você está perdida, menina?

- Por favor, tio! Desenhe – insistiu

 

Mesmo contrariado com aquilo, atendi ao apelo da jovem meninha e fiz a gravura.

- Não, tio! Não ficou bom. Não se parece com um coração. Por favor, desenhe de novo.

 

Refiz para ela, entregando-a.

- Pronto, é definitivo. Gostou?

- Mais ou menos, tio! Sei que pode fazer melhor.

 

Já sem paciência, procurei caprichar no desenho, aperfeiçoando suas curvas, a fim de que não houvesse mais volta.

 

- Vê agora?

- Agora sim, tio! Ficou lindo!

- Ótimo!

- Tio, você já leu “O pequeno príncipe”?

- O quê?

- Você já leu “O pequeno príncipe”?

 

Mesmo intrigado, respondi.

- Já, claro, um clássico infantil de Antoine de Saint-Exupéry. Mas por quê?

- Por nada, não, tio! – disse ela, saindo.

 

É meia-noite! Todos correm para acompanhar a queima de fogos enquanto saúdam a chegada de um novo ano. Em meio ao mar de pessoas, vejo a menininha do desenho sentada à beira do lago e com o papel na mão.

 

Aproximo-me e percebo que o reflexo do desenho na água não era igual ao que eu tinha feito a ela. O coração estava lá, no papel. Mas o reflexo…

 

Não acreditei. Esfreguei os olhos e os abri com firmeza. Estava lá, não era imaginação. O desenho do coração refletia um imenso distintivo do Fluminense na água.

 

A menininha pôs-se de pé e me deu longo abraço.

- O que está acontecendo, filhinha?

- Você é responsável por tudo aquilo que cativa.

- O quê?

- Você é responsável por tudo aquilo que cativa – repetiu.

- É… Eu???

- Não, tio! Ele – disse, apontando para o lindo e luminoso escudo tricolor.

 

Volto os olhos para a menininha e, ainda abraçada a mim, noto que ela está se transformando. Fecho os olhos e, apesar de assustado, mantenho-me firme. Olho de novo. Agora é Gravatinha quem me afaga com um fiel e caloroso abraço.

 

- Meu amigo!!!

- Feliz 2009, João!

- Pra você também, querido! Soube que andou afastado porque…

- João, João, esqueça isso – disse, cortando-me.

- Se vai lhe fazer bem…

- Em 2008, a família tricolor sonhou, festejou e encantou todo um país.

- Derrubamos gigantes, emocionamos gerações e promovemos uma festa maravilhosa na grande decisão.

- É por isso, João, que vos digo (em tom profético): em 2008, não conquistamos a América, mas conquistamos o direito de, orgulhosos, gritarmos ainda mais forte:

 

SOU TRICOLOR, EU ACREDITO!

 

***

Feliz Ano-Novo, querido leitor! A coluna pára por nove dias e retorna no próximo dia 7 (não responderei a comentários até lá). A você, o meu muito obrigado pelo carinho de sempre e pela companhia neste ano em que, juntos, vivemos tantas e tão intensas emoções.

 

Que 2009 seja um ano abençoado e de muita saúde, paz e realizações para todos nós.

 

Feliz Ano-Novo! (bis)

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Um arraial sobrenatural

qua, 18/06/08
por joao marcelo garcez |
categoria Gravatinha

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Convidado para uma Festa Junina em Itaipava, visto um casaco de lã, entro no carro e rumo para a Região Serrana do Rio. Apesar da forte neblina, o cenário é dos mais agradáveis: barraquinhas e músicas típicas da data compõem o local, tomado de caipiras que se esbaldavam numa quadrilha pra lá de animada e que, tudo indicava, vararia a noite toda.

Enquanto procuro pelo estande de bebidas, avisto uma enorme fogueira bem no centro do sítio. Acompanhadas de perto pelos pais, crianças divertiam-se só de ouvir os estalos de gravetos que ardiam em brasa. Uma simpática senhora de meia-idade aproxima-se e me oferece um pote de canjica. Agradeço-a pela cortesia e refastelo-me num enorme pufe situado estrategicamente ao lado do touro mecânico.

Sinto súbito e estranho cansaço e adormeço ali mesmo, apesar de todo o agito e da música a altíssimos decibéis. Mais alguns minutos e desperto da providencial cochilada. Abro o olho e tomo um susto: uma criança aparentando uns quatro anos de idade aproxima-se perigosamente da fogueira. Pulo de onde estou e corro desesperadamente em direção à jovem menininha de pele alva. Puxo-a pelo braço no momento em que uma língua de fogo queima superficialmente um de meus cotovelos. Olho para trás; a fumaça parece atingir a lua.

Quando a labareda, enfim, começa a ceder, aponto para o céu e vejo um daqueles antigos balões japonês, já sem a bucha, caindo justamente na direção da fogueira. Agarrado nele está Gravatinha. “Não é possível”, pensei. De chapéu de palha e sardas pintadas pelo rosto, comia um suculento salsichão no palito com a mão que sobrara. Em questão de segundos, volitou em minha direção.

- Viva essa energia, João!

- Estou vivendo, ora! O arraial está um barato e…

- Arraial que nada, pô! Estou falando desses dias que antecedem os grandes jogos do Fluzão na Libertadores!

- Ah, claro, claro! A adrenalina sobe só de pensar no time em campo. Emoção pura!

Gravatinha tira de seu vistoso chapéu uma faixa: “Fluminense, campeão da Copa Libertadores da América-2008”.

- Cadê a sua, João?

- Está louco! Não ganhamos absolutamente nada ainda! Nada!

- Ah, já sei! – disse em tom irônico – Você se deixou abater por esses dois últimos joguinhos do Flu no Brasileiro.

- Bem, o pessoal ficou meio chateado…

Possesso, Gravatinha berrou:

- De quantas provas mais você precisa da capacidade e poder de superação do nosso time? Quantas? Eliminamos o São Paulo e o Boca Juniors, o Boca Juniors – repetiu – Pela primeira vez em mais de quatro décadas um clube brasileiro elimina o Boca da Libertadores, acha pouco? Temos um time suficientemente maduro, que já nos deu várias provas de força e equilíbrio na competição.

- Verdade…

- Terminamos com a melhor colocação entre todos os participantes da competição na primeira fase.

- É, mas…

- Mas nada!!! Temos mesmo que assumir nossa condição de favorito. Somos o Fluminense, o centenário e glorioso Tricolor, que vem despertando paixões a cada batalha. Vamos ganhar! Vamos ganhar!

- Vamos sim! – disse, após a injeção de ânimo

- E tem mais uma coisinha…

- O quê, Gravatinha?

