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O campeonato sem fim

ter, 05/01/10
por gustavo poli |
categoria Futebol

O grande debate surdo começou na segunda-feira, dia 7 de dezembro. Ele já vinha se ensaiando, em escaramuças virtuais, mas claro, ganhou força assim que o Flamengo conquistou seu (quinto, sexto?) título brasileiro com a vitória sobre o Grêmio. Os rubro-negros cariocas, muito enfaticamente, celebraram o hexa, e o empate em numero de conquistas com o São Paulo. Os tricolores paulistas, claro, ironizaram – dizendo que 1987 não foi título, porque a CBF não reconhece etc. E torcedores do Sport Club Recife, bom, esses… estrilaram.

É uma discussão que se arrasta há tanto tempo – mais de 20 anos – que dez entre dez cronistas esportivos bufam, sopram e grasnam diante dela. Você deve ter lido e ouvido um caminhão de gente dizendo que não agüentava mais falar sobre o tema, que ele era insuportável, mala, ugh, mais chato do que um videoteipe da Fernanda Young se auto-entrevistando e posando nua ao mesmo tempo. Este escriba aqui, arriscadamente, discorda. A discussão está longe de chata. Pelo contrario – ela é fascinante. E é assim porque é uma típica história brasileira – repleta de macunaímas e capitães nascimento.

Procura-se

O debate é surdo porque nenhum dos lados quer, no fundo, ouvir o outro. O torcedor quer apenas vestir seus argumentos como fatos, apresentá-los e usá-los em favor de seu time. O mais interessante, pois, é como a discussão sobre o hexa-penta (ou penta-hexa) expõe a matéria-prima de todo e qualquer torcedor: o viés. Em nenhum idioma, a idiossincrasia do fã de futebol foi tão bem captada como no Brasil: o verbo torcer nasceu de um hábito das finas torcedoras do início do século XX: elas, agoniadas com os dramas em campo, torciam lenços com as mãos. Mas, de lá pra cá, o verbo galgou parâmetros.

O que fazemos, na arquibancada, é torcer a realidade a nosso favor. As faltas a favor do nosso time são evidentes. As faltas contra nosso time nunca existem. O juiz rouba contra nós – sempre – a não ser quando marca aquele pênalti incrivelmente inexistente e bom, aí, é “errou, né, mas já cansaram de errar contra nós” ou “o juizão é nosso” (o que é claramente perdoável). O torcedor tem a isenção do leão diante da zebra.

Exemplo?  Procure MEIO torcedor do Flamengo que não considere o titulo de 1987 como brasileiro. É mais fácil encontrar um branco não-turista em Soweto (Informe Copa 2010: em Soweto, vivem três milhões de negros e 16 brancos).  Por outro lado, procure MEIO torcedor do Sport que diga que o time não é o único campeão daquele ano.  Procure mais – busque um torcedor de Vasco, Fluminense ou Botafogo que não torça o nariz implicante e diga “hexa sem ser penta… deve ser a primeira vez”.

E é por isso que a discussão é interessante – ela é um típico debate brasileiro sobre futebol. Foi Nelson Rodrigues, ecoando o filósofo alemão Johann Gotlieb Fichte, que sintetizou o viés do torcedor:

-       Se os fatos me desmentem… pior para os fatos.

Toda santa discussão de futebol – seja no bar, no gabinete ou no planalto – tem viés. Tem lado. Futebol é fascinante justamente por isso – por ser um jogo que acaba mas não termina. A vitória em campo é, sem dúvida, a mais importante. Mas depois dela se seguem inúmeras e infinitas partidas morais. Exemplo: que torcedor do Corinthians não se irrita quando questionam a legitimidade do titulo brasileiro de 2005 apresentando o football card do Márcio Rezende de Freitas?

Questionar a vitória alheia é parte da dialética do futebol. Como torcemos pelo bem (nosso time) contra o mal (qualquer adversário), precisamos entender a derrota, justificá-la, explicá-la, digeri-la. Precisamos de argumentos que permitam estender a discussão maior – e eterna – que é a narrativa infinda da rivalidade.

E é no cenário desta narrativa que 1987 se insere – e continua vivo – como o campeonato brasileiro por excelência. Como o campeonato que nunca vai terminar – continuará sempre aberto – como uma fresta a expor nossas virtudes e mazelas. Sim, virtudes e mazelas porque o que aconteceu em 1987, dois anos antes da eleição que Lula perdeu para Collor (é…) e da assunção de Ricardo Teixeira ao poder… tem muito a nos dizer sobre o futebol (e o país) de hoje.

É uma história de interesses políticos e comerciais – de enfrentamento entre capitanias hereditárias e um arremedo de capitalismo – que ilustra quão difícil é a construção de um futebol de mercado num país continental. Examinemos, pois, o que plantou essa história sem fim – percebendo como a genuflexão de fatos pode atender este ou aquele freguês. Voltemos pois até 1986, quando começa nossa história.


O monstro de 80 cabeças

Beleza física, eu acreditoEm 1986, a CBF conseguiu (des) organizar o mais bagunçado Campeonato da história (e isso, amigos, é um feito). Era um monstrengo com 80 clubes divididos em 8 grupos de 10 – quatro de elite, quatro menos votados. Classificavam-se para a segunda fase os sete primeiros dos quatro primeiros grupos (28 clubes) e mais os vencedores dos grupos inferiores (4).  E, para  temperar com ácido a feiúra deste rostinho, ali pelo fim da primeira fase uma decisão do STJD (ele já existia) deu ao Joinville pontos de um jogo contra o Sergipe (por causa de doping). O Vasco, eliminado por isso, entrou na justiça comum para cassar a decisão. E conseguiu.

Para evitar uma guerra de liminares, a CBF tentou desclassificar a Portuguesa, por conta de um problema com ingressos. Os clubes paulistas reagiram solidários e ameaçaram boicotar a segunda fase. A entidade máxima, pois, encontrou uma solução salomônico-genial: botar todo mundo pra dentro. A segunda fase passou a ter 33 times. O problema é que com número ímpar de equipes ficou difícil fazer a tabela. A saída foi convidar mais três equipes pela janela – Santa Cruz, Sobradinho e Náutico. Essa vergonhosa zona – no primeiro ano de uma polêmica nova gestão na CBF (a dupla Otávio Pinto Guimarães – Nabi Abi Chedid) – plantou a “revolução” do ano seguinte.  No fim, o São Paulo foi campeão, derrotando o Guarani de Ricardo Rocha em Campinas e nos pênaltis. O América-RJ ficou em terceiro (depois de eliminar o Corinthians) e o Atlético-MG em quarto.

O detalhe a observar:  antes do Campeonato, e por pressão dos clubes, o Conselho Nacional de Desportos (CND) e a CBF acertaram que 1986 seria “classificatório” para 1987. Dos 44 times dos módulos de “cima” do torneio – 24 seriam classificados para a primeira divisão do ano seguinte. A confusão jurídica implodiu essa combinação – e evitou que dois times grandes disputassem a segundona num suposto campeonato de 1987 (Botafogo e Coritiba).


1987, a secessão que não foi

A balbúrdia acima (muito) resumida exacerbou a já antiga revolta com a CBF. Desde 1971, o Campeonato Brasileiro era um cruzamento de bunda-lelê com INPI – todo ano trazia uma patente nova: uma fórmula diferente com um número de clubes variável e injunções políticas de toda sorte. Só uma coisa não mudava: os certames eram cada vez menos rentáveis. Os clubes de maior torcida eram obrigados a disputar inúmeras partidas deficitárias, enfrentando times sem expressão, fazendo viagens longas em meio a receitas mirabolantes (teve campeonato com desempate até por renda). O caos de 1986 foi uma espécie de gota d’água.

O primeiro ato foi da CBF que,  atolada em dívidas, simulou arrego dizendo que não tinha grana para organizar o campeonato de 1987. O simulacro de renúncia recebeu seu golpe no quengo quando o recém-fundado Clube dos 13 –  entidade que unia os 13 maiores clubes do país (os quatro grandes de Rio e São Paulo, os dois grandes de MG e RS e o Bahia) – avisou que organizaria sozinho a competição – e a chamaria de Copa União. A competição teria 16 times (os 13 do clube e os convidados Coritiba, Goiás e Santa Cruz), seria rentável e prometia uma nova era – com estádios cheios e tabela organizada. Pressionada pelas equipes alijadas (Guarani, Sport, América & outros), a CBF voltou atrás – desistiu de desistir – e disse que organizaria sim o campeonato. O Clube dos 13 – que já tinha tabela pronta, patrocínio acertado – não aceitou. A CBF, apoiada pela FIFA (que não pode nem ouvir falar em secessão), ameaçou desfiliar os revoltosos. Vale lembrar que não era uma ameaça vazia: a FIFA, por princípio, sempre ficou do lado das entidades. O impasse estava criado.

