Vieram à tona nos últimos dias revelações sobre o caso do jogador Jô, vendido pelo CSKA (Rússia) para o Machester City (Inglaterra). A negociação a princípio parecia benéfica ao Corinthians, e cheguei até a publicar aqui no blog a expectativa da chegada de mais de R$ 7 milhões aos cofres alvinegros. Ignorávamos, no entanto, que os 10% que o Corinthians tinha dos direitos federativos de Jô já haviam sido vendidos há dois ou três meses.
Em outros tempos, seria muito normal não sabermos de absolutamente nada que se passa nos bastidores do Parque São Jorge. Seria normal se não estivéssemos lidando com uma Diretoria que prometeu ao corinthiano TRANSPARÊNCIA acima de tudo. E que aparentemente não fez questão nenhuma de tornar pública a negociação envolvendo os direitos federativos de Jô. Por quê?
Mais revelações: a negociação foi fechada com Giuliano Bertolucci, amigo do iraniano Kia Joorabchian, ex-presidente da MSI. Segundo reportagem do “Lance!”, o empresário Marcelo Dijan, representante de Jô, afirmou: “Não sei direito como e qual foi a influência de Giuliano nesse negócio. O que sei é que teve a participação do pessoal de Pini (Zahavi, um dos investidores da MSI) e de Kia também.” Ainda de acordo com o mesmo empresário, os direitos federativos de Jô eram divididos da seguinte forma: 10% eram da MSI, outros 10% do Corinthians e 80% do CSKA.
Façamos um grande esforço e ignoremos o péssimo negócio feito pelo Corinthians. Pensando friamente, não soa tão estranho assim que a MSI, dona de parte dos direitos de Jô, tenha algum envolvimento na tal negociação. Diz o vice-presidente Jurídico do Corinthians, Sergio Alvarenga: “A venda foi feita para o empresário brasileiro que atua no ramo, Giulano Bertolucci. Se ele mantém alguma relação com as pessoas da MSI é fato que foge ao controle do Corinthians”.
Eu, pessoalmente, acho o seguinte: Foge? Ok, até pode ser que sim. Mas não deveria fugir. Há acusações formais do Ministério Público brasileiro contra representantes da MSI, inclusive com mandado de prisão –tudo isso sem falar nas inúmeras suspeitas com relação à idoneidade desse fundo e dos que dele fazem parte. O Corinthians ignora isso? Não.
Mas pior: não se trata apenas das acusações e suspeitas. O Corinthians já teve a MSI como sua parceira e rompeu com ela em dezembro de 2007. Ainda de acordo com Alvarenga, o Corinthians “notificou o representante da MSI sobre o fim da parceria. Não existe mais qualquer vínculo entre as partes”. Não existe mais por quê? Porque itens da parceria foram descumpridos, o que permitiu, portanto, o rompimento.
Eu tenho por princípio, inclusive pela profissão que escolhi, sempre ouvir todos os lados envolvidos na questão. E mais que isso, não disparar a metralhadora giratória de acusações sem ter provas. No que se refere ao caso Jô, não há prova nenhuma de irregularidade. O Corinthians tinha 10% dos direitos federativos do jogador e podia vende-lo quando e por quanto bem entendesse. Além do mais, não sabemos ainda a versão oficial da Diretoria para essa negociação –uma das perguntas enviadas ao vice Financeiro, Raul Côrrea da Silva. Talvez a crise e as dívidas tenham motivado a venda dos direitos de Jô antes de o negócio com o Manchester City de fato vingar.
Mas o problema para mim ainda é mais embaixo. Se foi prometido transparência, é isso que eu quero e vou cobrar. Por que eu posso saber que os direitos do Dentinho foram vendidos e ignoro completamente a negociação envolvendo a venda do Jô?
Se me foi prometido que a Diretoria vai pensar no melhor para o clube, vou cobrar isso também. Por que o Corinthians continua se envolvendo nesses negócios que nos afundam em prejuízo? Ou nos fazem faturar muitos menos do que normalmente ganharíamos?
E mais importante de tudo: se me foi prometido honestidade, eu faço questão absoluta disso. Não apenas dentro do Corinthians, mas também me refiro àqueles com quem o clube negocia. Pode ser que tudo tenha sido feito dentro da lei e da normalidade. A negociação de Jô, a produção das camisetas “Eu nunca vou te abandonar” e até a Salamandra. Mas enquanto a Diretoria do Corinthians não abandonar esse sistema familiar de fazer negócios, ela não conseguirá conquistar a confiança de quem mais importa: SEU TORCEDOR FIEL.
Atualização: CORINTHIANS DIVULGA NOTA OFICIAL
“A diretoria do Sport Club Corinthians Paulista esclarece, a respeito da venda de 10% dos direitos econômicos do atacante Jô, que, devido às dívidas herdadas da gestão passada, é pública e notória a grave crise financeira pela qual o clube atravessa. Por esse motivo, foi decidido no último dia 23 de maio pela negociação do porcentual ainda pertencente ao Corinthians.
Na ocasião, os 10% foram negociados com o empresário Giuliano Bertolucci, agente FIFA que pagou em valor integral e à vista o que o clube pedia, ocasionando, assim, a entrada de recursos em curto prazo. O valor creditado aparece, inclusive, no balancete relativo a maio publicado no Corinthians.com.br.
Nesse período, o Corinthians não tinha nenhuma garantia de que o atacante Jô seria mesmo negociado do futebol russo para o futebol inglês. Mesmo porque o Manchester City só conseguiu cumprir todas as garantias para a regularização do atleta na Inglaterra apenas no último dia de prazo imposto pela Federação Inglesa. Por isso, o clube não tinha como alternativa aguardar que a negociação fosse mesmo efetivada, já que os riscos desta não ocorrer eram grandes.
Do mesmo modo, a diretoria corinthiana explica que, mesmo com a venda do atleta, nem sempre o clube é beneficiado com o recebimento imediado dos recursos financeiros. Na negociação do meia Carlos Alberto com o Werder Bremen, por exemplo, o Corinthians acabou não conseguindo se valer dos recursos que lhe eram de direito, o que segue pendente de definição junto ao Poder Judiciário.”