- Está escrito nas estrelas que no ano em que comemoramos os 50 anos do primeiro título mundial da Seleção Brasileira um clube de nosso país, até como forma de homenagem, repetirá o feito daquela máquina de jogar bola.

- Sério? Ganharemos o Mundial?

- E ai de quem duvidar – desafiou Gravatinha, antes de sumir

Volto para a festa renovado e esperançoso na conquista maior do Fluminense. Noto, porém, que a quadrilha não estava dançando… A música havia parado.

Sérios, todos os convidados viram-se para mim, parecendo fitar meus olhos. Sem entender, penso em sair de fininho. Mas logo renuncio à minha idéia. Quase que de maneira orquestrada, homens e mulheres tiraram suas roupas de caipira. Sob elas, camisas do Fluminense. Todos, sem exceção, estavam vestidos com o manto do finalista da Libertadores.

Dei a mão a eles, unindo-me numa conspiração de afeto, sobretudo pela música que, a toda, voltara a tocar:

“Sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão…”.

Um balão japonês voltou a subir, misturando-se às estrelas.

“O Fluminense é a nossa vida”, dizia.

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Conto de Natal

seg, 24/12/07
por joao marcelo garcez |
categoria Extras, Gravatinha

Aproveitando a proximidade das festas de fim de ano, resolvo caminhar no aprazível Parque dos Patins, Zona Sul do Rio de Janeiro. Uma atmosfera agradável e harmônica podia ser facilmente sentida pelas sorridentes pessoas que passeavam no local. O clima natalino, mais uma vez, havia atingido em cheio o coração dos cariocas, sempre orgulhosos de sua cidade, apesar de seus graves problemas que neste espaço não nos cabe enumerar.

Uma brisa fresca bate em meu rosto enquanto ouço músicas populares brasileiras, tocadas, ao vivo, em alguns dos quiosques que compõem o aconchegante lugar. Crianças vêm e vão sobre bicicletas, triciclos… Casais passeiam de mãos dadas, felizes e emocionados com a energia contagiante do parque.

Em meio a tudo isso, encontro uma criaturinha choramingando. Era Gravatinha. Sentado no deque, parecia contemplar a deslumbrante árvore de Natal da Lagoa Rodrigo de Freitas. Devagar, aproximo-me e peço licença. Não queria incomodá-lo.

- Posso me sentar, amigo?
- Claro, João! – respondeu-me, enxugando as lágrimas.
- Gostaria de saber o motivo de tanta tristeza.
- Tristeza? Estou chorando é de alegria.
- Ah! Que bom, então! – disse, aliviado
- Olhe que cenário lindo, João! – disse, apontando para a árvore e para todas as belezas naturais que a cercam
- É mesmo uma pintura, Gravatinha! Chego a ficar tonto com tanta maravilha reunida.

Uma estrela cadente cruza como um raio o paradisíaco céu de brigadeiro.

- Mas deve haver mais algum motivo para tanta felicidade, não? – eu quis saber.
- Sim, sim! Claro… É o Fluminense.
- O que tem o Fluminense?
- João, o Flu é lindo. É a razão de minha existência. Ser tricolor é atingir o mais elevado estágio da alma.
- Que declaração bonita, Gravatinha!
- E 2008 vem aí…
- E o que você espera dele?
- Mais um ano mágico. A exemplo deste, em que conquistamos um título inédito, quero ver o Fluminense brilhar novamente. Só que internacionalmente.
- Você acha mesmo que dá, amigo?
- Você vai ver, João! O Fluzão vai chegar junto, vai fazer bonito… A festa que fizemos no Santos Dumont e no Aterro do Flamengo terá sido apenas uma prévia do que acontecerá em julho. O Brasil vai se encantar com este novo Flu.
- Washington e Dodô já chegaram…
- E vem mais gente boa por aí. Pode esperar. Prepare seu coração, João!
- Se você está dizendo…

Estranhamente, neste momento, Gravatinha levanta-se e, sem dar mais nenhuma palavra, mergulha na Lagoa. Não volta à tona. Assustados com meu desespero, muitos correram em direção ao deque para saber o que havia acontecido. Quando salva-vidas já se preparavam para um possível resgate, todo o Parque dos Patins se viu enfeitiçado. Olhos vidrados, bocas abertas, batimentos cardíacos acelerados… Um fenômeno ocorria diante de uma incrédula multidão.

A árvore acabara de ser envolta por uma fumaça branca, fazendo um jogo de luzes estonteante. Com seus filhos no colo, pais chegaram a ensaiar uma corrida, pensando tratar-se de algum fenômeno paranormal. Logo, porém, foram demovidos da idéia. Ao voltarem os olhares para a árvore, viram feixes começarem a se lançar ao céu.

- Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh –  exclamaram, em uníssono

Ao lado do Bom Velhinho, Gravatinha saíra de dentro d´água, atravessando um dos tubos em direção ao infinito. Passaria a noite de Natal distribuindo presentes em todo o mundo. E quando se imaginava que nada mais aconteceria, o mascotinho pulou do trenó, caindo na cauda de um cometa a dois mil por hora. Desistira da sagrada missão para atender a um pedido de seu coração.

Em poucas horas, estava muito longe do Brasil, onde Nelson Rodrigues, com a camisa 10 de Rivellino, o esperava para a santa ceia.

Comovidos, abraçaram-se e, à meia-noite, brindaram o nascimento de Jesus.

- Feliz Natal, pai!
- Que Deus te ilumine, Gravatinha!

Já era tarde quando foram dormir. No dia seguinte, ao pé da árvore particular que Nelson havia montado, encontraram uma carta. Gravatinha não se continha de tanta ansiedade.

Ao tirá-la de um dos sapatinhos que deixara como adereço, Nelson percebeu que a cartolina estava colada com o distintivo do seu Tricolor. Com cuidado, soltou-o antes de ler o conteúdo da missiva.

“Fluminense, bem-vindo a Yokohama-2008!”

Felizes, se preparavam para estourar um champanhe quando ouviram uma risada grave. Parecia longe, muito longe… Correram à janela e, apesar de nada terem visto, escutaram ainda pela última vez:

- Ho, ho, ho!

***
Tricolor ilustre, o carnavalesco Franco Lattari fez a sua passagem na última semana. Sambista e muito amigo de Arlindo Cruz, Franco, ao lado de Jorge Aragão, é autor do tema da Globeleza e dos dois sambas-enredos mais famosos da União da Ilha – Festa profana e De bar em bar, Didi, um poeta.

