
Lamentavelmente sou obrigado a interromper as minhas atividades culturais e de lazer na bela Córdoba, que desfruto na agradabilíssima companhia das senhoritas Camila e Emilia, para meter a colher mais uma vez num assunto que antigamente a boa educação dizia ser de caráter privado entre o senhor Jorge Luiz Andrade da Silva e o Clube de Regatas do Flamengo. Ainda que a ditadura midiática, a tara pela transparência e a vontade de aparecer de certos fanfas tenha imposto esse costume cretino de discutir publicamente os salários das estrelas dos esportes, me parece que tal prática, sobretudo durante os períodos críticos de contratação e renovação, só traz prejuízos às partes. Mas já que é assim que a banda toca não adianta ficar enfrentando moinhos de vento. A piscina pode esperar.
Fiquei deveras surpreendido com a expressiva parte dos comentaristas do Urublog, e até alguns da grande, média e micro mídia, que consideram mais do que justo um salário de 120 mil reais pro Andrade. Mesmo sabedores de que esse salário está muito abaixo da média paga aos treinadores da Série A essa parte da Nação considera que, me permitam uma interpretação, pro Andrade, que ganhava 10 paus até outro dia, 120 mil ta muito bom. Maldita seja a acusação em falso, mas farejei um leve odor de condescendência em muitos desses comentários. Porque quando pagam 250 paus pro Cuca ninguém fala nada, mas pro Andrade é muito.
Muitos do que até semana passada exaltavam Andrade como o grande responsável pelo Hexa, exemplo de vencedor, experiente, matreiro, humilde e fala mansa agora lembram que Andrade ainda é uma aposta. E inexperiente, com falta de vivência em outros clubes como treinador efetivo e já colocando banca de popstar. De uma hora pra outra a manutenção de Andrade no comando do time se tornou um item de somenos importância diante de uma propalada “nova mentalidade administrativa” que varrerá o Flamengo. Não se gastará mais do que se arrecada, as dívidas serão saldadas e nos livrarão de todo o mal. A raiz dessa argumentação me parece de uma brutal, de uma assombrosa incoerência.
Porque mesmo sabendo que certos treinadores, vou citar aleatoriamente o Cuca, Celso Roth e Carpegiani, com muito menos conquistas, menos currículo e menos relevância no futebol mundial, recebem quantias muito superiores aos 120 mil concedidos ao Andrade, esses defensores do teto salarial para o Tromba querem que o Flamengo contrarie o Mercado. Logo quem que eles querem que o Flamengo enfrente. O fato desses caras que não ganham campeonato de primeira linha nem dopando jogador terem altíssimos salários, até mesmo quando treinaram no Flamengo, é considerado apenas um erro que o Flamengo não deve mais cometer. Tenha a santa paciência.
Parece que não entenderam que não é o Flamengo que paga esses altos salários pra essas vacas-premiadas de discutível eficiência. Quem determina os preços e sua flutuação é o Mercado. Técnicos dos times da Serie A, ainda mais os que já venceram o Campeonato, tem uma patamar salarial, que ao contrario do que estão pregando, não é um teto, mas sim, um piso salarial. Se o Flamengo persistir no jogo duro e perder o Andrade a torcida exigirá um técnico de primeira linha. E depois de muita onda vai acabar pagando 350 mil pra um sei lá quem-deus me livre da vida.
O equivalente tático a essa baboseira seria o Andrade declarar que na Libertadores 2010 jogará com apenas um cabeça-de-área, porque o jogo fica mais bonito, se cometem menos faltas e essa postura galante coaduna com a nova filosofia que ele quer implantar. Se cometer tal desatino vai levar 3 piabas na fase de grupos e será obrigado a vazar em desonra.
Não adianta ficar de conversinha bonita dizendo que o Flamengo precisa se adequar a sua realidade. Ora, a realidade é que o Flamengo é o time de futebol que mais fatura no país. Não deixem que o monstruoso passivo construído nos últimos anos obstrua uma visão acurada sobre a parte do Flamengo sobre a qual estamos falando. O Departamento de Futebol Profissional do Flamengo é superavitário, é o trem pagador do país e a grandiosidade de seus números é incontestável. Quem desconhece esse fato se desqualifica para uma discussão em alto nível. Somos um time grande e pagamos bem porque sempre precisamos contratar os melhores do Mercado. Nem sempre podemos, mas agora estamos podendo. E muito.
O Futebol Profissional do Flamengo não precisa, não deve e não pode ser influenciado pela penúria de outros setores menos afortunados do clube. Porque é o Futebol Profissional do Flamengo que vai pra pista e põe comida em casa, é quem paga as contas e mantém as piscinas, os barcos e os colchões onde os ginastas dão seus saltos. O Flamengo só tem o Futebol Profissional pra buscar dinheiro no mercado e, graças aos torcedores do futebol, felizmente tem conseguido.
Por isso não há qualquer sentido em enfraquecer artificialmente o produto mais forte do clube e contrariar o Mercado em nome de uma adequação à realidade. Chega de hipocrisia, se o Flamengo se adequar fielmente à realidade econômica terá que fazer como qualquer instituição bancária faria ao constatar o tamanho do rombo. Fechar as portas amanhã e mandar a conta pra viúva.
Se Patrícia Amorim deseja fazer do Flamengo um exemplo de administração, e tenho certeza de que ela o deseja, é evidente que ela não vai brigar com forças muito superiores aos seus poderes. Tenho certeza absoluta de que Patrícia Amorim não vai brigar contra o terrível monstro Mercado e a Mão Invísivel do Pai Adam Smith de Angola. As suas batalhas e seus inimigos serão outros. E ela saberá fazer do monstro o seu principal aliado para acabar com o que está errado, consertar o que não está funcionando e melhorar ainda mais o que já está funcionando bem. Como por exemplo, o Departamento de Futebol Profissional.
Por isso aposto que o Flamengo vai pagar o que Andrade pede e merece. Considero fundamental a renovação com Andrade, não apenas pelos fatores técnico-esportivos que já são um ponto pacífico e não precisam ser abordados, mas principalmente pelo poderoso simbolismo que tal ação administrativa encerra. A renovação de Andrade comunica com clareza e eloqüência que a diretoria que toma posse está compromisssada com a manutenção do time hexacampeão, com a continuidade no comando técnico e a valorização da prata casa. E que possui total consciência do real tamanho do Flamengo. O que mais uma presidenta recém eleita, historicamente comprometida com as vitórias, cheia de gás e popularidade, poderia desejar para marcar sua posse?
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Mengão Sempre