
Os lampiões acesos e o fretenir das cigarras denunciavam o cair da tarde. Já era noite quando Francisco Horta e eu nos despedimos. Lembranças em casa, disse-me cordialmente, após levantar-se do banco e seguir para sua residência, onde esposa e quatro netos o esperavam. Não sem antes dar uma olhada para o simpático lago dos jardins do Palácio do Catete, onde cinco patinhos banhavam-se harmonicamente, presenteando os visitantes com um espetáculo da natureza, como definiu.
Na segunda parte da entrevista com o presidente da Máquina Tricolor, Horta revela sua predileção por Branco para substituir Roberto Horcades na presidência do clube e narra detalhes da contratação de Carlos Alberto Parreira na fase mais caótica da história do clube, quando também era presidente (triunvirato com David Fischel e José de Souza). Entre outros temas destacados, diz ser Renato Gaúcho o técnico ideal para o Flu, aponta a solução para a camisa 1 tricolor e, gabaritado, dá a sua opinião sobre o futuro de Leandro Amaral, por onde começamos o papo.
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Preocupação de dez entre dez torcedores do Fluminense, o caso Leandro Amaral foi detalhadamente explicado por Francisco Horta. Ex-juiz criminal da Vara de Execuções Penais e com brilhante história na advocacia do Brasil, usou de toda sua experiência para dar o seu veredicto. Acho que dificilmente Leandro Amaral voltará a jogar pelo Flu.
E explica por quê. O Leandro vinha atuando no Fluminense amparado numa liminar, conseguida por seu advogado porque o Vasco não depositava o FGTS do jogador, o que constitui um crime tributário. Recentemente, esta liminar foi cassada na Sentença de Mérito, e o atleta oficialmente voltou a pertencer ao ex-clube, com quem tem contrato até 31 de dezembro de 2008.
Perguntado sobre a possível morosidade para a resolução do caso, Horta explicou: Isso pode se arrastar porque o Fluminense, embora não seja parte, deverá entrar com um mandado de segurança contra o juiz trabalhista, que é a autoridade coatora que deu a sentença. Mas não deixou de apontar uma solução. O Flu não dará os R$ 9 milhões pedidos pelo Vasco. Assim, creio que deveria haver um acordo, como o feito com o Palmeiras no caso Thiago Neves (Lenny foi dado ao clube paulista, além de uma quantia em dinheiro). Em caso negativo, acho que dificilmente o Leandro voltará a jogar pelo Fluminense. E, pelo visto, nem no Vasco, já que não há mais clima para ele atuar lá.
Mas a provável saída de Leandro Amaral, para Horta, está longe de ser um problema. Segundo ele, num paradoxo, a saída do craque ajudou Renato a encontrar a melhor formação tática para o time. Tratavam-se de três centroavantes natos (de último toque), com as mesmas características, o que atrapalhava o time, que obrigatoriamente tinha que jogar para eles.
Horta, porém, não deixou de bater palmas para a audácia da diretoria e do patrocinador. Não faço a menor restrição à contratação dos três jogadores (Dodô, Washington e Leandro Amaral). A vinda do trio deu alma ao Flu, trouxe a torcida de volta aos estádios e o clube, às manchetes, enalteceu, elogiando também a aquisição de Conca. Diferentemente de Dodô e Washington, sonhos de consumo do Horcades, o Conca foi idéia do Celso Barros (presidente da Unimed), que acha o apoiador um craque de bola”, disse, explicando por que Renato o deixava no banco do Vasco. Embora Renato pensasse igual a Celso, não o colocava como titular porque achava o jogador muito frágil, sem condições atléticas.
Ainda sobre o treinador do Fluminense, Francisco Horta disse ter ele o time na mão. É o técnico ideal, muito identificado com o clube e com uma visão extraordinária de futebol. Não é pra menos, Renato era top de linha, um senhor craque de futebol”. E disse-se surpreso com o presente do ex-jogador. Nunca imaginei que ele fosse ser técnico, era muito indisciplinado… (pára e reflete) Cheguei a ter problemas com ele no Fla (Horta foi manager do Flamengo em 90, atendendo a um apelo de Gilberto Cardoso, a quem tem como irmão. Saiu logo após a conquista da Copa do Brasil daquele mesmo ano).