O Fluminense perde um grande e apaixonado torcedor: Franco Lattari escrevia uma letra inédita do seu clube de coração. Não chegou a terminar. Mas terá tempo de apresentá-la a Nelson e Gravatinha, que o receberam com imenso carinho e com quem passará a noite de Natal.

O Carnaval e o Fluminense te agradecem por tamanha devoção, Franco!

***
Chave do Flu na Libertadores? Apresentação de Washington e Dodô? Calma, tricolor! Janeiro está aí! E, pelo visto, assuntos palpitantes não faltarão.

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Feliz Natal, amigo leitor! Que você e todos os seus entes queridos tenham uma noite iluminada, com muito amor, paz e harmonia.

E se você anda lá chateado com alguma coisa, este é o momento de esquecer: confraternize a data com seus familiares de coração e espírito abertos, tendo a certeza da fundamental importância que eles têm em sua vida.

É tempo de refletir.

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Penta é o Flu

dom, 11/11/07
por joao marcelo garcez |

Desde a definição do título brasileiro, o noticiário esportivo do país vem sendo tomado pela polêmica em torno de quem verdadeiramente é o primeiro pentacampeão da história. Respondo-lhes, sem titubeios: nem Flamengo, nem São Paulo. O primeiro clube cinco vezes campeão brasileiro chama-se Fluminense Football Club.

Não, não padeço de esquizofrenia ou coisa parecida. O Flu é, desde os anos 80, o detentor desta marca. Afinal, ao bater o Juventus na decisão da Copa São Paulo de 1989 (gol de Silvio), o Tricolor levantou pela quinta vez o troféu de campeão brasileiro de juniores, sagrando-se o primeiro e então único pentacampeão do país. E não me venham com lamúrias ou declarações contrárias: na falta de uma competição organizada pela CBF para a categoria, a Copa São Paulo é, desde 1971, o campeonato brasileiro de juniores (em 1969 e 1970, apenas equipes paulistas integravam-na).

Além da conquista de 1989, o Fluminense triunfou ainda em 1971, 1973, 1977 e 1986. Títulos incontestáveis que fazem do clube uma força nacional – e internacional, como na conquista do Mundial Interclubes-2005 (categoria júnior), após virar para cima do Boca Juniors (ARG) na semifinal e bater o Espanyol (ESP) na grande decisão.

Encerrada a questão, flamenguistas e são-paulinos podem agora relaxar e refrescar a cuca. Mas se ainda assim quiserem continuar se degladiando, disputarão, no máximo, o posto de SEGUNDO pentacampeão brasileiro.

E é isso: todo mundo tenta, o Fla lamenta (o São Paulo também), mas o Flu é o primeiro penta.

***
Toca o telefone e do outro lado está o Gravatinha. Já em São Paulo, o fantasminha se diz pronto para o jogo contra o Palmeiras.

““João, quarta estarei no Parque Antártica para testemunhar o triunfo tricolor nesta revanche histórica contra o Porco””.

Pergunto a que exatamente se refere e Gravatinha se enfeza. ““Ora! Há dois anos estou com ele engasgado na garganta. Estávamos com a classificação à Libertadores praticamente assegurada e fizemos o papelão de perder os cinco últimos jogos do Brasileirão, sendo o derradeiro contra o Palmeiras””.

“”É verdade! Chegamos a estar vencendo por 2 a 1 a 20 minutos do fim e entregamos o ouro”, lamentei, fazendo, porém, uma ressalva. “Mas sua bronca deveria ser com o próprio Flu, Gravatinha! Foi ele que não teve a competência de não somar míseros três pontos em 15 disputados””.

““Pode ser! Mas o jogo que ficou marcado negativamente em nossas memórias foi este, em que vimos nossa vaga ir embora ao apito final do Héber Roberto Lopes, que, vergonhosamente, deu menos de dois minutos de acréscimo naquele conturbado segundo tempo. Por isso que agora quero que provem do mesmo veneno””.

“Lembro-o que um triunfo contra o Palmeiras ajudará o Flamengo, que também está na briga por uma das vagas à Libertadores”.

““Sei disso, João! Como rival, posso até torcer pelo insucesso rubro-negro. Mas não posso deixar de pensar também sob o aspecto promocional: um Fla-Flu na Libertadores seria maravilhoso para ambos, que se projetariam em níveis estratosféricos ao fazerem do maior clássico do país um evento de âmbito internacional. Mais: o Maracanã sediaria dois jogos ímpares de sua história e, claro, testemunharia mais um triunfo tricolor sobre seu maior rival, fato mais que costumeiro nas decisões entre eles’”.

““Você está certo, Gravatinha!”, apoiei. “Vamos pra cima do Palmeiras! Doa a quem doer e beneficie a quem beneficiar! Temos que fazer o nosso””.

E desliguei o celular.

***
Em tempo: se o Flamengo conseguir mesmo sua vaga à Libertadores, juntando-se ao Flu na disputa da edição de 2008, uma injustiça histórica estará sendo reparada. Em 1993, a dupla Fla-Flu já deveria ter integrado aquela competição. É que o Rubro-Negro conquistou o Campeonato Brasileiro daquele ano, e o Fluminense foi o “campeão” da Copa do Brasil.

Um tal paulista despeitado, porém, não quis ver o clássico carioca na maior competição das Américas. José Aparecido de Oliveira literalmente inventou um pênalti para o Internacional a três minutos do fim da decisão, tirando o troféu da mão do Fluminense – e, por tabela, a vaga na Libertadores -, entregando-o de bandeja ao time gaúcho.

Não foi à toa que, na volta pra casa, Zé Aparecido foi expulso do avião em que viajaria. É que, pra sua infelicidade, lá estava a delegação tricolor, que, revoltadíssima, cuspiu marimbondos pra cima do “árbitro”. O lateral-esquerdo Lira, um dos mais inconformados, chegou a desferir um soco na cabeça de Zé Aparecido, como me contou o próprio treinador tricolor à época, Sérgio Cosme.

***
Pintou o camisa 9 da Libertadores: Washington é o cara!

Dá-lhe, Coração de Leão!

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Gravatinha e a lâmpada maravilhosa

qua, 17/10/07
por joao marcelo garcez |

Caminho pela praia e encontro Gravatinha trajando uma indumentária característica de um antigo conto infantil. Sentindo-se o próprio gênio da lâmpada maravilhosa, o bravo Gravata (perdoem-me, mas já tenho intimidade com a figura), de maneira petulante, contrariou a ordem natural das coisas e disse que faria três pedidos a mim. Sereno, embarquei na loucura do GG (gênio genérico) e deixei que os fizesse.