Para viabilizar o campeonato, um acordo foi costurado – e assinado pela CBF e pelo Clube dos 13 (signatário Eurico Miranda, então vice-presidente do Vasco e da entidade). Pelo acordo, a Copa União seria o módulo verde de um campeonato com quatro módulos (os outros seriam o amarelo, o azul e o branco). Os módulos verde e amarelo teriam um cruzamento para determinar os campeões brasileiros – algo que, tecnicamente, não fazia sentido nenhum. Aliás, outras coisas não faziam sentido técnico – Guarani e América-RJ, respectivamente vice e terceiro em 1986, jogariam o módulo amarelo.  O América, indignado, recusou o rebaixamento – e o módulo teve apenas 15 equipes.

O Clube dos 13 assinou o acordo – mas combinou internamente que roeria a corda. Pode-se questionar, hoje, a ética do São Paulo ao inserir “penta” ou “hexa único em camisas comemorativas tendo sido um dos signatários do “acordo a não cumpr”ir”. Como pode se questionar a ética de quem assina um papel já sabendo que vai rasgá-lo. Como pontuou certa vez o luminar Caixa D’Água, ou Eduardo Viana, secular presidente da Federação do Rio, representante egrégio do pensamento dirigente nacional:

- Acordo, eu descumpro. Papel, eu rasgo. Opinião pública pra mim deve ser tratada na base da metralhadora.

O acordo foi selado no dia 15 de setembro  - quando a bola da Copa União já havia rolado.  Palmeiras e Cruzeiro abriram a competição numa data que hoje talvez soe profética – 11 de setembro de 1987 – uma sexta-feira. Quatro meses depois, os finalistas do módulo verde cumpriram o que tinham combinado. O Flamengo venceu a Copa União no dia 13/12/87 – botou a faixa e resolveu ignorar solenemente, ao lado do vice Inter, a existência do cruzamento. O módulo amarelo, não por acaso, foi decidido no mesmo dia. O Guarani tinha vencido a primeira partida por 2 a 0 em Campinas e perdeu o jogo da volta, no Recife por 3 a 0. Como o regulamento não previa desempate por saldo de gols – a decisão foi para os penais… e nunca terminou. Ou terminou em 11 a 11 e com os dirigentes dos dois times dividindo o titulo do módulo num clima de casados e solteiros. O Guarani foi citado na súmula por abandono de campo – e abriu mão do título dez dias depois (para evitar uma punição).  Esse é um argumento, aliás, que os torcedores do Sport costumam usar – o titulo do módulo não valia muita coisa.

O que pouca gente recorda é que pouco mais de um mês depois – no dia 15 de janeiro de 1988 – houve uma reunião do Conselho Arbitral, formado pelos clubes, na qual foi proposta oficialmente a modificação do regulamento –para abolir o cruzamento. Nos termos da lei, o regulamento só poderia ser modificado se houvesse unanimidade. Dos 32 times inscritos (16 de cada módulo) – 29 compareceram e votaram. Sport, Guarani, Náutico, Fluminense e Vasco votaram contra a mudança – impedindo-a na teoria. O CND considerou porém que a maioria bastava e proclamou o Flamengo como campeão.

A ópera-bufa não tinha terminado. A CBF ignorou o CND  e marcou as partidas do cruzamento – que era um quadrangular onde todos se enfrentavam. No dia 24 de janeiro, o Sport entrou em campo para enfrentar o Internacional, que nem pensou em ir. Os 11 jogadores do Sport esperaram os 30 minutos regulamentares, assim como o trio de arbitragem – para configurar o W.O.  A partida seguinte, contra o Flamengo, estava marcada para o dia 27. O clube carioca, porém, conseguiu uma liminar na justiça estadual do Rio para não jogar. Os advogados do Sport descobriram que a juíza responsável estava de folga em Angra dos Reis – e estrada estava fechada por causa das chuvas (não é coisa nova). Alugaram um helicóptero e conseguiram convencer a magistrada a cassar a liminar.

Depois de duas vitórias por W.O. para cada– Sport e Guarani se classificaram para a decisão. No primeiro jogo, empate em 1 a 1 em Campinas. No segundo, no dia 7/2/88, vitória do Leão por 1 a 0. A taça das bolinhas foi entregue ao capitão do Sport – Estevam Soares, hoje técnico do Botafogo.  E a CBF indicou Sport e Guarani como representantes do Brasil na Libertadores de 1988.  A proclamação do CND abriu caminho para que o Sport acionasse judicialmente a União – pois o Conselho era um órgão do governo federal.  Três dias depois do resultado em campo, o Sport entrou com uma ação judicial declaratória na décima vara federal de Pernambuco pedindo o reconhecimento do título. Na ação, o Leão acionava a União, o Flamengo, o Inter e a própria CBF.

A sentença do caso – favorável ao Sport – só saiu em 1994. A União apelou e perdeu em segunda instância em 1997. Novo agravo de instrumento subiu para o Superior Tribunal de Justiça – que em 1999 manteve a sentença inicial. Em 2001, venceu o prazo para que o Flamengo (ou qualquer parte) recorresse (para isso seria necessário apresentar alguma evidência nova para reformar a sentença definitiva).  Em suma, é uma sentença transitada em julgado que não pode ser modificada. Muito por isso, a CBF não tomou a salomônica decisão de repartir o titulo de 1987. E, ironia ou não, hoje o Sport é membro do clube dos 13 – e não abre mão de jeito nenhum de ser considerado campeão único do campeonato sem fim.


A paz e os pênaltis

Em 1988, a paz foi selada… e a CBF organizou um campeonato com apenas 24 clubes. Sem o rompimento do clube dos 13 – dificilmente o número de participantes seria reduzido – e continuaríamos patinando em dráculas político-deficitários. Quem elegia o presidente da CBF até então era um colegiado formado apenas pelos presidentes das federações estaduais (isso mudou nos anos 90 com os clubes ganhando voto). E o interesse de cada federação era comer  um pedaço do bolo – mesmo que ele fosse de péssimo sabor.

Em 1988, por causa da revolta do ano anterior, essa camisa-de-força foi enfim rompida – e com algum bom senso. Guarani, Sport e America-RJ foram incluídos na primeira divisão – e o campeonato foi disputado com um número razoável de clubes – 24.  Mas, claro, não poderia faltar uma invenção. O certame começou com um regulamento – que ainda no início foi modificado para acrescentar uma “inovação”: vitória valeria três pontos (antes valia dois). Nas partidas que acabassem empatadas, cada clube levava um ponto, mas haveria um ponto extra a ser decidido nos pênaltis. Isso provocou a abertura gratuita do Maracanã numa tarde de quarta-feira para que Botafogo e Fluminense – que tinham empatado antes da mudança do regulamento – disputassem o pontinho extra nos penais (o Fluminense levou quando Mauro Galvão cobrou… e Ricardo Cruz defendeu).


Parêntesis para Frank Jr

Vem cá, minha nega
Vem cá, minha nega

É importante entender que o Frankenstein de 1987 não foi filho único. Doze anos depois, no fim de 1999, uma outra confusão judicial implodiu a primeira divisão nacional. A zorra começou com a perda de pontos do São Paulo (pela escalação supostamente consciente do “gato” Sandro Hiroshi) contra o Botafogo (num jogo que o time paulista venceu por 6 a 1). Com os pontos ganhos, o Botafogo se salvou do rebaixamento e quem caiu foi o Gama-DF. Tendo como campeão o atual governador do Distrito Federal, José Robertone Arruda (que ironicamente torce pelo Botafogo), o Gama entrou na justiça comum contra o rebaixamento e impediu a CBF de organizar o Brasileiro de 2000.

