A Letra do AFA - VII
A ressurreição do “El Gringo”?
Não foi Zico. Não era ele o dono da 10 quando ganhei meu primeiro Manto. Quem suava aquela sagrada camisa 10 era um argentino. Um tal de Doval.
Não me peçam testemunhos. Com pouco mais de três anos de idade, era pequeno demais para guardar alguma coisa daquela época. Ainda assim, posso afirmar que a lembrança do nome de Doval veio em instantes, assim que vi a imagem de nosso reforço, Rubens Sambueza, vestindo a camisa rubro-negra pela primeira vez (foto de Eduardo Peixoto/GE.com, na parte de baixo da montagem).
Doval já se foi, mas deixou um legado memorável. Em sua segunda passagem pela Gávea, entre os anos de 1972 e 1975, devolveu a milhões a melhor catarse que existe: o grito de campeão!. Com a valorosa ajuda do “El Gringo”, o Flamengo voltou à rotina de conquistas, papando o Torneio do Povo e o campeonato estadual de 1972, título ausente da sala de troféus desde 1965!
Abro as aspas para meu padrinho Carlos, que viu Doval em ação: “Um dos grandes da história do Flamengo. Sabia jogar e era artilheiro. Bom vivant, vivia na noite, mas em campo jogava com raça e vibração. Parecia ter nascido em berço rubro-negro”, relata. Para quem tem dúvidas, a foto preto e branca (ao lado) é uma prova bem consistente. E o vídeo do Canal 100 mostra o talento do argentino como finalizador.
Talvez seja esquisitice minha, mas tive um presságio ao ver Sambueza. O presságio de que essa mística pode ser revivida. Certo, certo, a maioria vai dizer que é uma aposta, que preferia o Gracian ou o Dátolo. Os mais céticos vão enumerar estatísticas, citar que esse “Frambuesa” não é lá essas coisas, que não marcou muitos gols para quem surgiu em 2003 ou que era banco no River Plate. É verdade.
Vocês até podem rir do que vou escrever, mas, apesar de não ter muitos insights - exceto quando apostei no inédito hat trick de Jean na final de 2004, contra o Vasco -, está batendo aqui uma forte intuição, a de que esse argentino de 1,74m vai vingar.
Primeiro: Sambueza tem predicados técnicos que o qualificaram como “imprescindible” por Diego Simeone, técnico do River Plate . Segundo: mostrou firmeza ao falar Adiós muchachos, Mis Queridos Compañeros, contra a vontade de Simeone, tudo em nome de uma chance no Mengão. Terceiro: aos 24 anos, com esposa e filhos, o atleta vive um momento crucial. Ou acerta agora ou mergulha a carreira numa milonga argentina. Quarto: disse que não tem medo de pressão - algo fundamental para quem joga no Mais Querido do Brasil. Quinto: chega pronto para jogar e, se tudo der certo, estréia já contra o Grêmio. Por último, mas não menos importante: ele traz a alma argentina.
Com o “toco y me voy”, característico da escola de meias do mesmo país que revelou a fantástica Keyra Agustina , Sambueza tem tudo para dar certo no Flamengo. Com a 10, a mesma usada por Doval, Zico e Petkovic (outro estrangeiro de sucesso na Gávea), aposto sem medo que o argentino veio para fazer história.
*
Arthurzão havia pedido um texto sobre o próximo jogo. Preferi passar. O retrospecto do Mengão em Santos parece um passe ruim do Jailton. A última vez que o Flamengo triunfou na Rua Bariri da Baixada Santista foi há mais de 30 anos, em 1976, quando Luxemburgo ainda jogava (pouca) bola.
Mas tabus não duram a vida inteira e a prova disso é o ouro olímpico de Cesar Cielo, o primeiro do Brasil na natação.
Para quebrar a escrita, caros, vamos torcer por uma atuação inspirada de Ibson e Léo Moura. Se eles voltarem a jogar 80% do que podem, o time vai melhorar muito. Com a volta de Juan e de nossa dupla de zaga titular, e , quem sabe, com a possível estréia de Marcelinho Paraíba, há ótimos razões para deixar o pessimismo de lado.
Domingo, acredite, é dia de deixar o churrasquinho de lado, aquecer a frigideira e fritar um peixe, ótimo acompanhamento para aquela gelada que estranhamente proibiram nos estádios. Como é meu costume, vou formar.
Até sexta e nos vemos no G4.
E-mails para Antonio F. de Almeida: antonio.f.de.almeida@gmail.com
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