“”Não é nada muito complicado, não, João”” – disse, amansando-se – ““Como estou dentro desta lâmpada (na verdade, um velho pneu abandonado), perdi parte de minhas forças e lembranças””.

““E o que eu tenho com isso?””, desdenhei.

““Ora, não seja rude. Empresto meu nome à sua coluna e exijo que você me retribua por esta honraria que lhe concedo””, falou, num golpe de “humildade”.

Rindo por dentro mas mantendo a seriedade, marquei território. “”Pois então diga rápido que hoje quem não tem tempo a perder sou eu””.

““Ok, vamos lá: estou fazendo uma pesquisa sobre nosso próximo adversário, o Goiás, e gostaria que você me citasse três jogos inesquecíveis do nosso Flu contra o time do técnico Márcio Araújo”.

““Isso é mole, companheiro: o mais decisivo aconteceu na penúltima rodada do primeiro turno do Brasileirão-95, quando, jogando nas Laranjeiras, vencemos no sufoco com um gol de pênalti nos minutos finais, resultado que deixou o Flu na boa para garantir sua classificação às semifinais em partida contra o Atlético-MG no Mineirão””.

“”Eu lembro, eu lembro. Quando o lateral Ronald partiu pra cobrança, o atacante Renato Gaúcho, de tão nervoso, chegou a ficar de costas para o lance””, complementou Gravatinha.

“”Exatamente. E cinco anos depois, quando fazíamos uma brilhante temporada na fase classificatória da Copa João Havelange, etapa em que terminaríamos na vice-liderança, ao lado do Sport-PE, demos uma bobeada histórica no Serra Dourada, deixando escapar uma vitória que parecia certa””.

“”Como foi?””, quis saber.

“”Ora, vencíamos por 3 a 1 até os 44 minutos do segundo tempo e conseguimos a “proeza” de levar dois gols de Dill nos acréscimos, sendo o último de bicicleta””.

““É mesmo””, recordou, ““E este resultado acabou interferindo no rumo do Flu na competição, que, com dois pontos a mais, enfrentaria o Remo (PA) nas oitavas-de-final, e não o São Caetano, que acabou nos eliminando num Maraca abarrotado de tricolores””, lamentou.

“”Mas o Flu daria o troco em 2005, quando o craque Petkovic, literalmente no último lance da partida, chutou cruzado e estufou a rede de Harley (2 a 1), jogando por terra uma longa invencibilidade do Goiás contra o Fluminense em seu estádio. Inesquecível!””.

““Verdade, o Flu fez partidas memoráveis naquela temporada””, ratificou o mascotinho.

Saciado o seu desejo, foi a minha vez de perguntar a ele se arriscaria um palpite para o jogo de sábado.

“”Aposto no Flu, claro! Mas não será fácil, estaremos desfalcados de nosso camisa 10″”.

Lembro que também não teremos Somália, e sou imediatamente interrompido.

““Sou mais Adriano Magrão””.

Sinal dos tempos.

***
Poderia discorrer linhas e linhas a respeito da pesquisa sobre as maiores torcidas do país divulgada esta semana. Mas não é séria.

Ou vão querer nos convencer de que aqueles 9 milhões de tricolores levantados em outra pesquisa na década de 90 viraram a casaca?

***
Depois do bandeiraço, a galera tricolor quer agora retomar o velho hábito de tacar talco na entrada do time em campo, para fazer valer o apelido de pó-de-arroz, como é conhecida em todo o Brasil. É o caso do internauta Thiago Rachid, que pede um consenso com a Polícia Militar.

““João, assim como no espetáculo das bandeiras, estamos querendo voltar agora com a velha e tradicional festa do pó-de-arroz, embora saibamos da probição por parte da PM para que ela ocorra. Penso que deveríamos entrar num acordo com aquela corporação, a fim de fazermos valer uma festa que sempre existiu em jogos do Flu no Maracanã””.

E que festa, né, Thiago!

***
A você, amigo leitor, que já está habituado a ver postadas aqui minhas colunas sempre na manhã seguinte aos jogos do Flu ou, na falta deles, às quartas ou quintas-feiras, comunico que, por motivos particulares, o próximo texto só estará no ar na manhã de segunda-feira, apesar do Tricolor enfrentar o Goiás no sábado.

Até lá.

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A nostálgica viagem de Horta

dom, 02/09/07
por joao marcelo garcez |

Recebo, orgulhoso, e-mail do presidente eterno do Fluminense, Francisco Horta, um dos mais competentes e ousados dirigentes da história do futebol. No texto, Horta, referindo-se à coluna que escrevi em homenagem ao aniversário de Nélson Rodrigues, “Ao mestre, com carinho”, diz ter feito uma viagem no túnel do tempo, lembrando, saudoso, da Máquina Tricolor, liderada pelo craque Rivelino. Fala, presidente!

“”Prezado João Marcelo Garcez, sua bela crônica sobre o papa tricolor, Nélson Rodrigues, comovou-me, fazendo com que eu voltasse no tempo para relembrar a época da Máquina Tricolor, período em que tive o prazer de conviver com ele, o maior dramaturgo brasileiro e o melhor cronista esportivo do país. Que falta faz o imortal Nélson Rodrigues! Saudações tricolores!””.

Em tempo: peguei carona no cometa de Francisco Horta e, por saber que não veria nada parecido no Fluminense e Vasco do último domingo, fui parar em 1975 para assistir ao mesmo clássico, só que válido pelo Estadual daquele ano. Nas tribunas do Maracanã, fui recepcionado pelo próprio Horta, que estava acompanhado de Nélson e do impagável Gravatinha.

Engasgado com a fumaça do cigarro do cronista, preferi sentar-me entre o presidente e Gravatinha, que, ao apito inicial do árbitro, soprou-me no ouvido: ““Prepare-se: o show vai começar!””. E ele tinha razão. O time do Fluminense dava gosto de ver, um verdadeiro colírio para meus olhos, que custaram a crer no magistral elástico de Rivelino no zagueiro Alcir Portela, do Vasco. Na seqüência do lance, o craque ainda passou entre dois defensores, antes de tocar na saída do arqueiro Andrada.

De tirar o fôlego!

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Nota: após o jogo, Gravatinha lembrou-me que eu deveria retornar a 2007 rapidamente a tempo de assistir ao Flu x Vasco do último domingo.

Gelei da cabeça aos pés.

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Mas até que não doeu. Se esteve longe de praticar um futebol parecido com o da Máquina Tricolor, o time do Fluminense pelo menos jogou com disposição, criando algumas boas jogadas de ataque, sobretudo no segundo tempo, o que só reforça aquela teoria de que o time atua bem apenas em uma das etapas.