A CBF, ironicamente, disse para o Clube dos 13: toma que o filho é teu. Organiza esse bichano. Mas os Arrudones do Planalto tinham cancha – e conseguiram forçar um impasse: sem o Gama, não haveria campeonato. O Clube dos 13 teve que se curvar e dar vida ao maior e mais distinto campeonato continental deste país – a Copa João Havelange,. Uma coincidência que pouca gente recorda – o nome do troféu do Módulo Verde de 1987  também era… “João Havelange” (o do módulo amarelo era “Roberto Gomes Pedroza”).

Para acomodar o Gama, seria necessário… acomodar todo mundo –  mais ou menos como em 1986. Nasceu então… Frankenstein Junior, um gigantesco calhau com 116 times… e quatro módulos. Sim… o certame de 1987 não foi o único a ostentar nossos queridíssimos módulos. Em 2000, lá estavam eles, bonitinhos –  um módulo verde, um amarelo, um azul… e um branco. O módulo da elite, desta vez, mudou de cor – ficou azul – com 25 times (entre eles, os “importados” Fluminense e Bahia – que deveriam disputar a Série B – além de Botafogo e Gama).

O regulamento de Frank Jr. era criativo: dos 25 times do módulo azul, 12 se classificavam para as oitavas-de-final. O módulo amarelo fornecia três classificados. O último saía do cruzamento entre os módulos verde e branco. Por conta disso, o Brasil poderia começar o milênio tendo como campeão o Baré (de Roraima). Ou o Genus (de Rondônia). Ou o Tocantinópolis (de Tocantins). Ou o Malutron-PR , vencedor da decisão entre os módulos humildes – que jogou nas oitavas contra o Cruzeiro (e perdeu).

Vale reparar na coincidência: a confusão na justiça desportiva, o pulo para a justiça comum, o envolvimento político, o chamado à FIFA, o princípio do cruzamento. Até o nome do troféu…

Desta vez, porém, o confronto não era entre CBF e Clube dos 13 – e sim entre o Gama – com o establishment político de Brasília por trás – e o Clube dos 13.  Como o módulo azul serviria como prévia da primeira divisão de 2001 – e tudo estava claro – não havia motivo cabível para abortar o cruzamento.  Tanto que um time do módulo amarelo, o São Caetano, chegou à final, na qual foi derrotado pelo Vasco no Maracanã (já em 2001) depois de um polêmico jogo interrompido em São Januário.


Enfim, a questão

Após esse muito breve resumo, que pergunta o humilde, imparcial e isento leitor daria para a pergunta… “Quem é o verdadeiro campeão brasileiro de 1987?”

Alternativas abaixo:

a)    O Flamengo, claro, pois disputou o verdadeiro campeonato, enfrentou os melhores times e avisou desde sempre que não aceitaria o patético cruzamento contra times que enfrentaram babas como CSA, Rio Branco-ES, Bangu e Criciúma. Foi o representante da mudança no futebol brasileiro – que provocou o primeiro avanço em eras, começando a implodir o sistema feudal das federações e marcando uma posição histórica, reconhecida pela grande imprensa na época – que produziu inúmeras manchetes com o “tetra” rubro-negro.

b)   O Sport, claro, pois cumpriu o regulamento acordado com todos os clubes e entrou em campo como previsto para o cruzamento. E foi proclamado campeão pela organizadora do campeonato – disputou a Libertadores no ano seguinte e, mesmo ignorado pela mídia do eixo Rio-São Paulo, foi consagrado por sua torcida e pela imprensa pernambucana. Além disso, que culpa tem o Leão se o adversário preferiu marcar uma suposta posição a cumprir as regras que ele mesmo assinou?


Ao vencedor, as bolinhas

Obviamente, a escolha é livre – e interessa menos. Essa é uma discussão eterna. Mas meramente levantá-la provoca irritação em ambos os campos – o presidente do Sport ameaçou processar quem chamasse o Flamengo de hexa e foi soterrado por manchetes (com as esperadas exceções). Ao torcedor do Leão, vale anotar que, se o titulo fosse do Sport, as manchetes seriam bi – porque elas são leituras do que diz a torcida.

Na época,  a CBF tinha um troféu, a chamada taça das bolinhas – que deveria ser entregue ao primeiro clube que conquistasse cinco vezes o titulo nacional. Ele foi entregue pela última vez em 1992… justamente ao Flamengo, que conquistava ali o que seria seu quinto titulo se contarmos 1987  (a mudança do troféu no ano seguinte não sugere alguma coisa?).

Quando o São Paulo ganhou seu quinto titulo, em 2007, os dirigentes do tricolor paulista pediram a taça. Mas a CBF não deu. Ela continua guardada num cofre da Caixa Econômica Federal – de onde provavelmente nunca sairá. Agora, a CBF pode até fazer duas réplicas – e entregar uma para o São Paulo e outra para o Flamengo (já que oficialmente a entidade considera que o rubro-negro carioca conquistou seu quinto título apenas em 2009). Se quisesse entregar a taça original para o São Paulo, convenhamos, a CBF já tinha entregue.

A torcida aqui, porém, é para que a taça permaneça para sempre neste obscuro escaninho federal – como se fosse uma espécie de Hangar 51 futebolístico. A taça oculta é a arca perdida do futebol brasileiro – e só é assim porque ninguém a possui. Ela é o símbolo do campeonato sem fim – um monumento a tudo aquilo que vencemos aos poucos; e representa todo o atraso que exorcizamos até chegar ao (relativamente) racional presente. Hoje não temos mais campeonatos com centenas de clubes – as Séries A, B e C estão organizadas – e a D começa a existir.  Podemos questionar ou debater se os pontos corridos são sensacionais ou não – mas virada de mesa saiu do dicionário dirigente – o que, pode não parecer, mas é um imenso, imenso avanço.

O objetivo desse texto (ou testamento) não é discutir o mérito da questão de 1987– pois seria inócuo. É até se divertir um pouco com ele – vendo quantas idas e vindas se deram – e quantos enredos (e vilões) de desenho Disney o futebol brasileiro já pôs em circulação.  Só tocar no tema já provocará alguma revolta – especialmente naqueles que julgam masculinamente importante que as vitórias de seu time sejam inquestionáveis.

Em qualquer discussão futebolística citar gregos significará desagradar troianos. A partida maior nunca termina – e ser imparcial joga contra tudo o que o torcedor sente, vive e aprende desde a primeira vez em que entra num estádio.  A multidão liberta nosso roberto jefferson interior – na arquibancada,  são despertados nossos instintos mais primitivos. Queremos trucidar o time adversário – ganhar de muito, pisar – se possível humilhando.

Zé do iPod, herói terráqueo

Dado equilibrado

Imaginemos, pois, que a Terra tenha sido invadida por alienígenas pintosos com a cara do Keanu Reeves – e que o destino da humanidade depende de uma irrefutável prova de honestidade. Se os ETs não acreditarem que o homem vale a pena, Keanu dará uma olhada definitiva para o robô, e a terra será reduzida a pó.  Keanu informa que nosso futuro depende de dois torcedores escolhidos a dedo: Zé do Rádio e o Dado Dolabella.  A maldade: para provar o equilíbrio da raça humana, as camisas serão invertidas. Zé do Rádio terá que argumentar pelo Flamengo. Dado Dolabella defenderá o Sport. Olho no olho. A missão de ambos é chegar a um consenso.

É verdade que os limites da ficção foram estraçalhados quando consideramos a possibilidade do Dado Dolabella argumentar. E que a escolha dos debatedores prejudicou um pouco as chances do mundo. Mas, apressemos o fim da história, apertemos o botão de fast-forward até o momento em que a galera se levanta, Dado quebra o rádio na cabeça do Zé,  grita “Mengão Hexa”, “chupa Terra!” e vemos Keanu balançando a cabeça negativamente… (ou, numa versão mais popular, Keanu olha para o robô e diz “É vala”). Bom, toda essa variação sci-fi-boleira da  célebre fábula do sapo e do escorpião foi uma tentativa (triste) de  ilustrar o óbvio:  o torcedor não pensa – ele sente. E torce. E distorce.

***

Epílogo (ou ufa)

Qual vai ser, vagabundo?
Qual vai ser, vagabundo?

E, dito isso e tudo mais, entremos juntos, eu e você, leitor, na filosófica caverna que encerra esta digressão.  Lá, no escuro, sob uma luz tímida e sentado num banquinho, encontramos o Wagner Moura fantasiado de Hamlet. O que faz Wagner? Ele lê Shakespeare com voz de  Capitão Nascimento. Não há trilha sonora – apenas um eco, um eco do Mercador de Veneza. Qual vai ser, Capitão?

