Até quando vamos queimar nossas promessas?

Daniel Lansky é atleticano sempre e jornalista nas horas vagas. Herdou do pai a paixão pelo Galo e, mesmo em Brasília, continua torcendo contra o vento.
Hoje quero aproveitar um pedido de parte da Massa para tratar de um tema importante e que insiste em ser repetido no Galo nos últimos anos: o lançamento de jovens revelações no time principal. Perdi a conta de quantas vezes, no time do Galo, vi juniores sendo exaltados nos campeonatos de divisão de base e saindo pela porta dos fundos depois de serem colocados em fogueiras por treinadores inexperientes e queimados por não corresponderem imediatamente aos anseios da torcida.
Toco neste ponto devido à insistência de alguns para que Renan Ribeiro assuma a meta atleticana no lugar de Carini e Aranha. Primeiro, vamos ser realistas na avaliação do que temos hoje. O Aranha veio para o Galo para tapar um buraco, às pressas, deixado por Edson e Juninho. Seria dispensado com a contratação do goleiro Renê, que acabou melando por conta do pré-contrato assinado com a Portuguesa-SP. Mais uma vez, ficou para tapar buraco. Carini veio com status de goleiro da seleção uruguaia, começou bem, joga realmente adiantado, mas é bom embaixo das traves, bom na saída de bola, e bom como poucos com os pés nas saídas mais arrojadas. Está realmente em uma má fase, começou o ano mal, mas pode render muito mais do que rendeu até agora. Para mim é o titular.
A impressão que tenho é de que a torcida espera um novo Diego Alves e pune todos que assumem a camisa 1 por isso. Tirem o cavalinho da chuva. Não é nem em todo time, nem em todo lugar, que aparece um Diego Alves na hora que a torcida quer. Com os boatos de Lauro no Galo, vi vários comentários de que era preferível ficar com o Carini, que Lauro não presta para o Galo. Quem presta para a meta alvinegra? Renan Ribeiro? Por quê?
Vi argumentos de que o menino foi muito bem nas categorias de base e na seleção. Desconstruir este argumento não é difícil. Tanto Tchô, como Renan Oliveira, foram jogadores de muito destaque na seleção de base. Não corresponderam no profissional. Por quê?
Vou mais longe: Campeonato Brasileiro de 1997. No dia 12 de novembro, o Galo foi ao Maracanã pegar o Botafogo. Fora escalado para aquele jogo o jovem goleiro Adilson. Um menino de 21 anos, lançado para enfrentar Túlio e Donizetti, o melhor ataque do Brasileirão. O menino não resistiu à pressão. Adilson foi queimado e escorraçado pela torcida do Galo mesmo tendo feito ótimos campeonatos de juniores. Depois do Galo, o goleiro conseguiu jogar apenas no Palmeiras do Mato Grosso, no Sertãozinho de São Paulo e no Ceará. O maior erro não foi de Adilson; foi de quem o lançou na hora errada.
Com o Tchô, foi assim. Promessa, Seleção Brasileira, torcida depositando nele toda sua confiança. Pegou times horrorosos, teve que assumir, novo ainda, a responsabilidade de carregar o Galo nas costas. Não deu conta. Sofreu um desgaste enorme. Se não tivesse se desgastado tanto, teria tido mais chance de brilhar em um elenco decente. Saiu pela porta dos fundos.
A paixão do torcedor não o deixa pensar no que queimar um jogador representa para a instituição. Tchô, por exemplo, chegou jovem ao Galo, gerou investimento, expectativa. Não deu retorno algum para o clube. Cada jogador queimado é um prejuízo enorme para a instituição. Há muitos anos, o Galo tem sido rotulado como um fracasso na formação de novos atletas. Discordo desse rótulo. Não ter uma boa equipe principal impossibilita a revelação de novos talentos. Sejamos realistas: depois de 2001, o ano de 2010 é o primeiro em que podemos dizer que temos um time decente.
Alem disso, a torcida tem sido preconceituosa em relação à prata da casa. Durante anos de mediocridade, vimos vários meninos carregando piano, no sacrifício de jogar em times medíocres montados por dirigentes incompetentes e o estigma de “o Galo tem uma base ridícula” sempre esteve presente.
No time que a torcida aplaudiu em 27/11/2005, dia do rebaixamento para a Série B, estavam Tchô, Quirino, Renato, Lima e Rafael Miranda. Todos das divisões de base, colocados para resolver uma situação perdida que, nem de longe, tinha qualquer um deles como responsável. Todos eles saíram pela porta dos fundos.
Chegamos, então, à situação do jovem Renan Ribeiro. Mais uma vez, insatisfeita com nossos goleiros, a Massa pede um jovem para resolver. Renan, que dia 23 de março completa 20 anos, foi recentemente promovido ao time profissional. Jovem promissor, com destaque na Seleção Brasileira de base (repito: a mesma que Tchô e Renan Oliveira foram destaques), começou a ser apontado como solução para a meta atleticana após as falhas do titular Carini e do reserva Aranha.
Em relação a sua escalação, eu faço apenas uma pergunta: caso o Luxa opte pelo Renan para o Gol do Galo, e o menino comece nervoso e precise de um tempo de adaptação como profissional, tome frangos, seja inseguro no começo, vocês realmente acreditam que a torcida vai ter a paciência necessária? Ou acham que vão logo queimar o garoto? Vamos queimar mais uma promessa?
Espanta-me a falta de paciência da Massa atleticana que insiste em queimar um goleiro que se destacou na Seleção Uruguaia, foi titular da Inter de Milão e do Cagliari (onde foi considerado um dos melhores goleiros que atuavam na Itália), por falhas em jogos do campeonato mineiro, em começo de temporada. Um jogador caro, trazido após meses de negociação do Kalil, será colocado no banco com o risco de se queimar um diamante em lapidação chamado Renan Ribeiro?
Deve-se ponderar a grande diferença entre o que é ser um jogador de base e um jogador profissional. Apenas saberemos se Renan Ribeiro é um grande goleiro quando ele jogar como profissional e der conta de se sobressair contra os principais jogadores do futebol brasileiro, como Alecssandro, Adriano, Robinho, Kléber, Borges, Dagoberto, Washington e Diego Souza, por exemplo. Alguém se arrisca a dizer que Renan Ribeiro está pronto para o desafio? Eu não. Ainda mais com um goleiro com o status do Carini no elenco. Esta é a hora do Carini mostrar a que veio, não de sacrificar uma de nossas maiores promessas.
Pitaco do Baú: Queria falar sobre a “Federação” Mineira de Futebol. Mas não vou. O Kalil já disse tudo.
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