A subida de produção deveu-se, sobretudo, à anulação de Perdigão e Conca, que, por diversas vezes, ligaram os homens de frente do Vasco no primeiro tempo. O lateral-esquerdo Júnior César também esteve bem. A bola que cruzou na cabeça de Somália, após a bonita gingada que deu no lateral adversário, foi digna de aplausos. O mesmo não se pode dizer de Rafael: pelas suas costas, o time cruzmaltino deitou e rolou durante os primeiros 45 minutos.

Thiago Neves não chegou a brilhar, mas foi mais uma vez decisivo ao fazer a jogada do gol, em que chegou à linha de fundo e cruzou com precisão na cabeça de Cícero, que está tomando gosto por fazer gols em clássicos cariocas.

Somália mais uma vez passou em branco: o gol que perdeu de cabeça na cara de Silvio Luiz é imperdoável. Acho melhor ele deixar aquela dançinha de lado e tratar de botar a bola pra dentro. Já Alex Dias, desta vez, não entrou bem, mas, ainda assim, tem vaga garantida no atual ataque tricolor.

No fim, o Flu saiu de campo com um empate e um grande reforço para o jogo contra o Sport, a suspensão do cabeça-de-área Fabinho.

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Se somássemos os pontos que já perdemos com erros de arbitragem e com as falhas de Fernando Henrique, já teríamos sido campeões brasileiro há séculos.

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Os torcedores a analistas que ficaram impressionados com a seqüência de empates entre Flamengo e Botafogo (cinco consecutivos) não devem ter notado o fenômeno que vem acontecendo no clássico Fluminense x Vasco: pela segunda temporada consecutiva (seis jogos), os arqui-rivais não sabem o que é vencer jogos entre eles. E mais: o empate em 1 a 1 se repetiu pela quarta vez seguida neste confronto em partidas válidas pelo Campeonato Brasileiro. Incrível!

Vitórias de um sobre o outro têm sido artigo raro: a última vez que triunfaram foi no Campeonato Brasileiro de 2005, quando o Fluminense venceu por 3 a 2 no turno; e o Vasco por 2 a 0 no returno. Nenhum deles, porém, aconteceu no Maracanã, à época fechado para reformas. Assim, Volta Redonda e São Januário foram, respectivamente, os palcos da última vez em que somaram três pontos neste duelo.

Pior para o Maracanã, que não testemunha uma vitória tricolor sobre o time cruzmaltino desde o turno do Brasileirão-2004 (1 a 0) e um triunfo do Vasco contra o Flu desde a Taça Rio (2º turno) do Estadual-2005 (2 a 1).

A última grande “decisão” entre Flu e Vasco no Mário Filho aconteceu pela fase semifinal daquela mesma Taça Rio: o jogo terminou empatado em 1 a 1 (mais uma vez), mas o Flu levou a melhor na decisão por pênaltis: 8 a 7. O lateral-direito Gabriel, que está de volta, fez o gol tricolor na partida.

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Como não poderia deixar de ser, torcedores tricolores comemoraram com entusiasmo a goleada do Flu sobre o Internacional na última quinta-feira. Alguns internautas, porém, disseram que exagerei na dose, ao dizer que o time jogou um partidaço, que goleou o campeão mundial sem que este estivesse com os atletas que efetivamente levantaram a taça…

Bom, devagar com o andor que o santo é de barro. Primeiro: mesmo que o Internacional tivesse atuado com o time infantil, ainda assim teríamos vencido o campeão mundial. O título pertence ao clube, e não somente aos jogadores que o conquistaram. Segundo: não escrevi em lugar algum que o Flu deu show de bola ou coisa parecida, apenas me senti no direito de comemorar uma boa vitória do meu time, que mal tem?

Pensemos: se reclamarmos nas derrotas e pensarmos que as vitórias apenas mascaram a realidade do time, passaremos o ano queixosos, abrindo mão de vibrarmos com os triunfos do nosso clube de coração, objetivo maior do futebol. Aliás, não fosse a paixão clubística, sequer estaríamos aqui discutindo este assunto.

O Flu hoje tem um bom time? Não. Mas isso não quer dizer que vou deixar de prestigiá-lo ou de comemorar sempre que ele sair de campo com os três pontos. Queremos reforços, sim. Mas antes disso, queremos sempre vitórias tricolores no gramado.

Aproveito a ocasião, então, para agradecê-los pelos inúmeros comentários (elogiosos ou não) e manifestações de carinho que tenho recebido durante todo esse tempo. Só lamento, volto a repetir, que alguns não deixem o nome ou endereço eletrônico para que eu os responda.

Anônimos ou não, esta constante interação entre nós tem sido ferramenta das mais preciosas para fazermos deste espaço um fórum de discussão do nosso querido Fluminense.

Por isso tudo, muito obrigado a você!

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Ao mestre, com carinho

dom, 26/08/07
por joao marcelo garcez |

Imagino que o amigo pense que estou ficando maluco ou coisa parecida. Afinal, o que justificaria um título como este acima após a barbárie acontecida no último sábado no Maracanã? Explico: é que passei a semana inteira torcendo por uma vitória do Fluminense – e, conseqüentemente, pelo começo de sua arrancada na competição – para homenagear o mais ilustre de todos os tricolores, o mestre Nélson Rodrigues, que no último dia 23 completaria 95 anos de vida, estivesse ainda entre nós. ““A única coisa que dura para além da vida e da morte é o amor””, escreveu numa de suas inúmeras obras.

E é justamente em respeito a esse amor fervoroso de Nélson por este histórico e maravilhoso clube chamado Fluminense Football Club – “”Sou tricolor, sempre fui tricolor. Eu diria que já era Fluminense em vidas passadas, antes, muito antes da presente encarnação”” – que decidi manter o título da coluna exatamente como tinha planejado. A incompetência dos senhores Paulo César Oliveira (SP) e Edmílson Corona (SP) não haveria de mudar o rumo desta justa e merecida homenagem ao maior cronista esportivo do Brasil.

Aliás, ainda que sem saber, esta dupla de sopradores de apito talvez tivesse dado o molho necessário à crônica que Nélson escreveria sobre este embate de tricolores. Afinal, para o dramaturgo, ““o futebol vive de seus instantes dramáticos, e um jogo só adquire grandeza quando oferece uma teatralidade autêntica””. E dramaticidade foi o que não faltou a este Fluminense x Grêmio, assistido por aproximadamente 17 mil apaixonados tricolores. O clímax do clássico aconteceu nos instantes finais quando Marcel, com as mãos, tirou a bola que estava sob controle de Fernando Henrique, desestabilizando-o. Na seqüência do lance, Patrício só teve o trabalho de tocar para o gol vazio, empatando a partida. Já em casa, vi e revi o lance, mas, de que adianta?, ““o videoteipe é burro””.