- O diabo, para atingir seus objetivos, cita até as escrituras.

Torcemos para o Super-Homem. Não para Lex Luthor. Não tem jeito.  Que os deuses do futebol abençoem o campeonato infinito.

O grande pênalti

sex, 02/10/09
por gustavo poli |
categoria Sem Categoria

Olhar pra frente. E olhar pra trás.

Agora que o papel picado já começa a ser recolhido nas ruas, e o sol já se pôs atrás da redentor acima da cidade, é tempo de entender o tamanho do que o Brasil conquistou. Na próxima década, uma planetária lupa se aproximará do país – mais especificamente do Rio de Janeiro. Uma final de Copa do Mundo. Os Jogos Olímpicos.  O que o COI fez nesta sexta-feira de outubro em Copenhague foi marcar pênalti a favor do Brasil. Um imenso e impensável pênalti. Um pênalti claríssimo. É esse pênalti que o Brasil tem agora sete anos para cobrar. O problema é o goleiro. Quem é o goleiro?

Nelson Rodrigues escreveu certa vez que o brasileiro é um narciso às avessas – pois adora cuspir em sua própria própria imagem. Quem se acostumou a freqüentar o Maracanã nos anos 80 e 90 – e a patinar pelos rios de urina que corriam no anel de arquibancadas, entende profundamente a frase. O brasileiro é assim – adora reclamar do Brasil. Mas… na hora de melhorá-lo, bom, quem nunca furou um sinal (ou farol) vermelho?

A ironia é que o brasileiro é assim mesmo – adora falar mal do Brasil, e adora ser brasileiro. Vê alguém furando fila? Se indigna. Chega atrasado e tem uma brecha? Ah, só hoje. No fundo, odiamos e amamos essa malandragem ao mesmo tempo. E amamos porque acreditamos que ela nos traz uma vantagem ímpar. Ninguém sabe driblar como o brasileiro… ninguém sabe resolver as coisas difíceis como o brasileiro. Devíamos ter patenteado o jeitinho há 500 anos, claro.

Como sabemos profundamente que somos assim…  no dia em que conquistamos o direito de sediar uma Olimpíada, o brasileiro está feliz… e cético. Está comemorando, mas dizendo que “vão meter muito a mão”. Está orgulhoso, mas com pé atrás. É justo. Basta olhar para o passado recente. Os céticos dirão – não sem razão – que somos especialistas em superfaturamento com vara, em orçamento à distância, em 110m sem algemas e esportes afins. Dirão sobretudo que o não-legado do Pan de 2007 lança enormes nuvens sobre os jogos que virão. É verdade. Muito verdade.

Quando o Rio ganhou o direito ao Pan,  promessas foram lançadas ao léu. E quase nada se cumpriu. A cidade ganhou dois ou três equipamentos de primeiro nível, alguma infra-estrutra em segurança, fez jogos sem violência… e só. Não houve despoluição da Baía da Guanabara. Não houve metrô para a Barra da Tijuca (nem para o nunca). Não houve TransPan. Houve, sim, uma denúncia de sobrepreço atrás da outra. O carioca se sentiu traído.

Perto de uma Olimpíada, o Pan custa um troco. A previsão brasileira para 2016 é, hoje, de R$ 25 bilhões de gastos. A experiência mostra que esse é apenas o ponto de partida. E é exatamente aqui que devemos parar. Parar e olhar, nacionalmente, para a frente.

Há 15, 20 anos seria impensável ver o Brasil sediando os dois maiores eventos esportivos do planeta. Mais que impensável, seria risível. O Brasil tinha uma democracia infantil, inflação galopante e pouca projeção planetária. Era uma terra exótica de onde veio o Pelé, repleta de traseiros, macacos e cobras. A capital se chamava Buenos Aires, o carnaval era um barato…  e pegando um táxi em Ipanema você desembarcava na Amazônia.

A vitória de hoje mostra que algo mudou. Hoje, o mundo já ouviu falar de São Paulo. Já ouviu falar de Brasília. Já não enxerga o Brasil como aquele nanico curioso que sabe jogar futebol.  O proverbial pais do futuro começa a olhar pra frente com confiança. Mas, para que isso funcione, é preciso – como diria Roberto Carlos – é preciso saber viver.

Sim, porque a corrupção continua saltitante e ululante. Assim como o jeitinho e seu subproduto mais vil – a impunidade. E decerto, em corredores e subterrâneos, há sinistras ratazanas salivando diante das oportunidades à frente. Mas esses bichos existem desde sempre – e existiram em todos os países. A questão, para o Brasil, é outra.

O Brasil precisa mudar por dentro. Precisa abolir suas regras surdas – precisa deixar de achar que conchavo e conversinha resolvem os grandes problemas. Precisa, em resumo, abolir o malandro. Do futebol à política, o Brasil valoriza a ginga e o drible. Mas quando um dribla… outro é driblado. Todo malandro precisa de um otário.  E, nesse particular caso, poucos são malandros, quase 180 milhões são otários.

Então, é uma proposta singela. Precisamos revogar a lei de Gerson, parar de acreditar que o jeitinho é legal. É uma diferença sutil – a ginga é bacana, enganar o próximo não. Devemos endurecer como Che , sem perder a ternura – pois a ternura é nossa maior identidade. Essa sutileza – a fronteira entre tolerância e impunidade – é que precisamos entender. Aprender a punir quem precisa ser punido sem deixar de gostar de festa – taí nossa missão para os próximos sete anos. Não é  tarefa fácil – pois rebeldia e malandragem fazem parte de nossa identidade há cinco séculos.

Temos, pois, sete anos para aproveitar a oportunidade e transformar o Brasil. Não roubar, e não deixar roubar. Fiscalizar – e se indignar. Participar – e cobrar. São verbos bonitos hoje – mas chatos quando o tempo passa, dão trabalho. Se não aprendermos a conjugá-los, se deixarmos pra lá, se acharmos que é com os outros… é bem possível que tenhamos um belo evento esportivo daqui a sete anos – como tivemos em 2007. E isso, obviamente, será perder uma chance única.

É esse o pênalti que o Brasil precisa cobrar. Perdê-lo… será deixar passar o mais encilhado cavalo desta história tropical.

Tratado Lógico-Arbitral – I

sex, 04/09/09
por gustavo poli |
categoria Sem Categoria

Esse é o primeiro de dois artigos sobre arbitragem que publicarei aqui. Temos presenciado nos últimos anos a condenação generalizada do árbitro de futebol brasileiro. Hoje, na melhor hipótese, ele é ruim. Na pior, ladrão, venal ou adjetivo outro. Esses dois artigos têm como objetivo discutir se esse julgamento é justo.

Precisamos, urgentemente, atualizar o clichê. Não somos mais apenas 190 milhões de técnicos de futebol. Somos 190 milhões de técnicos e de juízes. Além de escalar a seleção, todos juntos somos experts nas artes do apito. Sabemos soprá-lo, triná-lo, soá-lo… e entendemos cada milímetro das cristalinas regras do esporte. Em especial, sabemos interpretar essas regras a favor de nosso time. A bola na mão de hoje pode ser tapa na esférica de amanhã… tudo depende da camisa.

O torcedor de futebol, sabemos, não é um cara legal. Ninguém vai ao estádio para dar bom dia às plantinhas. O sujeito paga ingresso por um singelo motivo: ver seu time ganhar. Não paga para aplaudir fair play ou pra ver jogo bonito. Ele está ali em busca do fígado rival e se possível das vísceras. Ele quer sambar rindo sobre o cadáver moral do adversário. O problema é que… em futebol, como diria um certo Mané, tem que combinar com os russos.

