Falando Em Ingressos…
Quem mora no Rio provavelmente já está ligado que rolará aumento no preço dos ingressos pro Campeonato Carioca. Por uma questão inescapável de princípios fundamentais da mão de porco somos todos contrários aos aumentos de preços de todos os produtos e serviços que consumimos. Entretanto, a questão dos preços dos ingressos para os jogos do Mengão convida, pelo menos na cabeça dos mais sensatos, a uma reflexão.
Na moral, a manutenção de preços irreais nos ingressos significa que o Flamengo vai continuar a cortar a própria carne em nome de um populismo econômico que não tem espaço numa economia de mercado. E esse mui discutível bom mocismo só tem um beneficiário: o desprezível submundo dos cambistas e de seus safadíssimos cúmplices ocultos cujo habitat natural são as diretorias dos clubes.
Enquanto torcedores fudidos do Maior do Mundo temos todo o direito de reclamar do aumento dos preços. Ainda mais porque em troca de nossos preciosos caraminguás nos jogos do Mengão não recebemos o mínimo em termos de acessibilidade, conforto, bom atendimento, segurança e respeito.
Por outro lado, mesmo não sendo sócios do Flamengo, todos nós devemos ter em mente que a renda das bilheterias é um componente decisivo na receita do clube. São as bilheterias o caminho mais direto para que o dinheirinho suado do torcedor chegue aos cofres do clube. Ainda que no caminho esse dinheiro seja mordido por uma farândola de vermes inúteis.
É muito grave a constatação de que o preço do ingresso no Rio é apenas o 9º mais caro do país. Analisemos esse dado com isenção. Por mais na lama que estivesse, e decididamente não está, o futebol carioca é o produto que gera o maior interesse comercial no futebol brasileiro. Esse ingresso depreciado e ainda mais solapado pela discutível lei da meia-entrada beneficia a poucos e prejudica demais aos clubes. E como sempre, devido ao seu tamanho e proeminência, é o Flamengo o maior prejudicado.
Encaremos a verdade, o ingresso barato no Maracanã é subsidiado com o sangue dos clubes, o que significa dizer que nós mesmos, os torcedores, estamos pagando para que o Flamengo empobreça a cada rodada. Por mais doloroso que seja ao nosso bolso é preciso que entendamos como homenzinhos que não existe time forte sem receita forte. Se o Flamengo continuar praticando preços de quermesse nunca sairemos do buraco e continuaremos a malversar a espetacular assiduidade da Magnética nas praças esportivas de todo o país.
Tem time por aí, com torcida desprezível, que obtém uma rentabilidade nas bilheterias muito superior à nossa, o que é, sob qualquer ótica, inadmissível. O remédio pra isso é um só: aumentem o preço dos ingressos. A torcida do Mengão abarrotou o Maraca nas 5 últimas partidas do Brasileiro. Sabe com quanto que o Flamengo ficou de toda a renda? Apenas 20% sobre o valor de cada ingresso. Um nada comparado à lucratividade obtida por qualquer cambista meia-boca.
Claro que vocês têm todo o direito de me achar um tremendo filho da puta por estar defendendo a majoração dos preços dos ingressos. Mas, por favor, respeitem o meu direito de ter minhas crenças e superstições. E uma delas é a que não existe almoço grátis (Milton Friedman) e outra é que a instituição Flamengo não pode se colocar contra a lei. O atual preço dos ingressos no Maracanã contraria a lei da oferta e da demanda e cria espaços para a atuação do cambista. O que acaba se configurando uma indesejável cumplicidade com mais um crime contra a economia popular.
Gostei de saber da presidenta (me desculpem os gatos-mestre, mas se a palavra está dicionarizada é pra ser usada) Patrícia Amorim que ela tem planos não apenas para aumentar o preço dos ingressos, mas também em melhorar as condições para que o torcedor os adquira. Seja através de um carnê de ingressos, ou do Programa Cidadão Rubro-Negro (eu tenho o passaporte deles, mas não usei no Brasileiro) ou mesmo implantando um programa de sócio-torcedor (que não é a panacéia universal como certos uns e outros apregoam). O importante é que, finalmente, a presidência do Flamengo percebeu que algo precisa ser feito.
É uma pena que muitos rubro-negros da melhor qualidade tenham que deixar de ir a todos os jogos. Mas é o preço que se paga pela profissionalização e pela elitização do espetáculo futebol. Na Inglaterra, onde com o preço de um carnê para toda a temporada de alguns times da Premier League se pode comprar um apartamento no Brasil, aconteceu a mesma coisa. E assim o futebol, que durante anos foi o entretenimento por excelência da working class, se transformou num evento para famílias endinheiradas do topo da pirâmide sócio econômica.
Tá na hora de parar com a hipocrisia. Não dá pra ficar batendo no peito e dizendo que não quer nada do Flamengo enquanto se locupleta na farra das meias-entradas e do ingresso subsidiado. Vamos ter vergonha na cara. Não podemos pedir pro Flamengo nos dar a única coisa que ele tem pra vender.
Ninguém precisa concordar com isso, mas é assim que a banda toca atualmente. Para a presidenta do Flamengo é burrice e antiflamenguismo tentar lutar contra essa tendência. Muito bem faz a Patrícia em dizer logo na nossa cara que o Flamengo vai se adequar as regras do mercado. Vai doer nos nossos bolsos. Mas algo me diz que sobreviveremos à essa provação. Ou não seríamos o Flamengo.
Mengão Sempre
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