Nélson Rodrigues, fatalmente, atribuiria o gol de empate do time gaúcho à presença do Sobrenatural de Almeida, magnífico personagem criado pelo cronista para justificar insucessos do Fluminense e outros fatos pitorescos em campo, definição da qual, tenho certeza, o dramaturgo radicalmente discordaria. ““O Sobrenatural de Almeida, torpe indivíduo, não é recurso estilístico; é uma sólida realidade””.

Mas daqui do meu cantinho, com perdão de Nélson, atribuo o erro à falta de capacidade técnica do juiz e de seu auxiliar, que, acreditem, teve a cara de pau de debochar dos jogadores do Fluminense que reclamavam com ele ao fim da partida.

O momento, porém, é de veneração ao gênio. Por isso, ainda para ilustrar o lance capital deste jogo válido pela 21ª rodada do Campeonato Brasileiro, cito trecho de texto de Nélson publicado em 1959. ““Um bandeirinha decidiu o jogo e com que tranqüila e arrepiante desenvoltura””. O nome da crônica? “”O bandeirinha artilheiro””. E aí? Cai ou não como uma luva para o senhor Edmílson Corona, que, pressionado, validou o gol em que vira a infração clamorosa?

Erros da arbitragem, seca de vitórias, zona intermediária na tabela… coisas miúdas, detalhes bem pequenos que em nada afetarão a história deste clube que, só por ter Nélson como torcedor, se coloca em patamar superior ao de todos os outros. ““Tudo pode passar, só o Tricolor não passará, jamais””.

Fique com Deus aí, mestre!

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Virou lugar-comum o Fluminense jogar bem apenas um tempo de suas partidas. Contra o Grêmio, foi no segundo. Por isso, você já sabe: se nesta quarta-feira você chegar em casa durante o intervalo do confronto com o Internacional, ouça os comentários. Se o Flu tiver atuado mal, prepare-se: o jogo vai começar. Mas se tiver ido bem, recomendo a você uma boa noite de sono.

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Com atuação apenas regular, Alex Dias voltou ao time do Fluminense. Não dá mesmo para exigir muita coisa de um jogador que ficou 50 dias inativo. Mas, Alex, custava ter colocado pra dentro aquela bola que sobrou nos seus pés praticamente na altura da marca do pênalti?

Inatividade não é desculpa para falta de precisão. Se fosse assim, Ronaldo, que praticamente remontou o joelho, teria desempenho pífio na Copa de 2002, mundial em que terminou como artilheiro, com oito gols.

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Disse na última coluna que toda grande fase tem um ponto de partida. E ela, de fato, poderia ter-se iniciado ontem. Vamos combinar o seguinte? Façamos de conta de que o Flu venceu mesmo (é, afinal desta vez o time foi garfado escandalosamente –mais uma vez). Vitórias contra Internacional e Vasco, portanto, confirmam a curva ascendente do Tricolor, combinado?

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Falando nisso, a galera tricolor pareceu ter entendido o recado: os 12 mil pagantes e 17 mil presentes ao Maracanã deram a exata dimensão da pujança da torcida do Fluminense. Ora, qual outro clube situado em faixa intermediária da tabela, sem mais qualquer pretensão no campeonato (uma vez que, através da Copa do Brasil, já garantiu sua vaga à Libertadores), levaria tanta gente ao estádio? E antes que alguém se apresse em dizer que o Flamengo vem colocando público maior, lembro que, neste momento, o Rubro-Negro se encontra na perigosa zona do rebaixamento, o que justifica o “empurrão” que a torcida vem dando à sua equipe.

Agora, quase 20 mil para um “amistoso” sábado à noite, só mesmo para nós, que torcemos por um clube que “”nasceu com a vocação da eternidade””.

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A constante citação de Gravatinha neste espaço (que dá, inclusive, nome a este blog) é a forma que encontro de manter vivo em nosso imaginário o folclórico personagem criado por Nélson Rodrigues. Não há de minha parte (nem ousaria a tamanha bobagem) qualquer pretensão de “ser” Nélson ou imitar o “jeito Nélson de escrever”.

Deixo claro que sou João Marcelo Garcez, jornalista e publicitário fã incondicional deste que, para mim, foi o maior de todos dentro do que se propôs a fazer. Pura e simplesmente, entendo que trazer de volta Gravatinha (homenageando Nélson Rodrigues por tabela) proporciona a uma legião de torcedores não-contemporâneos ao cronista a oportunidade de conhecer este carismático personagem, que tanto cativou os corações de leitores do gênio.

Sobretudo, os tricolores.

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Quer dizer que o presidente da Comissão Nacional de Arbitragem, Sérgio Corrêa, disse que o árbitro Paulo César Oliveira acertou ao validar o gol? Está explicado o terrível momento que a arbitragem brasileira vive hoje.

“”Assim é o ser humano: na hora do palpite errado, não lhe ocorre uma vaga dúvida metafísica””.

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Os Fla-Flus de Gravatinha

dom, 12/08/07
por joao marcelo garcez |

A fim de fazer a apresentação de nova edição do Clássico das Multidões, pedi licença ao mestre Nélson Rodrigues para mais uma vez contar com a valorosa contribuição do nosso bravo e estimado Gravatinha. Sem deixar de lado seu inconfundível ar de superioridade, já chegou ao encontro dizendo não poder se demorar. Cartola à cabeça, charuto aceso, refastelou-se no sofá para a rápida entrevista.

““Diga lá o que queres, João. Não tenho tempo a perder, estou agendando uma ida à sede da Conmebol para acompanhar o sorteio que definirá os grupos da Libertadores””. Lembro a ele que o evento só acontecerá em dezembro e que muita água ainda passará por debaixo da ponte até lá. Sem mover um único músculo facial, Gravatinha ignorou meu lembrete, mostrando-se impaciente com a demora da pergunta.

“”Seguinte, amigo” – introduzi – ““Das tribunas do Maracanã, ao lado de seu criador, você assistiu aos mais fantásticos Fla-Flus da história deste clássico. Imagino que tenha muita coisa guardada em seu baú de memórias para nos contar””.

Ranzinza como só ele, o mascotinho apagou o charuto e, pondo-se de pé, queixou-se. “”Acho que você não entendeu. Disse que tenho pressa. Vê lá se vou passar o dia aqui contando causos. Faça uma única pergunta porque já é tarde””.