Nieztsche escreveu, dois séculos atrás, que mesmo o homem mais racional precisa, de tempos em tempos, da natureza. Ou seja, de sua ilógica relação com todas as coisas. É mais ou menos isso que vivemos na pátria do palavrão que chamamos de arquibancada. Ali, vestimos a pele de ferozes e animalizados devotos de certa fé. Somos como o bicho do território invadido – para o qual a derrota é inaceitável. Quando ela vem, e retornamos ao normal, precisamos absorvê-la emocionalmente. Dissecá-la, explicá-la. E buscar o responsável por ela – esse filho duma jagun… esse vilão. Em outras palavras – quando seu time perde, o torcedor precisa de uma saída. Pode ser um pereba. Pode ser a jumência do treinador. Mas não há saída melhor do que o erro de arbitragem.  O juiz de futebol é uma espécie de mordomo de calças curtas e uniforme furtacor – ele já nasceu bode expiatório. O erro de arbitragem é a tangente perfeita – pois tasca um asterisco na vitória alheia e fornece um alvará honroso, uma vitoriazinha de pirro – e um alvo para a cólera do derrotado.

Viremos, pois, esta moeda. O que existe do outro lado? Imagine um emprego no qual, ao bater o ponto, você seja jocosamente vaiado por muitos. Depois da vaia, ao caminhar para seu posto, vem uma análise polida sobre suas preferências sexuais. A seguir, um debate em altos brados sobre a pouco nobre opção profissional de sua mãe. Ao longo do expediente, milhares de vozes analisam sua árvore genealógica, e guturalmente ironizam cada atitude sua. Para qualquer mente razoável – isso é motivo para pinel, Ultimate Fighting ou para a frase que encerra esse solerte vídeo. Pois bem – essa incubadora de serial killers é a rotina do juiz de futebol brasileiro.

Pensando nisso, daria pra entender se o Collor tivesse virado juiz em vez de presidente (alguém deve ter pensado nisso num universo paralelo: “Caro jogador, o senhor se jogou, parlapatão que és! Quero que o senhor engula esse cartão vermelho e o digira como quiser”). Mas… uma pessoa normal? Por que? Para que? Por reconhecimento? Só uma vaidade muito torta para escolher uma função pública na qual o grande aplauso é o silêncio. Na qual o grand finale é sair de fininho. Por dinheiro? Só se for a la Edilson (esse injustiçado inocente!). Uma taxa de árbitro FIFA hoje – na Série A do Brasileirão – é de pouco menos que R$ 3 mil reais. Se apitar muito e ganhar algum na Conmebol… o sujeito pode embolsar ali uns 10, 15 mil por mês. Isso no topo de uma carreira muito breve. Um jogador mediano da Série B recebe mais que isso. Por que, então? Por status? Para ser conhecido como ladrão ou maluco, correr risco de apanhar na rua e, depois de aposentado, virar comentarista de TV? Não soa lógico. Paixão pelo esporte? Talvez. Poder, ainda que breve? Quem sabe. Um dia leremos um estudo sério, acadêmico, sobre a psiquê desses sujeitos que escolhem o açoite da multidão.

E se antes já era difícil entender, agora a coisa tende à patologia.  Há 12, 15 anos… não havia essa profusão de câmeras e ângulos. A cada jogo, um juiz de futebol toma entre 100 e 150 decisões. Se errar em uma, umazinha que seja, miserável, corre o risco de ser assado e servido com maça na boca numa mesa televisiva. Até ontem… com três, talvez cinco câmeras era possível manter a dúvida. Hoje com oito, 15, 20… não dá mais. É covardia. É lesma manca, cega e bêbada contra Usain Bolt. Os juízes ficam humanamente nus a cada domingo. Antes, o árbitro era vaiado e xingado no estádio. Os gritos de ladrão ecoavam e morriam, com uma ou outra repercussão em rádios e jornais. A era da informação transformou o protesto em massacre. Os sites publicam o erro de imediato. A TV a cabo ecoa. O vídeo está por toda parte. E, nós, cronistas-coveiros ainda batemos com as pás na cabeça dos defuntos: Incompetentes! Ruins! Fracos!  E nem se defender eles podem – têm que agüentar calados, oferecendo a outra face setenta mil vezes;

É, numa palavra singela, desumano. E de quebra ainda há a concorrência dos comentaristas que um dia apitaram (contra muitas câmeras a menos). Esses, pelo menos, tendem à gentileza. Entendem minimamente quão cristã é a solidão nesse coliseu. E tentam dar uma mão, nem que ocasionalmente seja necessário enfrentar com violência quixotesca a imagem… para defender decisões indefensáveis do juiz – portador desse aparelho limitado e deficiente, o olho humano.

E todo fim-de-semana, depois do juiz assado ou grelhado, é servida a mesma sobremesa: o dilema eletrônico. Por que cargas de cachoeiras de água a tecnologia não pode ajudar o juiz a cumprir a regra? O argumento original da FIFA – e dos proverbiais velhinhos da International Board – já fez algum sentido. Como mudar um jogo cujas regras servem para o mundo inteiro, para mais de 190 países, com inúmeras divisões, facetas e rincões? É impossível – seria cruel demais com os menos favorecidos… que jamais poderiam pagar por traquitandas digitais. Seria cruel… se já não fosse. Esse futebol homogêneo é como o jogo limpo dos anos 40 – uma ilusão.

O futebol é disputado com regras unificadas uma só vez – e de quatro em quatro anos, naquilo que costumamos chamar de Copa do Mundo. E as regras, então, são bem mais rígidas. Cotovelaço? Gancho. Fingiu pênalti? Suspensão. Fora isso… é uma colcha de retalhos imensa, onde o fio da meada é a lendária regra 18 – o bom senso do juiz. Ou alguém acha que um árbitro apita da mesma maneira na Rua Javari e no Morumbi? Que uma contenda no Parque Lamy tem as mesmas regras que um cotejo no Beira-Rio? Que sua excelência responsável pelo clássico ganês entre Asante Kotoko e Hearts of Oak… segue os mesmos critérios que a senhoria tupiniquim a comandar um Fla-Flu no Maracanã? Basta ver um jogo europeu e um brasileiro – parecem esportes diversos.

- A gente diz hoje que existe jogo de TV aberta, jogo de cabo, jogos de pay-per-view e jogos sem TV. E eles são bem diferentes. Um cartão vermelho num jogo de TV aberta e estádio cheio é bem diferente de um cartão num jogo de estádio pequeno sem TV – diz um árbitro da Série A.

A grande ironia é que a classe apitadora é real e patologicamente masoquista. Ela sabe que não pode competir com as câmeras. No entanto, é mais fácil encontrar um fio de cabelo na cabeça de Héber Roberto Lopes… do que achar um juiz que seja a favor do auxílio eletrônico Até parece que o futebol perderia graça com tecnologia. Muito pelo contrário – ele ganharia em emoção e credibilidade. E melhoraria como esporte – haveria menos margem para choro, justo ou injusto. E menos espaço para pressão. Isso sem falar nas possibilidades de patrocínio e investimentos com parentesco tecnológico.

O pior é que a receita é até simples: basta adotar o tal chip na bola. E um sistema inteligente de replay – que ofereça a cada lado um número limitado de desafios (como acontece no futebol americano e no tênis). No futebol americano, jogo de contato e inúmeros lances de interpretação, o replay funciona baseado numa premissa simples: mudar uma escolha do juiz em campo só ocorre se a imagem trouxer evidência irrefutável do erro. O detalhe é que a evidência às vezes é irrefutável pra um… e não é pra outro (vide caseiro – STF). E daí? Com mil cameras, o espaço para dúvida seria muito reduzido. Se ela não acabasse – tanto melhor. A tecnologia, afinal, também tem limites.

Talvez demore cinco, 10 ou 20 anos. Mas é inevitável. Queiram os juízes ou não, a carnificina vai acabar. A Board e a Fifa vão caminhar um dia pela Enseada de Botafogo e perceberão a presença do Pão de Açúcar. É óbvio, é ululante… mas às vezes demora. A tecnologia chegará aos gramados, forçosamente, e pela porta da frente. E nosso distinto árbitro à pururuca sairá do cardápio.

O Império dos sentidos

sáb, 04/07/09
por gustavo poli |
categoria Adriano, Futebol

O traje imperial tende a ser sumário – tem apenas dois itens obrigatórios. O chinelo. E a bermuda. Adriano é um imperador pé-descalço – ou quase – um imperador de Joãozinho Trinta. Prefere o lixo ao luxo, o despojamento à ostentação. Antes a favela do que o condomínio cercado. Usa seu cordão de ouro, um brinco sugestivo… vá lá. Mas não traz apartamentos no pulso. É capaz de trocar o mega-carro pela garupa na moto – sem camisa, com ocasional exposição de cofre. E, acima de tudo, é capaz de dar de ombros. Por isso voltou ao Brasil – para dar de ombros. Para poder dizer (e sentir) que não está nem aí.

