O Manto Sagrado Na Pista
A notícia do divórcio já era esperada há algum tempo, mas dado o tamanho dos cônjuges, o maior clube e a maior empresa do país, o impacto do acontecimento ainda será sentido durante muito tempo. Depois de 25 anos de parceria, talvez num dos mais longevos contratos na história dos patrocínios esportivos em todo o mundo, Flamengo e Petrobrás vão abrir. Demorou.
Ninguém discute que 25 anos é muito tempo pra qualquer relação. E essa do Mengão e da petroleira em particular já estava se esgarçando há muito tempo. Não houve mesmo clima pra comemorar bodas de prata. E vamos logo cortando a palhaçadinha e falando francamente: a Petrobrás pediu pra sair. Mas não se lamentem, rubro-negros, ela nunca pagou um preço justo pela brutal exposição que obtinha ao se associar ao Manto Sagrado, que como todos sabem é o mais categorizado e valioso espaço publicitário do país. Isto é um fato. Reitero: - demorô!
Me permitam abandonar a fanfarronice habitual e alinhar alguns poucos argumentos que corroborem minha irredutível opinião: - para o Flamengo, o fim desse patrocínio é uma notícia tão boa quanto o telefonema de Celso Garcia pra Modesto Bria avisando que ia levar um menino chamado Artur pra treinar na Gávea.
O Flamengo finalmente terá a oportunidade de buscar justa remuneração pela cessão de sua valiosíssima imagem e de sua extraordinária e incomparável capacidade de gerar mídia e exposição para as marcas a ele associadas. A Petrobrás pagava apenas 20 milhões de reais por ano para ter suas marcas estampadas no Manto Sagrado em todas as modalidades esportivas. Uma quantia muito próxima a de alguns outros clubes que disputam a Primeira e a Segunda divisão do Brasileiro.
Ora, não é necessário sequer discutir imponderabilidades tais como prestígio nacional e internacional, beleza plástica ou tradição. O simples cotejo entre o número de torcedores do Flamengo e consumidores efetivos de produtos de qualquer outro clube nacional coloca o Flamengo em uma outra categoria muito superior em termos absolutos e relativos. Logo, um contrato que remunera ao Flamengo com quantias muito próximas às pagas aos co-irmãos é essencialmente injusto e leonino.
Para a Petrobrás, que lucra bilhões de dólares por ano e paga 15 salários por ano aos seus diretores 20 milhões é uma quantia ínfima, uma pechincha. Do ponto de vista moral é como se a cada mês a gigante petroleira capitalista e arrogante enquadrasse o modesto e assalariado Flamengo na subida do morro, lhe tomasse o que tem de mais valioso e o deixasse apenas com o da condução para que pudesse continuar trabalhando para ser assaltado no mês seguinte.
Já faz tempo que a Petrobrás não vem tratando o Flamengo com o devido respeito que merecemos. A repetida e abjeta retenção de nossas verbas em função de impedimentos burocráticos facilmente contornáveis quando há boa vontade das partes é imperdoável e indicativa de uma inexplicável predisposição ao dolo. Fala sério. Onde já se viu travar a grana de alguém porque esse alguém tem dívidas? Vou glosar o Nelsão:
Sou um admirador enternecido de todos os que devem, seja gente, seja clube. De resto, olhemos o território nacional, em toda a sua extensão. Difícil encontrar um brasileiro sem dívidas. Insisto: - um brasileiro sem dívidas é o que há mais de mais utópico, inexeqüível e, mesmo, indesejável. Que clube ou pessoa poderia atirar no Flamengo a primeira pedra? Ninguém. Nós vivemos e sobrevivemos à base das dívidas que contraímos, com uma espontaneidade tão amorável e tão brasileira.
E ao mesmo tempo em que nos fazia essa indesculpável cachorrada, a Petrobrás pagava religiosamente o patrocínio do Foguinho, mesmo com o antimpático clube do chororô sendo acusado de ter dois CNPJs e tendo até que vender o bilau do Manequinho pra consertar as cadeiras destruídas pelas tricoletes enfurecidas no Vazião. Qual a explicação para esse tratamento diferenciado?
A verdade é que o Flamengo tem sua parcela de culpa nesse processo. Depois que o contrato foi fechado em 1983, o que fizeram os homens de marketing do Flamengo? Se acomodaram e foram abrindo as pernas aos poucos, com reajustes pontuais e cessão de áreas maiores da camisa. O resultado mais visível foi a inclusão de cores estranhas ao clube no Manto.
Essa conspurcação, além de ser um sacrilégio, é prova de pusilanimidade e tibieza na hora de negociar com a impiedosa produtora de hidrocarbonetos. Com o fim do contrato o marketing do Flamengo terá a oportunidade de se redimir. Seja qual for o novo patrocinador, que ele seja informado de antemão que verde, amarelo e azul não devem jamais voltar a macular nosso Manto, salvo na forma de escudetos.
É também uma ótima oportunidade para que os patrocínios de cada esporte sejam negociados separadamente, potencializando os ganhos para o clube e seus parceiros. Em outras palavras, tá na hora do marketing do Flamengo aproveitar a oportunidade e boa fase do time para negociar um contrato condizente com o tamanho do Mengão e da sua torcida. De preferência com alguma empresa que não esteja contibuindo de maneira tão decisiva para a destruição do planeta. É hora de mostrar serviço e sensibilidade.
Tenham uma certeza, o fim desse casamento marca o fim de uma era para o futebol nacional. Da mesma maneira que o contrato entre o Flamengo e a Petrobrás foi sempre o grande balizador para todos os outros clubes e seus patrocinadores, a partir do próximo contrato o Flamengo estabelecerá novos paradigmas. Porque esse é o destino do Mengão, ser o grande abre-caminhos do futebol nacional. O Flamengo está na pista. Vamos ver quem é que se garante pra chegar junto.
Mengão Sempre
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