Francisco Horta seguiu viajando no tempo e lembrou da dura missão de, então presidente do Fluminense, convencer o prestigiado Carlos Alberto Parreira a treinar o time tricolor. Convenci Parreira a dirigir o Flu em 99, quando nos encontrávamos (o clube) numa situação terrível. Parreira queria um cargo gerencial, mas não o comando técnico da equipe naquele momento. Por ser tricolor e gostar do Fluminense, arregaçou as mangas e tomou frente da equipe. E o que poucos sabem: com um salário muito aquém de um técnico campeão mundial, revela.
Ainda sobre o treinador bicampeão nacional pelo Flu (Campeonato Brasileiro de 1984 e Campeonato Brasileiro da Série C de 1999), disse que, somente para agradá-lo, levou o atual presidente para o clube na época. Fui eu quem levou Roberto Horcades para o Fluminense, atendendo a um pedido de Carlos Alberto Parreira, que o tinha como seu cardiologista particular. Horcades passou a integrar nosso quadro de funcionários na época e seis anos depois já era presidente do clube.
E repetindo o que já havia falado no lançamento de meu livro, em janeiro, voltou a apostar num certo gaúcho como futuro capitão da nau tricolor. O Branco ainda será presidente do Fluminense. Para o clube, seria maravilhoso ter um ex-jogador e ídolo na presidência. Não só por isso: Branco possui profundos conhecimentos de gerenciamento e administração. É o nome ideal para substituir Horcades.
De volta ao presente, disse não considerar o time de todo perfeito, apontando falhas no gol. Não ter goleiro é duro. O time tem que fazer dois ou três gols por jogo, disse, criticando Fernando Henrique, antes de apontar a saída para a camisa 1. A solução está lá, é só recuperá-lo, apontou, referindo-se a Diego, que também não chega a ser o arqueiro dos seus sonhos. Reconheço que andou mal, não deu sorte. Mas por que o outro (FH) não dá sorte e continua? Tem que dar o mesmo tratamento para todos. E concluiu: Fernando Henrique passa insegurança pra nós e para o time. Não dá.
No fim, a exemplo do que dissera sobre a Libertadores, deixou uma mensagem de otimismo à nação tricolor. Confiança neste time. Não ganhamos ainda? Tudo bem, vamos ganhar! Ainda não acabou.
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Ainda bem que não acabou, Dr. Horta, porque se depender da atuação do Fluminense contra o Resende o time mais uma vez vai ficar de fora da decisão de um turno. O gol de Luiz Alberto logo no começo fez com que o Flu pisasse de vez no freio, e sofresse rapidamente um duro castigo: a virada (no primeiro, FH estava mal colocado).
No segundo tempo, depois de ouvir de Renato que o time não havia tido vergonha na cara, os jogadores até se movimentaram mais, mas não o suficiente para ganhar o jogo. Na melhor oportunidade, Washington deu um balão na marcação adversária, mas furou o chute final, praticamente recuando para o goleiro. Nem mesmo o gol de Cícero, que substituiu o recém-operado Dodô, serviu de alento para o Flu e Renato, que deve repensar sua decisão de colocar reservas contra o Americano, sob risco de ver a classificação às semifinais ameaçadas (tem ainda clássicos contra Vasco e Botafogo). ´
Que a Libertadores é o plano A do clube, isso ninguém discute. Mas abrir mão do Campeonato Estadual e da hegemonia de títulos desta competição também me parece inoportuno e até certo ponto grave para um clube que sempre se orgulhou de ser o maior detentor de conquistas no futebol do Rio de Janeiro.
Luz amarela nas Laranjeiras.
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Quase dois meses depois de iniciada a venda de meu livro, Epopéia Tricolor A Conquista do Brasil e a Volta à América, a edição caminha para o seu esgotamento. Deste cantinho, já tentei por duas vezes contemplar vocês, meus leitores, com alguns exemplares.
Não consegui. Não ainda. Porque acho que tenho uma boa surpresa pra contar a vocês.
Breve!
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Por motivos particulares, apesar do jogo do Flu contra o Americano no sábado, a coluna só será atualizada na madrugada de domingo para segunda-feira.
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Boa recuperação, Dodô!
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