 

Estátua partida de Adriano, o Imperador original

Estátua partida de Adriano, o Imperador original

O Flamengo sabia o que estava comprando. Adriano queria ficar perto dos amigos e curtir a vida. Ele tem dinheiro para gastar por 12 gerações. Quer bater papo, soltar pipa, andar de bermudão, relaxar, tomar sua cerveja, aproveitar a vida de solteiro… e até jogar sua bola. E tem todo direito de fazê-lo. Mas… talvez não tenha percebido que, mesmo no Rio, dar de ombros não é de graça. Aqui também existem papparazzi, sites de celebridade e marcação.

Imperativo, na vida de Adriano hoje, é o verbo curtir. Tudo o que pode vagamente parecer entediante… ele tenta driblar. Em um mês de Flamengo, já foram três faltas. As causas de cada ausência – ou supostas causas – importam menos. O que importa é a velocidade com que Adriano está estraçalhando sua imagem. O engraçado é que boa parte da torcida do Flamengo se irrita com a imprensa – como se os jornalistas devessem fechar os olhos. Como se fosse melhor não saber da verdade.

 

O argumento é singelo: Adriano recebe para resolver no jogo. Treinar é para os outros. Mas essa equação não fecha. Para jogar bem regularmente, Adriano precisa de treino. Desde que voltou, o atacante fez duas boas apresentações – ambas no Maracanã – uma contra o Atlético-PR, outra contra o time misto do Internacional. Em outras partidas se arrastou em campo. Pode arrebentar contra o Vitoria – e calar as criticas até o capitulo seguinte. Em suma – Adriano pode ser diferente… mas privilégio não costuma dar certo em futebol –  meio que remixa vaidade, dinheiro e alumbramento.

 

As desculpas importam menos – mas ajudam a entender a onda do Imperador. Sua segunda falta, em especial, foi peculiar. Lembremos: era uma terça-feira, pós-folga de segunda, e o Flamengo treinava em dois períodos no Ninho do Urubu, em Vargem Grande, zona oeste do Rio. Adriano não apareceu. Tinha, explicou-se depois, uma audiência judicial. O primeiro treino era de manhã. A audiência era 13h30m. Qual o motivo da audiência? Adriano entrara na justiça contra a ex-mulher – com quem teve dois filhos – para estabelecer uma pensão alimentícia razoável. Negrito aqui: a ação é dele, não dela. Pois bem, audiência marcada para às 13h30m. E o que aconteceu?

 

Adriano terceirizou. Mandou a mãe em seu lugar. Ou melhor – tentou terceirizar. A juíza do caso, ao ver a mãe como preposta do filho, estrilou. Exigiu o Imperador em carne, osso e chinelo – na mesma tarde. Como há limites para o relaxamento imperial, ele teve que dar as caras – e ainda com o topete de dizer que estava lá desde cedo.

 

Traduzindo: é chato? Chama a mãe, um assessor ou alguém. E Lá foi Dona Rosilda ao tribunal como se Adriano realmente tivesse algum outro compromisso inadiável – tivesse, de repente, que… treinar no Flamengo. Mas… não. Adriano tinha resolvido não treinar, usando a audiência como desculpa. E depois resolveu não ir na audiência, usando a mãe como representante.

 

É mais que compreensível que o sonho de fenômenos e imperadores se desidrate. O roteiro do menino-pobre-que-subiu-na-vida-jogando-bola é mil vezes repetido. Ele não ganha só dinheiro. Ganha também um sistema planetário no qual faz o papel solar de fonte de dinheiro, status e celebridade. Ao seu redor giram amigos novos, parentes súbitos, parceiros velhos… gente de toda sorte. Essa corte informal fornece tapinha nas costas, adulação e toda sorte de aplauso. Os amigos que nunca dizem não, o melhor vinho, a cerveja importada, a vagaba da hora… todo prazer a um estalar de dedos. Então, qual criança a conhecer melado – o lambuzar é mais que previsível – é quase inevitável.

 

Muito se fala sobre o papel da imprensa nesse tipo de cenário. As celebridades se queixam do jornalismo-paparazzi, que ignora fronteiras entre vida pública e privada. Quando falamos de esporte, separar joio e trigo me parece simples. Se existe referência esportiva – interessa. Caso contrário – é material pra tablóide marrom e revista de fofoca.

 

Não interessa, em tese, ao público esportivo a mulher-fruta que Adriano consumiu ontem, anteontem ou hoje. Mas interessa, sim, saber que ele trocou o treino por aventuras frutíferas ou leguminosas. Que alegou indisposição estomacal às 8h… e estava comendo um cachorro-quente no quiosque às 6h da manhã. Convenhamos – ninguém acorda às seis pra tomar café-da-manhã com amigos no quiosque – e ninguém come dogão no cardápio matinal – em especial se for atleta.

 

Sonegar esse tipo de informação é mau jornalismo. Ou devemos voltar ao tempo em que jornalistas emprestavam garconiére para jogador em troca de entrevista e acesso? Informação só a favor, quase sempre, é desinformação. A vida particular de Adriano é, como o nome diz, particular. Mas a partir do momento em que ele deixa de cumprir com obrigações públicas… o torcedor, cliente primário do jornalista esportivo, quer saber o que está acontecendo. Por que faltou? Faltou por que?

 

Em outras palavras – Adriano tem todo direito de faltar a treinos e curtir a vida. Mas o torcedor do Flamengo deve ser informado sobre isso. Vivemos num mundo hiper-conectado, em que cada vez mais gente busca informações na internet – a qualquer hora, em qualquer lugar. Com nem dois meses de treino e três faltas com desculpas mais retalhadas do que o macacão de F-1 do Corinthians… Adriano encomendou um mega-holofote sobre si mesmo.

 

A rebeldia imperial fala muito sobre o Rio de Janeiro. Adriano é favela pura – no melhor sentido da palavra. Não tem vergonha da pobreza anterior. Adora a Vila Cruzeiro. E isso merece toda sorte de elogio. Mas no Rio… favela é quase sempre sinônimo de ausência de estado. Pois ali, onde a polícia não chega,– impera uma lei diferente, peculiar. Esses dois mundos colidem na figura do Imperador. E Adriano parece não ter entendido que certas leis do morro não funcionam bem no asfalto. A omertá, em especial, não funciona. O malandro benevolente, amigo de todos e inimigo das regras, sofre com a marcação em cima do mundo profissional.

 

Pelo torcedor, Adriano será julgado pelo futebol que mostrar em campo. A dúvida é se conseguirá jogar bem se levar uma vida desregrada. Mas há algo que vai além da arquibancada – algo que ultrapassa o futebol. Adriano serve de exemplo, ou deveria servir, para um sem-número de garotos humildes que enxergam nele o sonho realizado. A cada falta ou deslize, o exemplo se distorce – a imagem do Imperador perde imponência e ganha malandragem. E é nesse espelho futuro que os meninos de hoje se enxergam – imitando dribles e caminhos.

 

Lamentos à parte, Adriano não escreve uma história nova. Nem diferente. Em seu campo particular, brigam dois Brasis – aquele pobre que, graças ao talento e contra todos, deu certo. E aquele rico que, uma vez vitorioso, se achou dono do senado e acima das leis.  É um conflito antigo, que nos diz muito sobre país e povo. Adriano, diria o presidente, não é “um homem comum”. Em tese, ninguém está acima da lei. Nem… o Imperador. Mas, na verde e amarela terra do nunca, é bom frisar o em tese.

 

 

O pênalti presume a covardia

ter, 02/06/09
por gustavo poli |
categoria Futebol

No mais coletivo dos esportes, o pênalti é uma aberração. O conflito entre times e multidões é, subitamente, reduzido a um duelo. A carga dramática se concentra – o destino de milhares se torna o confronto entre dois mortais: o cobrador e o goleiro. O imenso, todo-poderoso chutador… o frágil, minúsculo arqueiro. Ou assim fazemos crer epicamente – nós, locutores, narradores e comentaristas. Pobre, humilde e triste infeliz, que escolheu agarrar em vez de ser assessor de deputado, intermediário de boquinha ou profissão brasileira afim. A questão que esse artigo propõe é um imenso… PERAÍ. Ou melhor – um gigantesco e colossal MAS PERAÍ:

MAS PERAÍ... NÃO É PRA SER ASSIM?