Resolvi, então, fazer o jogo do problemático entrevistado e pedi a ele que apenas destacasse um aspecto curioso dos Fla-Flus.

“”Ok, tome nota aí de um dado bastante interessante”, respondeu, finalmente. “Neste século XXI, todas as vezes em que não conquistou o Campeonato Estadual, o Flamengo foi eliminado pelo Fluminense com goleadas acachapantes. “Foi assim em 2002, quando tentava um inédito tetracampeonato, e perdeu de 4 a 1 no octogonal; novamente no ano seguinte, quando foi derrotado por 4 a 0 na segunda partida da fase semifinal; e, por fim, em 2005, quando conquistamos o 30º título estadual de nossa história. Naquele ano, levantamos a Taça Rio (2º turno da competição) com um triunfo histórico sobre nosso adversário: 4 a 1, jogo que marcou a despedida de Zinho com a camisa rubro-negra”, concluiu, citando 2006 como exceção, ano em que nem Flamengo nem Fluminense chegaram à decisão do Estadual”.

Perguntado ainda sobre quem vencerá o clássico desta quinta-feira, Gravatinha recorreu novamente às estatísticas. “”Vai dar Flu, é claro. Afinal, nos últimos dez confrontos entre eles, o Flamengo venceu mísero um””.

“”E você vai ao jogo?””, arrisquei uma última pergunta. ““Claro, o Fla-Flu é mágico, tem luz própria, independe das posições dos times na tabela””, elogiou o profetinha, despedindo-se.

Com as vitórias da dupla Fla-Flu contra Náutico e Santos, além de todo o misticismo que cerca este clássico, como disse Gravatinha, Flamengo e Fluminense deverão fazer mesmo um jogão nesta quinta-feira.

Vai sair faísca.

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Os papais tricolores de todo o Brasil tiveram um domingo mais feliz com a boa vitória do Fluminense por 3 a 0 no Maracanã, jogo válido pela 19ª rodada (última) do turno do Brasileirão. O Santos, como de hábito, não foi páreo para o Tricolor no Rio de Janeiro, que não sabe o que é perder para o time paulista na Cidade Maravilhosa desde 1993 em partidas por esta competição.

De 2000 para cá, Fluminense e Santos já se enfrentaram seis vezes no Maracanã pelo Campeonato Brasileiro. À exceção de 2002, quando empataram em 1 a 1, o Tricolor venceu todos esses confrontos. Até mesmo quando foi rebaixado para a Série B em 97, o Tricolor bateu o Peixe por 1 a 0, com um gol de Roni, hoje no Cruzeiro. Em tempo: o Flu também ganhou em 2005 (4 a 3), mas, com o Maracanã fechado para reformas, o jogo teve que ser realizado em Volta Redonda (RJ).

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E já que a coluna está para as estatísticas, vejam mais estes dados curiosos. Apenas dois placares foram registrados nos seis triunfos do Fluminense neste Brasileirão: 3 a 0 (contra Internacional, Sport, Goiás e Santos) e 1 a 0 (contra América-RN e São Paulo). Coincidentemente, todas as goleadas aconteceram com o Flu como mandante, e as vitórias magras como visitante.

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Definitivamente, Luiz Alberto adora marcar gols a favor do Flu em jogos contra o Santos. Nas duas partidas entre esses clubes no Brasileirão do ano passado, o zagueiro, então no Santos, marcou dois gols contra no empate (1 a 1) e na derrota (1 a 0) de seu ex-clube. No último domingo, voltou a marcar contra o Santos, só que desta vez a favor do time em que atua.

Se eu fosse o Fábio Costa colocaria minhas barbas de molho contra esse jogador.

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O meio-de-campo Maurício, do Fluminense, revelou em programa da TVE Brasil que o árbitro Cléver Assunção Gonçalvez (MG) só resolveu dar seis minutos de acréscimos depois do zagueiro Luiz Alberto reclamar com ele ao saber que daria quatro.

Em suma: por vingança, o juiz absurdamente resolver acrescer mais dois minutos dos quatro que já daria.

Profissionalismo é isso aí!

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Thiago Neves foi o nome do jogo. Além dos dois bonitos gols que fez no segundo tempo, cruzou para a cabeçada de Luiz Alberto no primeiro.

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É, mas se o meio-campo foi bem, o ataque mais uma vez decepcionou: Somália e Rodrigo Tiuí vêm dando calafrios na torcida tricolor. Menos mal que este, suspenso, não jogará o Fla-Flu.

Se Soares jogar e brilhar neste clássico, garantirá novamente a titularidade.

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No vestiário após o jogo, o técnico Renato Gaúcho afirmou que o Fluminense tem hoje três esquemas de jogo e, acreditem, que todos os agradam. O time contra o Santos atuou no 4-4-2 e voltou a vencer após cinco rodadas no 3-5-2.

Com a volta de Roger contra o Flamengo, temo que Renato volte ao antigo e fracassado esquema. Uma opção seria escalar este jogador no meio-de-campo sacrificando um dos volantes. Ou ainda deslocar Júnior César para a lateral-direita, posição em que chegou a atuar (bem) em sua outra passagem pelo Flu, escalando Roger na esquerda.

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Freqüentemente, internautas fazem perguntas a mim sem, porém, deixar seus e-mails para que eu os responda. Foi o caso de um que quis saber se um árbitro de futebol tem poderes para proibir que telões em estádios mostrem os replays da partida, como fez Leonardo Gaciba no jogo Fluminense x Palmeiras, no Maracanã, há duas rodadas.

Tem sim, amigo internauta (ele não deixou o nome)! A fim de evitar polêmicas contra as decisões da arbitragem, a FIFA, de fato, proíbe a exibição de repetições de lances da partida que está sendo realizada.

Nesta, Gaciba acertou, ok?

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Outra opção para quem não quiser deixar seu e-mail neste espaço é escrever para joaogarcez@yahoo.com.br

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Como se comportará a torcida do Fluminense quinta-feira ao ver Roger Flores com a camisa rubro-negra?

A volta do imponderável

qui, 19/07/07
por joao marcelo garcez |

Na fria noite de São Paulo, um clima de mistério pairava nos anéis do Estádio do Morumbi. Naquele cenário, uma profusão de sentimentos penetravam a alma de torcedores que sequer poderiam imaginar o que estava por acontecer. Enquanto isso, em campo, os atuais campeões brasileiro e da Copa do Brasil realizariam uma espécie de tira-teima, uma autêntica Recopa do futebol nacional.

