
Luiz Fernando Ávila é jornalista. E Atleticano. Escreve às terças-feiras.
Caro amigo que-não-sei-quem-é,
Sei que o senhor está pra assumir a Presidência do Galo. Não tem nome ainda. Não sei quem são os seus filhos, sua cor, sua altura. Não conheço sua mulher, mesmo porque não sei sequer se você tem esposa. Se mora em apartamento ou em casa. No centro ou num condomínio afastado. Quero lhe dizer que seja bem-vindo. Que os dias já passados lhe sirvam para o que vem à frente, no futuro. Que os aprendizados sejam sementes. E que os frutos nos sejam agradáveis e doces. Espero ainda que sua saúde esteja em boas condições, que você tenha um carro do ano, importado, de preferência. Quero que tenha casa própria, os dentes em perfeito estado, o guarda-roupa desinfetado, os sapatos engraxados e com brilho. Postos os meus desejos e minhas expectativas, vamos ao que interessa.
Outro dia fui à festa de um amigo, em Ipanema. O cara fazia 40 e poucos anos. Preparou a sala do apartamento. Tirou os móveis. Chamou um DJ. O som era da pesada. Rolling Stones, Gênesis, Pink Floyd, Beatles. Tinha até Alice Cooper com sua voz maldita e esganiçada. Num canto da sala, fiquei imaginando como foram os anos 60 no Rio, os anos 70, os 80. Os amigos presentes eram quase todos grisalhos, usavam calças jeans, camiseta sem marca. Uns dançavam na pista improvisada, outros abraçavam as mulheres, outros batiam um papo com o DJ. Quase todos riam muito, como é de praxe nas festas. Fui pra um canto e passei a imaginar esses caras todos passeando pela praia de Copacabana na época da bossa nova, no período em que o Galeão era a principal porta de saída do país. Eu não os conhecia. Nem sabia que existiam. Fiquei imaginando alguns deles na Rua do Ouvidor discutindo política e ditadura, carnaval e futebol. Flamengo de Adílio, Fluminense de Assis e Washington, Vasco, Botafogo. O mundo e o Brasil fervilhavam. Nessa época, eu estava em Minas, torcia, desenvolvia paixão louca pelo Galo e nem pensava em ter um bebê.
A chegada do novo século, abraçado aos anos 90, nos tem sido dolorosa. Desde a final de 99 não existimos mais. Os cariocas, no século passado, cruzavam o túnel Rebouças, andavam da Lagoa Rodrigo de Freitas até a Tijuca, e desembocavam na Candelária sem medo. E eles tinham o poderoso Flamengo, de Zico. Em BH, eu ouvia Milton Nascimento, Lô Borges e Caetano Veloso em lojas de discos de vinil. Cultuava Mazurka, Reinaldo e Éder Aleixo. Pegava o ônibus no Prado e ia até a cidade comprar tênis Bamba na Rua dos Caetés. Antes, passava na Mesbla pra ver as novidades eletrônicas. Certa vez, vi um sujeito ameaçando se jogar do alto do Acaiaca, prédio que na década de 60, serviu de abrigo para muitos que odiavam João Goulart e que ali mesmo, numa sala enorme de reuniões, chegaram a tramar a morte do presidente, a ser consumada com um tiro certeiro durante um comício na Praça da Estação. Naquela tarde do suicida, o porteiro, que já vira de tudo, estava sentado em um banquinho à porta, alheio ao mundo, pensando na sua vida desgraçada. Mas, em volta, uma multidão se formava.
O suicida olhava a turba lá embaixo e fazia malabarismos com seu corpo frágil. Também parei e estiquei o pescoço pra ver cena tão desesperada. Os bombeiros chegaram, conversaram, montaram a famosa escada Magirus que, no entanto, era curta, não tinha altura suficiente pra buscar o sujeito. Ele estacionou no parapeito e ali ficou, de pé, por alguns minutos. Braços abertos, estático, qual Jesus Cristo. A multidão, em silêncio, começava a se impacientar. “Pula logo”, ouvi, ao meu lado, um garoto gritar. “Não enseba”. O menino traduzia nossos mais primitivos desejos. Queríamos que o sujeito pulasse, que desse fim àquele teatro, que nos proporcionasse sensações não vividas. Pois assim somos nós, cruéis e secos na divindade profana. De repente, o homem sentou-se no parapeito. A multidão fez um sonoro “uh”. E, do nada, como se comandada por um maestro divino, soltou o grito de guerra que era ouvido com temor pelos mais aguerridos adversários: “Galo”. A multidão gritou Galo por vários minutos. Gritou tanto que o suicida desistiu. Que o porteiro se alegrou e dançou. Que os bombeiros deixaram o palco antes de a festa terminar. Àquela época, nem mesmo um suicida e sua história dramática eram páreo para o meu Galo. Nós vencíamos a todos. Mesmo que perdêssemos. Nunca soube o nome nem o destino do suicida. Mas ele ficou na minha memória. Apenas um vulto, mas forte o suficiente pra fazer-se colado à minha vida.
Portanto, senhor que-não-sei-quem-é, assim que você assumir a Presidência do meu Galo, não se esqueça que estará assumindo a presidência de uma nação. Que move mundos e desaloja suicidas. Que pulsa. Não espero Zico nem Reinaldo, porque mágicos e estrelas são únicos. Mas não me traga Mexerica. Nem nos iluda com ex-jogadores ou promessas de alegria. Não me venha com Procópio ou Vantuir. Assista aos jogos do Brasileirão e saiba do que estamos falando. Pegue o replay de Galo e Figueira e reflita se aquilo é um time de futebol digno do nome e da nação. Não me diga que há dívidas, que a situação é insustentável, que os salários vão atrasar. Pra dizer isso, é melhor nem vir pro nosso canto. Se não houver dinheiro, não pinte as paredes do CT. Não faça festas comemorativas, não gaste o que não tem com diretores disso e daquilo. Não forme grupos, nem dê ouvido a conselheiros. Nem deixe crescer o bigode. De preferência, não tenha banco nem ligações perigosas. Não venha à TV ou ao jornal falar de mazelas. Senhor que-não-sei-quem-é, o senhor terá à sua frente e em suas mãos um coração que bate forte. Não apenas um, mas milhões. E esses corações não querem saber de dívidas, de explicações. Eles só lhe pedem uma coisa: um time de futebol. Esqueça o resto. Ele não tem valor. Não tem brilho. Não importa à nação, o jogo político, a briga, o consenso. Não importa a camisa nova e bonita, de marca Lotto, Umbro, Nike. Não importam as invenções do pessoal do marketing. Não importa o Galo paramentado e horroroso à beira do gramado. O que importa são jogadores. O que importa é a raça. A garra e o grito.
Enquanto passeio pelas ruas do Jardim Botânico, gostaria de cumprimentá-lo por ter à sua disposição um exército de guerreiros famintos… Tenha consciência de que todos serão seus irmãos. Que todos o querem bem. A você a sua família. Queremos honrá-lo com nossa presença nos estádios. Queremos comprar o pay-per-view pra ajudá-lo nas despesas. Estamos dispostos a tudo. Conte conosco até nas horas suicidas. Nos faça pulsar de novo, nos dê razões para isso. Nos dê um time de futebol. Saudações alvinegras.