O sujeito está ali pra defender um pênalti. Não é um fim-de-semana em resort de luxo. É defender pênalti. O pênalti, lembremos, é a penalidade máxima. Um chute a 11 metros da meta. Defendê-lo tem que ser difícil. Mais que isso, tem que ser quase impossível. O goleiro está ali pagando um pecado que seu time cometeu: o de impedir um gol por meios ilícitos. Ele não está ali condenado por um crime injusto. Salvo erro arbitral ou burrice de zagueiro – o pênalti é uma forma de justiça. E o goleiro é uma espécie de advogado de serial killer no corredor da morte. Sua situação é desesperadora – e é para ser assim.

 A regra diz, cristalinamente: o goleiro só pode se mover fora de sua linha quando o cobrador tocar na bola. Certo… é uma lei que não pegou. No futebol atual, os goleiros se mexem mais do que as moçoilas do Faustão dançando música de elevador em playback. Avançam, dançam, pulam… e, por conta disso, passaram a pegar um pênalti ou outro. Os juízes, repletos de comovente piedade, deixam passar quase toda vez. Há casos acintosos, em que o goleiro vai até a linha da pequena área… e o juiz assobia, olha para as estrelas, mexe no cronômetro. Não interessa se é covardia ou não. O fato é singelo: o goleiro que sai antes – seja um, meio ou dez mil passos fora da linha… está burlando a regra.

Aqui se faz, aqui se paga...

Dirá o bom senso: olha… mas todos saem. Se eles não saírem, não pegarão mais pênalti nenhum. Não haverá mais graça. Mas peraí 2.0: eles… não saíam antes? A regra anterior era mais draconiana: o goleiro simplesmente não podia se mexer.  E se mexia mesmo assim. Hoje, o goleiro pode dançar o xote em cima da linha do gol antes da cobrança. 

Mais do que isso – o futebol evolui. Os goleiros de hoje são bem mais atléticos do que seus irmãos dos anos 40, aquele tempo em que os guarda-metas preferiam a corridinha ao salto. Tendo muito mais agilidade, podendo se mover sobre a linha ou além dela –eles pegam mais pênaltis hoje do que no passado. E fazem isso porque desenvolveram técnicas para tal – tirando vantagem do olhar seletivo da arbitragem.

Diante dos goleiros que saem antes – e dos juízes que raramente apitam – o que fez o Golias da equação, o antes todo-poderoso batedor? Bom, ele respondeu. Retomou a paradinha. A paradinha, amigos, não é uma novidade. Ela data dos anos 70. E, depois de inventada, foi rapidamente expulsa de campo. Proibiram a pobre coitada. Disseram que era covardia com os goal-keepers. Até que… uns aninhos atrás… alguém se tocou: epa, peraí… por que a gente tinha proibido aquilo mesmo? O que tem de mais? E eis que, em pleno Século XXI, ela voltou. E, junto com ela, voltou a grita: pobres goleiros, infelizes almas enluvadas, jogam onde o burro morreria de fome, pois nem capim há de crescer ali.

Menos. A paradinha é uma resposta genial. O goleiro que sai antes está levando vantagem. Ninguém o obriga a adivinhar canto. Ele faz isso para ter mais chance de pegar o penal. E, lembremos, o que é o penal? É, quase sempre, um gol claríssimo transformado em falta.

O pênalti presume a covardia. A paradinha é um recurso justíssimo, brasileiro, repleto de picardia. Não há nada de vil ali.  Agora, a bola está na rede dos goleiros. Que eles divisem um jeito de transformar a desvantagem em vantagem de novo.  

Tribunal de Justiça Seletiva

qua, 11/03/09
por gustavo poli |

Duas decisões recentes do egrégio Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro, a nobre corte que retirou seis pontos do Vasco e promoveu o Rezende à semifinal do Campeonato Carioca, merecem atenção. Mais do que isso – sugerem novas jurisprudências no meio jurídico-desportivo. Vamos a ambas: 

 1 – Soco não é agressão

 O goleiro Fernando Henrique (do Fluminense) foi flagrado pelas imagens da TV dando um soco no atacante Kieza (Americano) no jogo pela Taça Guanabara em Campos. O juiz viu o soco e conseguiu cometer o maior erro de arbitragem do campeonato – ao marcar pênalti e não expulsar o pugilista. A conta veio depois – FH foi pra área adversária e sofreu pênalti no último minuto de jogo. O Fluminense ganhou por causa disso. 

Vendo as imagens, o procurador foi obrigado a indicar FH por agressão (artigo 253, pena mínima de 120 dias) – e o tribunal teve que julgar o caso. O detalhe é que, durante o jogo, FH perguntou ao cinegrafista se sua agressão tinha sido flagrada. Tinha. FH deduziu que não podia brigar com imagens – e confessou o soco no fim da partida para os repórteres.  Apesar da confissão clara e gravada do goleiro… o que fez o Tribunal? Absolveu Fernando Henrique. Vejamos bem -  não condenou por ato hostil (artigo 186, que é a saída pela tangente tradicional), não deu três joguinhos marotos – ABSOLVEU. Só nos resta concluir: segundo o TJD, soco não é agressão. Você pode dar um soco na barriga do adversário… e tudo bem.

2 – “Débil mental” não é ofensa

Após a derrota do Flamengo para o Rezende na semifinal da mesma Taça Guanabara, o vice-presidente de Futebol do Flamengo, Kléber Leite, conseguiu reclamar da arbitragem. Não só reclamou como ofendeu de forma grosseira o árbitro. Disse que ele era um “débil mental”.  Foi indiciado no artigo 188 do CBDF (manifestar-se de forma desrespeitosa, ou ofensiva…  contra árbitro ou auxiliar em razão de suas atribuições, ou ameaçá-los). Pena prevista: 30 a 180 dias. Pergunto ao caro leitor: terá Kleber Leite se manifestado de forma desrespeitosa ou ofensiva contra o árbitro ao chamá-lo de débil mental? Segundo o tribunal, não. Kleber Leite foi absolvido por unanimidadeO TJD deve ter considerado, por unanimidade, que era um elogio.

A graça na derrota

dom, 24/08/08
por gustavo poli |
categoria Pequim 2008

Em tese, as Olimpíadas não são um campeonato. Passamos agora 15 dias fazendo contas sobre o quadro de medalhas, comentando a ascensão da China como potência olímpica – vislumbrando a queda dos EUA… e esquecendo que o quadro de medalhas é meramente um espelho. O que fascina nos Jogos Olímpicos não é contabilidade. Não é matemática.

Na madrugada de anteontem, Hungria e Austrália decidiram o bronze no pólo aquático feminino. No Brasil, o interesse que esse jogo gerou foi estatisticamente zero. Mas lá no fundo da margem de erro, estava este humilde servo do leitor com seu par de olhos, acompanhando, grudado na telinha, o confronto espetacular. Um duelo de meninas de touca que foi para a prorrogação e depois para os pênaltis… a Austrália que tinha o jogo perdido, depois ganho… acabou vencendo quando uma húngara arremessou seu pênalti para fora.

Imagine – foram horas extenuantes numa piscina. Horas brigadas, tensas. Pólo aquático é um esporte violento. O que acontece debaixo da superfície é capaz de corar ator de filme pornô. E, nesse jogo, o placar se alternou insanamente. A Austrália empatou a segundos do fim do tempo regulamentar. A Hungria devolveu o empate nos últimos segundos da prorrogação. E a decisão de quem era melhor – de quem receberia ou não a medalha de bronze – ficou para um detalhe. Não parecia justo – não era justo. Mas eram as regras. O erro de uma atleta devastou as húngaras e extasiou as australianas.

O que é fascinante nos Jogos Olímpicos pode também ser cruel. A expressão das meninas húngaras derrotadas – seus olhares vazios de filme de Bergmann – informava mais sobre a alma humana do que dez mil quadros de medalhas juntos. Aquele bronze ali – decidido por um fio de cabelo – me lembrou da frase do Barão de Coubertin – tantas vezes repetida, e tantas vezes incompreendida. O importante, sim, é competir.

E não somente porque vencer é desimportante. Não é. O que nos atrai nos Jogos Olímpicos é a competição milenar do homem contra seus limites. Nossa competitividade natural – impressa em cada célula – é o que nos move para a frente como espécie. E competir presume a existência do adversário. É o adversário que exige o melhor de nós – que nos torna melhores, que nos desafia e estimula.