Aqui, abro parênteses para lembrar que, em 2005, então recém-campeões estaduais, Fluminense e São Paulo já haviam feito, no Maracanã, outra Prova dos Nove, logo na rodada de abertura do Campeonato Brasileiro. Assim como na última quarta-feira, o Tricolor (não há outro, os demais são times de três cores) conquistara à ocasião mais uma bela vitória. Fecha parênteses.

É bem verdade que o São Paulo não perdia para o Fluminense no Morumbi desde 1984. É bem verdade também que, por diversas vezes, o Tricolor esteve bem perto de quebrar essa escrita. Como em 1995, quando Renato Gaúcho, hoje técnico do Flu, de falta, abriu o placar. Foi neste jogo também que um regenerado Renato beijou a testa de Telê Santana, então treinador do São Paulo, sepultando qualquer sentimento de mágoa ou rancor pelo seu corte do grupo que disputaria a Copa de 86.

Estaria desvendado, então, o mistério? Telê Santana, ídolo de ambas as torcidas, teria deixado a companhia de outros saudosos craques do nosso futebol para acompanhar mais uma edição desse choque de gigantes?

A bola rolou e um entrincheirado Fluminense, que veio com uma proposta de jogo um tanto quanto defensiva (3-6-1), tentava sem sucesso contra-atacar pelo meio, quando deveria sair pelas laterais.

Intervalo de partida. Subitamente, o estádio inteiro ouve uma estrondosa gargalhada. Mas não era uma risada comum. Tinha um quê de zombaria ou ironia o escabroso estampido.

Silêncio em todo o Morumbi.

Começa o segundo tempo, e Thiago Neves é calçado na grande área. Pênalti. Somália, que já havia marcado contra o Corinthians, desloca Rogério Ceni, colocando o Fluminense na frente. Palmas inlocalizáveis.

Já atormentado com o suposto ambiente sobrenatural, o São Paulo sentiu ainda mais o golpe e se perdeu por alguns minutos, período da partida em que o Tricolor poderia matar de vez o adversário: primeiro, com Somália, que, de frente para Rogério Ceni, desperdiçou; e depois com David, que preferiu cavar o pênalti em vez de chutar para o gol, após limpar o lance para o lado errado.

Tomada por repentina e inesperada serenidade, a galera pó-de-arroz, em vez de desesperar-se, acalmou-se. Nem mesmo o esboço de pressão que o São Paulo ensaiou nos minutos finais, quando chegou a marcar um gol em impedimento (corretamente invalidado pela arbitragem), foi capaz de mexer com os brios dos tricolores.

Fim de jogo. Os jogadores do Flu comemoram o fim da longa invencibilidade enquanto seus adversários deixam o campo cabisbaixos. Assim como seus torcedores, que, mais até do que com a própria derrota, sentiam-se incomodados (e curiosos) com a mística esfera que – ainda que involuntariamente – experimentaram durante todo o duelo.

De repente, tudo parou. A histérica risada pôde ser novamente ouvida. Ao olharem para frente, tal qual um Deus para com seus adoradores, viram Gravatinha. Flutuando em meio ao nada, voz altiva, disse a decepcionados são-paulinos que saíam do estádio. “”Ainda que vocês não me conheçam, saibam que não foi preciso fazer uso de qualquer predição para adivinhar o que aconteceria esta noite””.

Num misto de medo e curiosidade, alguns arriscaram uma indagação. ““Como assim?””. Foi a senha para que Gravatinha se sentisse ainda mais à vontade para explanar sua convicta teoria.

“”Meus caros, quando havia sido mesmo a última vitória do Fluminense no Morumbi?””, questionou o mascotinho. “”1984:”, responderam, em uníssono. “”Pois é, ano em que o meu Tricolor conquistou um título nacional para a nossa galeria (o segundo)””.

“”Ora, o que isso tem a ver, seu paranóico?””, exasperaram-se. Ignorando a injúria, a criatura satisfez a curiosidade alheia. “”Tudo, senhores. Reflitam: esta longa invencibilidade, tal qual um encanto, estava atrelada a uma conquista nacional pelo Flu. E quando levantamos a Copa do Brasil este ano, mandei de cara a madame passar a minha roupa para vir ao Morumbi neste 18 de julho. Sem esquecer dos charutos, claro, para a garantida comemoração””.

Os são-paulinos, emudecidos, entreolharam-se, dando a entender que haviam compreendido a coerência do raciocínio do Gravatinha.

E antes de soltar a já conhecida gargalhada, Gravatinha, abotoando seu vistoso terno preto, franziu a testa e, lábios colados, sorriu despudoradamente.

““Lógica é tudo, meus caros””.

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O companheiro Daniel Perrone, do blog do São Paulo, mostrou que de bobo não tem nada. Olho vivo, através do blog do Flu, percebeu que a mina de ouro para o time paulista estava no gol do Fluminense (bom para nós que eles não souberam aproveitar).

Fernando Henrique, não é de hoje, vem testando cardíacos de Norte a Sul do Brasil. Em pelo menos três lances, quase comprometeu. Ainda no primeiro tempo, espalmou para frente um chute da intermediária de Diego Tardelli. Na segunda etapa, pulou atrasado em falta que Rogério Ceni cobrou no seu canto (e que bateu no travessão) e, indeciso, ficou no meio do caminho em escanteio cobrado pela direita do ataque São Paulo.

A continuar assim, FH ainda nos tirará preciosos e decisivos pontos na competição. Como aconteceu contra o Corinthians.

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Pisei na bola em minha última postagem, “De Fernando Henrique a Alex Dias”, ao escrever sobre o canhoto Roger. Disse que o zagueiro tricolor, além de atuar no meio-de-campo, joga também na lateral-direita. O mais engraçado é que, no momento em que redigia o texto, me veio à cabeça a jogada (contra o Internacional, no Maracanã) em que Roger, pela esquerda, partiu do campo de defesa até a linha de fundo, de onde cruzou para o gol de Rodrigo Tiuí.

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Ainda sobre a última coluna: ao contrário do que alguns internautas apregoaram, em nenhum momento eu disse que o Fluminense tem um timaço ou um esquadrão digno de fazer frente às maiores potências do mundo. Apenas escrevi que, em meio ao baixo nível técnico dos times brasileiros, o Flu não fica devendo nada a ninguém, até porque conta com dois ou três jogadores diferenciados em seu elenco.

A vitória sobre o campeão do mundo com um time do Fluminense repleto de reservas, além do recente triunfo contra o atual campeão brasileiro no Morumbi e da classificação à Taça Libertadores da América são evidentes provas disso.

***
Roger no Fla? Vou comentar, prometo.



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