Na fria noite de São Paulo, um clima de mistério pairava nos anéis do Estádio do Morumbi. Naquele cenário, uma profusão de sentimentos penetravam a alma de torcedores que sequer poderiam imaginar o que estava por acontecer. Enquanto isso, em campo, os atuais campeões brasileiro e da Copa do Brasil realizariam uma espécie de tira-teima, uma autêntica Recopa do futebol nacional.
Aqui, abro parênteses para lembrar que, em 2005, então recém-campeões estaduais, Fluminense e São Paulo já haviam feito, no Maracanã, outra Prova dos Nove, logo na rodada de abertura do Campeonato Brasileiro. Assim como na última quarta-feira, o Tricolor (não há outro, os demais são times de três cores) conquistara à ocasião mais uma bela vitória. Fecha parênteses.
É bem verdade que o São Paulo não perdia para o Fluminense no Morumbi desde 1984. É bem verdade também que, por diversas vezes, o Tricolor esteve bem perto de quebrar essa escrita. Como em 1995, quando Renato Gaúcho, hoje técnico do Flu, de falta, abriu o placar. Foi neste jogo também que um regenerado Renato beijou a testa de Telê Santana, então treinador do São Paulo, sepultando qualquer sentimento de mágoa ou rancor pelo seu corte do grupo que disputaria a Copa de 86.
Estaria desvendado, então, o mistério? Telê Santana, ídolo de ambas as torcidas, teria deixado a companhia de outros saudosos craques do nosso futebol para acompanhar mais uma edição desse choque de gigantes?
A bola rolou e um entrincheirado Fluminense, que veio com uma proposta de jogo um tanto quanto defensiva (3-6-1), tentava sem sucesso contra-atacar pelo meio, quando deveria sair pelas laterais.
Intervalo de partida. Subitamente, o estádio inteiro ouve uma estrondosa gargalhada. Mas não era uma risada comum. Tinha um quê de zombaria ou ironia o escabroso estampido.
Silêncio em todo o Morumbi.
Começa o segundo tempo, e Thiago Neves é calçado na grande área. Pênalti. Somália, que já havia marcado contra o Corinthians, desloca Rogério Ceni, colocando o Fluminense na frente. Palmas inlocalizáveis.
Já atormentado com o suposto ambiente sobrenatural, o São Paulo sentiu ainda mais o golpe e se perdeu por alguns minutos, período da partida em que o Tricolor poderia matar de vez o adversário: primeiro, com Somália, que, de frente para Rogério Ceni, desperdiçou; e depois com David, que preferiu cavar o pênalti em vez de chutar para o gol, após limpar o lance para o lado errado.
Tomada por repentina e inesperada serenidade, a galera pó-de-arroz, em vez de desesperar-se, acalmou-se. Nem mesmo o esboço de pressão que o São Paulo ensaiou nos minutos finais, quando chegou a marcar um gol em impedimento (corretamente invalidado pela arbitragem), foi capaz de mexer com os brios dos tricolores.
Fim de jogo. Os jogadores do Flu comemoram o fim da longa invencibilidade enquanto seus adversários deixam o campo cabisbaixos. Assim como seus torcedores, que, mais até do que com a própria derrota, sentiam-se incomodados (e curiosos) com a mística esfera que ainda que involuntariamente - experimentaram durante todo o duelo.
De repente, tudo parou. A histérica risada pôde ser novamente ouvida. Ao olharem para frente, tal qual um Deus para com seus adoradores, viram Gravatinha. Flutuando em meio ao nada, voz altiva, disse a decepcionados são-paulinos que saíam do estádio. Ainda que vocês não me conheçam, saibam que não foi preciso fazer uso de qualquer predição para adivinhar o que aconteceria esta noite.
Num misto de medo e curiosidade, alguns arriscaram uma indagação. Como assim?. Foi a senha para que Gravatinha se sentisse ainda mais à vontade para explanar sua convicta teoria.
Meus caros, quando havia sido mesmo a última vitória do Fluminense no Morumbi?, questionou o mascotinho. 1984, responderam, em uníssono. Pois é, ano em que o meu Tricolor conquistou um título nacional para a nossa galeria (o segundo).
Ora, o que isso tem a ver, seu paranóico?, exasperaram-se. Ignorando a injúria, a criatura satisfez a curiosidade alheia. Tudo, senhores. Reflitam: esta longa invencibilidade, tal qual um encanto, estava atrelada a uma conquista nacional pelo Flu. E quando levantamos a Copa do Brasil este ano, mandei de cara a madame passar a minha roupa para vir ao Morumbi neste 18 de julho. Sem esquecer dos charutos, claro, para a garantida comemoração.
Os são-paulinos, emudecidos, entreolharam-se, dando a entender que haviam compreendido a coerência do raciocínio do Gravatinha.
E antes de soltar a já conhecida gargalhada, Gravatinha, abotoando seu vistoso terno preto, franziu a testa e, lábios colados, sorriu despudoradamente.
Lógica é tudo, meus caros.
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O companheiro Daniel Perrone, do blog do São Paulo, mostrou que de bobo não tem nada. Olho vivo, através do blog do Flu, percebeu que a mina de ouro para o time paulista estava no gol do Fluminense (bom para nós que eles não souberam aproveitar).
Fernando Henrique, não é de hoje, vem testando cardíacos de Norte a Sul do Brasil. Em pelo menos três lances, quase comprometeu. Ainda no primeiro tempo, espalmou para frente um chute da intermediária de Diego Tardelli. Na segunda etapa, pulou atrasado em falta que Rogério Ceni cobrou no seu canto (e que bateu no travessão) e, indeciso, ficou no meio do caminho em escanteio cobrado pela direita do ataque São Paulo.
A continuar assim, FH ainda nos tirará preciosos e decisivos pontos na competição. Como aconteceu contra o Corinthians.
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Pisei na bola em minha última postagem, De Fernando Henrique a Alex Dias, ao escrever sobre o canhoto Roger. Disse que o zagueiro tricolor, além de atuar no meio-de-campo, joga também na lateral-direita. O mais engraçado é que, no momento em que redigia o texto, me veio à cabeça a jogada (contra o Internacional, no Maracanã) em que Roger, pela esquerda, partiu do campo de defesa até a linha de fundo, de onde cruzou para o gol de Rodrigo Tiuí.
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Ainda sobre a última coluna: ao contrário do que alguns internautas apregoaram, em nenhum momento eu disse que o Fluminense tem um timaço ou um esquadrão digno de fazer frente às maiores potências do mundo. Apenas escrevi que, em meio ao baixo nível técnico dos times brasileiros, o Flu não fica devendo nada a ninguém, até porque conta com dois ou três jogadores diferenciados em seu elenco.
A vitória sobre o campeão do mundo com um time do Fluminense repleto de reservas, além do recente triunfo contra o atual campeão brasileiro no Morumbi e da classificação à Taça Libertadores da América são evidentes provas disso.
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Roger no Fla? Vou comentar, prometo.