Michael Phelps ganhou por uma unha do sérvio. Ganhou por uma medalha de Mark Spitz. Sem Spitz, Phelps não seria Phelps, não reescreveria a história. Usain Bolt tinha nove anos quando Michael Johnson bateu o recorde dos 200m rasos em Atlanta (19s32) – uma marca que todos consideravam imbatível no futuro próximo. Pois o futuro chegou rápido (Bolt cravou 19s30). Quantos anos terá o próximo Bolt hoje? Quantos anos terá o próximo Phelps?

Competimos no presente contra o passado. Em busca desse futuro que não compreendemos bem – mas na direção do qual nos movemos por impulso – aplaudindo os fenômenos. Admirando os mais altos, mais fortes e mais rápidos. E, por mais que seja interessante saber quem ganhou mais medalhas, o músculo mais importante nas Olimpíadas segue sendo aquele que pulsa na caixa toráxica.

diego1.jpgE é por conta dele que a derrota também interessa. Que a dor emociona – que o sacrifício nos move. Choramos em nossas raras vitórias, em nossas escassas medalhas… mas por vezes sentimos raiva, casualmente, quando um dos nossos favoritos perde. Quando um dos nossos candidatos a herói… falha. Como uma tatuagem no crânio, todos gravamos a imagem da boca aberta de Diego Hypólito depois de sua queda. Pois bem, antes de Diego, a ginástica brasileira nunca tinha perdido uma final olímpica. Provavelmente porque nunca tinha disputado uma. Diego errou, como Daiane errou em Atenas, como Baloubet de Roeut refugou em Sydney.

Essa raiva é aceitável? É justificável? O que ela nos diz sobre nós como país? O que mais ouvi durante esses Jogos Olímpicos foram comentários desabonadores sobre o Brasil. Quem chorou num dia com César Cielo, no dia seguinte já gemia “que vergonha” ou expletivo afim. Como dizia Nélson Rodrigues, o brasileiro é um narciso às avessas – adora cuspir na própria imagem. Mas o brasileiro também adora ser brasileiro.

O momento mais marcante deste derradeiro dia olímpico, para este escriba, aconteceu logo após a derrota do Brasil para os Estados Unidos no vôlei masculino. Giba, que não jogou bem, caminhou na rede para cumprimentar os americanos. Encontrou Stanley, com quem joga na Rússia, e foi até efusivo. Stanley tinha acabado de dilapidar o sonho verde-e-amarelo - seja com saques ou mesmo a última cortada – que foi justamente das mãos de Giba para o chão.

E o cumprimento, engraçado, me confortou. Me deu um certo orgulho de ser brasileiro, de saber perder. A graça na derrota, ali, foi profundamente olímpica. Foi como dizer: vocês foram melhores, parabéns. O melhor venceu. Nós? Nós cumprimos nosso dever. Giba, que venceu muito, tinha recebido a derrota com elegância. Pode ser só uma pequena vitória – mas me soou maior.

Bolt e a redução dançarina

qua, 20/08/08
por gustavo poli |
categoria Pequim 2008

Alguns criticaram, a maior parte achou divertido. Quando o jamaicano Usain Bolt reduziu sua elegante marcha e, mesmo assim, bateu o recorde mundial dos 100m rasos… provocou uma palpitante e olímpica celeuma. Falta de espírito olímpico, disseram uns. Que personagem, vibraram outros. Mas a explicação para o ouro-com-pé-nas-costas pode ser muito mais singela.

Toda vez que a russa Yelena Isinbayeva bate seu recorde mundial no salto com vara, sua conta recebe uma injeção financeira dos patrocinadores. Não é por acaso. Recorde mundial é sinônimo de manchetes mundo afora. O recorde batido em Pequim (5,05m) foi o 24o de Isinbayeva. A cada recorde batido, ela embolsa US$ 100 mil (cerca de R$ 160 mil). Já ficou mais de US$ 2 milhões mais rica por cada centímetro

Usain Bolt

Imaginem quanto pode valer o recorde mais famoso do atletismo, o dos 100m rasos? Isso talvez explique a redução dançarina de Bolt. Ele soou tão absoluto na  prova – tão tranqüilo – que pôde pensar economicamente. Dar o máximo significaria perder dinheiro. Talvez soe triste constatar isso debaixo dos anéis olímpicos. Mas… Bolt vive de correr. Sua performance olímpica apenas aumentou seu preço. Quantos farão fila para ver o raio jamaicano correndo na próxima temporada? Quanto valerá um corredor capaz de bater o mais nobre recorde mundial assim, dançando?

E esta manhã Bolt estará de olho numa marca que muitos consideravam praticamente insuperável: os 19s32 nos 200m, que Michael Johnson cravou em Atlanta, no dia primeiro de agosto de 1996. Para chegar ao recorde, Johnson foi estimulado pela presença de dois rivais – Frank Fredericks (NAM) e Ato Boldon (TRI). Hoje, Bolt terá vários rivais… como os americanos Walter Dix e Shawn Crawford. Será que o jamaicano que parece correr sem esforço… terá que se esforçar?

A volta

qui, 14/08/08
por gustavo poli |
categoria Sem Categoria

Aproveitando o período olímpico, a teia de aranha deste espaço começa a ser removida. Abaixo três textos publicados como artigos aqui no globoesporte.com. A COLUNA 2 será certamente mais sazonal do que antigamente. Mas está de volta… até prova em contrário.

E se Phelps fosse um país?

qui, 14/08/08
por gustavo poli |
categoria Pequim 2008

Qual o tamanho do fenômeno? Quão impressionante é a performance de Michael Phelps? Suas cinco medalhas de ouro em Pequim o transformaram no maior atleta olímpico de todos os tempos. Ninguém até hoje tinha ultrapassado a marca de nove medalhas de ouro. Phelps tem 11 – e pode chegar a 14 ainda nestes Jogos. Mais do que pode, deve. Para tentar mensurar o significado dessas medalhas, façamos um exercício comparativo em tópicos, a partir de uma questão simples: e se Phelps fosse um país?  

  Editoria de Arte/Montagem

 

Em Pequim-2008

Se Phelps fosse um país, ele estaria agora na quinta colocação das Olimpíadas com suas cinco medalhas de ouro. E os Estados Unidos cairiam da segunda para a quarta posição, ganhando de Phelps no desempate (medalhas de prata e bronze). Mas uma das medalhas de Phelps foi ganha no revezamento 4×200m livre e outra no revezamento 4×100m livre. Ou seja, não são apenas dele. Mas será que os EUA ganhariam as duas se Phelps não nadasse pelo país? Se considerarmos apenas as medalhas individuais, Phelps, com três de ouro, estaria na oitava posição, na frente da Rússia, logo abaixo do Japão. 

Historicamente

Com suas 11 medalhas de ouro e duas de bronze, Phelps estaria em 42º lugar entre os países, à frente do México (dez de ouro, 18 de prata e 25 de bronze) e logo atrás da Etiópia (14 de ouro, cinco de prata e 12 de bronze). O Brasil fica um pouquinho à frente, no 37º lugar, com 17 de ouro, 21 de prata e 41 de bronze. 

Contando Pequim, o Brasil ganhou até hoje 79 medalhas olímpicas. A melhor participação do país nos Jogos aconteceu em Atenas, em 2004, quando a delegação verde-amarela trouxe dez medalhas, sendo cinco de ouro, duas de prata e três de bronze. Em termos de quantidade, a melhor edição foi a de Atlanta, de onde o Brasil trouxe 15 medalhas (três de ouro, duas de prata e nove de bronze) em 1996.

O resultado de Phelps em Pequim empata com a melhor performance do Brasil em termos de medalha de ouro. Em Atenas, a delegação verde-amarela também conseguiu cinco ouros. Mas, como o fenômeno americano não terminou de trabalhar em Pequim, esse empate não deve perdurar.

Se embolsar mais três medalhas de ouro, a posição histórica do “país” Phelps não mudará. Porém, ele terá feito o que nenhum homem jamais fez – ganhar oito medalhas de ouro numa única edição das Olimpíadas, superando o histórico de outro americano, o bigodudo Mark Spitz, que impressionou o mundo em 1972, com os sete ouros conquistados em Munique.



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